Escolha a Catástrofe
Terremotos
Platão (427-347 a.C.) não tentou ser muito historiógrafo nesse sentido, pois usava a lenda com o fim de moralizar. Aparentemente, ele não acreditava que a grande cidade descrita pelos egípcios realmente existira no mar Egeu, onde, em sua época, havia apenas ilhotas de pequena monta.
Localizou-a, pois, no oeste distante, no oceano Atlântico, e chamou a cidade destruída de Atlântida. O resultado foi que, desde então, formou-se uma crença generalizada de que o oceano Atlântico abrigava o continente afogado. O descobrimento do planalto do telégrafo pareceu vir a confirmar isso, mas é claro que tudo caiu por terra com o descobrimento da cordilheira centro-oceânica.
Entrementes, a hipótese de Seuss das pontes de terra oceânicas e da elevação e depressão de vastas áreas de terra estimulou ainda mais os devotos do “continente perdido”. Não só a Atlântida tinha existido, imaginava-se, como também Lemúria e Mu, continentes similarmente submersos nos oceanos Pacífico e Indico. É óbvio que Seuss estava errado; de qualquer modo, ele falava de eventos de centenas de milhões de anos atrás, ao passo que os entusiastas acreditavam que o fundo do mar balançava há dezenas de milhares de anos.
A tectônica pôs fim a tudo isso. Não há continentes afogados em nenhum oceano — mas podemos ter certeza de que os devotos do continente perdido continuarão a acreditar nessa bobagem, de qualquer maneira.
Até bem recentemente, cientistas (inclusive eu) suspeitavam ser possível que o relato de Platão fosse inteiramente imaginário, criado somente com o intuito de fazer moralizações. Estávamos errados. Algumas das descrições platônicas da Atlântida foram confirmadas pelas escavações de Thira, de modo que a lenda deve ter-se baseado na legítima destruição de uma cidade por uma catástrofe súbita — mas só uma cidade numa pequena ilha, não um continente.
Contudo, por piores que sejam os vulcões, há outro efeito das placas tectônicas que pode ser ainda mais desastroso.
TERREMOTOS
Quando as placas tectônicas se separam ou se unem, não o fazem necessariamente de modo suave. Na verdade, há uma tendência a uma certa resistência em função do atrito.
Imaginemos que duas placas são mantidas firmemente juntas por enormes pressões. A linha de união é irregular, com quilômetros de profundidade, e as orlas das placas se compõem de rochas espessas. O movimento das placas tende a pressionar uma para o norte, digamos assim, enquanto a outra é estacionaria ou empurrada para o sul. Uma das placas pode deslizar enquanto a outra permanece estacionaria ou afunda.
O tremendo atrito das margens das placas impede que elas se movam, pelo menos temporariamente; a força que tende a movê-las, porém, aumenta com a lenta circulação no manto, o que faz com que se separem em alguns pontos. O jorro de rocha derretida e a expansão do fundo do mar exercem constante empuxo de uma placa de encontro a outra em diferentes lugares.
Pode levar anos, porém mais cedo ou mais tarde o atrito é superado e as placas movem-se opressivamente umas sobre as outras, às vezes apenas alguns centímetros, outras por vários metros. A pressão é então aliviada e as placas se acomodam durante outro período incerto de tempo, até o próximo movimento digno de nota.
Quando realmente ocorre uma movimentação das placas, a Terra vibra e temos um “terremoto”. No curso de um século, duas placas se movem uma contra a outra diversas vezes, um pouquinho por vez, e os tremores não são muito fortes. Ou as placas podem estar tão firmemente unidas que durante um século nada acontece; de repente, elas cedem e se movem o equivalente a todo um século, provocando um tremor gigantesco. Como sempre, a extensão dos danos depende do grau de mudança em relação ao tempo que levou para ocorrer. A mesma liberação de energia efetuada ao longo de um século pode não provocar qualquer problema, enquanto, se efetuada em curto intervalo de tempo, pode ser cataclísmica.
Dado que os terremotos, como os vulcões, se dão ao longo de falhas — o ponto de junção de duas placas —, as mesmas regiões onde freqüentemente se localizam os vulcões são igualmente passíveis de experimentar terremotos. Dentre ambos os fenômenos, todavia, os mais letais são os últimos. Erupções de lavas ocorrem em lugares bem definidos — nos imensos e facilmente reconhecíveis vulcões. Geralmente o desastre se confina numa pequena área, e só raramente os tsunamis e as espessas camadas de cinzas estão presentes. Os terremotos, por outro lado, podem centrar-se em qualquer ponto ao longo da linha de uma falha, que pode ter centenas de quilômetros de extensão.
Os vulcões, em geral, avisam quando vão começar a agir. Mesmo quando um vulcão explode seu topo de súbito, houve estrondos preliminares ou emissões de fumaça e cinzas. No caso do Krakatoa, por exemplo, apareceram sinais de atividade três meses antes da repentina explosão. Por sua vez, os terremotos geralmente ocorrem apenas com sutilíssimos avisos.
Enquanto as erupções vulcânicas são quase sempre localizadas e quase sempre se espalham em tempo suficiente para que se possa escapar, um terremoto em geral dura cinco minutos, e nesses cinco minutos pode afetar uma área extensíssima. Os tremores de terra em si não são perigosos (embora possam ser terrivelmente assustadores), mas tendem a derrubar casas, de modo que as pessoas morrem entre as ruínas. Nos tempos modernos, eles podem romper represas e causar inundações, provocar curtos-circuitos e, com eles, incêndios; em suma, arrasar propriedades.
O mais famoso terremoto da história ocidental moderna ocorreu a 1° de novembro de 1755. Seu centro: a pouca distância da costa de Portugal.
Esse foi, com certeza, um dos três ou quatro tremores mais portentosos já presenciados. Lisboa, a capital portuguesa, foi atingida pelo ímpeto total do tremor; todas as casas da parte baixa da cidade ruíram. Aí um tsunami originado na porção submarina do tremor tomou conta da baía, completando a destruição. Sessenta mil pessoas morreram e a cidade foi achatada como se atingida por uma bomba de hidrogênio.
O choque se fez sentir sobre uma área de 3,5 milhões de quilômetros quadrados, causando sensíveis danos no Marrocos, bem como em Portugal.
Como era dia de Todos os Santos, as, igrejas estavam cheias e, em toda a Europa meridional, quem estava nas catedrais viu os lustres dançarem e balançarem.
O terremoto mais famoso da história americana aconteceu em San Francisco. Esta cidade se situa na linha divisória das placas pacífica e norte-americana. Essa linha percorre todo o oeste da Califórnia e é chamada de “falha de Santo André”. Em toda a extensão da falha e de suas ramificações freqüentemente sentem-se tremores, geralmente fracos, mas às vezes áreas da falha prendem-se no lugar e, quando forçadas a soltar-se após várias décadas, os resultados são devastadores.
Às cinco horas e treze minutos da manhã de 18 de abril de 1906, a falha cedeu em San Francisco e todos os edifícios ruíram. Iniciou-se um incêndio que durou três dias, até que um aguaceiro o apagou. Quase 2 quilômetros quadrados do centro da cidade foram por terra. Cerca de setecentas pessoas morreram e 250 000 ficaram desabrigadas. Estima-se que os prejuízos materiais somaram meio bilhão de dólares.
Como conseqüência do estudo desse terremoto feito pelo geólogo americano Harry Fielding Reid (1859-1944), descobriu-se ter havido um deslizamento na falha. O solo se movera cerca de 6 metros entre as duas extremidades da falha de Santo André. Isso favoreceu a moderna compreensão dos terremotos, embora só meio século mais tarde, com o desenvolvimento da tectônica, tenha sido desvendada a força propulsora de tal fenômeno.
A fama do terremoto de San Francisco não deve obscurecer o fato de que, na época, a cidade era pequena e as mortes, relativamente poucas. Já houve terremotos muito mais fortes em termos de número de vítimas no hemisfério ocidental.
Em 1970, na reserva de Yungay, no Peru, 320 quilômetros ao norte da capital, Lima, um terremoto soltou a água que se vinha acumulando por trás de um barranco. Resultou numa inundação que dizimou 70 000 vidas.
Maiores danos são causados do outro lado do Pacífico, no Extremo Oriente, onde a população é tão densa e as habitações tendem a ser tão frágeis que desabam ao menor sinal de um tremor de terra. Em 1° de setembro de 1923, um terremoto de enormes proporções se centrou a sudoeste da região metropolitana de Tóquio e Yokohama, no Japão. E, em 1923, Tóquio era bem maior que San Francisco em 1906; aproximadamente 2 milhões de pessoas viviam na área entre Tóquio e Yokohama.
O terremoto ocorreu pouco antes do meio-dia; 575 000 edifícios caíram por terra de imediato. O número de vítimas entre o terremoto e o incêndio que o precedeu pode ter atingido a marca de 140 000, os prejuízos materiais podem ter chegado a quase 3 bilhões de dólares (valor da época).
Este, provavelmente, foi o terremoto que causou os mais caros danos já registrados.
E, mesmo assim, esse não foí o pior dos terremotos em termos de número de vítimas. Em 23 de janeiro de 1556, na província de Chan-si, na região central da China, registrou-se um tremor que matou 830 000 pessoas.
É claro que não podemos confiar de todo num registro tão antigo, mas, em 28 de julho de 1976, um terremoto igualmente devastador ocorreu no sul de Pequim, na China. As cidades de Tien-tsin e Tang-chan foram arrasadas; não se obtiveram dados oficiais do sinistro, mas dados oficiosos apontam 655.000 mortos e 779 000 feridos.
O que, pois, se pode afirmar sobre os terremotos e vulcões em geral?
Certamente, eles são infortúnios, mas de caráter puramente local. Nos bilhões de anos desde que surgiu a vida, vulcões e terremotos nunca chegaram perto de constituir destruidores definitivos da vida. Eles não podem sequer ser vistos como destruidores da civilização. Que a explosão de Thira foi um poderoso agente da queda da civilização minóica é incontestável, mas as civilizações, naquela época, eram pequenas. A civilização minóica estava confinada na ilha de Creta e em outras ilhas egéias, e exercia alguma influência sobre partes da Grécia continental.
Podemos nos assegurar de que tudo continuará a ser como é? De que os distúrbios tectônicos não se tornarão catastróficos no futuro, mesmo não o tendo sido no passado? Em 1976, por exemplo, houve cerca de cinqüenta terremotos fatais; desses, alguns, como os da Guatemala e da China, foram verdadeiramente monstruosos. A Terra agora estará desmoronando por alguma razão?
De forma alguma! As coisas apenas parecem más; de fato, o ano de 1906 (ano do terremoto de San Francisco) viu tremores mais desastrosos que os de 1976, porém em 1906 as pessoas não se preocupavam tanto com o assunto. Por que se preocupam agora?
Em primeiro lugar, as comunicações melhoraram muito de de a Segunda Guerra Mundial. Até há bem pouco tempo, vastas áreas da Ásia, da África, e mesmo da América do Sul, nos eram inacessíveis. Se ocorresse um terremoto numa região longínqua, somente notícias muito vagas chegariam aos ouvidos do público americano. Atualmente, cada terremoto é descrito de imediato e em detalhes nas primeiras páginas dos jornais. Os resultados da devastação podem ser vistos até na televisão.
Em segundo lugar, nosso próprio interesse aumentou. Não estamos isolados e autocentrados. Não faz muito que, mesmo ao ouvirmos os detalhes de terremotos de outros continentes, dávamos de ombros. O que acontecia em partes remotas do globo não nos dizia respeito. Agora acostumamo-nos a descobrir que incidentes em qualquer lugar do mundo exercem efeito sobre nós; por isso, tornamo-nos mais atentos e mais ansiosos.
Em terceiro lugar, a população mundial cresceu. Dobrou nos últimos cinqüenta anos, alcançando a marca (hoje) de 4 bilhões. Um terremoto que vitimou 140 000 pessoas em Tóquio em 1923, caso se repetisse, vitimaria hoje talvez 1 milhão. Note-se que a população de Los Angeles, em 1900, era de 100 000 e é, hoje, de 3 milhões. Um terremoto que afetasse Los Angeles agora possivelmente mataria trinta vezes o número de pessoas que teria matado em 1900. O que não significaria que o terremoto seria trinta vezes mais poderoso, apenas que o número de pessoas próximas terse-ia multiplicado por trinta.
Por exemplo, o terremoto mais poderoso já registrado na história dos Estados Unidos não aconteceu na Califórnia, mas, dentre todos os lugares possíveis, no Missouri. O centro do terremoto foi perto de Nova Madrid, no rio Mississípi, perto do canto sudeste do Estado, e o tremor foi tão forte que o curso do Mississípi foi alterado. Isso, contudo, foi a 15 de dezembro de 1811; nessa época, a área era muito pouco povoada. Não se registrou uma só perda humana. O mesmo tremor no mesmo lugar, hoje, sem dúvida teria dado cabo de centenas de vidas. Se acontecesse algumas centenas de quilômetros rio acima, dezenas de milhares morreriam. Finalmente devemos nos lembrar de que o que de fato mata, no caso de terremotos, são as obras humanas. Edifícios ruindo soterram pessoas; represas rompidas afogamnas; incêndios iniciados por cabos rompidos queimam-nas. As produções humanas se multiplicaram com os anos, tornando-se também mais sofisticadas e caras. Isso não só aumenta o número de vítimas, como também aumenta enormemente os danos materiais.