Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 50 de 68

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Escolha a Catástrofe

Doenças Infecciosas

Vários outros pesticidas orgânicos foram descobertos, e a guerra dos homens contra os insetos deu uma virada bastante favorável para o lado dos primeiros.

Mas não total. Ainda se tinha que ajustar contas com a força da modificação evolutiva dos insetos. Se os inseticidas falharam no extermínio de todos os insetos (porque alguns tantos eram resistentes ao DDT OU a outros produtos similares), os sobreviventes rapidamente se multiplicavam em proles ainda mais resistentes. Se os mesmos inseticidas tinham exterminado competidores ou predadores de insetos até mais eficazmente, a nova e resistente descendência do inseto originalmente atacado poderia, por certo tempo, desenvolver-se além dos números existentes anteriormente ao início da utilização dos inseticidas. Para controlá-los, a concentração de inseticida tinha que ser aumentada, e novos inseticidas surgiram.

À medida em que os inseticidas passaram a ser usados em maior escala, mais indiscriminadamente e com crescentes concentrações, outras desvantagens vieram à luz. Os inseticidas poderiam ser relativamente inócuos a outras formas de vida — só relativamente. Eles não eram facilmente destmtíveis dentro do corpo dos animais, e os animais que se alimentavam de plantas tratadas com inseticida armazenavam os produtos químicos em seus depósitos de gordura, transmitindo-os aos outros animais que os comiam. Os inseticidas armazenados podiam causar danos.

Exemplificando; eles desarranjavam o mecanismo de formação da casca do ovo de alguns pássaros, reduzindo drasticamente o coeficiente de natalidade.

A bióloga americana Rachel Louise Carson (1907-64) publicou, em 1962, Silent Spring, um livro que enfatiza realisticamente os riscos do uso indiscriminado de pesticidas orgânicos. Desde então, novos métodos vêm sendo desenvolvidos: pesticidas de menor teor tóxico, utilização de inimigos biológicos, esterilização dos machos por radiações radioativas, utilização de hormônios de insetos para evitar sua fertilização ou maturação.

No geral, a luta contra os insetos vai indo bastante bem. Não há sinais de que os seres humanos estejam vencendo no sentido de as pragas de insetos serem permanentemente extintas, mas também não estamos perdendo. Como no caso dos ratos, a guerra está num beco sem saída, porém não há sinais de que a humanidade deverá sofrer uma infeliz derrota. A menos que a espécie humana seja gravemente enfraquecida por outros motivos, é improvável que os insetos que estamos combatendo venham a nos destruir.

 

DOENÇAS INFECCIOSAS

Muito mais perigosa que o efeito de pragas de pequenos e fecundos organismos sobre os seres humanos, seus alimentos e suas posses, é sua tendência de difundir algumas formas de

doenças infecciosas {47}.

Todo organismo vivo é sujeito a doenças de diversos tipos (define-se doença em seu sentido mais lato: qualquer má função ou alteração da fisiologia ou bioquímica que interrompa o funcionamento normal do organismo). Por fim, o efeito cumulativo de más funções, disfunções e pseudofunções, mesmo que muitas curas e correções tenham sido feitas, produz danos irreversíveis — chamamos a isso “velhice” — e, mesmo com todo o cuidado do mundo, traz a inevitável morte.

Existem algumas árvores que podem viver 5 000 anos; alguns animais de sangue frio vivem até duzentos anos; alguns animais de sangue quente podem atingir a idade de cem anos; mas, para cada indivíduo multicelular, a morte chega como o fim.

Esta é uma parte essencial do funcionamento bem sucedido da vida.

Novos indivíduos constantemente vêm à existência com novas combinações de cromossomos e genes, e com genes mutantes também. Estes representam novas tentativas, digamos assim, de adequar o organismo ao ambiente. Sem a contínua chegada de novos organismos, que não são meras cópias dos velhos, a evolução cessaria. Naturalmente, os novos organismos não podem desempenhar seus papéis adequadamente a menos que os velhos sejam tirados de cena após terem desempenhado sua função de produzir os novos.

Em resumo, a morte do indivíduo é essencial para a vida da espécie.

É necessário, contudo, que o indivíduo não morra antes de a nova geração ser produzida; pelo menos, não com freqüência tal que ameace a população de minguar até a extinção.

A espécie humana não pode ter a relativa imunidade para o mal da morte individual possuído pelas espécies pequenas e fecundas. Os seres humanos são comparativamente grandes, têm vidas relativamente longas e são lentos na reprodução; assim, a morte muito rápida de um indivíduo já traz em si o espectro da catástrofe. A rápida morte de altíssimo número de seres humanos por doença pode marcar seriamente a população humana. Se levada ao extremo, não é difícil imaginá-la eliminando a espécie humana.

Mais perigosa, neste sentido, é aquela classe de má função denominada “doença infecciosa”. Existem muitas enfermidades que, por uma ou outra razão, afetam um ser humano em particular e podem até matá-lo, ou a ela, mas que, em si, não oferecerão perigo para a espécie, porque estão estritamente confinadas ao indivíduo sofredor. Onde, no entanto, existe a possibilidade de uma doença, de algum modo, transferir-se de um ser humano para outro, e onde sua ocorrência num único indivíduo pode levar à morte de, não um, mas milhões de outros também, aí está a possibilidade da catástrofe.

E, na verdade, nos tempos históricos, as doenças infecciosas já chegaram mais perto de abater a espécie humana do que as depredações de quaisquer animais. Embora as doenças infecciosas, mesmo no mais alto grau, nunca tenham chegado a realmente pôr um fim aos seres humanos como uma espécie viva (obviamente), elas podem abalar gravemente uma civilização e mudar o curso da história. E, de fato, já o fizeram, não uma, mas muitas vezes.

Mais importante ainda: a situação talvez tenha piorado com o advento da civilização. Civilização tem significado o desenvolvimento e o crescimento de cidades e o alojamento de multidões em áreas restritas. Assim como o fogo pode se espalhar muito mais rapidamente numa floresta densa do que em um só agrupamento de árvores, também as doenças infecciosas se propagam mais rapidamente em áreas densamente povoadas que em comunidades esparsas.

Mencionemos alguns casos notórios na história.

Em 431 a.C, Atenas e seus aliados foram à guerra contra Esparta e seus aliados. Essa foi uma guerra que durou 27 anos e que arruinou Atenas e, em grande parte, toda a Grécia. Como Esparta dominava a terra, a população ateteniense inteira se comprimiu na cidade murada de Atenas. Lá o povo estava seguro e podia se abastecer por via marítima, pois o mar era controlado pela marinha ateniense. Atenas poderia muito bem ter vencido a guerra em pouco tempo e a Grécia, evitado a ruína, se não fosse a doença.

Em 430 a.C, uma peste infecciosa abateu-se sobre a população ateniense enclausurada e matou 20 por cento dela, inclusive seu líder carismático, Péricles. Atenas persistiu na luta, mas jamais recobrou a totalidade de seus habitantes ou sua força e, finalmente, perdeu.

As pestes muito freqüentemente começavam no leste e sudeste da Ásia, onde a população era a mais concentrada do mundo, e se espalhavam rumo a oeste. Em 166 d.C, quando o Império Romano estava em seu apogeu de força e civilização sob o dedicado imperador-filósofo Marco Aurélio, os exércitos romanos que lutavam nas fronteiras orientais da Ásia Menor começaram a sofrer de uma doença epidêmica (provavelmente a varíola).

Trouxeram-na consigo quando de sua volta a Roma e às outras províncias.

No pico da epidemia, 2 000 pessoas morriam na cidade de Roma a cada dia.

A população começou a minguar e não atingiu os números de antes da epidemia até o século XX. Muitos fatores terão contribuído para o longo e lento declínio de Roma, após o reinado de Marco Aurélio, mas o efeito enfraquecedor da peste de 166 desempenhou a sua parte.

Mesmo após as províncias ocidentais do império terem sido assoladas pelas invasões de tribos germânicas e a própria Roma ter sido arrasada, a metade oriental do Império Romano continuou a existir, com sua capital em Constantinopla. Sob o poderoso Imperador Justiniano I, que chegou ao trono em 527, a África, a Itália e partes da Espanha foram retomadas e, por certo tempo, tinhase a impressão de que o império seria reconstituído. Em 541, contudo, a peste bubônica atacou. Esta era uma enfermidade que atingia ratos, basicamente, mas que podia ser transmitida ao homem por pulgas que picavam um rato doente e depois um ser humano saudável. A peste bubônica era de ação rápida e, geralmente, fatal. Ela pode inclusive ter sido acompanhada de uma variedade mais letal, a peste pneumônica, que passa direto de uma pessoa para outra.

Durante dois anos a peste reinou, e entre um terço e metade da população da cidade de Constantinopla morreu, além de muitos que habitavam a região rural da cidade. Não mais restavam esperanças de unir o império novamente, e a porção oriental — que veio a ser conhecida como o Império Bizantino — continuou a declinar daí em diante (com ocasionais revigoramentos).

A pior das epidemias da história da espécie humana ocorreu no século XIV. Por volta de 1330, uma nova variedade da peste bubônica (particularmente fatal) apareceu na Ásia central. Os habitantes da região começaram a morrer e a peste foi aumentando inexoravelmente seu raio de ação.

E acabou por alcançar o mar Negro. Na península da Criméia, salientando-se pela costa centro-norte daquele mar, havia um porto chamado Kaffa, onde a cidade italiana de Gênova estabelecera um entreposto comercial. Em outubro de 1347, um navio genovês por pouco não conseguia fazer a viagem de volta de Kaffa a Gênova. Os poucos homens a bordo que não tinham morrido da peste estavam morrendo. Eles foram desembarcados, trazendo para a Europa a peste, que rapidamente passou a se propagar.

Às vezes alguém pegava só uma forma benigna da doença; o mais comum, porém, era ela aniquilar totalmente o indivíduo. Neste último caso, o paciente quase sempre morria dentro de um. a três dias após o surgimento dos primeiros sintomas. Como os estágios finais eram marcados por manchas hemorrágicas que ficavam pretas, a doença foi batizada de “peste negra”.

A peste negra alastrou-se desenfreadamente. Estima-se que cerca de 25 milhões de pessoas na Europa e muito mais que isso na África e Ásia tenham sido vitimadas antes que a peste desaparecesse. Ela pode ter matado um terço de toda a população humana mundial, talvez 60 milhões de pessoas ao todo (ou até mais). Não sabemos de nada que, antes ou depois, tenha dizimado uma porcentagem tão larga de população como a peste negra.

Não é de se espantar que ela tenha inspirado um terror tão abjeto entre a população. Todos viviam em pânico. Um súbito ataque de tremedeira ou vertigem, uma simples dor de cabeça, poderiam significar que a morte se apossara daquele indivíduo e que não lhe restavam mais de umas 24 horas até que morresse. Cidades inteiras foram devastadas, com os primeiros a morrer jazendo desenterrados, enquanto os sobreviventes fugiam para espalhar a doença. Fazendas foram abandonadas; animais domésticos vagavam à solta sem que ninguém olhasse por eles. Nações inteiras — como Aragão, por exemplo, que é hoje a porção oriental da Espanha — foram atingidas tão severamente que jamais chegaram a se recuperar por completo.

As bebidas alcoólicas já tinham surgido na Itália em 1100. Agora, dois séculos mais tarde, elas se popularizavam. A teoria era a de que beber muito agia como um preventivo contra o contágio. Não agia, mas tornava o bebedor menos preocupado, o que, naquelas circunstâncias, já era alguma coisa. O alcoolismo se instalou na Europa e lá permaneceu mesmo após a peste ter desaparecido; na verdade, até hoje.

A peste também atrapalhou a economia feudal, reduzindo drasticamente a mão-de-obra. Isso

contribuiu para a queda do feudalismo tanto quanto a invenção da pólvora{48}.

Desde então, houve outras grandes epidemias, embora nenhuma se comparasse à peste negra em terror e destruição. Em 1664 e 1665, a peste bubônica atingiu Londres e vitimou 75 000 pessoas.

A cólera, que sempre ferveu abaixo da superfície na índia (onde é “endêmica”), ocasionalmente brotava de repente e se espalhava numa “epidemia”. A Europa foi assolada por epidemias de cólera fatal em 1831, e, novamente, em 1848 e 1853. A febre amarela, doença tropical, era transmitida pelos marinheiros para portos mais ao norte, e periodicamente cidades americanas eram dizimadas por ela. Até em 1905, houve ainda uma séria epidemia de febre amarela em Nova Orleans.

A mais grave epidemia desde a peste negra foi a “gripe espanhola”, que assolou o mundo em 1918 e, num ano, deu cabo de 30 milhões de vidas humanas em todo o globo (600 000 delas nos Estados Unidos). Em comparação, quatro anos da Primeira Guerra Mundial, logo antes de 1918, tinham matado 8 milhões. Todavia, a gripe epidêmica matou menos de 2 por cento da população mundial; portanto, a peste negra continua sem rival.

É claro que doenças infecciosas podem atingir outras espécies que não o Homo sapiens, às vezes, até com maior grau de devastação. Em 1904, as castanheiras do Jardim Zoológico de Nova York adquiriram a “ferrugem das castanheiras” e em duas décadas praticamente todas as castanheiras dos Estados Unidos e do Canadá estavam perdidas. Aí, a doença do olmo holandês alcançou Nova York em 1930 e se alastrou furiosamente. Ela está sendo combatida com todos os recursos conhecidos da ciência botânica moderna; os olmos, porém, continuam a morrer; quantos conseguirão ser salvos é ainda uma questão em aberto.

Às vezes, os seres humanos podem fazer uso de doenças animais como uma forma de pesticida. O coelho foi introduzido na Austrália em 1859 e, na ausência de inimigos naturais, multiplicou-se irrefreavelmente. Em cinqüenta anos, ele tinha se espalhado em cada parte do continente e nada que os homens fizessem parecia conseguir deter aquele crescimento desenfreado. Então, na década de 50, deliberadamente introduziu-se uma doença de coelhos chamada “mixomatose infecciosa”, que era endêmica entre coelhos na América do Sul. Essa era altamente contagiosa e fatal para os coelhos australianos, que jamais tinham sido expostos a ela. Quase imediatamente, os coelhos estavam morrendo aos milhões. Não foram totalmente extintos, é claro, e os sobreviventes são cada vez mais resistentes à doença, mas mesmo agora a população de coelhos da Austrália está bem abaixo de seu máximo.

Enfermidades vegetais c animais poderiam afetar a economia humana direta e desastrosamente. Em 1872, uma epidemia atacou os cavalos dos Estados Unidos. Não havia cura para ela. Ninguém, na época, percebeu que ela fora disseminada por pernilongos e, antes de ela desaparecer, um quarto de todos os cavalos americanos estavam mortos. Isso não representou apenas uma grave perda material; naquele tempo, os cavalos eram uma importante força de trabalho. A agricultura e a indústria sofreram um sério abalo, e a epidemia ajudou a provocar uma grave depressão.

Mais de uma vez colheitas foram arruinadas e calamidades se instalaram por causa de doenças infecciosas. A “ferrugem tardia” destruiu a plantação de batatas da Irlanda, em 1845, e um terço da população da ilha morreu de fome ou emigrou. Até hoje, a Irlanda não recuperou seus habitantes famintos evadidos. No que diz respeito a esse assunto, em 1846, a mesma enfermidade destruiu metade da plantação de tomates do leste dos Estados Unidos.

As doenças infecciosas evidentemente são mais perigosas à existência humana do que qualquer animal poderia ser. Teríamos bastante razão em nos perguntarmos se elas não poderiam produzir uma catástrofe final antes de as geleiras começarem a invadir o planeta novamente, e com certeza antes de o Sol dar um passo que seja em direção ao estágio de gigante vermelha.