Escolha a Catástrofe
9 - a Formação Sedimentar da Crosta
9 — A FORMAÇÃO SEDIMENTAR DA
CROSTA
CALOR INTERNO
Já que parece improvável que grandes corpos do exterior (nem mesmo a Lua) ameacem seriamente a Terra enquanto o Sol permanecer na seqüência principal, vamos deixar o resto do universo de lado um pouco: e concentrar nossa atenção no planeta Terra.
É possível a ocorrência de alguma catástrofe que envolva a própria Terra na ausência de outro corpo intruso? Por exemplo, o planeta pode explodir repentinamente e sem aviso prévio? Ou quebrar-se em dois? Ou sua integridade ser abalada tão drasticamente a ponto de configurar uma catástrofe do terceiro grau, pondo fim ao aspecto de habitabilidade na Terra?
Afinal de contas, a Terra é um corpo excessivamente quente; só sua superfície é moderada.
A fonte original do calor era a energia cinética proveniente do movimento dos pequenos corpos que se acumulavam e se chocavam para formar a Terra, há cerca de 4,6 bilhões de anos. A energia cinética era convertida em calor suficiente para derreter o interior. E o interior da Terra não esfriou desde então. Para começar, as camadas mais externas de rochas são bons isolantes e conduzem o calor muito lentamente. Graças a isso, pouco calor escoa da Terra para o espaço que a circunda.
É claro que uma pequena quantidade escoa, pois não há um isolante perfeito, mas, mesmo assim, não ocorre nenhum resfriamento. Nas camadas mais externas da Terra existem certas variedades de átomos radioativos.
Quatro deles são particularmente importantes: o urânio 238, o urânio 235, o tório 232 e o potássio 40. Estes se rompem muito vagarosamente e, no curso de todos os bilhões de anos de existência terrestre, alguns de cada variedade de átomos permanecem intatos. É verdade que a maior parte do urânio 235 e do potássio 40 já se extinguiu, porém somente se foram metade do urânio 238 e um quinto do tório 232.
Será necessário retomarmos isso, vez por outra, em relação a corpos de pequenas dimensões.
A energia do rompimento se converte em calor e, embora a quantidade de calor produzida pela quebra de um único átomo seja insignificante, o total de calor produzido por inúmeros átomos que se rompem pelo menos compensa a quantidade de calor perdida do interior da Terra. Por conseguinte, a Terra está mais ganhando que perdendo calor.
Será então possível que esse interior, absurdamente quente (e algumas estimativas afirmam que a temperatura no centro chega a 2 700°C), possa produzir uma força de expansão tal que romperá a crosta fria como uma poderosíssima bomba planetária, deixando apenas um cinturão de asteróides onde antes existia a Terra?
Na realidade, o que parece tornar essa possibilidade plausível é o fato de que há um cinturão de asteróides entre as órbitas de Marte e Júpiter. De onde veio esse cinturão? Em 1802, o astrônomo alemão Heinrich W. M. Olbers (1758-1840) descobriu o segundo asteróide, Palas, e imediatamente passou a especular sobre a probabilidade de os dois asteróides, Ceres e Palas, serem pequenos fragmentos de um grande planeta que já havia orbitado entre Marte e Júpiter e tinha explodido. Agora que sabemos existirem dezenas de milhares de asteróides, a maioria deles com menos de 2 quilômetros de lado a lado, aquele pensamento poderia parecer ainda mais plausível.
Outro ponto de evidência que parece apontar nessa direção é representado pelos meteoritos que aterrizam na Terra (e que, acredita-se, originam-se do cinturão de asteróides); cerca de 90 por cento deles são rochosos e 10 por cento, de níquel e ferro. Isso leva à suposição de que sejam fragmentos de um planeta com um centro de níquel e ferro e um manto rochoso envolvente.
A Terra tem essa composição, com seu centro consistindo em 17 por cento do volume do planeta. Marte é um pouco menos denso que a Terra e deve, portanto, ter um centro (a parte mais densa do planeta) menor que o da Terra, em proporção ao resto do planeta. Se o planeta explodido fosse como Marte, isso explicaria a proporção de meteoritos rochosos e níquel-ferrosos.
Há mesmo aproximadamente 2 por cento dos meteoritos rochosos que são “condritos carbonados” e contêm quantidades significativas de elementos leves — até água e compostos orgânicos, que poderiam ser concebidos como tendo se originado na camada mais externa da crosta do planeta explodido.
E, contudo, essa teoria da origem explosiva dos asteróides, mesmo que pareça tão adequada, não é aceita pelos astrônomos. A melhor estimativa que temos da massa total dos asteróides é que ela chega a aproximadamente um vigésimo da da Lua. Se todos os asteróides fossem um só corpo, ele teria um diâmetro de cerca de 1 600 quilômetros. Quanto menor o corpo, menos calor em seu centro e menos razão para explodir. Parece extremamente improvável que um corpo com dimensões de um satélite médio pudesse explodir.
Parece muito mais provável que, enquanto Júpiter crescia, era tão eficiente em arrebatar para si a massa adicional das vizinhanças (graças à sua massa já grande) que deixou muito pouco no que agora é o cinturão de asteróides para acumulação e formação de um planeta. Realmente, deixou tão pouco que Marte não pôde crescer tanto quanto a Terra e Vênus. Pois a matéria-prima disponível se esgotara.
Pode ser, então, que a matéria do asteróide sendo pequena demais em massa gerou um campo gravitacional total demasiadamente pequeno para unir tudo num só planeta, especialmente porque os efeitos de marés do campo gravitacional de Júpiter pressionavam em sentido contrário. Em vez disso, pois, vários asteróides de tamanho moderado podem ter-se formado e colisões entre eles podem ter resultado numa enorme população de objetos menores.
O consenso atual diz que os asteróides não são o produto de planeta que explodiu, mas o material de planeta que jamais se formou.
À medida em que não existiu um planeta explodido no espaço entre Marte e Júpiter, temos menos motivos para crer que qualquer outro planeta explodirá. Antes de mais nada, não devemos subestimar o poder da gravidade. Num objeto do tamanho da Terra, o campo gravitacional predomina. A influência expansiva do calor interno está muito aquém do que se requer para que a força gravitacional seja sobrepujada.