Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 2 de 68

Páginas do PDF

Escolha a Catástrofe

Expectativas Messiânicas

Enquanto o reino davídico de Judá existiu, antes de 586 a.C, os judeus estavam convictos de que Deus era o divino juiz que atribuía recompensas e punições aos indivíduos de acordo com seus méritos. As recompensas e punições eram aplicadas nesta vida. Essa certeza foi anulada.

Após o reino de Judá ter sido destruído pelos caldeus sob Nabucodonosor, seu templo arrasado e muitos dos judeus levados para o exílio na Babilônia, começou a crescer, entre os exilados, o anseio pela volta do reino e de um rei da velha dinastia de Davi. Na medida em que tais desejos, expressos abertamente, representavam traição para com os novos dirigentes não-judeus, surgiu o hábito de apenas fazer-se alusões à volta do rei. Uns falavam do “Messias”, ou seja, “o ungido”, já que o rei era ungido com óleo como parte do ritual de entronização.

A imagem do rei que retornava era idealizada como algo que prenunciava uma maravilhosa idade de ouro, e, realmente, as recompensas da virtude eram removidas do presente (onde manifestamente não estavam ocorrendo) e transferidas para um futuro dourado.

Alguns versos descrevendo a idade de ouro foram incluídos no Livro de Isaías, que propagou as palavras de um profeta já atuante em 740 a.C. Os versos propriamente ditos devem provavelmente datar de um período posterior. Sem dúvida, para introduzir essa idade de ouro, os justos dentre a população deveriam ser elevados ao poder e os maus, destituídos do poder ou até mesmo destruídos. Assim:

“E ele (Deus) julgará as nações e convencerá de erro a muitos povos; e elas (as nações) de suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem daí por diante se adestrarão mais para a guerra” (Isaías 2:

4){1}.

“… mas julgará os pobres com justiça, e tomará com eqüidade a defesa dos humildes da terra, e ferirá a terra com a vara da sua boca, e matará o ímpio com o sopro dos seus lábios” (Isaías 11: 4).

O tempo passou e os judeus retornaram do exílio, mas isso não trouxe alívio. Havia hostilidade de seus vizinhos não-judeus mais próximos e eles se sentiam indefesos em face do poder avassalador dos persas, então dominadores do país. Os profetas judeus tornaram-se mais incisivos, portanto, em seus escritos sobre a idade de ouro vindoura e, particularmente, sobre a condenação que aguardava seus inimigos.

O profeta Joel, escrevendo por volta de 400 a.C, disse: “Ai, aí, ai! que dia (terrível)! porque o Senhor está perto e virá como assolação da parte do Todo-Poderoso” (Joel 1: 15). É o quadro da aproximação de um tempo específico quando Deus julgará o mundo inteiro: “Juntarei todas as gentes e conduzi-las-ei ao vale de Josafá, e ali entrarei com elas em juízo acerca de Israel, meu povo e minha herança. . .” (Joel 3: 2). Esta foi a primeira expressão literária de um “dia do Juízo Final”, ocasião em que Deus poria fim à presente situação do mundo.

Tal noção se tornou mais forte e extremada no século II a.C, quando os selêucidas, dirigentes gregos que haviam sucedido à dominação persa depois de Alexandre Magno, tentaram suprimir o judaísmo. Os judeus, sob os macabeus, se rebelaram, e o Livro de Daniel foi escrito para apoiar a rebelião e prometer um futuro brilhante.

O livro baseava-se, parcialmente, em antigas tradições relativas a um profeta, Daniel. Da

boca de Daniel vieram descrições de visões apocalípticas {2}. Deus (chamado de “o Ancião dos Dias”) faz sua aparição para punir os perversos:

“Eu estava, pois, observando essas coisas durante a visão noturna e eis que vi um (personagem) que parecia o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do céu e que chegou até o Ancião dos (muitos) dias, e o apresentaram diante dele. E ele deu-lhe o poder, a honra e o reino; e todos os povos, tribos e línguas lhe serviram; o seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado; e o seu reino não será jamais destruído” (Daniel 7: 13-14).

Este ser “que parecia o Filho do homem” se refere a alguém de forma humana, em contraposição aos inimigos de Judá, que haviam sido previamente representados sob a forma de diversas feras. A forma humana pode ser interpretada como representando Judá em abstrato, ou o Messias em particular.

A rebelião macabéia foi bem sucedida e um reino judeu restabelecido, mas isso também não trouxe a idade de ouro. Entretanto, os escritos proféticos mantiveram vivas as expectativas dos judeus durante os dois séculos seguintes: o dia do Juízo Final permaneceu sempre como quase iminente; o Messias estava sempre para chegar; o reino da justiça estava sempre a ponto de ser estabelecido.

Os romanos sucederam aos macabeus e, no reinado do Imperador Tibério, houve um pregador muito popular na Judéia, chamado João Batista, cuja mensagem continha a seguinte temática: “Fazei penitência porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3:2).

Com a expectativa universal assim constantemente reforçada, qualquer um que se proclamasse o Messias certamente teria seguidores; sob os romanos houve vários pretendentes que, politicamente, conduziram a nada. Dentre esses, contudo, figurava Jesus de Nazaré, a quem alguns humildes judeus seguiram e se mantiveram fiéis mesmo depois de Jesus ter sido crucificado sem que uma mão se erguesse para salvá-lo. Aqueles que acreditaram em Jesus como o Messias poderiam ter sido chamados de “messiânicos”. Todavia, a língua dos seguidores de Jesus veio a ser o grego, na medida em que mais e mais gentios se convertiam, e, em grego, a palavra correspondente a Messias é “Christos”. Assim os seguidores de Jesus passaram a ser denominados “cristãos”.

O sucesso inicial na conversão de gentios deveu-se às pregações missionárias carismáticas de Saulo de Tarso (o apóstolo Paulo) e, começando com ele, o cristianismo iniciou uma corrida de expansão que trouxe para a sua bandeira primeiro Roma, depois a Europa, depois grande parte do mundo.

Os primeiros cristãos criam que a chegada de Jesus o Messias, (isto é “Jesus Cristo”) significava que o dia do Juízo Final estava prestes a vir. Ao próprio Jesus são atribuídas predíções do iminente fim do mundo: “Mas, naqueles dias, depois daquela tribulação, o Sol se escurecerá, a Lua não dará o seu resplendor; e as estrelas do céu cairão, e se comoverão as potestades que estão nos céus. Então verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória… Em verdade vos digo que não passará esta geração, sem que se cumpram todas estas coisas. O céu e a terra passarão… A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas só o Pai” (Marcos 13: 24-27, 30-32).