Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 65 de 68

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Escolha a Catástrofe

Tecnologia

Surge a imagem de uma utopia. Seria um mundo em que as rivalidades nacionais seriam esquecidas e a guerra, abolida. Seria um mundo em que a raça, o sexo e a idade perderiam sua importância numa sociedade cooperativa de comunicação, automatização e computação avançadas. Seria um mundo de energia abundante e tecnologia próspera.

Mas será que até a utopia tem seus riscos? Afinal de contas, num mundo de prazer e diversão, será que a fibra dos homens não relaxaria, amaciaria e decairia? O Homo sapiens se desenvolveu e se fortaleceu numa atmosfera de risco e perigo contínuos. Na hora em que a Terra se convertesse num mar de rosas, será que a civilização, tendo evitado a morte pelo ímpeto de uma explosão demográfica e a morte pela lamúria de uma população em decadência, poderia ser vítima de uma morte em silêncio pelo tédio?

Talvez, sim, se a Terra fosse tudo o que existisse; parece certo, porém, que quando tal paraíso se transformasse em realidade, a Terra não seria a soma total do habitat humano. Ajudado o homem pelo rápido avanço tecnológico possibilitado pelo conhecimento computado, o espaço seria pesquisado, explorado e povoado muito mais velozmente do que hoje se poderia imaginar; serão, pois, as comunidades espaciais que representarão o novo marco da humanidade.

Nessa nova fronteira, a maior e mais infinita já vista por nós, encontrar-se-ão riscos e perigos em grande número. Por mais que a Terra se transforme em um centro de pouca estimulação, sempre haverá desafios para estimular e fortalecer a humanidade — se não na própria Terra, então na infinita fronteira do espaço.

 

TECNOLOGIA

 

Venho retratando a tecnologia como o arquiteto-mor de um mundo digno e até utópico, com baixo coeficiente de natalidade. Aliás, ao longo deste livro, tenho confiado na tecnologia como o agente principal da prevenção contra catástrofes. Entretanto, não há como negar que a tecnologia pode também ser a causa de uma catástrofe. Uma guerra termonuclear é o produto direto de uma tecnologia avançada, e é a tecnologia avançada que está agora consumindo nossos recursos e afogando-nos em poluição.

Mesmo que solucionemos todos os problemas que nos afrontam hoje em dia, parcialmente pela sanidade mental humana e parcialmente pela própria tecnologia, não há garantias de que no futuro, não nos vejamos; ameaçados por uma catástrofe provocada pelo contínuo sucesso da tecnologia.

Por exemplo, suponhamos que desenvolvamos energia abundante sem poluição química ou radioativa pela fusão nuclear ou pela própria energia solar. Essa energia abundante não poderia produzir outros tipos de poluição intimamente dependentes dela?

Segundo a primeira lei da termodinâmica, a energia não desaparece; meramente se transforma. Duas formas em que ela se pode apresentar são a luz e o som. Desde meados de 1870, quando a luz elétrica foi inventada por Edison, a noite terrestre vem gradativamente se iluminando mais, por exemplo.

Essa “poluição luminosa” é um problema relativamente secundário (exceto para os astrônomos, que, de qualquer modo, não levarão muitas décadas para transferir o cenário de suas atividades para o espaço). Mas, e o som? A vibração das partes em movimento, associada com a produção ou utilização de energia, é percebida como “barulho” — e o mundo industrial é, com efeito, um lugar barulhento. Os sons do trânsito de automóveis, de aviões levantando vôo, de ferrovias, de apitos de navios, de carros de neve nas paragens mais retiradas, de barcos a motor em lagos normalmente calmos, de vitrolas, rádio e televisão, sujeitam-nos a um barulho contínuo.

Será que ele deve piorar progressivamente até o mundo se tornar insuportável?

Não é muito provável. Muitas das fontes indesejáveis de luz e som estão sob controle estritamente humano e, se a tecnologia as produz, pode também amenizar seus efeitos. Carros elétricos, por exemplo, seriam bem menos ruidosos que carros movidos a gasolina.

Acontece, porém, que luz e som são duas coisas que sempre estiveram conosco, mesmo nos tempos pré-industriais. E as formas de energia peculiares a essa época? E a poluição de microondas?

As microondas, que são ondas de rádio de comprimento relativamente curto, foram inicialmente usadas em certa quantidade em conexão com o radar durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então, elas vêm sendo usadas não só em instalações de radar (que estão se multiplicando), como também em fornos à base de microondas para o cozimento rápido, porque as microondas penetram a comida e aquecemna por igual em vez de aquecer lentamente de fora para dentro, como nos métodos culinários comuns.

Mas as microondas também nos penetram e são absorvidas em nosso interior. Será que a crescente incidência de microondas desviadas nas imediações de dispositivos que as utilizam poderia chegar a exercer algum efeito deletério sobre o corpo a nível molecular?

O perigo oferecido por microondas vem sendo exagerado por alguns alarmistas, o que não quer dizer que ele não exista. No futuro, se o suprimento energético da Terra vier de usinas elétricas solares no espaço, a energia será irradiada das usinas para a superfície terrestre sob a forma de microondas. Será necessário proceder com cuidado para assegurar que isso não seja calamitoso. Tudo indica que não o será, mas não se pode jurar.

Finalmente, toda energia de qualquer tipo de fato se transforma em calor. Esse é o destino final da energia. Na ausência da tecnologia humana, a Terra recebe calor do Sol. O Sol é, sem dúvida, a maior fonte de calor terrestre, mas quantidades menores vêm do interior do planeta e da radioatividade natural de sua crosta.

Enquanto os seres humanos se limitarem a usar a energia do Sol, do interior planetário e da radioatividade natural nas quantidades em que essas se acham naturalmente disponíveis, não haverá nenhum efeito global sob a formação final de calor. Em outras palavras, podemos usar a luz do Sol, a energia hidrelétrica, as marés, as diferenças de temperatura do oceano, as fontes quentes, os ventos, e assim por diante, sem produzir qualquer calor adicional além do que seria produzido sem nossa interferência.

Se queimamos a madeira, contudo, produzimos calor mais rapidamente do que o que seria produzido mediante seu definhamento natural. Se queimamos carvão e óleo, produzimos calor onde naturalmente nenhum calor seria produzido. Se fôssemos cavar uma mina de água quente subterrânea, provocaríamos um vazamento de calor interno até a superfície numa velocidade maior que a normal.

Em todos esses casos, o calor seria adicionado ao ambiente a uma velocidade maior que a que normalmente ocorreria na ausência da tecnologia humana, e esse calor adicional teria que ser irradiado para longe da Terra, à noite. Aumentar o grau de radiação calorífica seria automaticamente elevar a temperatura média da Terra acima da que existiria na ausência da tecnologia humana, produzindo assim uma “poluição térmica”.

Até o momento, toda a energia adicional por nós produzida, especialmente pela queima de combustível fóssil, não teve um efeito muito significativo sobre a temperatura média da Terra. A humanidade produz 6,6 milhões de megawatts de calor por ano, em comparação com os 120 000 milhões de megawatts produzidos anualmente pelos recursos terrestres naturais. Em outras palavras, acrescentamos apenas 1/18 000 ao total. No entanto, nosso suprimento se concentra em algumas poucas áreas relativamente restritas, e o aquecimento local em grandes cidades transforma substancialmente seu clima em relação ao que seria se as cidades fossem áreas cobertas por vegetação agreste.

Mas que dizer do futuro? A desintegração e a fusão nucleares acrescentam calor ao ambiente e têm o potencial de fazê-lo em graus muito mais altos do que o faz nossa atual queima de combustível fóssil. O uso da energia solar na superfície da Terra não acrescenta calor ao planeta, mas o coletá-la no espaço e irradiá-la para a Terra, sim.

Nas atuais taxas de crescimento de população e de uso per capita, a produção humana de energia poderia aumentar dezesseis vezes no próximo meio século, o que então representaria uma quantia igual a um milésimo do total de produção de calor. Nessa época, ela poderia começar a beirar algo que aumentaria a temperatura terrestre com efeito desastroso, derretendo as calotas polares, ou, pior, dando início a um efeito encadeado de estufa.

Mesmo se a população continuar em número baixo e constante, a energia de que necessitamos para levar adiante uma tecnologia cada vez mais avançada e complexa acrescentará sempre mais quantidades de calor à Terra, o que poderia um dia provar-se perigoso. A fim de evitar os efeitos nocivos da poluição térmica, pode-se fazer necessário definir um máximo nítido para a taxa de utilização da energia — não só na Terra, mas em cada mundo, natural ou artificial, em que os seres humanos vivam e desenvolvam sua tecnologia. Por outro lado, poder-se-iam delinear métodos para melhorar a taxa de radiação calorífica a dadas temperaturas toleráveis.

A tecnologia pode também ser perigosa em aspectos que nada têm a ver com a energia. Estamos, por exemplo, mesmo agora, gradualmente aumentando nossa capacidade de intervir no conjunto genético da vida, inclusive o de seres humanos. Na realidade, isso não é nada novo.

Desde que os seres humanos começaram a pastorear e a plantar, eles vêm deliberadamente provocando cruzamentos de modo a enfatizar as características que se descobriu serem úteis para os homens. O resultado é que as plantas cultivadas e os animais domesticados em muitos casos assumiram formas e características completamente diversas das apresentadas pelo organismo ancestral primeiramente utilizado pelos seres humanos. Os cavalos são maiores e mais velozes, as vacas dão mais leite, os carneiros dão mais lã, as galinhas põem mais ovos. Dúzias de variedades de raças úteis ou decorativas de cachorros e pombos foram criadas.

O que a ciência moderna faz, contudo, é possibilitar a criação engenhosa de características herdadas com melhor finalidade e maior velocidade.

No capítulo 11, tratei de como nossa compreensão da genética e da hereditariedade começou e nossas descobertas relativas ao papel essencial desempenhado pelo ADN.

No início da década de 70, desenvolveram-se técnicas propiciadoras da divisão de moléculas individuais de ADN em lugares específicos pela ação enzimática. A partir daí, elas podiam ser recombinadas. Nesse sentido, uma porção de ADN, resultante da divisão de uma célula ou organismo, podia ser recombinada com outra porção de ADN de outra célula ou organismo, mesmo se os dois organismos fossem de espécies inteiramente diversas. Por meio dessas técnicas de “recombinação de ADN”, um novo gene, capaz de dar origem a novas capacidades químicas, podia ser formado. Um organismo podia sofrer uma deliberada mutação, sendo levado a passar por uma evolução direcionada. Muito do trabalho de recombinação de ADN vem sendo executado em bactérias com o intuito básico de se descobrir os detalhes químicos primários do processo de hereditariedade genética. Há, porém, efeitos colaterais práticos e óbvios.

A diabete é uma enfermidade comum. Nos diabéticos, a produção de insulina, hormônio necessário para o processamento das moléculas de açúcar dentro das células, falha. Presumivelmente, este é o resultado de um gene defeituoso. A insulina pode ser conseguida no exterior e é obtida do pâncreas de animais sacrificados. Cada animal possui um só pâncreas, o que significa que a insulina existe em suprimento limitado e que a quantidade disponível não pode ser facilmente aumentada. Além disso, a insulina obtida dos bovinos, carneiros ou porcos não é idêntica à insulina humana.

Mas suponhamos que o gene que supervisiona a formação de insulina seja obtido de células humanas e adicionado ao equipamento genético de uma bactéria pelas técnicas de recombinação de ADN. A bactéria poderia então ser capacitada a produzir não somente insulina, mas insulina humana, e transmitiria essa capacidade a seus descendentes. Como as bactérias podem ser cultivadas em quase todas as quantidades, uma razoável porção de insulina se tornaria disponível. Em 1978, aliás, esse feito foi executado em laboratório, fazendo-se com que bactérias produzissem insulina humana.

Outros feitos semelhantes poderiam ser executados. Poderíamos planejar (modo de falar) bactérias capazes de produzir outros hormônios que não a insulina, ou fazê-los formar certos fatores sangüíneos, ou antibióticos, ou vacinas. Poderíamos planejar bactérias que fossem particularmente ativas no combinar o nitrogênio da atmosfera em compostos que fariam o solo mais fértil; ou que pudessem fazer a fotossíntese; ou que pudessem transformar palha em açúcar e óleo desperdiçado em gordura e proteínas; ou que pudessem romper o plástico; ou que pudessem concentrar restos de metais úteis a partir do lixo ou da água do mar.

E se, no entanto, muito inadvertidamente, fosse produzida uma bactéria que pudesse causar uma doença? Poderia ser uma doença para a qual o corpo humano nunca tivesse desenvolvido defesas, pois nunca teria sido encontrada na natureza. Essa doença poderia ser meramente incômoda, ou só temporariamente debilitante, mas poderia também ser fatal, pior que a peste negra, e assolaria toda a humanidade.

A probabilidade de tal catástrofe é muito pequena, mas, só de pensá-la, um grupo de cientistas que investigava esse campo sugeriu, em 1974, que se tomassem especiais precauções para deliberadamente evitar que microrganismos mutantes adentrassem o ambiente.

Durante algum tempo, teve-se a impressão de que a tecnologia tivesse dado origem a um pesadelo até pior que o da guerra nuclear, e surgiram pressões para findar-se toda a utilização de nosso crescente conhecimento dos mecanismos da genética (“engenharia genética”).

Os temores nessa direção parecem exagerados e, de modo geral, a probabilidade de obterem-se benefícios da pesquisa em engenharia genética é tão alta e a de desastre é tão baixa que seria uma tragédia desistir dos primeiros por medo do segundo.

Mesmo assim, provavelmente será um alívio para muitos se, um dia, esses experimentos genéticos, que são considerados tão arriscados (tanto como é arriscado o trabalho científico ou industrial em outros campos), forem conduzidos em laboratórios em órbita ao redor da Terra. O efeito isolante de milhares de quilômetros de vácuo interpostos entre os centros populacionais e o possível perigo reduziria os riscos incomensuravelmente.

Se a engenharia genética enquanto aplicada em bactérias parece pressagiar uma possível catástrofe, que dizer da engenharia genética aplicada diretamente em seres humanos? Isso vem provocando temores mesmo antes de as atuais técnicas genéticas terem sido desenvolvidas. Há mais de um século a medicina vem atuando no sentido de salvar vidas que, de outro modo, estariam perdidas, e, dessa forma, ela vem baixando a taxa de eliminação de genes de baixa qualidade.

Será isso sensato? Estaremos permitindo que os genes de baixa qualidade se acumulem e ajudem a deteriorar a espécie humana como um todo, até os seres humanos normais ou superiores não mais agüentarem o crescente peso de genes defeituosos na espécie como um todo?

Bem, talvez, embora seja difícil achar um modo de deixar os seres humanos sofrerem ou morrerem quando podem ser facilmente assistidos e salvos. Não importa quão seriamente os indivíduos argumentem em favor de uma política de “linha dura” nesse sentido, eles sem dúvida argumentariam menos ardentemente se fossem eles próprios ou aqueles chegados a

eles a provar de seu próprio remédio {68}.

Aí também a verdadeira solução poderia vir com o progresso tecnológico. O tratamento médico de defeitos congênitos é, atualmente, apenas paliativo. A insulina supre a que falta ao diabético; porém, o gene defeituoso permanece no diabético e é transmitido para seus filhos. Talvez um dia virá em que as técnicas da engenharia genética serão usadas para alterar e corrigir genes defeituosos.

Algumas pessoas temem a deterioração da espécie pelo rebaixamento do coeficiente de natalidade. O argumento é que o coeficiente de natalidade será baixado desproporcionalmente pelas pessoas com melhor educação e responsabilidade social mais alta, e, conseqüentemente, os indivíduos superiores serão uma gota no oceano de representantes inferiores.

Esse temor é acentuado pelas asserções de alguns psicólogos de que a inteligência é herdada. Eles apresentam dados que parecem demonstrar que as pessoas em melhor situação financeira são mais inteligentes que aquelas em pior situação financeira. Em particular, dizem esses psicólogos, os testes de QI mostram que os negros conseguem resultados habitualmente mais baixos que os brancos.

A implicação é que qualquer tentativa de se corrigir o que parecem ser injustiças sociais está fadada ao fracasso, porque os oprimidos são exatamente tão ignorantes quanto oprimidos e, portanto, merecem a opressão. A implicação seguinte é que o controle da natalidade deveria ser praticado mais freqüentemente pelos pobres e oprimidos porque, de qualquer modo, eles não prestam para nada.

O psicólogo inglês Cyríl Burt (1883-1971), o patrono de tais psicólogos, apresentou dados que mostravam que as classes inglesas mais altas eram mais inteligentes que as classes mais baixas, que os gentios ingleses eram mais inteligentes que os judeus ingleses, que os ingleses eram mais inteligentes que as inglesas e que, de modo geral, os ingleses eram mais inteligentes que os irlandeses. Seus dados, agora se nota, foram manipulados por ele mesmo para demonstrar resultados que estivessem de acordo com seus preconceitos.

Mesmo onde as observações parecem ser honestas, ficam consideráveis dúvidas se os testes de QI medem qualquer coisa que não a similaridade do examinando com o examinador — com o último naturalmente assumindo ser o máximo da inteligência.

E também, por toda a história, as classes mais baixas sempre criaram proles mais numerosas que as classes mais altas, assim como a classe camponesa sempre sobrepujou a classe média nesse aspecto e, igualmente, os oprimidos, em relação aos opressores. Resulta que quase todas as pessoas superiores e refinadas de nossa cultura acabam, se examinarmos suas árvores genealógicas, descendendo de pessoas que foram camponeses ou de algum modo oprimidas e, em seus dias, consideradas subumanas pelas classes altas da época.

Parece então razoável supor que, já que o coeficiente de natalidade tem que cair, se é para sobrevivermos, não precisamos nos preocupar se a queda não ocorrer perfeitamente equilibrada entre todos os grupos e classes.

A humanidade sobreviverá ao choque e provavelmente não será menos inteligente por isso.

Mais recentemente, uma nova fonte de possível deterioração nasce da nova capacidade científica de isolar ou produzir drogas naturais ou sintéticas que são narcóticas, estimulantes ou alucinógenas. Cada vez mais indivíduos normais vão sendo atraídos e ficam dependentes dessas drogas. Essa tendência aumentará até que a humanidade como um todo se tenha deteriorado além do ponto de se salvar?

Parece, todavia, que as drogas são principalmente valorizadas como métodos de escapar ao tédio ou à depressão. Já que o objetivo de qualquer sociedade sensata deveria ser reduzir o tédio e a depressão, um êxito nesse aspecto pode diminuir o perigo das drogas. O fracasso na redução do tédio e da depressão pode produzir catástrofes independentemente das drogas.

Finalmente, as técnicas da engenharia genética podem servir para determinar a mudança, mutação e evolução humanas de modo a eliminar alguns dos perigos que tememos. Elas poderiam, na realidade, ajudar a aumentar a inteligência, acabar com genes defeituosos e incrementar várias habilidades.

Mas será que mesmo as boas intenções não poderiam dar errado? Por exemplo, uma das primeiras vitórias da engenharia genética poderia ser a de se conseguir controlar o sexo dos filhos. Será que isso não poderia atrapalhar a sociedade humana de modo radical? Já que o estereótipo das pessoas é querer meninos, será que os pais em todo o mundo não escolherão meninos em maioria esmagadora?

Isso é possível, e o primeiro resultado seria um mundo em que os homens excederiam em número as mulheres. Isso significaria que o coeficiente de natalidade cairia vertiginosamente, pois depende do número de mulheres em idade de gerar filhos e muito pouco do número de homens.

Num mundo superpovoado, isso poderia ser uma coisa boa, especialmente porque o preconceito pró-meninos parece ser mais arraigado nos países mais superpovoados.

Por outro lado, as meninas de repente valeriam muito, pois a competição por elas ficaria aguda, e pais com boa perspectiva de futuro optariam por meninas na geração seguinte como um investimento inteligente.

Em não muito tempo, perceber-se-ia que a razão um para um é a única que realmente funciona.

E os “bebês de proveta”? Em 1978, as manchetes de jornais davam a impressão de que um deles nascera, mas era apenas uma inseminação artificial, técnica há muito usada para animais domésticos. O ovo fertilizado foi implantado no útero de uma mulher e o feto teve de desenvolver-se nesse órgão.

Isso nos permite visualizar um futuro em que mulheres ocupadas com suas carreiras contribuiriam com células sexuais para serem fertilizadas e então implantadas em mães substitutas. Quando o bebê nascesse, a substituta seria paga e a criança recolhida pela mãe biológica.

Isso se populariza? Um bebê não é, afinal de contas, um simples amontoado de genes. Boa parte de seu desenvolvimento no estágio fetal depende do ambiente materno: da dieta da mãe hospedeira, da eficiência de sua placenta, dos detalhes bioquímicos de suas células e da corrente sangüínea. A mãe biológica pode não sentir que o bebê que recebe do útero de outra é realmente seu e, quando os defeitos e imperfeições (reais ou imaginados) aparecerem na criança, a mãe biológica pode não os tolerar paciente e carinhosamente, mas jogar a culpa na mãe hospedeira.

Embora a inseminação artificial exista como uma opção a mais, não será de surpreender se ela alcançar pouca aceitação popular. É claro que poderíamos ir até o fim e dispensar inclusive o útero humano. Uma vez desenvolvendo-se numa placenta artificial (o que não é impossível), células sexuais humanas fertilizadas em laboratório poderiam passar nove meses de desenvolvimento fetal em equipamentos experimentais, com misturas de nutrientes oxigenados circulando por eles para alimentar o embrião e eliminar os detritos. Isso é que seria um verdadeiro bebê de proveta.

Os úteros não sendo usados, será que o aparelho reprodutor feminino degeneraria? Será que a espécie humana ficaria dependente de placentas artificiais e seria ameaçada pela extinção caso a tecnologia falhasse? É improvável. Modificações evolutivas não acontecem tão rapidamente. Se usássemos fábricas de reprodução durante cem gerações, os úteros femininos ainda manteriam sua funcionalidade. Além disso, é improvável que bebês de proveta venham a constituir a única forma de manutenção da espécie, mesmo sendo uma opção possível. É provável que muitas mulheres ainda prefiram o processo natural da gravidez e parto, no mínimo por terem mais certeza de a criança ser realmente delas. Elas podem também sentir que seus bebês estarão mais próximos delas por terem sido nutridos por sua corrente sangüínea e envolvidos pelo ambiente materno.

Por outro lado, há vantagens nos bebês de proveta. Os embriões em desenvolvimento estariam sob atenta observação o tempo todo. Problemas secundários poderiam ser corrigidos. Embriões com sérias deficiências poderiam ser eliminados. Algumas mulheres poderiam preferir a certeza de ter bebês saudáveis.

Pode chegar o dia em que conseguiremos detectar precisamente todos os genes em cromossomos humanos e determinar sua natureza. Poderemos então ser capazes de localizar exatamente os genes defeituosos em indivíduos e calcular a probabilidade de crianças defeituosas nascerem da união fortuita de genes defeituosos de cada um de seus progenitores.

Informados sobre sua constituição genética, os indivíduos poderão buscar companheiros com genes mais adequados aos seus, ou poderão se casar por amor, mas usar auxílio externo para as combinações de genes apropriadas. Por meio desses métodos e da modificação total de genes, a evolução humana poderia ser direcionada.

Há risco aqui de surgirem tentativas racistas de produzir combinações genéticas que apenas originem crianças altas, louras e de olhos azuis? Ou, pelo contrário, tentativas de gerar grande número de mentecaptos ignorantes, impassíveis e pacientes, para fazer o serviço do mundo e servir em seus exércitos?

Ambas as hipóteses são um tanto ingênuas. Se se admite a instalação em muitas partes do mundo de laboratórios que serão equipados para fazer engenharia genética, por que pensar que os asiáticos, por exemplo, iriam sonhar com a produção de tipos verdadeiramente nórdicos? Quanto à raça de sub-homens mentecaptos — bem, num mundo sem guerras e com automatização por computadores, o que haveria para eles fazerem?

E o cloning (“duplicação”)? Não poderíamos ultrapassar de vez a reprodução comum tomando uma célula do corpo de um indivíduo, homem ou mulher, e substituindo o núcleo dessa célula pelo de uma célula sexual? A célula sexual seria então estimulada a se dividir e formar um bebê que teria exatamente a constituição genética do indivíduo que foi duplicado.

Para que fazer isso? Afinal de contas, a reprodução comum é uma forma suficientemente eficaz para produzir bebês e tem a vantagem de misturar genes para produzir novas combinações.

Será que algumas pessoas iriam querer que precisamente seus genes fossem duplicados para animar novas vidas? Talvez, mas o duplo não seria uma duplicata exata. Se você fosse duplicado, seu duplo poderia ter sua aparência, mas não se teria desenvolvido no útero de sua mãe, como você, e, após nascer, teria um ambiente social bem diferente do que você teve. Isso também não provaria ser uma forma cabível de preservar os Einsteins e os Beethovens do futuro. O duplo de um matemático poderia não desenvolver alta aptidão matemática em seu meio social; o de um músico poderia, de acordo com as circunstâncias de sua vida, se entediar com música, e assim por diante.