Escolha a Catástrofe
15 - os Riscos da Vitória
POPULAÇÃO
Se imaginarmos uma sociedade pacífica, com energia abundante e, por conseguinte, com copiosa capacidade de reciclar suas riquezas e avançar sua tecnologia, deveremos também imaginar que essa sociedade tirará proveito das recompensas de sua vitória sobre o ambiente. A recompensa mais óbvia será precisamente a que vem sendo experimentada como resultado de vitórias semelhantes no passado: o crescimento da população.
A espécie humana, como todas as espécies vivas que já existiram na Terra, tem a capacidade de incrementar rapidamente seus números. Não é impossível para uma mulher ter, digamos, dezesseis filhos durante os anos em que ela é capaz de procriar. (Registraram-se casos de mulheres que geraram mais de trinta crianças.) Isso significa que, se começarmos com duas pessoas, um homem e sua esposa, teremos um total de dezoito pessoas ao fim de trinta anos. Os filhos mais velhos podem, nessa época, ter se casado entre si (se imaginarmos uma sociedade que permita o incesto) e gerado mais umas dez crianças. De dois a 28, portanto — um aumento de catorze vezes em trinta anos. A essa taxa de crescimento, o par de seres humanos original terse-ia multiplicado para 100 milhões em dois séculos.
Entretanto, a população humana não cresce a uma taxa dessas, e nunca foi assim, por dois motivos. Em primeiro lugar, o número de nascimentos não é de dezesseis para cada mulher, mas sim uma média bastante inferior a essa, por diversas razões. Em outras palavras, o coeficiente de natalidade geralmente cai abaixo do seu potencial máximo.
Em segundo lugar, estou admitindo que todas as pessoas que nascem permanecem vivas, o que, logicamente, não é verdade. Todos devem morrer: muito freqüentemente, antes de procriarem tanto quanto poderiam; às vezes, antes de chegarem a gerar uma vida que seja.
Em resumo, há um coeficiente de mortalidade além do de natalidade e, para a maioria das espécies, os dois geralmente se equiparam.
Se, a longo prazo, o coeficiente de mortalidade e o de natalidade permanecem iguais, então a população de qualquer espécie em questão permanece constante; se, porém, o coeficiente de mortalidade supera o de natalidade, mesmo que só ligeiramente, então a espécie míngua em número e, um dia, se extingue. Se o coeficiente de natalidade ultrapassa mesmo que só ligeiramente o coeficiente de mortalidade, então a espécie aumenta em número constantemente.
O coeficiente de mortalidade em qualquer espécie tende a subir se o meio ambiente, por qualquer razão, se torna desfavorável a ela, e a cair se ele se torna favorável. A população de qualquer espécie tende a crescer em épocas de “vacas gordas” e a minguar em épocas de “vacas magras”.
Somente os seres humanos, dentre todas as espécies que já habitaram a Terra, tiveram a inteligência e a oportunidade de alterar seu meio ambiente radicalmente, de modo a favorecerem a si próprios. Por exemplo, eles melhoraram seu clima pelo uso do fogo; aumentaram seu suprimento alimentar com o deliberado cultivo de plantas e com a pecuária; com a invenção de armas, reduziram o perigo oferecido por predadores, e, pelo desenvolvimento da medicina, reduziram o perigo dos parasitos. O resultado foi que a humanidade vem conseguindo manter um coeficiente de natalidade que, grosso modo, tem sido mais alto que o coeficiente de mortalidade desde que o Homo sapiens apareceu no planeta.
Em 6000 a.C, quando a agricultura e a pecuária ainda estavam na infância, a população humana total na Terra aumentara para 10 milhões. Ao tempo da construção da Grande Pirâmide, provavelmente já girava em torno de 40 milhões; no tempo de Homero, 100 milhões; no de Colombo, 500 milhões; na época de Napoleão, somavam-se 1 bilhão; na de Lênin, 2 bilhões. E agora, na década de 1970, a população humana alcançou a marca de 4 bilhões.
Como a tecnologia tende a ser cumulativa, a taxa pela qual a humanidade vem aumentando seu predomínio sobre o meio ambiente e sobre formas de vida competidoras e a taxa pela qual a segurança física vem avançando têm aumentado progressivamente. Isso significa que a disparidade entre o coeficiente de natalidade e o de mortalidade tem progressivamente favorecido o primeiro. Isso, por sua vez, significa que a população humana não só está crescendo, como também o faz a uma taxa de constante elevação.
Nos milênios precedentes à agricultura, quando os seres humanos viviam da caça e da coleta de comida, o suprimento alimentar era parco e incerto, e a humanidade só podia aumentar seus números pela ocupação de áreas mais vastas da face da Terra. A taxa de crescimento populacional deve, então, ter sido menor que 0,02 por cento ao ano, e deve ter levado mais de 35.000 anos para a população humana se duplicar.
Com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária e a conseqüente garantia de um suprimento alimentar mais estável e abundante, a taxa de crescimento populacional começou a subir, atingindo 0,3 por cento ao ano em 1700 (um período de duplicação de 230 anos) e 0,5 por cento ao ano em 1800 (um período de duplicação de 140 anos).
O advento da Revolução Industrial, da mecanização da agricultura e do rápido desenvolvimento da medicina, expandiu ainda mais a taxa de crescimento populacional, chegando a 1 por cento ao ano em 1900 (um período de duplicação de setenta anos) e 2 por cento ao ano na década de 70 (um período de duplicação de 35 anos).
O aumento da população e da taxa de crescimento populacional multiplica a taxa pela qual novas bocas são adicionadas à humanidade.
Assim, em 1800, quando o total populacional era de 1 bilhão e a taxa de crescimento era 0,5 por cento ao ano, isso significava 5 milhões de novas bocas a serem alimentadas a cada ano. Na década de 70, com uma população de 4 bilhões e uma taxa de crescimento de 2 por cento ao ano, há 80 milhões de novas bocas a serem alimentadas a cada ano. Em 170 anos, a população quadruplicou, enquanto os números adicionais anuais foram multiplicados por dezesseis.
Embora isso tudo seja prova do triunfo humano sobre o ambiente, é também uma terrível ameaça. Uma população em declínio pode definhar indefinidamente até alcançar a marca decisiva do zero. Uma população crescente, todavia, não pode, em hipótese alguma, continuar a crescer indefinidamente. Chegará o dia em que uma população crescente tomará a dianteira e superará de muito seu suprimento alimentar, as exigências ambientais e seu espaço vital, e, então, com uma velocidade que bem poderia ser catastrófica, a situação se inverteria, dando início a uma queda acentuada da população.
Esse incremento populacional seguido de um declínio foi observado em muitas outras formas de vida, que se multiplicaram excessivamente numa sucessão de anos em que o clima e outros aspectos do ambiente, por sorte, favoreceram seu crescimento — apenas para morrer às pencas quando as inevitáveis secas fizeram um corte em seu suprimento de comida.
Esse é o destino que também faz face à humanidade. A mesma vitória que aumenta nossa população nos elevará a uma altura da qual não teremos outra opção que não o tombo — e quanto maior a altura, maior o tombo.
Podemos contar com os avanços tecnológicos para afastar o mal do futuro como já ocorreu no passado? Não, pois é fácil demonstrar com certeza absoluta que a atual taxa de crescimento populacional, caso se mantenha, facilmente superará não apenas qualquer avanço tecnológico provável como qualquer avanço tecnológico concebivel.
Comecemos pelo fato de que a população terrestre é de 4 bilhões em 1979 (um pouquinho maior, na realidade) e que sua taxa de crescimento é (e continuará a ser) 2 por cento ao ano. Poderíamos dizer que uma população humana de 4 bilhões já é muito alta para a Terra, quanto mais qualquer número superior a isso. Cerca de 500 milhões de pessoas, um oitavo do total (a maioria delas na África e na Ásia), são crônica e seriamente subnutridas, e centenas de milhares morrem de fome a cada ano. Além disso, as pressões para se produzir mais comida a cada ano para alimentar mais bocas vêm forçando os seres humanos a cultivar terras inférteis, usar pesticidas, fertilizantes e irrigação sem planejamento, prejudicando mais drasticamente o equilíbrio ecológico da Terra. Em conseqüência, o solo está se erodindo, os desertos se alastrando e a produção de alimentos (que vem crescendo com a população — e até mais rápido — nestas últimas desesperadas décadas de explosão populacional) chegando a um ápice, de onde só pode sofrer um declínio. Nesse caso, a miséria deverá se alastrar cada vez mais.
Por outro lado, poder-se-ia argumentar que a escassez de alimentos é provocada pelo homem, resultado de ineficiência, desperdício, ganância e injustiça. Com governos melhores e mais humanitários, com um uso da terra mais sensato, com padrões de vida mais frugais, com distribuição de comida mais eqüitativa, a Terra poderia sustentar uma população bem maior que a de hoje sem sobrecarregar indevidamente sua capacidade. A estimativa mais alta já concebida é 50 bilhões, doze vezes e meia o total populacional atual.
Nos atuais 2 por cento de crescimento ao ano, no entanto, a população terrestre duplicará a cada 35 anos. Em 2014, ela estará na marca dos 8 bilhões; em 2049, na dos 16 bilhões, e assim por diante. Isso significa que, à atual taxa de crescimento, a população da Terra será de 50 bilhões em 2100, daqui a somente 120 anos. E então? Se nessa altura já tivermos superado o suprimento de comida, a decadência será muito mais que catastrófica.
É claro que em 120 anos a tecnologia humana terá elaborado novas formas de alimentar a humanidade — exterminando todas as outras formas de vida animal, cultivando plantas que serão 100 por cento comestíveis e vivendo delas sem competição. Dessa maneira, a Terra poderia ser levada a sustentar 1,2 trilhão, trezentas vezes a população atual. E, contudo, à atual taxa de crescimento, a população de 1,2 trilhão será alcançada em 2280, daqui a somente trezentos anos. E então?
É, de fato, inútil argumentar que há números específicos de pessoas que podemos sustentar por meio deste ou daquele avanço tecnológico. Uma progressão geométrica (tal como o crescimento populacional) pode superar qualquer número. Analisemos esse fato.
Suponhamos que o peso médio de um ser humano (incluindo-se mulheres e crianças) seja de 45 quilos. Nesse caso, a massa da humanidade vivendo agora na Terra seria de 180 milhões de quilos. Este peso dobraria a cada 35 anos com a duplicação do total da população. A esta taxa de crescimento, caso seja levado a extremos, em 1 800 anos a massa total da humanidade igualaria a massa total da Terra. (Isso não é um lapso de tempo longo. Passaram-se apenas 1 800 anos desde o império de Marco Aurélio.) Ninguém consegue imaginar que a humanidade na Terra possa multiplicar seus números até que a bola do planeta seja pura carne e sangue humanos. Isso quer dizer, pois, que, não importa o que façamos, não podemos manter nossa atual taxa de crescimento populacional na Terra por mais de 1 800 anos.
Mas por que nos restringirmos à Terra? Bem antes de passados 1 800 anos, a humanidade terá chegado a outros mundos e construído comunidades espaciais artificiais, e ambos poderiam acomodar nossos números crescentes.
Poder-se-ia, mesmo, afirmar que, espalhando-nos pelo universo, a massa total de carne e sangue humanos poderia até, um dia, exceder a massa da Terra. E, mesmo assim, isso não pode suportar a força de uma progressão geométrica.
O Sol é 330 000 vezes mais maciço que a Terra, e a galáxia é 150 bilhões de vezes mais maciça que o Sol. Podem existir, ao todo, até 100 bilhões de galáxias no universo. Se supusermos que a galáxia média é tão maciça quanto a nossa (quase certamente uma superestimativa, mas não importa), então a massa total do universo é 5 000 000 000 000 000 000 000 000 000 vezes maior que a da Terra. E, contudo, se a atual população humana continuar a crescer a invariáveis 2 por cento ao ano, a massa total de carne e sangue humanos igualará a massa do universo em pouco mais de 5 000 anos. Isso é mais ou menos o tempo que transcorreu desde a invenção da escrita.
Em outras palavras, durante os primeiros 5 000 anos de história escrita, atingimos o estágio onde, de algum modo, nos apinhamos sobre a superfície de um pequeno planeta. Durante os próximos 5 000 anos, à atual taxa de crescimento, esgotaremos os recursos não só desse planeta, mas de todo o universo.
Segue-se, pois, que, se é para evitarmos o esgotamento de nossos suprimentos alimentares, nossas riquezas, nosso espaço, devemos deter a atual taxa de crescimento populacional em menos de 5 000 anos, mesmo se nos imaginarmos avançando nossa tecnologia aos limites mais extremos da fantasia. E, se é para sermos honestamente realistas sobre isso, poderemos ter uma possibilidade apenas razoável de evitar uma catástrofe do quinto grau se começarmos a reduzir a taxa de crescimento populacional agora!
Mas como? É realmente um problema, pois, em toda a história da vida, nenhuma espécie
tentou controlar seus números voluntariamente{65}. Nem mesmo a espécie humana tentou isso. Ela tem, sim, até hoje, dado nascimento a novas gerações livremente e aumentado seus números ao limite do possível.
Para controlar a população agora, a disparidade entre os coeficientes de natalidade e mortalidade deve de algum jeito ser reduzida e a crescente predominância do primeiro sobre o segundo deve declinar. Para obtermos uma população estacionaria ou até temporariamente decrescente, temos só duas alternativas: ou o coeficiente de mortalidade deve ser aumentado até compensar ou exceder o de natalidade, ou o coeficiente de natalidade deve ser rebaixado
até compensar ou ficar menor que o de mortalidade {66}.
Aumentar o coeficiente de mortalidade é a alternativa mais fácil.
Entre todas as espécies de plantas e animais, através de toda a história da vida, um aumento súbito e dramático no coeficiente de mortalidade vem sendo a resposta habitual a um crescimento populacional, que, a longo prazo, levou a espécie até um nível insuportavelmente alto. O coeficiente de mortalidade aumenta principalmente como resultado de inanição. O enfraquecimento que precede a morte por inanição facilita que os indivíduos da espécie se tornem vítimas de doenças e da predação também.
No caso de seres humanos na história passada, o mesmo pode ser dito e, se olharmos para o futuro, poderemos contar com o exercício de um controle populacional (se tudo o mais falhar) por meio de doenças, inanição e violência — todas seguidas de morte. Que isso não é uma idéia nova pode ser atestado pelo fato de que esses quatro — inanição, doenças, violências e morte — são os Quatro Cavaleiros do Apocalipse descritos no Livro do Apocalipse como flageladores da humanidade em seus últimos dias.
Fica claro, todavia, que resolver o problema populacional pelo aumento do coeficiente de mortalidade é simplesmente preparar o terreno para uma catástrofe do quinto grau em que a civilização é arrasada. Se, na disputa pelas últimas porções de comida e pelas últimas reservas de recursos terrestres, uma guerra termonuclear for provocada como medida desesperada, uma catástrofe do quarto grau pode resultar, dando cabo da humanidade.
Resta-nos, pois, o rebaixamento do coeficiente de natalidade como a única maneira de evitarmos a catástrofe. Mas como?
O controle do coeficiente de natalidade após o fato consumado da procriação, como no infanticídio ou mesmo no aborto, repugna a muita gente. Ainda que não se leve em conta a questão da “sacralidade da vida” (princípio sempre professado mais da boca para fora), poderíamos nos perguntar por que uma mulher deveria ter que passar pelo incômodo de uma gravidez apenas para ter seu resultado destruído, ou por que ela deveria ter que passar pelo incômodo de um aborto? Por que não simplesmente evitar a concepção?
Uma forma simplória de evitar a concepção é evitar o sexo, mas tudo indica que isso nunca será um método popular de controle de natalidade. Em vez disso, faz-se necessário desligar sexo de concepção, fazendo com que seja possível ter-se o primeiro sem o segundo, exceto quando os filhos são realmente desejados e onde eles são necessários para manter um nível tolerável de população.