Escolha a Catástrofe
Microrganismos
O que se interpõe entre tal catástrofe e nós é o novo conhecimento que adquirimos no último século e meio sobre as causas das doenças infecciosas e os métodos para combatê-las.
MICRORGANISMOS
Durante a maior parte da história, não existiram quaisquer defesas contra as doenças infecciosas. Na verdade, o próprio fato da infecção não foi reconhecido nas idades antiga e medieval. Quando as pessoas começavam a morrer em grande número, costumava se dizer que um deus irado estava se vingando por uma ou outra razão. As flechas de Apoio estavam voando, de modo que uma morte não era responsável por outra; Apoio é que era responsável por todas elas.
A Bíblia fala de numerosas epidemias e, em cada caso, é a ira de Deus inflamada contra os pecadores, como em Samuel 2: 24. Nos tempos do Novo Testamento, a teoria da possessão demoníaca como explicação das enfermidades era bem popular, e tanto Jesus como outros expulsavam demônios. A autoridade bíblica fez com que essa teoria persistisse até hoje, como é provado pelo sucesso popular de filmes como O exorcista.
Na medida em que as doenças eram culpa de influências divinas ou demoníacas, algo tão mundano como o contágio era negligenciado.
Felizmente, a Bíblia também contém instruções para o isolamento daqueles com lepra (nome dado não só à própria lepra, como a outras condições epidérmicas menos graves). A prática bíblica do isolamento tinha razões mais religiosas que higiênicas, porque a lepra tem índice contagioso muito baixo. Sob a autoridade bíblica, os leprosos eram isolados na Idade Média, ao passo que aqueles com moléstias realmente infecciosas não o eram. A prática do isolamento, todavia, levou alguns médicos a pensá-la nos termos da doença em geral. Em particular, o terror supremo da peste negra ajudou a difundir a noção da quarentena, nome originalmente inspirado no isolamento de quarenta dias.
O fato de que o isolamento realmente reduzia a propagação de uma doença fez pensar no contágio como um fator importante dela. O primeiro a elaborar essa hipótese detalhadamente foi o médico italiano Girolamo Fracastoro (1478-1553). Em 1546, ele sugeriu que as doenças podiam se transmitir por contato direto de uma pessoa sadia com uma doente, ou por contato indireto de uma pessoa sadia com pertences infectados, ou mesmo à distância. Ele cria que corpos minúsculos, pequenos demais para serem vistos, passavam de uma pessoa doente para uma saudável e que os corpos minúsculos tinham o poder de automultiplicação.
Apesar de uma perspicácia admirável, Fracastoro não tinha provas para apoiar sua teoria. Se era cabível aceitar corpúsculos invisíveis pulando de um corpo para outro — e fazê-lo na base da crença, unicamente —, o mesmo seria aceitar demônios invisíveis.
Os corpúsculos, no entanto, não permaneceram invisíveis. Já no tempo de Fracastoro, o uso de lentes para ajudar a visão era fato bem firmado. Por volta de 1608, combinações de lentes foram usadas para ampliar objetos à distância e o telescópio veio a existir. Não se necessitou modificar grandemente as lentes para ampliar objetos minúsculos. O fisiólogo italiano Marcello Malpighi (1628-94) foi o primeiro a utilizar um microscópio para importantes trabalhos, relatando suas observações na década de 1650.
O microscopista holandês Anton van Leeuwenhoek (1632-1723) laboriosamente esmerilhou pequenas mas excelentes lentes, que lhe deram uma visão do mundo de minúsculos objetos melhor que qualquer outra pessoa de sua época já tinha tido. Em 1677, ele colocou água estagnada no foco de uma de suas pequenas lentes e descobriu organismos vivos excessivamente pequenos para serem vistos a olho nu, mas tão verdadeiramente vivos quanto uma baleia ou um elefante — ou um ser humano. Eles eram os animais unicelulares que agora chamamos de “protozoários”.
Em 1683, Van Leeuwenhoek detectou estruturas ainda menores que os protozoários. Elas estavam no limite de visibilidade mesmo com suas melhores lentes; a partir dos esboços do que viu, porém, fica claro que ele tinha descoberto as bactérias, as menores criaturas celulares existentes.
Para conseguir mais do que Van Leeuwenhoek, tinhase que possuir microscópios muitíssimo superiores ao dele, e levaria muito tempo para que se desenvolvessem tais microscópios. O seguinte microscopista a descrever bactérias foi o biólogo dinamarquês Otto Friedrich Müller (1730-84), que as descreveu num livro sobre esse assunto publicado postumamente em 1786.
Numa compreensão tardia, parece que se poderia ter adivinhado que as bactérias representavam os agentes infecciosos de Fracastoro, porém não havia provas disso, e até as observações de Müller eram tão incertas que nem havia consenso geral sobre a existência das bactérias ou, se existiam, de sua condição viva.
Em 1830, o óptico inglês Joseph Jackson Lister (1786-1869) desenvolveu um microscópio acromático. Até então, as lentes usadas refratavam a luz em arco-íris, de modo que objetos minúsculos eram mostrados como que listrados de cores e, assim, não claramente vistos. Lister combinou lentes de diferentes tipos de vidro de tal forma a remover as cores.
Sem a interferência das cores, os objetos minúsculos sobressaíam agudamente e, na década de 1860, o botânico alemão Ferdinand Julius Cohn (1828-98) viu e descreveu as bactérias com sucesso finalmente convincente.
Foi só com o trabalho de Cohn que a ciência da bacteriologia foi fundada e que se chegou ao consenso geral de que as bactérias existiam.
Entrementes, mesmo sem uma indicação precisa da existência dos agentes de Fracastoro, alguns médicos estavam descobrindo métodos de reduzir o efeito da infecção.
O médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweiss (1818-65) insistia em que a febre do puerpério — que matava tantas mães após o parto — era transmitida pelos próprios médicos, já que eles iam das autópsias diretamente para trabalhos de parto. Ele lutou para convencer os médicos a lavar as mãos antes de assistirem às mulheres; tendo conseguido isso, em 1847, a incidência de febre do puerpério caiu sensivelmente. Os médicos, insultados e orgulhosos de sua sujeira profissional, se revoltaram com isso e finalmente voltaram a fazer o serviço com mãos sujas. A incidência de febre do puerpério elevou-se tão rapidamente como caíra — mas isso não incomodou os médicos.
O momento crucial veio com o trabalho do químico francês Louis Pasteur (1822-95). Embora fosse químico, seu trabalho o levara gradualmente em direção aos microscópios e microrganismos e, em 1865, ele se dedicou ao estudo de uma doença do bicho-da-seda que estava destruindo a indústria da seda francesa. Usando seu microscópio, descobriu um minúsculo parasito que infestava os bichos-da-seda e as folhas de amora com que eram alimentados. A solução de Pasteur foi drástica, mas racional. Todos os bichos e comida infestados deveriam ser destruídos. Tudo deveria começar de novo com bichos saudáveis, e a doença seria sanada. Seu conselho foi seguido e deu certo. A indústria da seda foi salva.
Isso desviou o interesse de Pasteur para as doenças infecciosas.
Parecia a ele que se a doença do bicho-da-seda era produto de parasitos microscópicos, outras doenças também poderiam sê-lo; assim, nasceu a “teoria dos germes de doenças”. Os agentes infecciosos invisíveis de Fracastoro eram microrganismos, geralmente as bactérias que Cohn estava tentando trazer à luz.
Agora era possível atacar as doenças infecciosas racionalmente, fazendo uso de uma técnica que tinha sido introduzida na medicina há mais de meio século. Em 1798, o médico inglês Edward Jenner (1749-1823) havia demonstrado que pessoas inoculadas com a variedade moderada da varíola bovina, ou vaccinia, em latim, adquiriam imunidade não só contra a própria varíola bovina, como também contra a correlata mas muito virulenta e temida doença da varíola. A técnica da “vacinação” virtualmente deu fim à maior parte da devastação provocada pela varíola.
Infelizmente, não se descobriram outras doenças que ocorressem em pares tão convenientes, com o tipo moderado conferindo imunidade para o tipo grave. Mesmo assim, com a noção da teoria dos germes, a técnica podia ser ampliada de outra maneira.
Pasteur descobriu e associou determinados germes a determinadas doenças, passando então a enfraquecer esses germes (por meio de exposição a altas temperaturas ou de outras maneiras) e usá-los para inoculação.
Alguma doença muito moderada era produzida, mas a imunidade contra a doença perigosa era assegurada. A primeira enfermidade a ser tratada dessa forma foi o fatal carbúnculo hemátíco, que assolava rebanhos de animais domésticos.
Trabalho semelhante foi efetuado com mais sucesso ainda pelo bacteriologista alemão Robert Koch (1843-1910). Antitoxínas utilizadas para neutralizar venenos bacteriológicos foram também desenvolvidas.
Enquanto isso, o cirurgião inglês Joseph Lister (1827-1912), filho do inventor do microscópio acromático, retomara o trabalho de Semmelweiss.
Uma vez sabedor das pesquisas de Pasteur, tinha uma convincente racionalização como desculpa, e começou a insistir em que, antes de operar, os cirurgiões deveriam lavar as mãos em soluções de produtos químicos conhecidos por matarem bactérias. A partir de 1867, a prática da “cirurgia anti-séptica” rapidamente se difundiu.
A teoria dos germes também acelerou a adoção de medidas preventivas racionais (higiene pessoal, como o lavar mãos e tomar banho; planejada eliminação do lixo; cuidados com a limpeza da comida e da água).