Escolha a Catástrofe
Catástrofes do Quarto Grau
Parte IV
CATÁSTROFES DO QUARTO GRAU
12 — A COMPETIÇÃO DA VIDA
ANIMAIS DE GRANDE PORTE
Detenhamo-nos um pouco e façamos nova síntese.
Dentre as catástrofes do terceiro grau discutidas aqui, relativas à diminuição, por parte da Terra, de sua capacidade de abrigar a vida, o único evento realmente adverso (e possível) é uma nova era glacial ou, pelo contrário, o degelo dos atuais lençóis de gelo. Se algo assim acontecer no curso normal da natureza, será muito lentamente e, com certeza, não antes de uns milhares de anos. Mais importante: tal evento pode ser suportado ou, mais provavelmente, controlado.
A humanidade poderia, assim, sobreviver por tanto tempo que chegaria a experimentar uma catástrofe do segundo grau, em que o Sol sofresse modificações que impossibilitariam a vida sobre a Terra. Dentre as catástrofes desse tipo, a única possibilidade é o Sol se transformar numa gigante vermelha dentro de alguns bilhões de anos — e isso, se não pode ser controlado, pode certamente ser evitado pela fuga do planeta.
Dessa maneira, a humanidade conseguiria sobreviver a ponto de experimentar uma catástrofe do primeiro grau (o universo como um todo tornado inabitável). Em minha opinião, o mais provável é a formação de um novo ovo cósmico. Isso, aparentemente, não pode ser controlado nem evitado, representando, assim, o fim absoluto da vida — que, contudo, não acontecerá por outro trilhão de anos; até lá, quem sabe do que a tecnologia será capaz.
E mesmo assim não estamos a salvo — nem a ponto de sobreviver à próxima era glacial — porque há perigos bem mais iminentes nos ameaçando, muito embora o universo, o Sol e a Terra sigam vivendo plácida e benevolentemente.
Em outras palavras, devemos agora considerar as catástrofes do quarto grau, aquelas que ameaçam especificamente a existência humana na Terra — ainda que a vida em geral continue sobre o planeta.
Mas o que pode dar cabo da vida humana enquanto todo o resto permanece vivo?
Para começar, os seres humanos constituem uma espécie orgânica particular, e o destino comum a todas as espécies é a extinção. Pelo menos 90 por cento de todas as espécies que já viveram se extinguiram; dentre aquelas ainda vivas hoje, uma boa porção não mais se apresenta tão numerosa ou pujante como em dias passados. Uma parte bem razoável delas, na verdade, acha-se no umbral da extinção.
A extinção pode resultar de modificações ambientais intoleráveis a certas espécies. Já discutimos alguns tipos de modificações ambientais e discutiremos outros. Mas a extinção também se pode dar devido à competição aberta entre as espécies e à vitória de uma espécie ou grupo de espécies sobre outra. Assim, em todo o mundo, na competição pela vida num mesmo ambiente, os mamíferos placentários venceram e substituíram os menos evoluídos marsupiais e monotremos. Só a Austrália agora conta com uma variedade prolifera de marsupiais e até com um par de monotremos, porque separou-se da Ásia antes de os animais placentários evoluírem.
Há, então, alguma probabilidade de sermos de algum modo dizimados por alguma outra forma de vida? Não somos as únicas formas de vida no mundo. Conhecem-se cerca de 350 000 diferentes espécies vegetais e talvez 900 000 espécies distintas de animais. Pode muito bem haver mais 1 a 2 milhões de espécies ainda não descobertas. Será que alguma delas representa sério risco para nós?
Nos primórdios da história dos hominídeos, toda sorte de riscos estava presente. Nossos ancestrais hominídeos, tendo por abrigo apenas sua própria pele e por armas somente os diferentes membros de seu corpo, não eram rivais à altura dos grandes predadores ou, mesmo, dos grandes herbívoros.
Os primeiros hominídeos devem ter conseguido comida pilhando as posses do mundo vegetal inativo; talvez, ocasionalmente, levados pela fome, tenham se alimentado de pequenos animais que, com sorte, apanhavam — comparando com os chimpanzés de hoje. Quanto a animais do tamanho do homem ou maiores, o único recurso era fugir ou se esconder.
Entretanto, mesmo nos primeiros estágios de desenvolvimento, os hominídeos já aprendiam a utilizar instrumentos. A mão hominídea era delineada de modo a permitir a apreensão de um fêmur ou de um galho de árvore, com que não mais se achava desarmada, podendo enfrentar cascos, garras e presas com maior segurança. À medida em que os hominídeos com crescentes cérebros evoluíam e aprendiam a fazer machados de pedra e lanças com pontas de pedra, a balança começava a pender mais para seu lado. O machado de pedra era melhor que um casco; a lança com ponta de pedra, melhor que uma presa ou garra.
Com o aparecimento do Homo sapiens e o início de suas caçadas em bandos, ele pôde (arriscando-se um pouco, é claro) abater animais de grande porte. Durante a última era glacial, os seres humanos eram bastante hábeis na caça aos mamutes. Aliás, podem ter sido as caçadas humanas que levaram o mamute (e outros animais grandes da época) à extinção.
Além disso, a utilização do fogo deu aos homens uma arma e uma defesa que nenhuma outra espécie viva poderia imitar ou dela se resguardar, e com cuja proteção os seres humanos se asseguravam contra a predação, já que os outros animais, independentemente de tamanho e força, cuidadosa e sensatamente evitavam o fogo. Quando a civilização se iniciou, os grandes predadores já tinham sido, em essência, derrotados.
Naturalmente, seres humanos individuais ainda se achavam desamparados se subitamente defrontados com um leão, um urso ou outro carnívoro grande, ou até com um herbívoro enraivecido como um búfalo da Índia ou um touro selvagem. Estes, contudo, eram como que meros bichos de estimação, embora bastante perigosos para o indivíduo a sós com o animal.
Não resta duvida de que, mesmo na aurora da civilização, os seres humanos, se determinados a livrar uma área qualquer de animais perigosos, sempre conseguiam fazê-lo — embora alguns elementos pudessem ser vitimados. Além disso, se adequadamente armados, podiam matar animais por esporte ou capturá-los para expô-los como troféus — ainda que, igualmente, com possíveis vítimas humanas.
Mesmo hoje existem derrocadas individuais; ninguém, porém, consegue sequer imaginar a espécie humana em perigo diante de animais de grande porte agora existentes (nem que estivessem todos eles reunidos).
Aliás, dá-se exatamente o contrário. Quase sem esforço, a humanidade pode conduzir todos os animais grandes do mundo à extinção; na realidade, sua consciência agora dita que deve empreender um esforço deliberado (e, em alguns casos, quase desesperado) para não o fazer. Uma vez decidida a batalha, é quase como se os seres humanos chorassem a perda de um inimigo querido.
Em tempos antigos, quando a vitória já estava garantida, restavam talvez traços difusos de memória de uma época em que os animais eram mais perigosos, mais assustadores, mais fatais — e, conseqüentemente, a vida era mais emocionante e cheia de suspense. Obviamente, nenhum dos animais conhecidos poderia ser imaginado como sendo tão perigoso e ameaçador diante dos esforços conjuntos dos homens; assim, animais imaginários foram criados. Alguns deles adequavam-se a tal necessidade devido a seu tamanho descomunal. Pela Bíblia, toma-se conhecimento do “behemoth”, aparentemente o elefante ou o hipopótamo, mas com dimensões irracionalmente expandidas pelos criadores de lendas. Lê-se lá, também, sobre o leviatã, que parece ter sido baseado no crocodilo ou na baleia — porém, outra vez, absurdamente gigantesco.
Até gigantes com formas humanas são citados na Bíblia e abundam em lendas e no folclore. Assim, temos Polifemo, o ciclope de um olho só da Odisséia, e os gigantes que aterrorizavam a rapaziada com seus “Fi-fai-fou-fum” nos contos folclóricos ingleses.
Uma vez sobrepujado o obstáculo do tamanho, atribuíram-se aos animais poderes mais letais do que, na realidade, possuem. O crocodilo desenvolve asas e passa a soprar fogo, transformando-se no terrível dragão.
Cobras que, concretamente, matam pela picada, sobem de posto na habilidade de matar (agora, pelo bafo ou mesmo pelo olhar), tornando-se basiliscos ou serpentes fabulosas. Os polvos ou lulas podem ter inspirado as histórias da Hidra, que tinha nove cabeças e foi morta por Hércules; ou de Cila, com múltiplas cabeças e para quem Odisseu perdeu seis homens; ou da Medusa, com seu cabelo de cobras vivas, que transformava em pedra aqueles que a fitassem (e que foi destruída por Perseu).
Havia combinações de criaturas. Havia centauros, com cabeças e torsos de homem e corpos eqüinos (inspirados, talvez, na primeira visão, por parte de homens simplórios, de cavaleiros sobre seus cavalos). Havia esfinges (cabeças e torsos de mulher e corpos de leão), grifos, combinações de águia e leão; quimeras, mistura de leão, bode e cobra. Havia criaturas mais benignas: cavalos alados, unicórnios e outros.
O que todos tinham em comum era o fato de nunca terem existido; e, mesmo que existissem, nunca poderiam abater o Homo sapiens. E, dizem as lendas, nunca o fizeram, porque o cavaleiro sempre acabou por vencer o dragão. Quanto aos gigantes humanos, se existissem, sendo tão obtusos e primitivos quanto eram descritos, não poderiam jamais oferecer-nos qualquer perigo.