Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 52 de 68

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Escolha a Catástrofe

Novas Doenças

Líderes nesse tempo foram os cientistas alemães Max Joseph von Pettenkofer (1818-1901) e Rudolph Virchow (1821-1902). Eles mesmos não acreditavam na teoria dos germes como causadores de doenças; suas recomendações, porém, não teriam sido seguidas tão prontamente se não fosse pelo fato de outros nela acreditarem.

E mais: descobriu-se que doenças como a febre amarela e a malária eram transmitidas por mosquitos; a febre tifóide, por piolhos; a febre das montanhas Rochosas, por carrapatos; a peste bubônica, por pulgas, e assim por diante. Medidas contra esses pequenos organismos transmissores de germes conseguiam reduzir a incidência das enfermidades. Homens como os americanos Walter Reed (1851-1902) e Howard Taylor Ricketts (1871-1910) e o francês Charles J. Nicolle (1866-1936) estavam envolvidos nessas descobertas.

O bacteriologista alemão Paul Ehrlich (1854-1915) foi o pioneiro no uso de produtos químicos específicos que dariam cabo de certas bactérias sem matar o ser humano dentro de quem elas viviam. Sua mais bem-sucedida descoberta deu-se em 1910, quando encontrou um composto de arsênio que era ativo contra a bactéria que causava a sífilis.

Esse tipo de trabalho culminou com a descoberta do efeito bacteriológico de compostos de sulfanilamida e outros análogos, iniciada com o trabalho do bioquímico alemão Gerhard Domagk (1895-1964), em 1935, e dos antibióticos, iniciada com o trabalho do microbiólogo franco-amerícano René Jules Dubos (1901-), em 1939.

Em 1955 (já tardiamente!), veio a vitória sobre a poliomielite, graças a uma vacina preparada pelo microbiólogo americano Jonas Edward Salk (1914-).

E mesmo assim a vitória não é total e geral. Exatamente agora, a antes terrivelmente fatal moléstia da varíola parece ter desaparecido. Pelo que se sabe, não existe um só caso em todo o mundo. Entretanto, existem doenças infecciosas, como algumas encontradas na África, que são muito contagiosas, virtualmente 100 por cento fatais, e para as quais não há cura.

Medidas higiênicas cuidadosas têm possibilitado o estudo de tais doenças sem sua propagação — e não há sombra de dúvidas de que contramedidas eficazes serão elaboradas.

 

NOVAS DOENÇAS

 

Poderia parecer, pois, que, enquanto nossa civilização sobreviver e nossa tecnologia médica não for prejudicada, não mais restarão riscos de as doenças infecciosas produzirem catástrofes ou mesmo desgraças como a peste negra e a gripe espanhola. Todavia, antigas moléstias conhecidas carregam consigo a potencialidade de originar novas formas.

O corpo humano (e todos os organismos vivos) tem defesas naturais contra a invasão de organismos estranhos. Anticorpos são produzidos na corrente sangüínea para neutralizar toxinas ou os próprios microrganismos.

Os glóbulos brancos na corrente sangüínea atacam fisicamente as bactérias.

Os processos evolutivos geralmente fazem a luta equilibrar-se. Os organismos mais eficazes na autoproteção contra os microrganismos tendem a sobreviver e passar essa capacidade para suas proles. No entanto, os microrganismos são muitíssimo menores e mais fecundos até do que os insetos. Desenvolvem-se muito mais rapidamente, sendo que indivíduos têm mínima importância no cômputo geral.

Considerando os incontáveis números de microrganismos de qualquer dada espécie que continuamente se multiplicam por divisão celular, grandes números de mutações precisam ser produzidos com o mesmo ritmo.

Ocasionalmente, uma dessas mutações pode agir de modo a originar uma doença específica muito mais infecciosa e fatal. Além disso, pode alterar suficientemente a natureza química do microrganismo, de forma a que os anticorpos produzidos pelo organismo hospedeiro percam sua utilidade. O resultado é o súbito e violento assalto de uma epidemia. A peste negra sem dúvida foi originada por uma raça mutante do microrganismo que a causou.

Posteriormente, porém, os seres humanos mais suscetíveis morrem, e os relativamente resistentes sobrevivem, de modo que a virulência das moléstias começa a ceder. Nesse caso, a vitória humana sobre o microrganismo patogênico é permanente? Será que novas raças de germes não poderiam surgir? Poderiam, e surgem. De tempos em tempos, uma nova variedade de gripe surge para nos importunar. É possível, todavia, produzir vacinas contra cada nova variedade logo após seu aparecimento. Assim, quando um único caso da “gripe suína” apareceu em 1976, um programa de vacinação em massa foi posto em ação a todo o vapor. No fim, tal medida nem teria sido necessária, mas mostrou o que poderia ser feito.

É claro que a evolução também funciona na direção oposta. O uso indiscriminado de antibióticos tende a eliminar os microrganismos mais fortes, enquanto os relativamente resistentes podem escapar. Estes se multiplicam, e uma raça resistente e impossível de ser controlada pelos anticorpos surge. Assim, é como se estivéssemos criando novas doenças no próprio ato de estancar as antigas. No entanto, os seres humanos podem contra-atacar usando maiores doses de velhos antibióticos ou novos em doses normais.

Ter-se-ia a impressão de que pelo menos podemos nos agüentar em pé, o que significa que estamos bem à frente do jogo se considerarmos a situação de duzentos anos atrás. Entretanto, será possível que os seres humanos possam ser atingidos por uma doença tão estranha e fatal que não possibilite qualquer defesa, causando a extinção humana? Particularmente, qual a probabilidade de uma “peste espacial” se nos apresentar como foi postulado no famoso romance de Michael Crichton, O enigma de Andrômeda?

Prudentemente, a NASA leva isso em conta. Sempre tomam o cuidado de esterilizar os objetos que enviam para outros planetas, para minimizar a possibilidade de espalhar em solo estranho microrganismos terrestres, prejudicando, assim, o possível estudo de microrganismos nativos do planeta visitado. E também põem os astronautas em quarentena após seu retorno da Lua, até certificarem-se de que não pegaram nenhuma infecção lunar.

Mas isso parece ser uma precaução desnecessária. Na realidade, a probabilidade de haver vida, mesmo microrganísmica, em qualquer outro lugar do sistema solar parece pequena e, a cada novo dado obtido por investigações dos corpos celestes, parece diminuir ainda mais. Mas que dizer da vida fora do sistema solar? Aqui está uma outra invasão do espaço interestelar que ainda não foi discutida: a chegada de formas estranhas de vida microscópica.

O primeiro a examinar essa possibilidade com objetividade científica foi o químico sueco Svante August Arrhenius (1859-1927). Ele estava interessado no problema da origem da vida. Sua idéia era a de que a vida bem que podia estar presente em partes diversas do universo e se podia espalhar como que por infecção.

Em 1908, ele sugeriu que esporos bacterianos poderiam ser levados para a camada mais alta da atmosfera pelos ventos errantes e que alguns também poderiam escapar da Terra, de modo que esta (e, presumivelmente, qualquer outro planeta-berço da vida) deixaria em seu rastro uma aspersão de esporos geradores de vida. Isso é denominado “panspermia”.

Os esporos, segundo Arrhenius, poderiam suportar o frio e a ausência de ar no espaço durante períodos muito longos. Eles seriam conduzidos para longe do Sol e fora do sistema solar por pressão de radiação (hoje, diríamos: pelo vento solar). E poderiam, algum dia, chegar a um outro planeta.

Arrhenius sugeriu que esses esporos poderiam ter atingido a Terra num tempo em que a vida ainda não se tinha formado aqui — que a vida terrestre era o resultado de chegada de tais

esporos e que todos nós descendemos daqueles esporos{49}.

Se é assim, a panspermía não pode estar funcionando também hoje?

Não haverá esporos ainda chegando aqui — talvez exatamente neste momento? Será que alguns deles não seriam capazes de dar origem a doenças? A peste negra não poderia ter sido produzida por esporos estranhos? Será que eles poderiam produzir uma peste negra pior amanhã?

Uma falha de muito peso nessa linha de argumentação, falha não apreensível em 1908, é de que, embora os esporos sejam insensíveis ao frio e ao vácuo, são muito sensíveis a radiações energéticas como as da luz ultravioleta. Eles provavelmente seriam destruídos pela radiação de sua própria estrela se liberados por algum planeta longínquo e, se sobrevivessem a isso de algum modo, seriam destruídos pelos raios ultravioleta de nosso Sol mesmo antes de se aproximarem o suficiente para penetrar na atmosfera terrestre.

Todavia, não existiriam alguns esporos que fossem relativamente resistentes ao ultravioleta ou que tivessem tido a sorte de escapar a eles? Se assim for, talvez não se precise postular planetas longínquos geradores de vida (porque não há provas disso, embora as probabilidades a favor pareçam enormes) como a fonte. Que dizer das nuvens de poeira e gases que existem no espaço interestelar e podem agora ser estudadas detalhadamente?

Na década de 30, reconheceu-se que o espaço ínterestelar continha uma finíssima aspersão de átomos elementares (predominantemente o hidrogênio) e que as nuvens interestelares de poeira e gases deviam ter uma aspersão algo mais espessa. Mas os astrônomos admitiram que, mesmo com a maior espessura, essas aspersões consistiam em átomos. A fim de se produzirem combinações de átomos, dois deles teriam que se chocar e não se considerava isso um evento possível.

Ademais, se as combinações de átomos fossem formadas, então, para serem detectadas, elas teriam que estar entre nós e uma estrela brilhante e absorver um pouco da luz daquela estrela num comprimento de onda característico cuja perda poderíamos detectar — e estar presentes em quantidade tal que a absorção seria suficientemente forte para ser detectada.

Isso também parecia improvável.

Em 1937, contudo, esses requisitos foram preenchidos, e uma combinação de carboidrogênio (CH, ou “radical metilideno”) e uma combinação de carbono e nitrogênio (CN, ou “radical cianogênio”) foram desenvolvidas.

Após a Segunda Guerra Mundial, entretanto, a radioastronomia foi desenvolvida, tornando-se um novo e poderoso instrumento para aquele propósito. Na variação de luz visível, determinadas combinações atômicas podiam ser detectadas apenas por sua característica absorção de luz estelar.

No entanto, átomos elementares pertencentes a essas combinações torcem-se, giram e vibram — e estes movimentos emitem ondas de rádio que podiam então ser detectadas com grande precisão. Cada diferente combinação atômica emitia ondas de rádio de comprimentos característicos, de que se tinha conhecimento através de experimentações em laboratório; dessa forma, a combinação atômica específica podia ser identificada sem margem de erro.

Em 1963, não menos de quatro comprimentos de onda de rádio, todos característicos da combinação de oxigênio e hidrogênio (H, ou “radical hidroxil”), foram detectados.

Até 1968, somente aquelas três combinações de dois átomos (CH, CN e OH) eram conhecidas — o que já era surpreendente. Ninguém concebia a existência de combinações de três átomos, já que era desejar demais (em termos de probabilidade) que dois átomos se chocassem e se unissem para, então, um terceiro átomo se chocar contra ambos.

Em 1968, contudo, a molécula de água, composta por três átomos (H2O), foi detectada em nuvens interestelares por sua característica radiação de ondas de rádio, bem como a molécula de amônia (composta por quatro átomos, o NH ). Desde então, a lista de produtos químicos conhecidos cresceu rapidamente, chegando-se a encontrar combinações de até sete átomos. O mais importante é que todas as combinações mais complexas envolvem o átomo do carbono, levantando a suspeita de que mesmo moléculas tão complexas como os aminoácidos protéicos possam existir no espaço, embora em quantidades pequenas demais para serem detectadas.

Se formos tão longe, será possível que formas bem simples de vida se desenvolvam nessas nuvens interestelares? Aqui nem temos que nos preocupar com a luz ultravioleta, porque as estrelas podem estar muito longe e a poeira das nuvens pode, ela mesma, servir de escudo protetor.

Nesse caso, seria possível que a Terra, ao atravessar essas nuvens, pudesse apanhar alguns desses microrganismos (protegidos da radiação ultravioleta solar pelas partículas de poeira circundantes) e que estes pudessem produzir alguma doença completamente estranha a nós e contra a qual não teríamos como nos defender, de modo que terminaríamos todos por morrer?

O astrônomo Fred Hoyle chegou bem perto dessa resposta. Ele toma em consideração os cometas, que, sabidamente, contêm combinações de átomos bem parecidas com as das nuvens interestelares, e nos quais a matéria está muito mais densamente concentrada do que nas nuvens interestelares, e que, quando próximos do Sol, liberam uma extensa nuvem de poeira e gases que é direcionada para fora pelo vento solar numa longa cauda.

Os cometas estão muito mais perto da Terra do que as nuvens interestelares, e é muito mais provável que a Terra atravesse a cauda de um cometa do que uma nuvem interestelar. Em 1910, como já mencionado anteriormente, a Terra atravessou a cauda do cometa de Halley.

Uma cauda de cometa é tão fina e semelhante a um vácuo que lhe é impossível causar-nos grandes danos, como interferir na movimentação da Terra ou poluir sua atmosfera. Será que, no entanto, nós poderíamos apanhar alguns estranhos microrganismos, que, depois de se multiplicarem e talvez sofrerem mutações devidas ao novo ambiente, pudessem nos atacar com efeito letal?

Por exemplo, será que a gripe espanhola de 1918 nasceu da passagem pela cauda do cometa de Halley? Será que outras grandes epidemias foram produzidas dessa maneira?

Se assim for, será que uma nova passagem no futuro poderá produzir uma nova doença, mais fatal que qualquer outra, confrontando-nos com a catástrofe imprevisivelmente?

Na verdade, tudo isso parece altamente improvável. Mesmo que os compostos formados em nuvens interestelares ou em cometas sejam suficientemente complexos para serem vivos, quais as possibilidades de possuírem exatamente as qualidades necessárias para atacar os seres humanos (ou quaisquer outros organismos terrestres)?

Lembremo-nos de que somente uma minúscula fração de todos os microrganismos é patogênica e causa enfermidades. Dentre estes últimos, a maioria provoca doenças em apenas um organismo específico ou em um pequeno grupo de organismos, fora dos quais são totalmente inofensivos.

(Por exemplo, nenhum ser humano precisa temer a doença do olmo holandês — aliás, nem um carvalho precisa. E nem um olmo ou um carvalho precisam temer um resfriado.)

A realidade dos fatos é que, para um microrganismo ser capaz de causar doenças num hospedeiro específico, ele deve estar completamente adaptado a essa tarefa. Para um organismo estranho, formado por acaso nas profundezas do espaço interestelar ou num cometa, o fato de ser química e fisiologicamente adaptado ao bem-sucedido parasitismo num ser humano parece fora de questão.

E, mesmo assim, o perigo das doenças infecciosas em nova e inesperada forma não é inteiramente irreal. Teremos mais tarde outras ocasiões de retomar este assunto e considerá-lo sob um prisma totalmente diferente.