Escolha a Catástrofe
Os Continentes em Movimento
O que causaria tal deslizamento da crosta? Sugere-se que a vasta calota polar sobre a Antártida não está perfeitamente centrada no pólo sul.
Resultaria que a rotação terrestre causaria uma vibração descentralizada que desprenderia a crosta e fá-la-ia deslizar.
Isso é muito improvável. O manto não é de forma alguma suficientemente macio para que a crosta deslize sobre ele. Se o fosse, o bojo equatorial ainda assim mantê-la-ia no lugar. E, de qualquer modo, a posição descentralizada da calota polar da Antártida não basta para produzir aquele efeito.
Além do mais, isso nunca aconteceu. A crosta escorregadia teria que se romper à medida em que ela passasse das regiões polares para as equatoriais e aglutínar-se, quando passasse das equatoriais para as polares. A rachadura e aglutinação da crosta, no caso de tal deslizamento, certamente deixaria muitos sinais — só que provavelmente destruiria a vida e nada deixaria para que esses sinais fossem observados.
De fato, podemos generalizar. Jamais houve uma catástrofe envolvendo nosso planeta nos últimos 4 bilhões de anos que fosse suficientemente drástica para impedir o desenvolvimento da vida, e as possibilidades de haver uma no futuro, que surja unicamente a partir das mecânicas do planeta, são do mais alto grau de improbabilidade.
OS CONTINENTES EM MOVIMENTO
Tendo chegado à conclusão de que “não há catástrofes”, podemos então afirmar que a Terra é perfeitamente estável e imutável? Não, é óbvio que não. Existem mudanças, algumas delas do tipo que já descartei. Como é possível?
Consideremos a natureza da catástrofe. Algo que seja catastrófico, se acontecer rapidamente, pode não ser catastrófico se acontecer devagar. Se você fosse descer do alto de um arranha-céu muito rapidamente (pulando do telhado), teria configurada para si próprio uma catástrofe pessoal. Se, por outro lado, você descesse bem devagar (de elevador), não haveria nenhum problema. A mesma coisa teria acontecido em ambos os casos: uma mudança de posição do alto para o chão. Que essa mudança de posição se constituísse numa catástrofe ou não, dependeria inteiramente do ritmo da mudança.
De modo similar, a bala que emerge velozmente da boca de um revólver e o atinge na cabeça certamente o matará; a mesma bala atirada manualmente apenas lhe provocará uma dor de cabeça.
O que descartei como catástrofes inadmissíveis são, portanto, as mudanças que ocorrem rapidamente. As mesmas mudanças, acontecendo bem devagar, são outro assunto. Mudanças muito lentas podem e realmente acontecem e não precisam ser e, de fato, não são catastróficas.
Por exemplo, tendo eliminado a possibilidade de um deslizamento catastrófico da crosta, devemos admitir que o deslizamento da crosta bem lento é uma possibilidade. Consideremos que há uns 600 milhões de anos houve, parece, um período de glaciação (a julgar por arranhões em rochas de idade conhecida) que ocorreu simultaneamente no Brasil equatorial, na África do Sul, na índia e nas regiões oeste e sudeste da Austrália. Essas áreas devem ter sido cobertas por calotas polares como a Antártida e a Groenlândia.
Mas como pode isso ter acontecido? Se a distribuição de terra e água na Terra fosse, na época, exatamente a mesma que agora e se os pólos se localizassem exatamente no mesmo lugar, então a existência de áreas tropicais sob uma calota de gelo significaria que a Terra inteira precisaria ter congelado — o que é bastante improvável. Afinal de contas, não existem sinais de glaciação em outras áreas continentais naquele tempo.
Se supusermos que os pólos trocaram de posição, de forma que o que hoje é tropical era antes polar e vice-versa, então é impossível achar uma posição para os pólos que explique todas aquelas calotas de gelo primordiais simultâneas. Se os pólos permaneceram no mesmo lugar e a crosta da Terra deslizou como um todo, o problema é o mesmo. Não há posição na qual todas as calotas polares se encaixem.
A única coisa que pode ter acontecido e que poderia explicar essa glaciação é que as próprias massas de terra mudaram de posição umas em relação às outras e que aqueles vários lugares glaciados já foram, um dia, vizinhos e estavam todos num pólo ou no outro (ou algumas partes estavam num pólo e o resto no outro). Será possível?
Se analisarmos o mapa-múndi, não é difícil ver que a costa leste da América do Sul e a costa oeste da África são surpreendentemente parecidas.
Se você recortasse ambos os continentes (admitindo que o formato não esteja muito distorcido por ter sido esboçado sobre uma superfície plana), poderia encaixá-los espantosamente bem. Isso foi notado logo que o formato dessas costas se tornou detalhadamente conhecido. O estudioso inglês Francis Bacon (1561-1626) apontou isso já nos idos de 1620. Será que a África e a América do Sul estiveram um dia unidas, dividiram-se na linha litorânea e então se separaram?
A primeira pessoa a se devotar inteiramente a essa noção de “deriva continental” foi um geólogo alemão, Alfred Lothar Wegener (1880-1930), que publicou um livro sobre esse assunto, The origin of continents and oceans (“A origem dos continentes e dos oceanos”), em 1912.
Os continentes são compostos por rochas menos densas que o fundo do mar, basicamente constituídas de granito; o fundo do mar é essencialmente de basalto. Esses blocos continentais de granito não poderiam muito lentamente desprender-se e flutuar sobre o basalto? Era alguma coisa como a noção do deslizamento da crosta, mas, em vez de toda a crosta, apenas os blocos continentais fá-lo-iam — e bem devagar.
Se os blocos continentais se movessem independentemente, não haveria nenhum problema sério com o bojo equatorial, e caso se movessem bem devagar, não se requereria muita energia e não resultaria nenhuma catástrofe. Além disso, se os blocos continentais se movessem independentemente, explicar-se-ia uma glaciação muito antiga em regiões vastamente espaçadas do mundo, algumas perto do equador. Todas essas regiões teriam estado juntas um dia — e nos pólos.
Essa deriva continental poderia também ser a resposta para um enigma biológico. Espécies similares de plantas e animais existem nas mais diversas porções do mundo, porções separadas por oceanos que, obviamente, não poderiam ter sido cruzados por esses animais e plantas. Em 1880, o geólogo austríaco Edward Seuss explicou isso pressupondo já ter havido pontes de terra ligando os continentes. Por exemplo, ele imaginou um enorme supercontinente que se estendia por todo o hemisfério sul para explicar como essas espécies alcançaram diferentes massas de terra agora amplamente afastadas. Em outras palavras, era necessário imaginar a terra se elevando e decaindo no curso da história da Terra, a mesma área sendo, numa época, um continente alto e, em outra, um profundo fundo de mar.
Essa idéia se popularizou, mas quanto mais os geólogos aprendiam a respeito do fundo do mar, menos se lhes parecia possível que os fundos de mar pudessem um dia ter sido partes de continentes. Teria mais sentido supor o movimento lateral, com um único continente se fragmentando. Cada um dos fragmentos conteria grupos específicos de espécies e, no final, espécies similares estariam separadas por imensos oceanos.
Wegener sugeriu que, em dada época, todos os continentes existiram como um só enorme bloco de terra em meio a um vasto oceano. A esse supercontinente ele deu o nome de “Pangéia” (do grego “toda a Terra”). Por alguma razão, Pangéia se quebrara em diversos fragmentos que se foram separando até, finalmente, o arranjo continental de hoje se estabelecer.
O livro de Wegener despertou bastante interesse, mas era difícil para os geólogos levá-lo a sério. As camadas mais profundas dos continentes terrestres simplesmente eram rijas demais para permitir que eles deslizassem.
A América do Sul e a África estavam tão firmemente fixadas em seus respectivos lugares que seria impossível que uma ou outra deslizasse através do basalto. Durante quarenta anos, portanto, as teorias de Wegener foram desconsideradas.
Entretanto, quanto mais se estudavam os continentes, mais se tinha a impressão de que eles teriam estado unidos um dia, todos eles, especialmente se se considerasse a extremidade das projeções continentais como sendo suas verdadeiras fronteiras. Coincidência demais para ser descartada.
Suponhamos, pois, que Pangéia realmente existiu, fragmentou-se e seus pedaços se afastaram uns dos outros. Nesse caso, o fundo dos oceanos que se formaram entre os fragmentos teria que ser relativamente novo. Os fósseis de algumas rochas continentais chegavam a ter 600 milhões de anos de idade, porém, os do fundo do Atlântico, que teria se formado somente após a fragmentação de Pangéia, não poderiam ser tão velhos. E, com efeito, nenhum fóssil com mais de 135 milhões de anos jamais foi localizado nas rochas do fundo do oceano Atlântico.
Crescente evidência se acumulava a favor do deslizamento continental. Necessitava-se, contudo, de uma hipótese explicativa do mecanismo que pusera isso em ação. Tinha que ser algo diverso da teoria de Wegener (o granito fendendo o basalto); essa certamente não era possível.
A chave do problema veio com a análise do fundo do Atlântico, que está, naturalmente, oculto por um opaco lençol de água de quilômetros de profundidade. A primeira sugestão de que poderia haver algo interessante lá embaixo data de 1853, quando foi necessário fazer sondagens a fim de se poder instalar um cabo telegráfico no Atlântico de modo que a Europa e a América pudessem comunicar-se por sinais elétricos. Na época, descobriu-se que, aparentemente, havia indícios de um platô submarino no meio do oceano. O Atlântico parecia muito mais raso no meio que nos lados, e o centro raso foi denominado “planalto do telégrafo”, em homenagem a esse cabo.
Naquele tempo, a sondagem era executada fazendo descer ao mar um longo e pesado cabo. Isso era entediante, difícil e incerto, e poucas sondagens podiam ser feitas, de maneira que somente os detalhes mais evidentes da configuração do fundo do mar podiam ser apreendidos
Durante a Primeira Guerra Mundial, contudo, o físico francês Paul Langevin (1872-1946) desenvolveu métodos de avaliação de distâncias de objetos submersos por meio de ecos ultra-sônicos (agora chamados “sonar”).
Na década de 20, um navio oceanográfico alemão começou a fazer sondagens no oceano Atlântico por meio do sonar e por volta de 1925 demonstrou-se que uma imensa cordilheira submarina recortava o centro do oceano Atlântico em toda a sua extensão. Mais tarde, descobriu-se que o mesmo ocorria em outros oceanos e, aliás, o globo era circundado por uma longa e sinuosa “cordilheira centro-oceânica”.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os geólogos americanos William Maurice Ewing (1906-74) e Bruce Charles Heezen (1924-77) atacaram o problema e em 1953 conseguiram demonstrar que, ao longo de toda a extensão da cordilheira, descendo até sua base, corria uma profunda garganta. Mais tarde, descobriu-se que ela existia em todas as porções da cordilheira centro-oceânica e, por isso, é às vezes chamada de “grande fissura global”.
A grande fissura global parece dividir a crosta terrestre em grandes placas que, em alguns casos, têm milhares de quilômetros de lado a lado, e parecem ter de 70 a 150 quilômetros de profundidade. São chamadas de “placas tectônicas”, da palavra grega “tekton” (“carpinteiro”), porque as diversas placas parecem estar cuidadosamente encaixadas. O estudo da evolução da crosta terrestre em termos dessas placas é chamado de “tectônica”.
A descoberta das placas tectônicas confirmou definitivamente a noção do deslizamento continental, mas não da forma que Wegener advogava. Os continentes não flutuavam e derivavam pelo basalto. Um continente específico, unido a porções do fundo do mar adjacente, era parte integrante de uma placa específica. Os continentes só se podiam mover se as placas se movessem, e era evidente que estas se moviam. Mas como elas podiam se mover se estavam firmemente unidas?
Podiam se empurradas. Em 1960, o geólogo americano Harry Hammond Hess (1906-69) apresentou provas a favor da “expansão do fundo do mar”. Rochas quentes derretidas lentamente verteram desde as grandes profundezas até a grande fissura global no centro do Atlântico, por exemplo, e se solidificaram na superfície ou perto dela. Isso forçou as duas placas a se separarem, em alguns lugares à razão de 2 a 18 centímetros por ano. Com sua separação, a América do Sul e África, por exemplo, foram forçadas a se separar. Em outras palavras, os continentes não se desgarraram; foram empurrados.
O que produziu a energia responsável por esse evento? Não se tem bem certeza, porém uma explicação razoável é que há lentíssimos redemoinhos no manto que jaz sob a crosta, que é bastante quente para se amoldar sob as grandes pressões. Se um redemoinho se move para cima, para o oeste e para baixo, e um redemoinho vizinho se move para cima, para o leste e para baixo, as movimentações opostas sob a crosta tendem a separar duas placas vizinhas, com material quente jorrando entre elas.