Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 43 de 68

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Escolha a Catástrofe

O Efeito da Glaciação

A presença de amplas porções de terra à volta do pólo norte prove uma enorme área receptora para a neve e o gelo, e o oceano Ártico (especialmente antes de a era glacial cobri-lo com gelo marítimo) prove a fonte de água. O arranjo continente-oceano é perfeito para maximizar o efeito da era glacial no hemisfério norte.

Mas o arranjo continente-oceano no hemisfério norte não é permanente. Ele muda freqüentemente em função das placas tectônicas.

Conseqüentemente, enquanto a superfície terrestre se configurar de modo que as regiões polares sejam ou mar aberto ou continentes isolados cercados de mar aberto, não haverá eras glaciais espetaculares. Somente quando as placas movediças surgirem com um arranjo tal como o que existe no pólo norte hoje é que o ciclo orbital-axial determinará o tipo de era glacial que agora conhecemos. Isso só acontece, aparentemente, uma vez a cada 250 milhões de anos.

Mas cá estamos, e com certeza a configuração dos continentes não sofrerá mudanças drásticas que nos atirem numa era glacial, ou mesmo numa série delas — pelo menos não no próximo milhão de anos.

 

O EFEITO DA GLACIAÇÃO

 

Imaginemos o advento de uma era glacial. Que tipo de calamidade ela seria? Afinal de contas, há 1 milhão de anos que enfrentamos as idas e vindas das geleiras e cá estamos todos. Assim é, e, se pensarmos sobre isso, veremos que as geleiras se arrastam bem devagar. Levam milhares de anos para avançar e, mesmo no estágio de máxima glaciação, é surpreendente como são poucas as alterações que o mundo sofre.

Neste exato momento, há aproximadamente 25 milhões de quilômetros cúbicos de gelo repousando em diversas superfícies terrenas do globo, especialmente na Antártida e na Groenlândia. No ápice da glaciação havia um lençol glacial monstruoso cobrindo a metade superior da América do Norte e lençóis menores na Escandinávia e no norte da Sibéria. Naquele tempo, um total de 15 milhões de quilômetros cúbicos de gelo ficava na terra. Isso significa que, no ápice da glaciação, 50 milhões de quilômetros cúbicos de água, que hoje é marítima, estavam na terra.

A água extraída dos mares para alimentar as geleiras era 4 por cento do total, mesmo no ápice da glaciação. Isso significa que, mesmo no ápice da glaciação, 96 por cento do oceano já estavam onde se encontram hoje.

Do ponto de vista da capacidade absoluta, portanto, a vida marítima não sentiria qualquer compressão ambiental. Na verdade, a água do mar seria mais fria, em média, do que agora — mas e daí? A água fria dissolve mais oxigênio que a água quente, e a vida marítima depende do oxigênio tanto quanto nós. Por isso, as águas polares são mais ricas em vida do que as águas dos trópicos, e por isso as águas polares mantêm mamíferos gigantescos que vivem no mar — como as grandes baleias, os ursos polares, os leões-marinhos, e assim por diante.

Se durante uma era glacial a água do mar resfriasse mais, ela incentivaria a vida. Provavelmente agora é que a vida marítima sente o aperto.

A situação seria diferente na terra, e nela os problemas pareceriam bem mais calamitosos. No presente momento, 10 por cento do terreno da superfície terrestre estão cobertos de gelo. No ápice de uma glaciação, essa quantia se triplicou: 30 por cento do solo da superfície atual da Terra estavam cobertos de gelo. Isso significa que a área livre para a vida terrena reduziu-se de 117 milhões de quilômetros quadrados sem gelo, pelo menos no verão, para 90 milhões de quilômetros quadrados. Ainda assim, a descrição não é fiel à realidade.

No ápice de uma glaciação, a perda de 4 por cento da água do oceano significa uma queda de 150 metros no nível do mar. Isso não altera muito o oceano em si, mas ao redor dos continentes há extensões de terra submersas em águas rasas da borda oceânica. Essas zonas com menos de 180 metros de água acima delas são chamadas “plataformas continentais”. Ao baixar o nível do mar, a maior parte das plataformas continentais se expõe lentamente e abre-se à invasão da vida terrena.

Em outras palavras, à medida em que as geleiras avançam e engolfam o solo, o nível do mar baixa e expõe novo solo. Ambas as conseqüências se compensam. Como as geleiras escoam com baixíssima velocidade, a vegetação é levada para o sul e invade as plataformas continentais além das geleiras, e a vida animal segue o mesmo percurso.

Conforme as geleiras avançam, o cinturão das chuvas também recua para o sul, levando a chuva até regiões mais quentes da Terra, ainda (e desde então) não acostumadas à sua presença. Em resumo, os desertos atuais não eram desertos durante a era glacial. Antes do último recuo das geleiras, o que hoje é o Saara compreendia uma vasta extensão de terra fértil.

Por mais paradoxal que pareça, poderíamos afirmar que, com a exposição das plataformas continentais e o encolhimento dos desertos, o terreno total exposto à rica saturação de formas vivas era maior no ápice da era glacial do que hoje. Em especial, durante a última era glacial, os seres humanos — não os ancestrais hominídeos, mas o próprio Homo sapiens — deslocaram-se para o sul ante o avanço das geleiras, para o norte, após seu recuo, e prosperaram.

Por que, então, uma era glacial seria diferente no futuro? Por exemplo, imaginemos que uma geleira estivesse começando a avançar. Até que ponto isso seria desastroso?

A mobilidade humana é hoje menor que no passado. Por ocasião da última era glacial, devem ter existido 20 milhões de pessoas ao todo; hoje, há 4 bilhões — duzentas vezes mais. É mais difícil 4 bilhões se deslocarem do que 20 milhões.

Daí, então, consideremos a mudança no estilo de vida. Por ocasião da última era glacial, os seres humanos não eram nem um pouco presos à terra.

Eles eram meramente coletores e caçadores de comida. Seguiam a vegetação e os animais, e qualquer lugar era o mesmo para eles, desde que pudessem encontrar frutas, nozes e caça.

Desde a última era glacial, os seres humanos aprenderam a ser fazendeiros e mineiros. As fazendas e as minas não podem se deslocar. Nem as complexas estruturas que o homem construiu: cidades, túneis, pontes, cabos elétricos, etc, etc. Nada disso é transportável; podem apenas ser abandonados e reconstruídos em algum outro lugar.

Porém, tenhamos em mente que o processo de avanço e recuo das geleiras é vagaroso; conseqüentemente, o nível do mar sobe e desce lentamente. Haverá tempo hábil para se efetuar a mudança, e de forma não desastrosa. Podemos imaginar a humanidade deslocando-se para o sul e em direção às plataformas continentais — e de lá para o interior e de volta ao norte — repetidas vezes, enquanto a atual configuração continental do pólo norte continuar a mesma. Seria como que um processo respiratório, com tipo de expiração durante 50 000 anos, seguido de uma inspiração com a mesma duração.

Não seria um movimento contínuo, pois as geleiras avançam com intervalos de recuo parcial, e recuam com intervalos de avanço parcial; mas os homens, mesmo com dificuldades, imitarão esses avanços e recuos em toda a sua complexidade — desde que todos os avanços e recuos sejam lentos.

Aliás, as diferenças ambientais não envolvem necessariamente só o avanço de geleiras. O recuo das geleiras desde a última era glacial não foi total. Ainda resta a calota polar da Groenlândia, relíquia intata da era glacial.

Com a aproximação de um grande verão, o que aconteceria se o clima continuasse a abrandar de modo que o gelo polar norte e, inclusive, a calota polar da Groenlândia derretessem?

A calota polar da Groenlândia contém 2,6 milhões de quilômetros cúbicos de gelo. Se esse gelo e o dos lençóis das outras ilhas polares derretessem e derramassem no oceano, o nível do mar se elevaria em 5,5 metros. Isso seria um incômodo para algumas regiões litorâneas e, em especial, para cidades baixas como Nova Orleans, que seriam alagadas.

Novamente, se o degelo fosse lento, poderíamos imaginar as cidades costeiras abandonando o litoral e recuando para terras mais altas, de forma não desastrosa.

Suponhamos que, por alguma razão, o lençol glacial da Antártida também degelasse. Isso é improvável, a julgar pelo desenvolvimento natural das coisas, pois ele sobreviveu a todos os períodos interglaciais do passado — mas suponhamos! Como 90 por cento do suprimento glacial da Terra se encontram na Antártida, se esta degelasse, o nível do mar subiria dez vezes mais que no caso do degelo da Groenlândia. O nível do mar subiria cerca de 55 metros e a água alcançaria o décimo oitavo andar dos arranha-céus de Nova York. Os litorais dos continentes atuais seriam submersos. O Estado da Flórida e muitos outros Estados do golfo sumiriam. O mesmo aconteceria às ilhas britânicas, aos Países Baixos, ao norte da Alemanha, e assim por diante.

Todavia, o clima terrestre ígualar-se-ia muito mais, e não haveria solo polar nem solo desértico. Até mesmo o espaço disponível para a humanidade poderia continuar tão grande quanto antes; e, se a mudança fosse gradual, nem mesmo o degelo da Antártida seria tão desastroso.

Se, porém, a vinda da próxima era glacial ou do degelo da Antártida forem adiados por algumas dezenas de milhares de anos, pode não acontecer nada disso. O avanço tecnológico pode conseguir modificar a ação do propulsor da era glacial e conservar a temperatura média da Terra, caso isso seja desejado.

Por exemplo, poder-se-ia instalar no espaço próximo alguns espelhos que pudessem ser ajustáveis e refletir a luz solar sobre a superfície noturna da Terra, ou desviar os raios que normalmente incidem sobre a superfície diurna da Terra. Assim, a Terra poderia ser ligeiramente aquecida no caso de as geleiras se expandirem, ou resfriada, se o degelo tiver inicio.

Além disso, poderíamos desenvolver métodos para alterar de forma controlada a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera terrestre, permitindo que mais calor escapasse no caso de o degelo nos ameaçar, ou conservando o calor, no caso de as geleiras nos ameaçarem.

Finalmente, à medida em que a população for mudando para comunidades espaciais, as idas e vindas das geleiras tornar-se-ão menos importantes para a humanidade como um todo.

Resumindo, como no passado, as eras glaciais não seriam tão catastróficas no futuro. E

poderiam nem ser desastrosas. Aliás, elas podem nem ocorrer, graças à tecnologia humana {44}.

Mas e se as geleiras surgirem inesperadamente e com velocidade sem precedentes, ou se o suprimento glacial da Terra degelar inesperadamente e com velocidades sem precedentes — e se isso tudo acontecer antes que estejamos tecnologicamente preparados? Aí estaremos experimentando uma enorme calamidade ou mesmo quase uma catástrofe, e há condições sob as quais isso pode ocorrer — assunto que retomarei mais adiante.