Escolha a Catástrofe
Bárbaros
As guerras entre cidades-Estado e impérios da Antigüidade, que se originaram de sua conglomeração à volta de alguma região dominante, nunca chegaram a realmente acenar com a possibilidade de catástrofe. Não se podia nem pensar em exterminar a espécie humana, já que, mesmo com o maior sadismo do mundo, a humanidade não dispunha, na época, dos meios propícios para a execução desse projeto.
Seria muito mais possível que a destruição mais ou menos desejada das acumulações dolorosas dos frutos da civilização pudesse dar cabo daquele aspecto da aventura humana. (Isso seria uma catástrofe do quinto grau, algo com que ocuparemos a última parte deste livro.) E, no entanto, como a luta era entre uma região civilizada e outra, não era de se esperar que a destruição da civilização como um todo se seguiria — pelo menos não com o poder então existente nas mãos da humanidade civilizada.
A finalidade da guerra era aumentar o poder e a prosperidade do vencedor, pois este passava a obter um tributo extra. A fim de receber um tributo, era necessário deixar o suficiente para os conquistados para que eles pudessem incrementar o potencial do tributo. Nada se lucrava com uma destruição além da “lição” que se devia infligir aos conquistados.
Obviamente, onde sobreviveu o testemunho dos conquistados, é grande a mágoa provocada pela crueldade e ganância do conquistador — e, sem sombra de dúvida, justa —, porém os conquistados sobreviviam para condoer-se e, um tanto freqüentemente, sobreviviam com força capaz de um dia destronarem o conquistador e tornarem-se eles os conquistadores (igualmente cruéis e gananciosos).
E, de modo geral, a área ocupada pela civilização se alastrou progressivamente, o que é indício de que as guerras, embora cruéis e injustas para os indivíduos, nunca ameaçaram pôr fim à civilização. Pelo contrário, poderia se argumentar, os exércitos em marcha, num efeito colateral não-intencional, difundiam a civilização; além disso, o estímulo das emergências criadas pela guerra apressou a inovação, que acelerou o progresso tecnológico humano.
Havia, entretanto, um outro tipo de combate que era mais perigoso.
Cada região civilizada dos tempos antigos era rodeada de áreas de menor desenvolvimento — e é costume a referência aos povos não-desenvolvidos pelo termo “bárbaros”. (A palavra é de origem grega e remonta apenas ao fato de os estrangeiros falarem línguas incompreensíveis, cujos sons, aos ouvidos gregos, pareciam algo como “barbar-bar”. Mesmo as civilizações não-gregas eram chamadas de “bárbaras” pelos gregos. Todavia, a palavra passou a ser usada para denominar os povos não-civilizados, tendo uma conotação pejorativa de crueldade bestial.) Os bárbaros eram em geral “nômades” (da palavra grega que significa “aqueles que andam a esmo”).
Eles tinham poucas posses, que consistiam basicamente em rebanhos, com que viajavam de pasto a pasto com a mudança das estações. Seus padrões de vida, em comparação com os padrões citadinos, pareciam pobres e primitivos e, naturalmente, não possuíam as amenidades culturais da civilização.
Em comparação, as regiões civilizadas eram ricas por sua acumulação de alimentos e bens. Essas acumulações constituíam tentação mortal para os bárbaros, que não viam nada de errado em se servirem delas — se conseguissem conquistá-las. Muito freqüentemente, não conseguiam. As regiões civilizadas eram populosas e organizadas. Elas contavam com suas cidades muradas para se defender e geralmente conheciam melhor a ciência do guerrear. Sob governos fortes, os bárbaros foram contidos.
Por outro lado, os postos civilizados estavam presos à terra por causa de suas posses, ficando, assim, relativamente imóveis. Os bárbaros, em contraposição, eram móveis. Com seus camelos ou cavalos, podiam, num dia, fazer uma rápida incursão e, no outro, voltar. As vitórias sobre eles raramente eram notáveis e nunca (até quase a Idade Moderna) definitivas.
Além do mais, muitos dentre a população civilizada não eram “afeitos à guerra”, já que o viver bem, que é o que as pessoas civilizadas fazem, freqüentemente conduz ao desenvolvimento de uma certa falta de tolerância às tarefas arriscadas e incômodas impingidas a soldados. Isso significa que não se podia contar com a grande maioria dos civilizados, como se poderia crer. Um bando relativamente pequeno de bárbaros guerreiros poderia ver na população de uma cidade pouco mais que vítimas indefesas, se o exército civilizado, por alguma razão, caísse derrotado.
Quando uma região civilizada caía nas mãos de dirigentes fracos, que permitiam a decadência do exército ou, pior ainda, quando a região mergulhava na guerra civil, não
tardava em se seguir um ataque bárbaro bem-sucedido {51}.
Um ataque bárbaro era bem pior que os rotineiros combates das civilizações, porque os bárbaros, não acostumados aos mecanismos da civilização, em geral não compreendiam o valor de manter as vítimas vivas a fim de explorá-las regularmente. O impulso era simplesmente se servirem do que lhes apetecia e destruírem impiedosamente o que não pudesse ser aproveitado no momento. Sob tais condições, freqüentemente, havia um colapso da civilização numa área limitada e durante tempo limitado, pelo menos. Era uma “idade das trevas”.
O primeiro exemplo de uma incursão bárbara e de uma idade das trevas seguiu-se, naturalmente, não muito depois do nosso primeiro exemplo de conquistador. Sargão, o Grande, seus dois filhos, neto e bisneto se sucederam no governo do próspero Império Sumero-Acadiano. Em 2219 a.C, contudo, quando o governo do bisneto chegou ao fim, o império havia se deteriorado até os bárbaros guti do nordeste se tornarem um problema básico. Cerca de 2180 a.C, os guti tinham o controle do vale do Tigre-Eufrates, e seguiu-se um século de idade das trevas.
Ela veio a conter a conotação de grandes números, aparentemente para justificar a derrota nas mãos dos bárbaros, se se conseguir visualizar nossos antepassados civilizados como sendo sobrepujados por uma quantidade irresistível. Na verdade, as “hordas” bárbaras quase invariavelmente eram constituídas por poucos elementos, com certeza menos do que os por eles conquistados.
Os bárbaros eram especialmente perigosos quando ganhavam uma arma de guerra, que, pelo menos temporariamente, os fazia invencíveis.
Assim, por volta de 1750 a.C, as tribos da Ásia central criaram o carro puxado por cavalos e com ele, arremessaram-se sobre as terras povoadas do Oriente Médio e do Egito, dominando tudo por um dado período de tempo.
Felizmente, as invasões bárbaras nunca tiveram completo êxito no extermínio da civilização. As idades das trevas, mesmo quando essas trevas eram escuríssimas, nunca foram inteiramente negras, e nenhum bárbaro resistiu aos encantos da civilização — mesmo da civilização arrasada e decadente — dos conquistados. Os conquistadores se tornavam civilizados (e, por sua vez, não “afeitos à guerra”) e, como resultado, a civilização acabava crescendo de novo e, geralmente, alcançando níveis ainda mais altos.
Havia épocas em que era a população civilizada que ganhava uma nova arma de guerra e, por sua vez, se tornava ímbatível. Isso aconteceu quando o ferro começou a ser fundido no leste da Ásia Menor em 1350 a.C.
Aproximadamente. Pouco a pouco, o ferro se tornou mais comum, sua qualidade melhorou e as armas e armaduras de ferro passaram a ser manufaturadas. Quando, por volta de 900 d.C, os exércitos assírios foram completamente blindados a ferro, digamos assim, eles iniciaram uma dominação da Ásia ocidental, que durou três séculos.
Para nós, ocidentais, o exemplo mais conhecido de invasão bárbara e de uma idade das trevas é o daquela que pôs fim à porção ocidental do Império Romano. De 166 d.C. em diante, o Império Romano, tendo ultrapassado o período expansionista de sua história, lutou defensivamente contra a invasão bárbara. Vezes sem conta, Roma foi sacudida e se recompôs, isso quando sob o comando de imperadores fortes. Aí, em 378 d.C, os bárbaros godos venceram uma grande batalha em Adrianopla, destruindo para sempre as legiões romanas. A partir daí, Roma conseguiu erguer-se por mais um século, contratando bárbaros para lutar em seu exército contra outros bárbaros.
As províncias ocidentais gradualmente foram subjugadas pelos bárbaros, e os confortos da civilização findaram. A própria Itália foi barbarizada e, em 476, Rômulo Augusto, o último imperador romano a governar a Itália, foi deposto. Uma idade das trevas de cinco séculos se abateu, e foi só no século XIX que a vida na Europa ocidental voltou a ser tão agradável quanto fora com os romanos.
E, contudo, apesar de falarmos dessa idade das trevas pós-romana como se a civilização mundial estivesse a um passo da destruição, ela constituiu um fenômeno puramente local, circunscrito apenas ao que hoje é a Inglaterra, a França, a Alemanha e, em certo grau, a Espanha e a Itália.
Em 850, quando a tentativa de Carlos Magno de restaurar em certa medida a unidade e civilização da Europa ocidental não tinha dado resultado, e quando a região estava sob o assolamento de novos ataques bárbaros — os nórdicos do norte, os magiares do leste —, assim como dos muçulmanos civilizados do sul, qual a situação no resto do mundo?
1. O Império Bizantino, sobrevivente da metade oriental do Império Romano, ainda era forte e sua civilização se preservara numa linha incólume desde a Grécia e Roma
antigas. Além do mais, sua civilização estava na realidade se espalhando entre os bárbaros eslavos e aproximando-se de um novo período de poder sob a dinastia macedônica, uma linhagem de imperadores guerreiros.
2. O Império Abácida, que representava a nova religião do Islão e absorvera o Império Persa e as províncias síria e africana do Império Romano, estava no auge da prosperidade e civilização. Seu maior monarca, Mamun, o Grande (filho do famoso Harun al-Rachid das Mil e urna noites), morrera em 833. O reino muçulmano independente na Espanha também estava no ápice da civilização (aliás, mais alto que qualquer outro já visto pela Espanha em todos os séculos posteriores).
3. A índia, sob a dinastia Gurjara-Pratilhara, era forte e sua civilização continuava incólume.
4. A China, embora politicamente instável, alcançara um alto nível cultural, tendo com muito êxito propagado sua civilização até a Coréia e o Japão.
Em outras palavras, a área total da civilização ainda estava se expandindo e só no Extremo Ocidente existia uma região que havia decaído substancialmente, uma região que não somava mais de uns 7 por cento da área total ocupada pela civilização.
Embora as incursões bárbaras do século V pareçam tão poderosas e sinistras em nossos livros de história ocidental, se causaram tão poucos danos à civilização como um todo, houve outras incursões bárbaras em séculos posteriores que foram bem mais assustadoras. Se estamos menos familiarizados com os últimos bárbaros, é só porque as regiões da Europa ocidental que tanto sofreram no século V sofreram menos depois.
Durante o curso da história, as estepes da Ásia central haviam sido berço de cavaleiros
tenazes, que virtualmente viviam sobre suas montarias{52}.
Em anos bons, com bastante chuva, os rebanhos se multiplicavam — bem como os nômades. Nos anos de seca que se seguiam, os nômades conduziam seus rebanhos pelas estepes afora, em todas as direções, ribombando contra as fortificações civilizadas desde a China até a Europa.
Uma sucessão de membros de tribos, por exemplo, encontrava-se no que hoje é a Ucrânia, ao sul da Rússia, cada uma sendo substituída por novas hostes vindas do leste. No tempo do Império Assírio, os cimérios se achavam no norte do mar Negro. Eles foram expulsos pelos citas, em aproximadamente 700 a.C., e estes, pelos sármatas, por volta de 200 a.C, sendo seguidos pelos alamanos, cem anos depois.
Cerca de 300 d.C, os hunos chegaram do leste. Eles eram, até então, os mais temíveis invasores da Ásia central. Aliás, foi sua chegada que ajudou a empurrar os bárbaros germânicos para o Império Romano. Os germânicos não estavam, assim, se expandindo; estavam fugindo.
Em 451, Átila, o mais poderoso dos monarcas hunos, penetrou até Orleans, na França, e, perto dessa cidade, travou uma batalha não decidida com um exército de romanos e germanos aliados. Esse foi o ponto mais distante jamais atingido por qualquer das tribos centro-asiáticas. Átila morreu no ano seguinte, e seu império desfez-se quase que de imediato.
Seguiram-se os ávaros, os búlgaros, os magiares, os cazares, os pazinacas, os comanos, com estes últimos ainda dominando os ucranianos até 1200. Cada novo grupo de bárbaros fundava reinos que pareciam mais impressionantes no mapa que na realidade, pois todos consistiam numa população relativamente pequena dominando uma maior. Ou o pequeno grupo dominante era expulso por outro pequeno grupo da Ásia central, ou se misturava com o grupo dominado e se civilizava — geralmente ambas as coisas.
Então, em 1162, nasceu na Ásia central um homem chamado Temudjin. Muito lentamente, ele conseguiu ganhar poder primeiro sobre uma das tribos mongóis da Ásia central, depois sobre outra, até que, em 1206, quando tinha quarenta anos de idade, foi proclamado Gengis Khan (“rei muito poderoso”).
Ele agora era o dirigente supremo dos mongóis, que, sob a nova liderança, aperfeiçoaram seu estilo de luta. Seu forte era a mobilidade. Sobre robustos pôneis que raramente precisavam desmontar, engoliam quilômetros e quilômetros, atacavam onde e quando não eram esperados, faziam fanfarronadas e desapareciam antes que os estonteados adversários pudessem mobilizar sua força vagarosa e estúpida para contra-atacar.
O que até então impedira os mongóis de se tornarem imbatíveis fora o fato de estarem se autoguerreando e de não terem um líder que soubesse aproveitar sua potencialidade. Sob o pulso forte de Gengis Khan, contudo, todas as contendas civis cessaram e, nele, os mongóis acharam seu líder militar. Gengis Khan coloca-se, de fato, entre os mais espetaculares cabeças dos anais da história. Somente Alexandre Magno, Aníbal, Júlio César e Napoleão podem justamente ser comparados a ele, e é bem provável que, dentre todos, tenha sido o maior. Ele transformou os mongóis na mais extraordinária máquina militar que o mundo já viu. O terror de seu nome elevou-se tanto que a própria menção de sua chegada bastava para paralisar todos em seu caminho, impossibilitando a resistência.
Antes de morrer, em 1227, Gengis Khan conquistara a metade norte da China e o Império Kharezm, no que é hoje a Ásia central soviética. Mais: ele treinara seus filhos e seus generais para prosseguirem nas conquistas — o que estes fizeram. Seu filho, Ogadai Khan, sucedeu-o no domínio e, sob ele, o resto da China foi subjugado. Entrementes, com Batu, neto de Gengis Khan, e Sabutai, seu melhor general, os exércitos mongóis avançaram para o oeste.
Em 1223, quando Gengis Khan ainda vivia, um ataque mongol na direção do oeste derrotara um exército de aliados russos e comanos, mas foi apenas um ataque. Em 1237, os mongóis afluíram para a Rússia. Em 1240, eles tinham tomado sua capital, Kíev, e praticamente toda a Rússia caiu sob seu controle. Eles se dirigiram à Polônia e à Hungria e, em 1241, derrotaram um exército polonês-germânico em Liegnitz. Atacaram a Alemanha e desceram para o Adriático. Não havia nada que pudesse contê-los e, analisando bem, parecia não haver razão para se supor que eles não conseguiriam abrir caminho até o oceano Atlântico. O que deteve os mongóis foi a notícia de que Ogadai Khan morrera e tinhase que votar seu sucessor. Os exércitos voltaram e, enquanto a Rússia permaneceu sob o domínio mongol, os territórios a oeste ficaram livres. Eles tinham sido bem maltratados — mas só.
Nos reinados dos sucessores de Ogadai, Hulagu, outro neto de Gengis Khan, conquistou o que é hoje o Irã, o Iraque e a porção leste da Turquia. Ele tomou Bagdá em 1258. Finalmente, Kublai Khan (também neto de Gengis) foi entronado em 1257 e, durante um período de 37 anos, governou um Império Mongol que incluía a China, a Rússia, as estepes centro-asiáticas e o Oriente Médio. Era o maior império em terras contínuas que já existira até aquele tempo e, dos impérios posteriores, só o russo, e a União Soviética que o seguiu, pôde rivalizá-lo.