Escolha a Catástrofe
Poluição
Da cinza das algas obtém-se o iodo.
Não seria possível a obtenção de outros elementos de valor a partir da água marinha caso se desenvolvessem técnicas de concentração de conteúdo tão escasso? O oceano contém, ao todo, perto de 15 bilhões de toneladas de alumínio, 4,5 de cobre e 4,5 de urânio. Contém, também, 320 milhões de toneladas de prata, 6,3 de ouro e 45 de rádio.
Eles estão lá. O problema é tirá-los de lá.
Ou, então, podemos abandonar a Terra. Há não muito tempo, a idéia de escavar minas na Lua (ou mesmo nos asteróides) só pareceria cabível em histórias de ficção científica. Hoje em dia, já não se acha a idéia tão impraticável. Se os fenícios puderam se dirigir às ilhotas de estanho em busca do metal escasso, podemos também seguir para a Lua. A tarefa de minerar a Lua hoje em dia não deve ser mais árdua do que foi a mineração das ilhotas de estanho para os fenícios.
Finalmente, tendo completado a lista de novas fontes, podemos até argumentar que nenhuma é necessária. Os 81 elementos que possuem variedades atômicas estáveis são indestrutíveis sob condições normais. O ser humano não os consome: simplesmente transporta-os de um lugar a outro.
Os processos geológicos, em atividade há bilhões de anos, concentraram os diversos elementos, inclusive metais, em diversas regiões.
O que o ser humano faz, e cada vez mais rapidamente, é extrair os metais e outros elementos desejados das regiões em que estão concentrados para espalhá-los mais amplamente, de modo mais uniforme e mais superficialmente, misturando uns aos outros.
Os metais lá estão, porém, embora possam estar espalhados, corroídos e combinados com outros materiais. De fato, os entulhos da humanidade são um imenso depósito dos vários elementos que ela tem utilizado dessa ou daquela maneira e jogado fora. Com técnicas adequadas, eles poderiam ser recuperados e reutilizados.
Teoricamente, então, não nos podem faltar os vários elementos, ou, em sentido lato, as substâncias, pois todas as substâncias que não são elementos são formadas de elementos.
Mas o simples esgotamento não é o único destino que ameaça os recursos que utilizamos, nem mesmo os recursos dos quais a vida (inclusive a humana) depende. Mesmo aqueles que não esgotamos, e talvez nunca esgotemos, podem tornar-se inúteis devido a nossas atividades. Os recursos podem estar logo aí, mas não nos servirão.
POLUIÇÃO
Na verdade, os objetos materiais não se esgotam. Simplesmente os átomos são reorganizados. Tudo o que se usa transforma-se em outra coisa; conseqüentemente, para todo consumo há uma produção equilibrada.
Se consumimos o oxigênio, produzimos o dióxido de carbono. Se consumimos o alimento e a água, produzimos a transpiração, a urina e as fezes. De modo geral, não podemos utilizar os produtos que eliminamos.
Não podemos respirar o dióxido de carbono nem comer ou beber os resíduos.
Felizmente, o mundo vital é uma unidade ecológica, e o que são resíduos para nós é material útil para outros organismos. O dióxido de carbono é essencial para o funcionamento da vegetação, a qual produz e elimina o oxigênio no processo de respiração. Os resíduos que produzimos podem ser, e são, decompostos e utilizados por vários microrganismos, e o restante pode ser utilizado pelas plantas na purificação da água e na produção de alimentos. O que a vida elimina, ela produz novamente, e o ciclo se repete. Esse processo recebe o nome de “reciclagem”.
Isso também é válido, até certo ponto, para o mundo da tecnologia humana. Se o homem queima a madeira, ele reproduz o efeito do raio na natureza. A madeira que o homem queima adentra o ciclo junto à madeira que o raio queima. Durante centenas de milhares de anos de utilização do fogo pelo homem, essa utilização foi insignificante se comparada à outra queima; assim, a atividade humana jamais sobrecarregou o ciclo.
Consideremos, também, a utilização de instrumentos de pedra. Isso implica uma contínua transformação de grandes porções de rochas em pequenas porções. Um pedaço de rocha que fosse grande demais para ser usado poderia ser quebrado em porções mais úteis, e cada uma dessas porções poderia ainda ser lascada, lapidada ou esmerilhada na fabricação de uma ferramenta. A ferramenta acabaria sendo inutilizada por perder o fio ou ter a forma alterada.
Esse mecanismo reprisa um processo natural, pois a ação do vento, da água e das intempéries gradualmente desgasta a rocha, transformando-a em areia. Esses grânulos rochosos podem se aglomerar novamente graças a processos geológicos. A transformação da rocha em grânulos e depois em rocha novamente é um ciclo que se completa num período de tempo bastante extenso. Portanto, tendo o homem como parâmetro, os grânulos rochosos, produtos inevitáveis da fabricação de ferramentas, não são recicláveis.
Tudo aquilo que é produzido pela atividade humana e não tem utilidade nem reciclagem chama-se “poluição”. Os grânulos rochosos eram inúteis e faziam desordens. Porém, enquanto poluição, eram até benignos.
Podiam ser colocados de lado sem causar danos.
Todavia, os resíduos que podem ser reciclados pela natureza podem se transformar em poluição se sobrecarregarem a capacidade do ciclo, em dada região, em determinada época. Ao queimarem a madeira, por exemplo, os homens produziam a cinza. Esta, tal como os grânulos rochosos, poderia ser posta de lado sem causar muitas complicações. O fogo incandescente também produzia vapores basicamente compostos de dióxido de carbono e vapor de água, os quais, por si sós, não causam muitos problemas. Incluídas no vapor estavam diminutas quantidades de outros gases que provocavam a irritação dos olhos e da garganta, alguns bocados de carvão não queimado que sujavam as superfícies com fuligem, partículas finamente divididas e prejudiciais. O vapor, juntamente com esses constituintes, formava uma fumaça densa.
Ao ar livre, essa fumaça se dispersava rapidamente e em concentrações tão baixas que não causava incômodo. Há, ao todo, aproximadamente 100 000 000 000 000 de toneladas de gás em nossa atmosfera, e a fumaça de todo o fogo provocado pelos homens primitivos (bem como o das queimadas provocadas por relâmpagos) diluiu-se a ponto de se tornar insignificante, dispersa nesse imenso reservatório. A partir daí, processos naturais reciclaram as substâncias da fumaça e restauraram a matéria-prima que as plantas utilizariam para constituir a madeira novamente.
E se o fogo era provocado em uma residência para fins de iluminação, aquecimento, cozimento e segurança? Dentro da residência, a fumaça se acumulava em alta concentração, ficando suja, malcheirosa e irritante antes mesmo que um processo de reciclagem se iniciasse. O resultado era insuportável. Provavelmente, a fumaça de madeira queimada foi o primeiro exemplo de problema relacionado à poluição a ser produzido pela tecnologia humana.
Havia algumas alternativas. Em primeiro lugar, o fogo poderia ser abandonado, o que nem se cogitava sequer na Idade da Pedra. Em segundo lugar, poder-se-ia utilizar o fogo apenas ao ar livre, o que teria sido inconveniente ao ser humano por diversas razões. Em terceiro, poder-se-ia utilizar um avanço tecnológico para fins de controle do problema da poluição — em resumo, poder-se-ia conceber algo como uma chaminé (um buraco no telhado, ou coisa assim). A terceira solução foi a escolhida.
Assim é que o ser humano, desde então, tem lidado com o desconforto dos efeitos colaterais. Invariavelmente, a escolha caminhou em direção da tecnologia corretiva e cumulativa.
Logicamente, cada etapa da tecnologia corretiva pode conter problemas próprios dela, o que reforça a problemática do processo. Caberia, nesse caso, perguntar se o objetivo é alcançado quando surge um efeito colateral indesejável e irremediável. Será que a poluição se tornará tão intensa a ponto de escapar a nosso controle? Poderá ela destruir nossa civilização tal qual uma catástrofe do quinto grau? (Ou mesmo, talvez, dizimar a vida tal qual uma catástrofe do quarto grau?) Assim, a queima de madeira aumentou com o crescimento populacional. Com o avanço tecnológico, novas queimas se adicionaram: a da gordura, do carvão, do petróleo e da gasolina — e a quantidade total de queimas amplia-se a cada ano.
De um modo ou de outro, toda queima requer uma chaminé, e a fumaça é sempre eliminada na atmosfera. No momento, isso significa que meio bilhão de toneladas de poluentes são expelidos no ar anualmente sob forma de gases irritantes e partículas sólidas. A atmosfera como um todo tem se tornado perceptivelmente mais suja à medida em que a tecnologia se ocupa em sobrecarregar o ciclo.
Naturalmente, a poluição é pior em grandes centros populacionais, onde hoje temos o smog (combinação das palavras “smoke” = fumaça e “fog” = neblina). Ocasionalmente, uma camada de inversão (camada superior de ar frio que prende uma camada inferior de ar quente por alguns dias) evita a dispersão de poluentes e o ar se torna perigoso sobre uma limitada região.
Em 1948 houve um “smog assassino” sobre a região de Donora, na Pensilvânia, que resultou na morte instantânea de 29 pessoas. Isso ocorreu, também, diversas vezes em Londres e em outros lugares. Mesmo onde não haja morte instantânea, sempre há uma crescente incidência de doenças pulmonares a longo prazo em regiões poluídas, chegando até a nível de câncer pulmonar.
Será possível, então, que nossa tecnologia vá nos deixar com uma atmosfera irrespirável dentro em breve?
A ameaça certamente existe, mas a humanidade não está perdida. Nas primeiras décadas da Revolução Industrial, as cidades ficaram cobertas de nuvens de fumaça oriundas da queima do carvão betuminoso. Uma mudança para o carvão de antracite, que produzia menos fumaça, melhorou muito as condições de cidades como Birmingham, na Inglaterra, e Pittsburgh, nos
Estados Unidos{60}.
Outras medidas corretivas são possíveis. Um dos perigos da fumaça está na formação de óxidos de nitrogênio e enxofre. Se os compostos de nitrogênio e enxofre forem retirados do combustível, ou se os óxidos forem precipitados antes que a fumaça seja eliminada da atmosfera, grande parte do veneno da poluição será anulada. A nível ideal, os vapores de combustíveis em queima deveriam conter unicamente dióxido de carbono e água, e é bem
possível que venhamos a atingir esse ideal{61}.
Novos tipos de poluição do ar podem surgir de repente.
Um dos tipos, cuja periculosidade só se reconheceu em 1970, provém do uso de clorofluorcarbonos como o freon. Facilmente liqüefeitos e não-tóxicos, vêm sendo usados desde os anos 30 como refrigeradores (mediante vaporização e líquefação alternadas) em lugar de gases mais tóxicos e perigosos como a amônia e o dióxido de enxofre. Nas últimas duas décadas, vieram a ser utilizados na forma líquida em pulverizadores. Eliminados dessa forma, transformam-se em vapores e escapam, levando consigo o material contido em forma de pulverização fina.
Apesar de esses gases não serem prejudiciais à vida diretamente, demonstrou-se em 1976 que, se eles atingirem a camada superior da atmosfera, podem empobrecer ou destruir a camada de ozônio existente 24 quilômetros acima da superfície terrestre. Essa camada de ozônio (um tipo de oxigênio ativo com moléculas compostas de três átomos de oxigênio em vez dos dois encontrados no oxigênio gasoso comum) é opaca à radiação ultravioleta. Ela protege a superfície da Terra contra a radiação ultravioleta solar, energética, que é prejudicial à vida. Provavelmente, só depois que o processo de fotossíntese dos vegetais marítimos produziu uma quantidade suficiente de oxigênio para formar uma camada de ozônio é que os seres vivos puderam colonizar a terra.
Se a camada de ozônio for enfraquecida pelos clorofluorcarbonos, permitindo que a radiação ultravioleta do Sol atinja a superfície terrestre com maior intensidade, a incidência do câncer de pele aumentará. Pior ainda, o efeito em mícrorganismos do solo pode ser drástico, o que viria a influenciar violentamente todo o equilíbrio ecológico; não sabemos prever como, mas que será altamente indesejável.
A interferência na camada de ozônio ainda não é totalmente conhecida, mas a utilização de clorofluorcarbonos nos pulverizadores já diminuiu bastante, devendo-se encontrar um substituto para sua utilização em refrigeradores e aparelhos de ar refrigerado.
Também não é só a atmosfera que está sujeita à poluição. Há também a água que a Terra contém, ou “hidrosfera”. O suprimento de água da Terra é enorme e a massa da hidrosfera é 275 vezes maior que a da atmosfera. O oceano cobre uma área de 360 milhões de quilômetros quadrados ou 70 por cento de toda a superfície terrestre. A área do oceano é quarenta vezes maior que a dos Estados Unidos.
A profundidade média do oceano é de 3,7 quilômetros; portanto, o volume total do oceano é de 1,33 bilhões de quilômetros cúbicos.
Comparemos isso com a necessidade humana. Se considerarmos o uso da água para beber, para lavar, para banhos e para funções industriais e agriculturais, veremos que o mundo utiliza aproximadamente 4 000 quilômetros cúbicos de água por ano, apenas 1/330 000 do volume do oceano.
Dito assim, somos levados a crer ser ridícula a simples idéia de uma crise, uma falta crônica de água, não fosse pelo fato de o oceano ser inútil para nós enquanto fonte direta de água. O oceano transporta nossos navios, proporciona diversões e fornece-nos comida, mas não podemos beber sua água por ser salgada; nem a usamos na indústria ou agricultura, nem para nos lavarmos. Precisamos de água doce.
O suprimento total de água doce na Terra é de 37 milhões de quilômetros cúbicos, somente 2,7 por cento de todo o suprimento de água da Terra. Deste, a maior parte enccntra-se sob a forma de gelo nas regiões polares e nos picos de montanhas, o que também não é útil para nós. Boa parte dela encontra-se em regiões subterrâneas, onde sua obtenção fica dificultada.
O que precisamos é de água doce e líquida na superfície, em forma de lagos, represas e rios; desta, o suprimento da Terra é de 200 000 quilômetros cúbicos. Isso representa aproximadamente 0,015 por cento do suprimento total de água, e mesmo assim essa quantia é trinta vezes superior à que a humanidade utiliza anualmente.
Vale dizer que a humanidade não depende de um suprimento estático de água doce. Se assim fosse, em trinta anos esgotaríamos toda a reserva, seguindo o nível atual de consumo. A água que utilizamos é reciclada naturalmente. A água corre para o mar, que se evapora sob a ação do Sol, e o vapor precipita-se sob a forma de chuva, neve ou granizo. Essa precipitação é pura água destilada.
Aproximadamente 500 000 quilômetros cúbicos de água doce são precipitados a cada ano. Desses, é claro, boa parte cai diretamente no oceano, enquanto outro tanto cai em forma de neve sobre as geleiras e as calotas polares. Cerca de 100 000 quilômetros cúbicos caem na terra seca não coberta de gelo. Parte deles evapora antes de ser utilizada, mas aproximadamente, 40 000 quilômetros cúbicos se somam aos lagos, aos rios e ao solo dos continentes anualmente (e uma igual quantidade corre para o mar). Esse suprimento útil de chuva ainda é dez vezes superior ao que a humanidade utiliza.
Entretanto, a demanda humana cresce rapidamente. O uso da água nos Estados Unidos aumentou dez vezes neste século e, nesse ritmo, não vai demorar muitas décadas até que a necessidade demande um maior suprimento.
Isso se agrava, pois a precipitação não se distribui igualmente no tempo e no espaço. Há locais onde a precipitação se dá em excesso, e há desperdício, e outros onde é baixa e a população precisa de cada gota que cai. Nos anos em que não chove, há secas e uma queda abrupta na produção agrícola. O fato é que o suprimento útil de água anda escasso em muitas partes do mundo atualmente.
Isso pode ser contornado. Podemos confiar em que chegará um dia quando poderemos controlar o tempo e, assim, a chuva cairá onde queiramos. O suprimento de água líquida e doce pode aumentar com a destilação direta da água do mar — algo que hoje está sendo implantado no Oriente Médio — ou pelo congelamento do sal marítimo.
Aí, então, o suprimento de gelo do mundo é devolvido ao mar em forma de icebergs rompendo os lençóis glaciais da Antártida e da Groenlândia. Esses icebergs são enormes reservatórios de água doce que derretem no mar antes de serem utilizados. No entanto, eles poderiam ser rebocados para o litoral de regiões áridas e lá utilizados.
Além disso, toda a água subterrânea existente, mesmo a dos desertos, poderia ser retirada de forma mais eficaz, e as superfícies dos lagos e reservatórios poderiam ser protegidas com finas películas de produtos químicos inócuos para diminuir a evaporação.
A questão do suprimento de água líquida e doce pode não configurar um problema sério, como se vê. Mais sério é o problema da poluição.
Os resíduos de todos os seres aquáticos da Terra são naturalmente depositados na água em que vivem. Esses resíduos são diluídos e reciclados por processos naturais. Os resíduos de animais terrestres são depositados na terra, onde são decompostos por microrganismos e reciclados. Os resíduos humanos seguem o mesmo ciclo, podendo também ser reciclados, embora as grandes concentrações populacionais tendam a sobrecarregar as regiões citadinas e suburbanas.
Pior que isso, os produtos químicos utilizados e produzidos pela humanidade industrializada são eliminados nos rios e lagos, e acabam chegando ao oceano. Dessa forma, nos últimos cem anos, os homens começaram a fazer uso de fertilizantes químicos contendo fosfatos e nitratos em quantidades cada vez maiores. Estes são depositados na terra, é claro, mas a chuva carrega parte deles para os lagos mais próximos. Como os fosfatos e os nitratos são necessários à vida, o crescimento dos organismos nesses lagos é incentivado, e o processo é chamado “eutroficação” (que vem do grego e significa “bom crescimento”).
Isso parece bom, mas os organismos incentivados prioritariamente são as algas e outros organismos unicelulares, que crescem em ritmo aceleradíssimo, ocupando o espaço de outras formas de vida. Quando as algas morrem, são decompostas por bactérias, que, no processo, consomem grande parte do oxigênio dissolvido nos lagos, desvitalizando as regiões mais profundas. Desse modo, o lago perde muito de seu valor como fonte de peixes e, pelo que foi exposto, de água potável. A eutroficação acelera as mudanças naturais que fazem com que o lago se encha e seque. O que normalmente levaria milhares de anos acaba acontecendo em algumas décadas.
Se isso é o que ocorre com as substâncias úteis à vida, o que dizer dos venenos instantâneos?
Muitas indústrias químicas acarretam a eliminação de produtos químicos de teor venenoso, e os resíduos que os contêm são jogados nos rios e lagos. Poder-se-ia pensar que ali eles se diluíssem tornando-se inofensivos ou que fossem destruídos por processos naturais. O problema é que alguns produtos químicos são nocivos à saúde mesmo quando estão muito diluídos, e não se deixam destruir facilmente por processos naturais.
Mesmo não sendo totalmente nocivos quando diluídos, podem se acumular em seres vivos: os mais simples absorvem o veneno e os mais complexos comem os mais simples. Nesse caso, mesmo que a água continue potável, os seres aquáticos perdem seu valor comestível. Hoje em dia, nas regiões industrializadas dos Estados Unidos, quase todos os lagos e rios acham-se poluídos até certo ponto — e alguns em graus bem elevados.
Logicamente, todos esses resíduos químicos acabam sendo jogados no mar. Poder-se-ia pensar que o oceano, sendo tão vasto, conseguisse absorver qualquer quantidade de resíduos, por mais indesejáveis que fossem; mas não é isso que acontece.
Neste século, o oceano teve que absorver incríveis quantidades de derivados de petróleo e outros resíduos. Com o naufrágio de petroleiros, a lavagem de tanques de petróleo e o desembaraço do óleo usado de automóveis, 2 a 5 milhões de toneladas de óleo adentram o mar anualmente.
O óleo eliminado por navios chega a 3 milhões de toneladas por ano. Mais de 50 milhões de toneladas de água de esgoto e outros resíduos são atirados no mar só pelos Estados Unidos. Nem todos eles são perigosos, mas alguns o são, e a quantidade total de material que adentra o mar cresce assustadoramente a cada ano.
As regiões litorâneas, as mais ricamente dotadas de vida, são as mais atacadas pela poluição. Desse modo, um décimo da área de águas costeiras dos Estados Unidos, que antes serviram como fonte de alimento, são hoje inúteis por causa da poluição.
Portanto, se a poluição da água continuar indefinidamente, não apenas estará ameaçando a utilidade de nosso suprimento essencial de água doce num breve futuro, como também a viabilidade da utilização do oceano. Se tivéssemos que imaginar um mar envenenado e sem vida, perderíamos a vegetação microscópica (plâncton) que bóia em sua superfície ou próximo a ela, e que é responsável por 80 por cento da renovação de oxigênio da atmosfera. É quase certo que a vida terrena não sobreviveria à morte do mar.
Em suma, a poluição da água pode destruir a vida na Terra, constituindo uma catástrofe do quarto grau.
Mas isso não precisa acontecer. Antes de os resíduos perigosos se depositarem na água, eles podem ser tratados, e seus efeitos nocivos, reduzidos; determinados venenos podem ser proibidos por lei ou destruídos logo após sua produção. Se a eutroficação da água acontecer, as algas podem ser colhidas da água do lago para remover o excesso de nitratos e fosfatos, que podem ser utilizados como fertilizantes na terra novamente.
E, falando-se da terra, há resíduos sólidos também, resíduos que não adentram a atmosfera nem a hidrosfera — o lixo, o entulho, a sujeira. Eles têm sido produzidos pelo homem desde os primórdios da civilização. As antigas cidades do Oriente Médio deixavam acumular o lixo e a sujeira e até construíam novas edificações sobre eles. Toda cidade antiga arruinada acha-se em seu próprio túmulo de lixo. Os arqueólogos cavam o lixo para com isso conhecerem a vida daqueles tempos.