Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 38 de 68

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Escolha a Catástrofe

O Futuro Tectônico

 

Poderíamos, pois, esperar, como fato consumado, que, a cada década, o total de mortes e destruições devido a terremotos e, em menor grau, a vulcões, piorará, muito embora as placas não façam mais que continuar a deslizar como vem acontecendo há alguns bilhões de anos. Poderíamos também esperar que as pessoas, notando a maior mortandade e destruição, e sujeitas à maior publicidade relativa a isso, terão certeza de que a situação está piorando e de que a Terra está desmoronando.

Errado! Mesmo que as coisas pareçam piorar, é a mudança provocada pelos homens n0 mundo, não a mudança tectônica, que é a responsável. É claro que sempre há indivíduos ansiosos, por algum motivo, para predizer o fim iminente do mundo. Antigamente, a predição em geral se inspirava nesta ou naquela passagem da Bíblia, e era freqüentemente vista como a conseqüência dos pecados dos homens. Hoje, aponta-se como causa algum aspecto material do universo.

Em 1974, por exemplo, foi publicado o livro The Júpiter effect, de John Gribbin e Stephen Plagemann — cujo prefácio foi escrito por mim por achá-lo interessante. Gribbin e Plagemann calcularam o efeito das marés produzido sobre o Sol por diversos planetas, especularam acerca da influência das marés sobre chamas solares e, portanto, sobre os ventos solares, e especularam sobre o efeito desses últimos sobre a Terra. Em especial, questionaram a existência de um efeito que comprometesse a tensão em várias falhas. Por exemplo, se a falha de Santo André estivesse prestes a deslizar e produzir um perigoso terremoto, o efeito do vento solar poderia ser a gota d’água que empurraria a falha sobre a borda.

Gribbin e Plagemann indicaram a possibilidade de, em 1982, a posição dos planetas propiciar o maior efeito das marés já verificado sobre o Sol. Nesse caso, se a falha de Santo André estivesse prestes a deslizar, 1982 seria o ano propício para isso.

O primeiro aspecto do livro a ser levado em conta é o fato de que ele é altamente teórico. Em segundo lugar, mesmo que a cadeia de eventos acontecesse — uma posição dos planetas que favorecesse o maior efeito das marés possível sobre o Sol, cujo número e intensidade de chamas então aumentaria, e que, por sua vez, viria a intensificar o vento solar que empurraria a falha de Santo André —, no máximo ocorreria um terremoto, o qual não tardaria mais que um ano, de qualquer forma, não fosse o empurrão.

Poderia ser um terremoto bastante poderoso, mas nada além do que seria sem a ação do vento solar. Poderia causar danos enormes, mas não devido a sua potência, e sim porque a Califórnia foi entupida de gente e edificações desde o último grande terremoto de 1906.

Entretanto, o livro foi mal interpretado e, agora, parece haver um temor de que exista um “alinhamento planetário” em 1982, e que isso induzirá, mediante alguma influência astrológica, os mais sérios infortúnios no planeta, dos quais o menor será o deslizamento da Califórnia mar adentro.

Bobagem!

Por alguma razão, a idéia do deslizamento da Califórnia para o mar parece interessar aos irracionalistas. Em parte, isso deve ser porque sabem vagamente da existência de uma falha ao longo da costa ocidental da Califórnia (o que é verdade) e que pode haver movimento ao longo da falha (o que também é verdade). No entanto, o movimento seria de apenas alguns metros e as beiradas da falha não se desintegrariam. Depois da tragédia, a Califórnia ainda seria um só corpo.

É admissível que no futuro exista uma expansão ao longo da falha; o material irá jorrar e forçar os lábios da falha a se separarem, produzindo, talvez, uma depressão para dentro da qual o oceano Pacífico poderia verter.

A lasca ocidental da Califórnia se deslocaria do restante da América do Norte, produzindo uma península parecida com a Baixa Califórnia, ou mesmo uma ilha comprida. Levaria milhões de anos para isso acontecer, porém, e o processo seria acompanhado da ocorrência de terremotos e vulcões do tipo que hoje conhecemos.

No entanto, a teoria da Califórnia deslizando mar adentro ainda persiste. Por exemplo, há um asteróide, ícaro, descoberto em 1948 por Baade, que apresenta uma órbita das mais excêntricas. Em um extremo da órbita, ele atravessa a zona de asteróides. No outro extremo, ele se aproxima do Sol mais que o planeta Mercúrio. No meio, sua órbita quase esbarra na órbita terrestre; trata-se, pois, de um arranha-Terra.

Quando ícaro e a Terra se encontram nos pontos críticos de suas órbitas, eles ficam a 6,4 milhões de quilômetros de distância. Mesmo a essa distância, aproximadamente dezessete vezes maior que a da Lua, o efeito de ícaro sobre a Terra é zero. Ainda assim, quando da aproximação mais recente, ouvia-se o presságio do deslizamento da Califórnia mar adentro.

Na verdade, o risco representado por vulcões e terremotos poderia diminuir com o passar do tempo. Conforme descrito anteriormente, se a Terra acabasse perdendo o calor central, a força propulsora das placas tectônicas e, portanto, dos terremotos e vulcões, se extinguiria. Isso não chegará a acontecer antes do estágio de gigante vermelha do Sol.

Mais importante é o fato de que os seres humanos já estão tentando precaver-se para minimizar o perigo. Avisos prévios seriam úteis. No caso de vulcões, isso é simples. Um prudente cuidado com esses acidentes, bem como ter os olhos voltados para os sintomas premonitórios mais óbvios seriam de grande ajuda para evitar danos e mortes. Os terremotos são menos cooperativos, mas também dão indícios de sua atividade. Quando um lado da falha chega a ponto de escorregar sobre o outro, algumas alterações de menor porte já se fazem sentir no solo antes do choque propriamente dito; estas podem ser detectadas e avaliadas de alguma maneira.

Antes de um terremoto, observam-se alterações nas rochas, como um decréscimo na resistência elétrica, um arrebitamento do solo e um aumento no fluxo das águas subterrâneas para interstícios que se abrem com a distensão gradual das rochas. O aumento do fluxo aquoso se faz indicar no ar pelo aumento de gases radioativos como o radônio — gases que até então estiveram presos entre as rochas. Há, mesmo, elevações no nível dos mananciais de água e um aumento de sua lama.

Por incrível que pareça, um dos principais indícios de um terremoto iminente é uma mudança geral no comportamento dos animais. Cavalos mansos dão coices e galopam desvairadamente, os cães uivam, os peixes saltam. Aqueles animais que costumeiramente se escondem, como ratos e cobras, repentinamente saem das tocas. Os chimpanzés passam menos tempo nas árvores e mais no chão. Não devemos concluir, a partir daí, que os animais têm a capacidade de prever o futuro ou que possuam um sentido diverso do nosso. O contato que têm com o ambiente natural é mais íntimo e suas vidas precárias fazem com que estejam mais atentos que nós a alterações quase imperceptíveis. Os mínimos tremores que precedem o choque real os perturbam; os sons estranhos provenientes do roçar dos lábios da falha os enervam.

Na China, onde os tremores de terra são mais freqüentes e destrutivos que nos Estados Unidos, empreendem-se grandes esforços no sentido de prevê-los. Mobiliza-se a população para sensibilizá-la a mudanças.

Comportamentos bizarros de animais são anunciados, assim como o são as diferenças no nível dos mananciais de água, a ocorrência de sons estranhos no solo e mesmo o enigmático trincamento de pinturas. Desse modo, os chineses afirmam ter previsto terremotos desastrosos com prazos de um a dois dias e salvado muitas vidas — em especial, dizem, no caso do tremor de 4 de fevereiro de 1975, no nordeste da China. (Por outro lado, parecem ter sido pegos de surpresa pelo monstruoso tremor do dia 28 de julho de 1976.) Mesmo nos Estados Unidos, as tentativas de previsão de terremotos tornam-se cada vez mais sérias. Nosso forte é a alta tecnologia, e a ela podemos recorrer para detectar as mais sutis mudanças, quer nos campos magnético, elétrico e gravitacional locais, quer nas modificações diárias de nível e conteúdo químico da água, ou nas propriedades do ar à nossa volta.

Contudo, faz-se necessária a dedução precisa do local, hora e magnitude da ocorrência de um terremoto, pois um falso alarma poderia sair caro. A evacuação súbita poderia causar mais incômodos que um terremoto de poucos graus na escala Richter, e a reação popular seria desfavorável caso a evacuação resultasse desnecessária. Por ocasião de novo aviso, as pessoas se recusariam a cooperar — justamente quando o terremoto poderia ser de grandes proporções.

Para fins de predição de terremotos com boa margem de certeza, determinar-se-ia uma série de medidas e a importância relativa de seus valores mutantes teria que ser avaliada. Bem se pode imaginar o que seria a leitura de doze medidores, cada um estudando uma propriedade diferente, alimentando um computador que avaliaria todos os efeitos e revelaria uma cifra que, uma vez acima de um dado ponto crítico, significaria a necessidade de evacuação.

A evacuação minimizaria os danos, mas isso por si só já seria satisfatório? Os terremotos seriam evitados inteiramente? Não parece haver qualquer meio prático de modificarmos a camada pedregosa subterrânea, mas a água subterrânea é outro caso. Se se cavassem fossas profundas, separadas umas das outras por alguns quilômetros ao longo de uma falha, e se a água fosse forçada a adentrá-las e pudesse refluir, as pressões subterrâneas poderiam se aliviar, o que impediria os terremotos. Na verdade, a água poderia fazer mais que aliviar pressões. Ela poderia lubrificar as rochas e facilitar o deslizamento em intervalos mais freqüentes. Uma série de terremotos secundários inofensivos, mesmo em termos cumulativos, é bem melhor que apenas um de primeira grandeza.

Embora seja mais fácil, com alguns dias de antecedência, prever-se uma erupção vulcânica do que um terremoto, seria muito mais difícil e perigoso aliviar pressões vulcânicas do que pressões sísmicas. Ainda assim, não custa nada imaginar que os vulcões inativos poderiam ser perfurados de modo a manter uma passagem central aberta, por onde a lava pudesse subir sem criar pressões explosivas — ou onde se abririam canais mais próximos ao nível do chão em direções planejadas para causar menos problemas às pessoas.

Resumindo, parece razoável supor que a Terra permanecerá bastante estável enquanto o Sol estiver na seqüência principal e que a vida não será ameaçada por qualquer convulsão da própria Terra nem por qualquer movimento da crosta. E, quanto a calamidades locais causadas por vulcões ou terremotos, pode ser perfeitamente possível reduzir tais riscos.