Escolha a Catástrofe
Vulcões
É lógico que, se duas placas são separadas à força, as outras extremidades delas devem ser empurradas sobre as placas vizinhas. Quando duas placas são pressionadas uma contra a outra vagarosamente, surge um enrugamento e formam-se cadeias montanhosas. Se são pressionadas mais rapidamente, uma escorrega por baixo da outra, atinge regiões quentes e derrete. O fundo do mar é pressionado para baixo para formar “fossas”.
Toda a história da Terra pode ser verificada pela tectônica, estudo que, subitamente, se tornou o dogma central da geologia, assim como a evolução é o dogma central da biologia e o atomismo é o da química. Com as placas tectônicas separando-se aqui e unindo-se ali, montanhas se erguem, fossas se aprofundam, oceanos se ampliam, continentes se distanciam e se reúnem.
Ocasionalmente os continentes se agrupam numa única e gigantesca massa de terra e então se dividem novamente, repetidas vezes. A última vez em que, parece, Pangéia se formou foi há 225 milhões de anos, quando os dinossauros apenas começavam a evoluir, e principiou a se romper há cerca de 180 milhões de anos.
VULCÕES
Pensar-se-ia, assim, que o movimento das placas tectônicas não é capaz de constituir um fenômeno catastrófico, já que é tão vagaroso. Através da história, o desvio dos continentes jamais teria sido percebido se não fosse pelas mensurações científicas meticulosíssimas que foram realizadas.
Entretanto, a movimentação das placas produz efeitos ocasionais que não as modificações nos mapas, efeitos esses súbitos e localmente calamitosos.
As linhas ao longo das quais as placas se encontram representam o equivalente de rachaduras na crosta terrestre e são chamadas de “falhas”.
Essas falhas não são linhas simples; elas apresentam todos os tipos de ramificações. As falhas são pontos fracos através dos quais o calor e as rochas derretidas das camadas mais inferiores da crosta podem, em alguns lugares, abrir caminho para a emersão. O calor pode se fazer sentir um tanto benigno por aquecer as águas do solo e produzir ventos de vapor ou fontes de águas quentes. Às vezes a água é aquecida até a pressão atingir um ponto crítico que, ultrapassado, provoca a erupção abrupta de uma massa dela. Aí, volta a calmaria, enquanto o reservatório subterrâneo é realimentado e reaquecido para a próxima erupção. É o que se
chama um gêiser{39}.
Em algumas áreas, o efeito do calor é mais drástico. Rochas derretidas brotam e se endurecem. Grandes porções de rochas derretidas jorram através do montículo de rocha solidificada, aumentando ainda mais a sua altura.
Finalmente, tem-se uma montanha, edificada com uma passagem central pela qual a rocha derretida, “lava”, sobe e se deposita, solidificando-se em períodos mais ou menos longos e, então, derretendo novamente.
É o “vulcão”, que pode ser ativo ou inativo. Às vezes, um vulcão específico é mais ou menos ativo por longos períodos, após o quê, como em qualquer doença crônica, deixa de ser muito perigoso. Ocasionalmente, quando, por alguma razão, eventos subterrâneos elevam o nível de atividade, a lava cresce e transborda. Aí, rios de lava vermelho-incandescente descem as encostas do vulcão e, às vezes, avançam até os locais povoados, que precisam, então, ser evacuados.
Muito mais perigosos são os vulcões que, por certos períodos, são inativos. A passagem central, pela qual a lava subia no passado, se solidifica por completo. Se lá não houvesse mais qualquer outra atividade, tudo estaria bem. Acontece, todavia, que, de vez em quando, as condições subterrâneas, após um longo lapso de tempo, começam a produzir um excesso de calor. A lava que se forma embaixo é então represada pela lava solidificada em cima.
A pressão cresce e, por fim, o topo do vulcão é rompido violentamente.
Segue-se um mais ou menos inesperado jorro de gás, vapor, rochas sólidas e lava incandescente. Aliás, se alguma água foi represada sob o vulcão e se ela se transformou em vapor devido à enorme pressão, o topo inteiro do vulcão pode estourar, produzindo uma explosão muitíssimo superior a qualquer outra com que os homens pudessem lidar, mesmo nestes dias de bombas nucleares.
Pior ainda, um vulcão inativo pode dar a impressão de ser totalmente inofensivo. Pode não ter deixado vestígios de atividade na memória dos seres humanos, e o solo, vindo das profundezas, é comparativamente jovem, e em geral muito fértil. A área, assim, atrai as povoações humanas, e quando a erupção vem (caso venha) os resultados podem ser fatais.
Há, no mundo, 455 vulcões ativos conhecidos por suas erupções na atmosfera. Talvez outros oitenta sejam submarinos. Cerca de 62 por cento dos vulcões ativos se acham à margem do oceano Pacífico, e três quartos deles nas costas oeste das cadeias de ilhas que beiram a costa pacífica asiática.
Isto é, às vezes, chamado de “círculo de fogo”, que diziam ser a marca não cicatrizada da porção terrestre que, em tempos imemoriais, se dissolveu para formar a Lua. Não mais se aceita isso como possibilidade; segundo os cientistas, o círculo de fogo meramente assinala a fronteira entre a placa pacífica e as outras placas (a leste e a oeste). Outros 17 por cento dos vulcões aparecem ao longo do braço insular da Indonésia, que marca o limite entre as placas eurasiana e australiana. Outros 7 por cento se situam ao longo de uma linha mediterrânea leste —oeste, que traça a demarcação entre as placas eurasiana e africana.
A erupção vulcânica mais conhecida na história ocidental é a do Vesúvio, no ano 79 d.C. O Vesúvio é um vulcão de aproximadamente 1,28 quilômetro de altura, que se situa a cerca de 15 quilômetros a leste de Nápoles. Desconhecia-se, na Antigüidade, o fato de ser ele um vulcão, pois, na memória humana, fora sempre inativo.
Então, em 24 de agosto de 79, ele entrou em atividade. O fluxo de lava e as nuvens de fumaça, gases e vapores nocivos destruíram completamente as cidades de Pompéia e Herculano, na encosta sudeste do Vesúvio.. Porque isso aconteceu no apogeu do Império Romano, porque foi descrito dramaticamente por Plínio, o Jovem (cujo tio, Plínio, o Velho, faleceu na erupção enquanto tentava assistir ao cataclismo de perto), e porque as escavações das cidades soterradas, iniciadas em 1709, revelaram uma comunidade suburbana romana, que, metaforicamente falando, tinha ficado em suspensão, este incidente é a sinopse das erupções vulcânicas. Ele, porém, nada representa no que se refere a destruições.
A ilha da Islândia, por exemplo, é particularmente vulcânica, já que repousa sobre a cordilheira centro-oceânica, nos limites entre as placas norte-americana e eurasiana. Essa ilha está realmente sendo rompida, à medida em que o fundo do mar do Atlântico continua a se
espalhar{40}.
Em 1783, o vulcão Laki, no centro-sul da Islândia, 190 quilômetros a leste de Reykjavik, a capital islandesa, começou a entrar em ação. Durante o espaço de dois anos, a lava cobriu uma área de 580 quilômetros quadrados. O dano direto foi pequeno, mas as cinzas vulcânicas se espalharam tanto que chegaram a atingir a Escócia, 800 quilômetros a sudeste, com tal concentração que as safras daquele ano foram arruinadas.
Na própria Islândia, a fumaça e as emanações dizimaram três quartos de todos os animais domésticos e inutilizaram, pelo menos temporariamente, as poucas terras agrícolas existentes na ilha. Resultado: 10 000 pessoas, um quinto da população da ilha, morreram de fome ou doenças.
Danos maiores podem acontecer em centros de maior concentração populacional. Consideremos o vulcão Tambora, na ilha indonésia de Sumbawa, a leste de Java. Em 1815, Tambora tinha 4 quilômetros de altura.
Em 7 de abril do mesmo ano, contudo, a lava contida rompeu e arrasou o quilômetro superior do vulcão. Talvez uns 150 quilômetros cúbicos de matéria foram liberados naquela erupção
— a maior massa de matéria atirada à atmosfera nos tempos modernos{41}. A chuva direta de rochas e fumaça matou 12 000 pessoas, e a destruição de terras agrícolas e animais domésticos levou à morte, por inanição, outras 80 000 pessoas em Sumbawa e na ilha vizinha de Lombok.
No hemisfério ocidental, a erupção mais terrível dos tempos registrados pela história deu-se em 8 de maio de 1902. O monte Pelée, na extremidade noroeste da ilha de Martinica, era conhecido como um vulcão que só dava pequenos soluços de tempos em tempos; nesse dia, porém, produziu-se uma gigantesca explosão. Um rio de lava e uma nuvem de gases quentes derramaram-se a grande velocidade pelas encostas do vulcão, assolando a cidade de Saint Pierre e dizimando sua população. Ao todo, cerca de 38 000 pessoas foram vitimadas. Um homem, preso num cárcere subterrâneo da cidade, mal e mal sobreviveu.
Entretanto, a maior explosão dos tempos modernos ocorreu na ilha de Krakatoa. Não muito grande, essa ilha tinha uma área de 45 quilômetros quadrados, um pouco menor que Manhattan. Situa-se no estreito de Sunda, entre Sumatra e Java, 840 quilômetros a oeste do Tambora.
O Krakatoa não parecia particularmente perigoso. Houvera uma erupção em 1680, mas de pequenas proporções. Em 20 de maio de 1883, notou-se considerável atividade, que se enfraqueceu sem causar muitos estragos, e daí em diante continuou num tipo de ribombo surdo. Então, às dez horas da manhã de 27 de agosto, uma tremenda explosão virtualmente arrasou a ilha. Apenas 21 quilômetros cúbicos de matéria foram atirados ao ar — bem menos que a exagerada cifra atribuída à erupção do Tambora, 68 anos antes, mas o que foi atirado recebeu um impulso muitíssimo mais potente.
Uma área de 800 000 quilômetros quadrados foi coberta por cinzas e viveu a escuridão por dois dias e meio. A poeira atingiu a estratosfera e se espalhou por toda a Terra, propiciando poentes espetaculares durante dois anos. O ruído da explosão foi ouvido à distância de milhares de quilômetros, algo como um terço do globo, e a sua força correspondeu a 26 vezes a da maior bomba H já detonada.
A explosão provocou um tsunami (“macaréu”), que cobriu as ilhas vizinhas e se fez sentir menos catastroficamente por todo o oceano. Toda a vida de todas as espécies em Krakatoa foi dizimada e o tsunami, à medida em que convergia para baías onde alcançava altitudes de até 36 metros, acabou com 163 povoações e matou quase 40 000 pessoas.
Do Krakatoa foi dito ter ele sido o mais alto estrondo ouvido na face da Terra em tempos históricos. Errado. Houve um ainda mais alto.
No mar Egeu há uma ilha, Thira, cerca de 230 quilômetros a sudeste de Atenas. Tem o formato de lua crescente, com o lado aberto para oeste.
Entre as duas pontas localizam-se duas ilhotas. O todo parece ser, e é, o círculo de uma larga cratera vulcânica. A ilha de Thira é vulcânica e sofre constantes erupções; recentes escavações, porém, demonstram que, por volta de 1470 a.C, a ilha era consideravelmente maior que hoje e nela se localizava um ramo próspero da civilização minóica, cujo centro estava na ilha de Creta, 105 quilômetros ao sul de Thira.
Naquele ano, porém, Thira explodiu como aconteceria com o Krakatoa 33 séculos mais tarde, só que com intensidade cinco vezes maior.
Como em Krakatoa, tudo em Thira foi destruído, mas o tsunami formado (com alturas de até 50 metros, em algumas baías) arremessou-se contra Creta, dando cabo de toda a civilização
minóica {42}.
Levou quase mil anos para a civilização grega que se desenvolvia equiparar o nível de sua cultura ao alcançado antes da explosão.
Sem dúvida, a explosão de Thira não matou tantas pessoas quanto a do Krakatoa ou a do Tambora, porque, naqueles dias, a Terra era bem menos densamente povoada. Entretanto, a explosão de Thira tem o triste marco distintivo de ter destruído não uma cidade ou um agrupamento delas, mas toda uma civilização.
Ela se distingue, também, por um aspecto um tanto romântico. Os egípcios fizeram relatos dessa explosão, possivelmente de forma confusa, os quais, mil anos depois, retomados pelos gregos, provavelmente sofreram maiores distorções. Essas, transformadas em lendas, aparecem em dois dos diálogos de Platão.