Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 25 de 68

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Escolha a Catástrofe

Catástrofes do Terceiro Grau

Parte III

 

CATÁSTROFES DO TERCEIRO GRAU

7 — O BOMBARDEAMENTO DA TERRA

 

OBJETOS EXTRATERRENOS

 

Ao discutir a invasão do sistema solar por objetos do espaço interestelar, concentrei-me na possibilidade de que tais objetos pudessem afetar o Sol, já que qualquer interferência grave na integridade ou propriedades do Sol forçosamente teria efeito fatal sobre nós.

Mais sensível do que o Sol a tal desventura é a própria Terra. Um objeto interestelar passando através do sistema solar poderia ser pequeno demais para afetar o Sol significativamente, a não ser no caso de uma colisão direta e, às vezes, nem mesmo isso. Porém, esse mesmo objeto, se invadisse as vizinhanças da Terra, ou colidisse com ela, poderia acarretar uma catástrofe.

É hora, então, de considerarmos as catástrofes do terceiro grau — aqueles possíveis eventos que afetarão a Terra de modo a torná-la inabitável, embora o universo, e mesmo o resto do sistema solar, permaneçam intatos.

Consideremos, por exemplo, o caso de um miniburaco negro invasor de dimensões comparativamente grandes — digamos, com uma massa comparável à da Terra. Esse objeto, se não atingisse o Sol, não lhe causaria nenhum dano, embora ele mesmo pudesse, talvez, ter sua órbita drasticamente mudada pelo campo gravitacional do Sol1 .

Se, no entanto, tal objeto passasse perto da Terra, poderia produzir efeitos desastrosos, mesmo sem ter qualquer contato direto, unicamente por causa da influência de seu campo gravitacional sobre nós.

1 Ele poderia até mesmo (apesar de isso não ser provável) ser capturado pelo Sol e passaria a orbitar em torno deste. Essa órbita provavelmente seria eclíptica e muito excêntrica. Com sorte, ela não perturbaria apreciavelmente os outros corpos do sistema solar, inclusive a Terra, embora se tornasse um vizinho permanente extremamente incômodo.

É bem improvável, contudo, que um grande miniburaco negro seja um membro do sistema solar. Os reduzidos efeitos de seu campo gravitacional já teriam sido notados, a menos que estivesse posicionado além da órbita de Plutão.

Já que a intensidade de um campo gravitacional varia com a distância, a face terrestre voltada para o intruso será mais fortemente atraída que a face oposta. A Terra se estenderá em algum grau na direção do intruso.

Particularmente, as águas submissas dos oceanos se espalharão. Os oceanos se elevarão em lados opostos da Terra, na direção do intruso, e dele se afastarão, e, à medida em que a Terra girar, os continentes passarão por esta elevação. Duas vezes por dia, os mares invadirão os litorais continentais e deles retrocederão.

O avanço e retrocesso dos mares (as “marés”) é na verdade experimentado na Terra como resultado da influência gravitacional da Lua e, em menor grau, do Sol. É por isso que todos os efeitos produzidos por diferenças na influência gravitacional sobre um corpo são chamados de “efeitos das marés”.

Quanto maior a massa do intruso e mais perto da Terra ele passar, maiores serão os efeitos das marés. Se um miniburaco negro invasor for bastante maciço e passar pela Terra suficientemente próximo, ele poderá interferir na integridade da estrutura planetária, produzir rachaduras em sua crosta, e assim por diante. Uma colisão seria evidentemente catastrófica.

Um miniburaco negro desse tamanho, todavia, deve ser sumamente raro, embora possa existir, e devemos nos lembrar de que a Terra é um alvo muito menor que o Sol. A área de um corte transversal da Terra é apenas 1,012 milésimo da do Sol, de forma que a pequeníssima chance de haver um contato imediato entre tal corpo e o Sol deve ser ainda decrescida por um fator de 12 000 para um contato imediato com a Terra.

Se os miniburacos negros realmente existirem, é bem mais provável que apresentem o tamanho de um asteróide. Um miniburaco negro asteroidal, com uma massa que fosse, digamos, somente um milionésimo da da Terra, não ofereceria sérios riscos, mesmo com pequeno desvio. Produziria efeitos de marés insignificantes e talvez nem nos apercebêssemos de tal evento, se ele ocorresse.

Seria diferente, contudo, no caso de um choque direto. Um miniburaco negro, por pequeno que fosse, penetraria fundo na crosta terrestre. Absorveria matéria, naturalmente, e as energias desprendidas no processo derreteriam e vaporizariam a matéria à sua frente, enquanto ele estivesse penetrando. Poderia percorrer todo o caminho em linha curva (embora, não necessariamente passando através do centro) e emergir da Terra para continuar seu trajeto pelo espaço — trajeto este alterado pela força gravitacional terrestre, naturalmente. Ele seria mais maciço ao emergir que ao entrar. Estaria também se movendo mais lentamente, pois, ao atravessar os gases da substância terrestre vaporizada, teria encontrado certa resistência.

O corpo da Terra se regeneraria após a evasão do miniburaco negro.

Os vapores resfriariam e se solidificariam, e as pressões internas fechariam o túnel aberto pelo miniburaco negro. No entanto, o efeito na superfície seria como o de uma enorme explosão — duas, aliás, uma na área por onde o miniburaco negro entrasse e outra por onde saísse —, com resultados devastadores (embora, talvez, não completamente catastróficos).

Naturalmente, quanto menor o miniburaco negro, menores os efeitos, exceto que, em certo sentido, um miniburaco negro pequeno pode ser, na verdade, pior que um grande. Um miniburaco negro pequeno teria um momento um tanto baixo, graças à sua pequena massa, e se ele também estivesse se movendo em baixa velocidade em relação à Terra poderia perder velocidade e ser incapaz de abrir caminho para a saída. Ficaria, então, preso na gravidade da Terra. Cairia em direção ao centro, erraria o alvo por pouco, recuaria novamente, e assim por diante, diversas vezes.

Por causa da rotação terrestre, ele não iria se mover de um lado para outro na mesma direção; pelo contrário, escavaria intrincada rede de trilhas, constantemente crescendo e absorvendo mais matéria a cada impulso.