Escolha a Catástrofe
Introdução
Isaac Asimov
ESCOLHA A CATÁSTROFE
Título do original: “A choice of catastrophes” Tradução: Amarilis Eugênia Miazzi Pereira Lima Capa: Irineu Schwab
A Robyn e Bill, possam eles encontrar a face da Fortuna sempre lhes sorrindo
INTRODUÇÃO
A palavra “catástrofe” vem do grego e significa “inverter”, “virar de cabeça para baixo”. Era originalmente usada para descrever o desfecho ou clímax final de uma representação dramática, que poderia, naturalmente, ser tanto feliz como triste.
Numa comédia, o clímax é um desfecho feliz. Após uma torrente de incompreensões e mágoas, tudo se modifica quando os amantes repentinamente se reconciliam e se reúnem.
A catástrofe da comédia é pois um abraço ou um casamento.
Numa tragédia, o clímax é um desfecho triste. Após intermináveis esforços, tudo se inverte quando o herói descobre que o destino e a situação o venceram. A catástrofe da tragédia é, então, a morte do herói.
Já que as tragédias costumam impressionar mais profundamente e ser mais celebrizadas que as comédias, a palavra “catástrofe” acabou sendo associada mais aos finais trágicos do que aos felizes. Conseqüentemente, ela é agora usada para pintar qualquer final de natureza calamitosa - e tal tipo de catástrofe é o tema deste livro.
Um final de quê? De nós mesmos, é claro; da espécie humana. Se considerarmos a história humana como um drama trágico, então o fim da humanidade será uma catástrofe tanto no sentido original como no atual. Mas o que poderia provocar o fim da história humana?
Em primeiro lugar, o universo como um todo poderia sofrer uma mudança em suas características de forma a se tornar inabitável. Se o universo se tornasse letal e se nenhum tipo de vida pudesse aqui existir, então a humanidade também não poderia existir; isso seria algo que poderíamos denominar “catástrofe do primeiro grau”.
Naturalmente, não é necessário que o universo inteiro seja envolvido em algo que, por si só, provoque o fim da humanidade. O universo poderia ser tão benigno quanto o é agora e, mesmo assim, algo poderia acontecer ao Sol de modo a tornar inabitável o sistema solar. Nesse caso, a vida humana poderia extinguir-se apesar de todo o resto do universo prosseguir pacificamente em seu curso normal. Isso seria uma “catástrofe do segundo grau”.
Certamente, embora o Sol pudesse continuar a brilhar, regular e benevolentemente, a Terra poderia sofrer um tipo de convulsão que impossibilitasse a vida nela. Nesse caso, a vida humana poderia extinguir-se mesmo que o sistema solar continuasse com suas rotações e translações rotineiras. Isso seria uma “catástrofe do terceiro grau”.
E mesmo que a Terra permanecesse quente e agradável, algo poderia acontecer nela que causasse a destruição da vida humana, ao mesmo tempo em que pelo menos algumas outras formas de vida fossem poupadas. Nesse caso, a evolução poderia continuar, e a Terra, com uma parcela de vida modificada, poderia florescer — mas sem nós. Isso seria uma “catástrofe do quarto grau”.
Podemos até ir um passo além e apontar a possibilidade de a vida humana continuar, mas ocorrer alguma coisa de forma a destruir a civilização, interromper a marcha do avanço tecnológico e condenar a humanidade a uma vida primitiva — solitária, empobrecida, má, embrutecida e curta — por tempo indefinido. Isso seria uma “catástrofe do quinto grau”.
Neste livro, examinarei todas essas formas de catástrofes, começando pelas do primeiro grau e prosseguindo na seqüência. As catástrofes descritas serão, sucessivamente, menos cósmicas — e sucessivamente mais iminentes e perigosas.
É inútil julgar o quadro assim apresentado como ameaçador, uma vez que é muito possível que não haja catástrofes inevitáveis. E, certamente, a possibilidade de evitá-las aumenta quando nos propomos a encará-las e estimar sua periculosidade.