Escolha a Catástrofe
Computadores
Em suma, muitos dos temores em relação à engenharia genética e muitos dos prenúncios da catástrofe são resultado de pensamento simplista.
Por outro lado, algumas das possíveis vantagens do cloning, por exemplo, são geralmente ignoradas.
Usando técnicas de engenharia genética ainda não desenvolvidas, uma célula duplicada poderia ser levada a se desenvolver de modo distorcido e, assim, produzir um coração em funcionamento, com o resto do corpo sendo apenas um vestígio. Ou um fígado poderia ser assim produzido, ou um rim, etc. Estes seriam então utilizados para substituir órgãos danificados ou disfuncionais no corpo do doador original da célula duplicada. O corpo aceitaria um novo órgão que, afinal de contas, foi feito a partir de sua própria constituição genética.
Igualmente, o cloning poderia ser usado para salvar espécies animais ameaçadas. Mas será que a evolução, dirigida ou não, significará o fim da humanidade? Talvez, se definirmos a humanidade como Homo sapiens. Mas é preciso? Se os seres humanos povoarem o espaço em muitas colônias espaciais artificiais-que eventualmente se separem e adentrem o universo, cada uma por si, então certamente cada uma evoluirá um tanto diversamente e, num milhão de anos, pode haver dúzias, ou centenas, ou uma miríade de espécies distintas, todas descendentes da humana, mas diferentes dela.
Até aí, melhor, porque a variedade e a diversidade só fazem fortalecer a família da espécie humana. Podemos supor que a inteligência permanecerá ou, mais provavelmente, melhorará, pois uma espécie com inteligência rebaixada não será capaz de manter a colônia e, dessa maneira, será extinta.
E se a inteligência permanecer e crescer, que importa se detalhes de aparência externa e funcionamento físico interno se modificarem?
COMPUTADORES
É possível que, à medida em que a humanidade evolui e, presumivelmente, se aperfeiçoa, outras espécies façam o mesmo? Será que essas outras espécies poderiam se igualar a nós e até nos suplantar?
Num certo sentido, igualamo-nos e suplantamos o golfinho, que já contava com um cérebro do tamanho do humano milhões de anos antes de os seres humanos o desenvolverem. Não haveria, porém, nenhuma competição entre os cetáceos habitantes da água e os primatas habitantes da terra e foram só os seres humanos que desenvolveram uma tecnologia.
É improvável que nós mesmos permitamos a competição; ou, se o fizermos, seria na base de deixar outra espécie tão inteligente quanto a nossa juntar-se a nós na luta contra a catástrofe. E, nesse aspecto, não há saída, a menos que encorajemos a evolução de outras espécies na direção da inteligência pelo uso de técnicas de engenharia genética — o que não aconteceria antes de milhões de anos.
Mas há outro tipo de inteligência na Terra, um tipo que nada tem a ver com vida orgânica e é pura criação da humanidade. É o computador.
Já em 1822 sonhava-se com máquinas de computação capazes de resolver problemas matemáticos complicados muito mais rapidamente e com bem maior grau de confiabilidade (se adequadamente programadas) do que faziam os humanos. Foi naquele ano que o matemático inglês Charles Babbage (1792-1871) começou a construir uma máquina de computação. Ele despendeu anos em seu projeto e fracassou, não porque sua teoria fosse falha, mas porque ele apenas contava com partes mecânicas para trabalhar e estas simplesmente não eram adaptadas o suficiente para a tarefa.
Necessitava-se da eletrônica, da manipulação de partículas subatômicas, em vez do movimento de partes grosseiras. O primeiro grande computador eletrônico foi construído na Universidade da Pensilvânia durante a Segunda Guerra Mundial por John Presper Eckert, Jr. (1919-) e John William Machly (1907-), seguindo um sistema elaborado anteriormente pelo engenheiro eletrônico americano Vannevar Bush (1890-1974). Esse computador eletrônico, o ENIAC (“Computador e Integrador Numérico Eletrônico”), custou 3 milhões de dólares, continha 19 000 tubos de vácuo, pesava 30 toneladas, ocupava 450 metros quadrados de espaço e gastava tanta energia quanto uma locomotiva. Parou de operar em 1955 e foi desmontado em 1957 — totalmente ultrapassado.
Seus fracos e falíveis tubos de vácuo, que esbanjavam energia, foram substituídos por transistores solid-state, bem menores, menos falíveis e consumidores de muito menos energia. Com o passar dos anos, os aparelhos solid-state foram ficando ainda menores e menos falíveis. Finalmente, minúsculos pedaços de silicone de 6 centímetros quadrados, finos como papel, caprichosamente retocados com pequenas quantidades de outras substâncias aqui e ali, foram transformados em complexos pequenos e compactos, encaixados em minúsculos fios de alumínio e reunidos para compor microcomputadores .
No final da década de 70, qualquer um podia, com trezentos dólares, obter por entrega postal a domicílio ou em qualquer loja de bairro, um computador que não consumisse mais energia que uma lâmpada elétrica, que fosse suficientemente pequeno para ser levantado facilmente e trabalhasse vinte vezes mais rápido e com garantia milhares de vezes superior à do ENIAC.
Mais compactos, versáteis e baratos, os computadores agora estão começando a invadir o lar. A década de 80 pode vir a assistir à sua incorporação como parte tão integral da vida cotidiana quanto a televisão veio a ser na década de 50. Aliás, neste mesmo capítulo já me referi aos computadores como as máquinas de ensinar do futuro.
Até agora, o computador é um dispositivo para resolução de problemas, estritamente guiado por sua programação e capaz apenas de executar as operações mais simples — embora o faça com velocidade e paciência extraordinárias. Um tipo de inteligência rudimentar começa a se mostrar, porém, à medida em que os computadores vão se tornando capazes de autocorreção e modificação de seus programas.
Com os computadores e sua “inteligência artificial” assumindo crescentes áreas do trabalho mental rotineiro do mundo e então, talvez, o trabalho mental não tão rotineiro também, será que as mentes humanas degenerarão por falta de uso? Chegaremos até a depender totalmente de nossas máquinas? E, quando não mais possuirmos a inteligência para usá-la adequadamente, será que nossa espécie decadente verá seu fim e, com ele, o da civilização?
O mesmo problema e receio devem ter confrontado a humanidade em períodos anteriores de sua história. Pode-se imaginar, por exemplo, o desdém dos antigos construtores, quando o equivalente do metro de vara foi posto em uso. Será que o olho experiente e o julgamento treinado do arquiteto degenerariam para sempre após qualquer tolo decidir que tamanho de madeira ou pedra caberia em determinado lugar, apenas por ler marcas numa vara? E certamente os antigos trovadores terão se horrorizado com a invenção da escrita, código de marcas que punha fim à necessidade da memória. Uma criança de dez anos, tendo aprendido a ler, poderia então recitar a Ilíada, embora jamais tivesse assistido a ela, simplesmente seguindo as marcas. Como a mente degeneraria!
E, no entanto, o uso de auxiliares inanimados para julgamento e memória não destruiu o julgamento e a memória. É claro que não é fácil hoje em dia achar alguém com uma memória tão treinada, que possa recitar longos poemas épicos. Mas quem precisa disso? Se nossos talentos naturais não mais demonstram feitos não-necessitados, o ganho não compensa a perda? O Taj Mahal ou a Ponte Golden Gate podiam ter sido construídos a olho? Quantas pessoas conheceriam as peças de Shakespeare ou os romances de Tolstói se tivéssemos que depender de encontrar alguém que os soubesse de cor e estivesse disposto a recitá-los para nós — se, aliás, eles tivessem sido produzidos sem a escrita?
Quando a Revolução Industrial trouxe a potência do vapor e, depois, da eletricidade, com isso aliviando os esforços físicos da humanidade, por acaso os músculos humanos ficaram flácidos? Os feitos nos estádios e campos de jogos negam isso. Até o trabalhador de escritório de cidade pode manter-se em forma correndo, jogando tênis, fazendo exercícios físicos — compensando voluntariamente o que não mais precisa fazer sob o açoite da compulsão escravista.
Com os computadores pode dar-se o mesmo. Deixaríamos para eles os trabalhos rotineiros de cálculos áridos, arquivos, correções, guarda de registros, assim nos permitindo ter nossas mentes livres para tarefas realmente criativas — de modo a podermos construir Taj Mahals em lugar de choupanas de barro.
Isso, naturalmente, no caso de os computadores nunca servirem para nada além do rotineiro e repetitivo. E se os computadores continuarem a se desenvolver sem cessar e nos seguirem ao último baluarte de nossas mentes?
E se também os computadores puderem construir Taj Mahals, compor sinfonias e conceber novas e importantes generalizações científicas? E se eles aprenderem a mimetizar todas as capacidades mentais do ser humano? E se os computadores puderem ser usados para agir como os cérebros de robôs, que serão os equivalentes artificiais dos humanos, fazendo tudo o que estes fazem, mas construídos com materiais mais fortes e mais duráveis que possam melhor suportar ambientes agrestes? A humanidade não se tornaria obsoleta? Os computadores não poderiam “tomar o poder”? Será que a catástrofe do quarto grau (não só do quinto) que exterminaria os seres humanos seria aquela em que restariam apenas os herdeiros criados pelos próprios seres humanos?
Se analisarmos isso, poderemos fazer uma pergunta um tanto cínica: “Por que não?” A história da evolução da vida é a história da lenta alteração das espécies, ou da substituição corporal de uma espécie por outra, sempre que essa modificação ou substituição resulte num melhor enquadramento dentro de um nicho ambiental particular. Essa longa e tortuosa história finalmente culminou com o Homo sapiens há algumas centenas de milhares de anos. Por que esse deveria ser o passo final?
Agora que estamos aqui, por que achar que o espetáculo já acabou?
De fato, se tivéssemos a capacidade de recuar e examinar todo o complexo caminho da evolução de mundo para mundo, poderíamos nos aperceber de que, muito lentamente, por tentativa e erro, a vida se desenvolveu até, finalmente, criar uma espécie inteligente capaz de tomar o processo da evolução em suas próprias mãos. Parecer-nos-ia então que a evolução só começaria realmente a progredir quando uma inteligência artificial, muito superior a qualquer outra coisa já inventada, viesse a existir.
Nesse caso, a substituição da humanidade por computadores avançados seria um fenômeno natural que, objetivamente, mereceria ser tão aplaudido quanto o foi a substituição dos répteis pelos mamíferos, e ao qual contestamos somente por amor-próprio e razões que são essencialmente frívolas e irrelevantes. Aliás, se quiséssemos ser ainda mais cínicos, não poderíamos argumentar que a substituição da humanidade não só é um mal, mas sim um bem?
Supus em capítulos precedentes que a humanidade poderia adotar medidas saudáveis para abolir a guerra, limitar a população e estabelecer uma ordem social humanitária — mas ela adotará? Seria bom acreditar nisso, mas a história da humanidade não é encorajadora nesse sentido. E se os seres humanos não cessarem sua eterna suspeita e violência de uns em relação aos outros? E se eles não conseguirem limitar a população humana? E se não existir um modo de se fazer a sociedade ser dirigida pela decência? Nesse caso, como poderemos evitar a destruição da civilização e talvez até da própria humanidade?
Quem sabe a única salvação repouse na substituição de uma espécie que está muito aquém de atingir seu objetivo por outra parte que, talvez, o consiga. Sob esse prisma, o temor deveria ser não o de a humanidade ser substituída por computadores, mas sim que ela não seja capaz de desenvolver os computadores tão rapidamente para preparar herdeiros que estejam prontos para assumir o posto quando for chegada a hora da inevitável destruição da humanidade.
Mas e se os seres humanos conseguirem resolver os problemas com que se defrontam agora e realmente fundarem uma sociedade baseada na paz, cooperação e um sábio avanço tecnológico no curso do próximo século? E se fizerem isso com o inestimável auxílio de computadores? Apesar do êxito humano, será que os seres humanos não poderiam nesse caso ser suplantados pelas coisas que criaram, e isso não seria uma verdadeira catástrofe?
Mas então não deveríamos verificar o que seja uma inteligência superior?
É simplista demais comparar qualidade como se estivéssemos tirando medidas com uma régua. Estamos acostumados a comparações unidimensionais e compreendemos perfeitamente o que significa dizer que uma certa largura é maior que outra, ou certa massa é maior que outra, ou certa espessura é menor que outra. E aí nos acostumamos a pensar que tudo pode ser comparado assim grosseiramente.
Por exemplo, uma zebra pode alcançar certo ponto distante antes de uma abelha se ambas partirem do mesmo lugar ao mesmo tempo.
Aparentemente, então, justificar-se-ia dizer-se que a zebra é mais veloz que a abelha. Mas uma abelha é bem menor que uma zebra e, diferentemente desta, pode voar. Ambas as diferenças são importantes para a qualificação de “mais veloz”.
Uma abelha pode escapar voando de um fosso que mantém a zebra presa; ela pode esvoaçar pelas barras de uma jaula que aprisiona a zebra.
Agora, quem é a mais veloz? Se A supera B num aspecto, B pode superar A em outro. À medida em que mudam as circunstâncias, um ou outro aspecto pode se revestir de maior importância.
Um ser humano num avião voa mais rápido que um pássaro, mas não pode voar tão lentamente quanto o pássaro, e às vezes a lentidão pode ser necessária para a sobrevivência. Um ser humano num helicóptero pode voar tão lentamente quanto um pássaro, mas não tão silenciosamente quanto este, e às vezes o silêncio pode ser necessário para a sobrevivência. Em resumo, a sobrevivência requer uma série de características, e nenhuma espécie é substituída por outra por causa de uma diferença em somente uma característica, nem que essa característica seja a inteligência.
Vemos isso freqüentemente nas relações humanas. Sob a pressão de uma emergência, não é necessariamente a pessoa com o maior QI que a resolve; pode ser a mais impulsiva, a de maior força, a de maior capacidade de tolerância, a de maior riqueza, a de maior influência. A inteligência é importante, sim, mas não é o mais importante.
Quanto a isso, a inteligência não é uma qualidade simplesmente definida; ela vem em todas as variedades. O professor intensamente treinado e superescolado, que é uma criança em todos os assuntos não pertinentes à sua especialidade, é uma figura estereotipada do folclore moderno. Não nos surpreenderíamos nem um pouco com a imagem de um astuto homem de negócios que fosse inteligente o suficiente para dirigir uma organização valendo 1 bilhão de dólares com mão forte e, entretanto, incapaz de aprender a falar de acordo com as regras gramaticais. Como então compararmos a inteligência humana e a inteligência do computador, e o que queremos dizer com inteligência “superior”?
Neste momento, o computador faz truques mentais impossíveis para o ser humano, mas isso não nos leva a afirmar que o computador seja mais inteligente do que nós. Aliás, não estamos nem dispostos a admitir que ele seja inteligente. Lembremos também que o desenvolvimento da inteligência em seres humanos e em computadores tomou, e está tomando, diferentes caminhos e de que ele era, e é, animado por mecanismos diversos.
O cérebro humano evolui por tentativa e erro, por mutações aleatórias, fazendo uso de sutis mudanças químicas e com um impulso acionado pela seleção natural e pela necessidade de sobreviver num mundo específico de qualidades e perigos conhecidos. O cérebro do computador está evoluindo por deliberado planejamento, como resultado de cuidadoso pensamento humano, fazendo uso de sutis mudanças elétricas e com um impulso acionado pelo avanço tecnológico e pela necessidade de servir às demandas humanas específicas.
Seria muito estranho se, após tomarem duas estradas tão divergentes, os cérebros e os computadores acabassem por ser tão similares que um deles pudesse ser considerado inequivocamente superior ao outro em termos de inteligência.
É muito mais provável que, mesmo quando ambos forem igualmente inteligentes no todo, as propriedades da inteligência em cada um serão tão diferentes que nenhuma comparação simples poderá ser feita. Haverá atividades para as quais os computadores estarão melhor adaptados e outras para as quais o cérebro humano estará melhor adaptado. Isso seria particularmente verdadeiro se a engenharia genética fosse deliberadamente usada para aperfeiçoar o cérebro humano precisamente nas direções em que o computador é fraco. Seria, inclusive, desejável manter-se o computador e o cérebro humano especializados em campos diversos, pois uma duplicação de capacidade seria um desperdício e tornaria um ou outro desnecessário.
Conseqüentemente, a questão da substituição não precisará nunca ser levantada. Pelo contrário, o que poderíamos ver seria a simbiose ou complementação, cérebro e computador trabalhando juntos, cada um suprindo o que falta ao outro, formando uma aliança de inteligência muito maior do que a de cada um isoladamente, aliança essa que abriria novos horizontes e possibilitaria atingir novas alturas. De fato, a união de cérebros, o humano e o que o homem fez, poderia servir como a porta pela qual o ser humano poderia emergir de sua infância isolada para uma maturidade em combinação.