Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 44 de 68

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Escolha a Catástrofe

11 - a Remoção do Magnetismo

 

RAIOS CÓSMICOS

 

Embora os vários desastres que já envolveram a Terra, das eras glaciais aos terremotos, não tenham sido drásticos o suficiente para eliminar a vida da superfície do planeta, conforme Cuvier e os catastrofistas imaginavam, têm havido quase-catástrofes — ocasiões em que a vida sofreu prejuízos devastadores. No fim do período permiano, há 225 milhões de anos, num curto prazo de tempo, aproximadamente 75 por cento das famílias de anfíbios e 80 por cento das famílias dos répteis sucumbiram. Esse foi um exemplo do que alguns chamam de “morte em massa”.

Desde então, parece ter havido seis dessas mortes em massa. A época mais conhecida nesses termos foi a do final do período cretáceo, há aproximadamente 70 milhões de anos. Naquele tempo, os dinossauros desapareceram totalmente, após haverem proliferado por 150 milhões de anos. O mesmo aconteceu com os grandes répteis marítimos, como os ictiossauros, os plesiossauros e os pterossauros voadores. Dentre os invertebrados, os amonites, que formavam um grupo grande e prolifero, extinguiram-se. Aliás, 75 por cento de todas as espécies animais existentes na época sucumbiram em pouco tempo.

Parece provável que essas mortes tenham acontecido em função de alguma alteração marcante e repentina no ambiente, alteração essa que, porém, poupou muitas espécies e, pelo que podemos afirmar, pouco as abalou.

Uma das explicações lógicas possíveis implica os mares rasos que vez por outra invadem os continentes e eventualmente acabam por recuar. A invasão pode ocorrer quando a massa de gelo em solos polares é pequena; o recuo pode ocorrer durante o período de formação montanhosa, quando a altitude média dos continentes aumenta. De qualquer maneira, os mares rasos oferecem ambiente propício para várias espécies de animais marítimos, os quais, por sua vez, oferecem uma provisão de alimento constante e abundante para os animais que vivem nas regiões litorâneas. Quando os mares recuam, tanto os animais marítimos quanto aqueles que se alimentam deles acabam morrendo.

Em cinco dos sete casos de morte em massa ocorridos nos últimos 250 milhões de anos, a característica comum parece ter sido o recuo marítimo. A explicação também corrobora o fato de que os animais marítimos parecem mais sujeitos à morte em massa do que os animais terrestres, e de que o mundo vegetal parece não ser influenciado.

Embora o recuo marítimo pareça a solução mais lógica e razoável para o problema (e que não encerra motivos de terror para o ser humano, que não vive em mares fechados e que habita um mundo em que não há mares fechados importantes), muitas outras suposições foram oferecidas para explicar as mortes em massa. Uma dessas explicações, embora duvidosa, é de caráter altamente dramático. Além disso, apresenta um tipo de catástrofe que ainda não discutimos e que pode ser uma ameaça à humanidade. Implica certa radiação espacial não oriunda do Sol.

No início do século XX, descobriu-se uma radiação mais penetrante e enérgica que as recém-descobertas radiações provenientes de átomos radioativos. Em 1911, com o propósito de confirmar que essa radiação emanava do solo, o físico austríaco Victor Francis Hess (1883-1964) lançou dispositivos de investigação de radiações em balões a 9 quilômetros de altitude. Ele esperava que o nível de radiação baixasse, pois parte dela seria absorvida pelo ar entre o solo e o balão.

Pelo contrário; resultou que a intensidade da radiação penetrante aumentou com a altitude, de modo que ficou claro que ela provinha do universo externo, ou cosmo. Por essa razão, o físico americano Robert Andrews Millikan (1868-1953) deu em 1925 o nome de “raios cósmicos” a essa radiação. Em 1930, o físico americano Arthur Holly Compton (1892-1962) demonstrou que os raios cósmicos eram partículas com carga positiva e muito energéticas. Agora sabemos como se originam os raios cósmicos.

O Sol e, presumivelmente, todas as estrelas sofrem processos energéticos que pulverizam partículas no espaço. A maioria dessas partículas são núcleos atômicos. Como o Sol é basicamente hidrogênio, os núcleos de hidrogênio, que são prótons simples, representam as partículas mais comuns envolvidas no processo. Outros núcleos mais complexos aparecem em menor quantidade.

Esses prótons energéticos e outros núcleos jorram do Sol em todas as direções, formando o vento solar a que me referi anteriormente.

Quando o Sol passa por eventos altamente energéticos, as partículas são atiradas para fora com mais energia. Quando a superfície solar irrompe em “chamas”, algumas partículas muito energéticas somam-se ao vento solar e podem alcançar os limites inferiores das energias associadas aos raios cósmicos. (Chamam-se “raios cósmicos difusos”.) Outras estrelas lançam ventos estelares; aquelas mais maciças e quentes que o Sol lançam ventos estelares mais ricos em partículas a nível da energia dos raios cósmicos.

Portando carga elétrica, as partículas dos raios cósmicos traçam uma trajetória curva ao penetrarem um campo magnético. Toda estrela tem um campo magnético, e a galáxia como um todo também tem um. Cada partícula de raio cósmico, portanto, percorre uma complexa trajetória curva e, no processo, acelera-se e ganha mais energia ao atravessar os campos magnéticos.

No final, todo o espaço interestelar de nossa galáxia é rico em partículas de raios cósmicos, as quais se movimentam em todas as direções dependendo de como são dirigidas pelo entrelaçamento dos campos magnéticos que atravessam. Uma pequena porcentagem delas tem toda a probabilidade de atingir a Terra, e fazem-no a partir das mais variadas direções.

Defrontamo-nos, assim, com um novo tipo de invasão espacial que ainda não levamos em conta. Já mencionei a improbabilidade de um contato entre o sistema solar e uma estrela, ou da penetração de porções de matéria oriunda de outros sistemas planetários. Já discuti também as partículas de poeira e átomos das nuvens interestelares.

É hora de considerarmos as invasões (oriundas do espaço além do sistema solar) dos menores dentre todos os objetos materiais: as partículas subatômicas. Há tantas delas tão densamente distribuídas pelo espaço e viajando a velocidades tão próximas da da luz que a Terra é constantemente vítima do bombardeamento por parte delas.