Escolha a Catástrofe
10 - a Mudança do Tempo
AS ESTAÇÕES
Mesmo se admitirmos a existência de um Sol perfeitamente seguro e de uma Terra perfeitamente estável, há alterações periódicas à nossa volta que podem constringir nossa capacidade e a das coisas vivas em geral de permanecer vivas. Pelo fato de a Terra ser aquecida pelo Sol de forma irregular, graças a seu formato esférico e ao fato de seu eixo ser inclinado, a sua distância do Sol varia à medida em que percorre a órbita elíptica.
Conseqüentemente, a temperatura média em qualquer dado setor da Terra sobe e cai no decorrer do ano, o qual é, portanto, dividido em estações.
Nas zonas temperadas, temos um verão notadamente quente e um inverno igualmente frio, com ondas de calor no primeiro e neve no último, e as estações intermediárias, a primavera e o outono. As diferenças nas estações são menos aguçadas quanto mais nos aproximamos do equador, pelo menos em termos de temperatura. Mas mesmo nas regiões dos trópicos, onde as diferenças de temperatura ao longo do ano não são grandes e o verão é eterno, há temporadas de chuvas e secas.
As diferenças nas estações são mais perceptíveis quanto mais nos aproximamos dos pólos. Com o Sol baixo, os invernos ficam mais severos e os verões, mais breves e menos quentes, até que nos pólos propriamente ditos se façam os dias e noites legendários, cada um durando seis meses com o Sol à beira do horizonte, logo acima ou abaixo dele, respectivamente.
Naturalmente, como bem sabemos, as estações do ano não apresentam mudanças brandas de temperatura. Há extremos que às vezes atingem intensidades desastrosas. Há períodos, por exemplo, em que as chuvas são escassas por longo período, resultando em secas que causam a perda de safras. Já que a população de zonas agrícolas tende a crescer enquanto as colheitas são prósperas, sempre uma seca é seguida de uma extrema escassez de víveres.
Em épocas pré-industriais, quando o transporte a longas distâncias era difícil, a escassez de gêneros alimentícios em certa província poderia chegar a extremos, apesar de a província vizinha ter estoque de alimentos. Mesmo nos tempos modernos, milhões morreram de fome vez por outra. Em 1877 e 1878, 9,5 milhões de pessoas morreram numa crise dessas na China e 5 milhões na União Soviética, após a Primeira Guerra Mundial.
Tais crises deveriam ser mais raras agora, pois é possível, por exemplo, transportar o trigo americano para a índia com rapidez, em caso de necessidade. No entanto, ainda há problemas. Entre 1968 e 1973, houve uma seca no Sahel, região da África ao sul do deserto do Saara, e 250 000 pessoas morreram de inanição, enquanto outros milhões chegaram à beira da morte.
Por outro lado, há períodos em que as chuvas são muito mais intensas que o normal e, na pior das hipóteses, isso pode causar a destruição por inundações. Estas são particularmente destrutivas nas terras planas e povoadas que ladeiam os rios chineses. O Huang-ho, ou rio Amarelo (também chamado “Mágoa da China”), já inundou no passado e matou centenas de milhares de pessoas. Uma enchente do Huang-ho em agosto de 1931 parece ter afogado 3,7 milhões de pessoas.
Às vezes, a enchente do rio não destrói tanto quanto os ventos violentos que acompanham a tempestade. Nos furacões, ciclones, tufões, etc. (os mais variados nomes são dados a ventos que redemoinham rapidamente), a combinação de vento com água pode ser mortal.
Muitos danos ocorrem na baixada do rio Ganges, em Bangladesh, onde, em novembro de 1970, perto de 1 milhão de pessoas morreram sob o açoite de um ciclone que impeliu o mar para a terra. Pelo menos quatro outras tempestades na década anterior haviam, cada uma, vitimado 10 000 pessoas ou mais, em Bangladesh.
Onde quer que o vento se combine com neve sob as baixas temperaturas de inverno, formando nevascas, a mortandade é menor, posto que tais tempestades só ocorrem em áreas polares e subpolares, onde a população é escassa. No entanto, de 11 a 14 de março de 1888, uma nevasca de três dias no nordeste dos Estados Unidos matou 4 000 pessoas, e uma tempestade de granizo matou 246 pessoas em Moradabad, na Índia, em 30 de abril do mesmo ano.
A tempestade mais drástica é o tornado, que consiste em ventos redemoinhados com velocidade de até 480 quilômetros por hora. Pode destruir literalmente tudo por onde passa, mas tem o mérito especial de ser de curta duração. Mesmo assim, cerca de mil deles aparecem nos Estados Unidos por ano, principalmente nas regiões centrais, e o índice de mortalidade não é pequeno. Em 1925, 689 pessoas foram mortas por tornados nos Estados Unidos.
Tanto essas quanto outras manifestações extremadas do clima só se podem qualificar como calamidades, mas não como uma catástrofe.
Nenhuma delas ameaça a vida nem as civilizações, como um todo. A vida tem se adaptado a essas estações. Há organismos adaptados aos trópicos, aos desertos, à tundra, às florestas chuvosas, e a vida pode sobreviver a esses extremos, embora possa desgastar-se um pouco no processo.
Porém, será possível que as estações possam alterar sua natureza e eliminar toda forma de vida, ou parte dela, mediante um inverno prolongado ou uma seca prolongada? Será que a Terra pode se transformar em um Saara ou uma Groenlândia planetários? A experiência histórica tende a responder que não.
Houve algumas oscilações no pêndulo. Por exemplo, durante o mínimo Maunder, no século XVII, a temperatura média estava abaixo do normal — mas não o bastante para ameaçar a vida. Podemos ter uma série de verões secos, ou de invernos moderados, ou primaveras tempestuosas, ou outonos úmidos, mas as coisas sempre se invertem e nada se torna insuportável.
Nos últimos séculos, a ocasião em que a Terra experimentou a maior aberração climática foi em 1816, o ano seguinte à tremenda explosão vulcânica em Tambora. Tanta poeira foi erguida rumo à estratosfera que uma quantidade incomum de radiação solar foi lançada de volta ao espaço e impedida de atingir a superfície terrestre. O resultado foi o mesmo que obscurecer ou resfriar o Sol, o que veio a apelidar 1816 de “o ano sem verão”. Na Nova Inglaterra nevou pelo menos uma vez por mês, inclusive em julho e agosto.
Logicamente, caso isso tivesse persistido ano após ano, o resultado teria sido catastrófico, mas a poeira assentou e o clima voltou ao normal.
Suponhamos, contudo, que voltássemos a épocas préhistóricas. Houve algum período em que o clima atingiu índices mais extremos do que hoje? A ponto de ser catastrófico? Naturalmente, jamais a ponto de extinguir a vida, pois os seres vivos ainda povoam a Terra em profusão — mas será que teria se extremado a ponto de causar problemas que uma vez reincidentes ameaçariam a vida?
O primeiro indício de que pelo menos houve essa possibilidade surgiu em fins do século XVIII, quando a geologia moderna nascia. Alguns aspectos da superfície terrestre começavam a se mostrar confusamente paradoxais à luz da nova geologia. Aqui e acolá encontravam-se seixos de natureza diversa do fundo rochoso. Em outros locais, havia depósitos de areia e pedregulho que pareciam não combinar. A explicação natural, na época, era a de que tais ocorrências eram devidas ao Dilúvio de Noé.
Em muitos lugares, entretanto, as rochas expostas estavam cobertas de estrias paralelas, antigas e desgastadas, que poderiam ter sido causadas pelo atrito entre rochas. Porém, nesse caso, algo teria que ter juntado uma rocha à outra com muita força e ainda restar força para esfregá-las uma contra a outra. A água sozinha não seria capaz disso; mas se não foi a água, o que pode ter sido?
Na década de 1820, dois geólogos suíços, Johann H. Charpentier (1786-1855) e J. Venetz, estudaram o assunto. Eles conheciam bem os Alpes suíços e sabiam que as geleiras, ao derreter e escoar no verão, depositavam areia e pedregulho. Será que a areia e o pedregulho teriam sido carregados morro abaixo e que a geleira desempenhava essa tarefa por moverse como um rio muito lento? Será que as geleiras poderiam levar grandes rochas, além da areia e do pedregulho? E se as geleiras fossem muito maiores naquele tempo, será que elas poderiam ter arrastado seixos sobre as rochas causando as estrias? E daí, se as geleiras carregassem areia, pedregulhos, seixos e rochas para além dos limites a que chegam hoje, elas poderiam afastar-se e deixar a matéria para trás, em lugares de que elas não fizessem parte?
Charpentier e Venetz afirmaram que foi isso que aconteceu.
Sugeriram que as geleiras dos Alpes tinham sido maiores e mais extensas em tempos passados, e que as rochas isoladas no norte da Suíça haviam sido carregadas até lá por enormes geleiras oriundas das montanhas sulinas no passado, e lá foram deixadas quando as geleiras se afastaram e decresceram.
A teoria de Charpentier-Venetz não foi levada a sério no início, pois os cientistas em geral duvidavam que as geleiras escoassem como rios. Um dos céticos foi um jovem amigo de Charpentier, um naturalista suíço, Jean L.R. Agassiz (1807-73). Ele decidiu testar as geleiras para verificar se realmente escoavam. Em 1839, introduziu estacas no gelo a 6 metros de profundidade e, no verão em 1841, descobriu que elas haviam sofrido um distanciamento bastante sensível. Além disso, aquelas que estavam no centro da geleira haviam se deslocado mais do que as colocadas nos lados, onde o gelo se retinha por atrito contra a encosta. O que antes era uma fileira de estacas tornou-se uma curva em U, com as pontas para cima. Isso demonstrou que o gelo não se deslocava de modo uniforme. Em vez disso, havia uma espécie de escoamento maleável, à medida em que o peso do gelo de cima pressionava o gelo restante a se deslocar lentamente, como a pasta de dente no tubo.