Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 28 de 68

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Escolha a Catástrofe

Meteoritos

Ao longo do século XX, com o desenvolvimento e maior utilização da fotografia e outras técnicas para a localização de asteróides, mais de uma dúzia de outros arranha-Terra foram descobertos. Eros é um objeto de formato irregular, com seu maior diâmetro atingindo aproximadamente 24 quilômetros, enquanto os outros arranha-Terra são todos menores, com diâmetros variando entre 1 e 3 quilômetros.

Quão próximo pode chegar um arranha-Terra? Em novembro de 1937, um asteróide, que recebeu o nome de Hermes, foi visto passando a alta velocidade pela Terra a uma distância de 800 000 quilômetros, aproximadamente o dobro da distância da Terra à Lua. Calculou-se, na época, uma órbita que mostrou que se Hermes e a Terra estivessem nos pontos apropriados em suas órbitas, sua aproximação seria de 310 000 quilômetros — o que significa que, nesse ponto, Hermes distaria menos que a própria Lua. Este é um dado incômodo, pois Hermes tem 1 quilômetro de extensão e uma colisão com ele causaria terríveis danos.

Não podemos ter certeza sobre sua órbita, porque Hermes nunca mais foi visto, pelo que se conclui que, ou a órbita não foi calculada corretamente, ou Hermes foi desviado dela. Se for avistado novamente, será por mero acaso.

Naturalmente, sem dúvida, existem muitos mais arranha-Terra do que podemos ver com nossos telescópios, já que qualquer objeto que passe próximo à Terra o faz tão rapidamente que pode nem ser notado. E se ele fosse pequeno (e, como em todos esses casos, há mais arranha-Terra pequenos do que grandes), seria muito opaco.

O astrônomo americano Fred Whipple (1911-) suspeita de que existam pelo menos cem arranha-Terra com mais de 1,5 quilômetro de diâmetro. Conseqüentemente, é bem possível haver alguns milhares de outros cujos diâmetros variem entre 0,1 e 1,5 quilômetro.

Em 10 de agosto de 1972, um pequeníssimo arranha-Terra atravessou a camada mais alta da atmosfera e, no processo, foi aquecido até brilhar visivelmente. O ponto de maior aproximação foi 50 quilômetros de altura no sul de Montana, EUA. Calculase seu diâmetro como sendo de 0,013 quilômetro.

Resumindo, a região nas vizinhanças da Terra parece ser rica em objetos jamais avistados antes do século XX, objetos que variam desde os enormes como Eros, até dezenas de outros do tamanho de uma montanha, até mesmo milhares como grandes seixos, aos bilhões daqueles que mal consistem em pedregulhos. (Se quisermos contar os resíduos cometários mencionados anteriormente, existem trilhões de objetos de tamanho de cabeças de alfinete, ou menores ainda.)

Será que a Terra pode atravessar um espaço tão povoado e escapar às colisões? É claro que não. As colisões ocorrem constantemente.

 

METEORITOS

 

Em quase todos os casos, os fragmentos de matéria muito grandes para se aquecerem até brilhar visivelmente, ao atravessarem velozmente a atmosfera (quando então são chamados de “meteoros”), são vaporizados e se transformam em poeira e vapor, muito antes de atingirem o solo. Isto é também sempre observado em relação a resíduos cometários.

Talvez a maior “chuva de meteoros” registrada pela história tenha sido a de 1833, quando, aos olhos de observadores do leste dos Estados Unidos, as fagulhas pareceram ser espessas como flocos de neve, e os menos avisados pensaram estar as estrelas caindo do céu e o mundo estar chegando ao fim. Ao término da chuva, contudo, todas as estrelas ainda brilhavam no céu, plácidas como sempre. Não faltava nenhuma. E nenhuma das fagulhas atingiu o solo como um objeto que pudesse ser detectado.

Se um pedaço de resíduo que atinge a atmosfera é muito grande, sua rápida passagem pelo ar não basta para vaporizá-lo inteiramente, e uma porção dele, então, chega ao solo em forma de um “meteoríto”. Tais objetos provavelmente nunca se originam de cometas; consistem, antes, em pequenos arranha-Terra surgidos do cinturão de asteróides.

Talvez 5 500 meteoritos já tenham se chocado contra a superfície terrestre em tempos registrados pela história; cerca de um décimo deles se constituía de ferro, enquanto o resto consistia em material rochoso.

Os meteoritos rochosos, a menos que sejam detectados na queda, são difíceis de serem distinguidos das rochas comuns da superfície terrestre por alguém que não seja especialista

nesse campo. Os meteoritos ferrosos{35}, todavia, são facilmente discrimináveis, pois não existe ferro metálico natural na terra.

Nos tempos em que ainda não sabíamos obter ferro através da fusão do minério de ferro, os meteoritos consistiam em fonte valiosa de um metal duríssimo, empregado na preparação de pontas e arestas de armas e utensílios — eram, conseqüentemente, muito mais valiosos que o ouro, se bem que menos bonitos. Eram tão procurados, que jamais (nos tempos modernos) se encontrou um só fragmento de meteorito ferroso em quaisquer áreas onde a civilização tenha florescido antes de 1500 a.C. As culturas anteriores à Idade do Ferro já os tinham encontrado e usado.

No entanto, os meteoritos descobertos não foram equiparados aos meteoros. Por quê? Um meteorito era simplesmente um pedaço de ferro achado sobre o solo; meteoro era aquela

faísca lá no alto, no ar{36}; por que deveria haver conexão entre eles?

É certo que existiam lendas sobre objetos cadentes. A “pedra negra” do Caaba, sagrada para os muçulmanos, pode ser um meteorito que foi visto caindo. O objeto original de veneração no templo de Ártemis, em Éfeso, pode ter sido outro. Os cientistas do início dos tempos modernos, contudo, ignoraram essas histórias, passando a rotular de superstições quaisquer lendas sobre objetos cadentes.

Em 1807, um químico americano de Yale, Benjamin Silliman (1779-1864), e um colega relataram ter assistido à aterrizagem de um meteorito. Ao ouvir o relatório, o Presidente Thomas Jefferson afirmou ser mais fácil crer que os dois professores universitários nortistas mentiam, do que acreditar que pedras caíam do céu. Apesar de tudo, a curiosidade científica fora já atiçada e continuava sendo, graças a diversos relatórios que surgiam, e, enquanto Jefferson permanecia cético, o físico francês Jean-Baptíste Biot (1774-1862) tinha escrito, já em 1803, um relatório sobre meteoritos que levou à aceitação dessas quedas como sendo fenômenos verdadeiros.

Em sua grande maioria, os meteoritos que caíram em áreas povoadas eram pequenos, nunca causando grandes danos. O único registro a respeito de um ser humano atingido por um meteorito se refere a uma mulher do Alabama, que, há alguns anos, recebeu uma pancada na coxa.

O maior meteorito conhecido ainda repousa no solo da Namíbia, no sudoeste africano. Seu peso é estimado em aproximadamente 66 toneladas.

Dentre os ferrosos, o maior é o que se acha exposto no Planetário Hayden, em Nova York, pesando cerca de 34 toneladas.

Mesmo meteoritos menores que esses poderiam causar consideráveis danos materiais e matar centenas, até milhares de pessoas, se aterrizassem numa área metropolitana densamente povoada. Mas qual é a probabilidade de uma colisão violenta acontecer um dia? Pelo espaço afora, existem algumas montanhas bem grandes à solta, que poderiam causar enormes estragos se nos atingissem.

Poderíamos argumentar que os grandes objetos do espaço (que, naturalmente, são muito menos numerosos que os pequenos) estão em órbitas que não interceptam a da Terra e, assim, nunca se aproximam de nós. Isso explicaria por que, até hoje, não fomos ainda massacrados e, portanto, por que não precisamos temer tal coisa no futuro.

Esse argumento, porém, não é confiável por dois motivos. Em primeiro lugar, mesmo que os grandes meteoritos tenham órbitas que não se cruzem com a nossa, perturbações futuras podem alterar essas órbitas e posicionar o objeto numa trajetória de colisão potencial. Em segundo lugar, já houve choques relativamente grandes, digamos, bastante grandes para destruir uma cidade. E se não ocorreram nos tempos registrados pela história, caíram na era geológica imediatamente precedente.

Não é fácil obter-se as provas de tais choques. Imaginemos um grande choque acontecendo há umas centenas de milhares de anos. O meteoro com certeza ter-se-ia enterrado profundamente no solo, de onde não seria facilmente recuperado e estudado. Ele teria também, é claro, provocado a formação de uma grande cratera, porém a ação do vento, da água e da vida tê-la-ia desgastado até o completo desaparecimento em alguns milhares de anos.

Mesmo assim, foram descobertos sinais de formações arredondadas, às vezes cheias ou quase cheias de água, que podem ser facilmente vistas do alto. O formato redondo combinado com características marcadamente distintas das outras formações locais levanta a suspeita da presença de uma “cratera fóssil”, suspeita essa passível de confirmação através de observação in loco. Talvez vinte dessas crateras já tenham sido localizadas em diferentes pontos da Terra. Supõe-se que elas tenham sido formadas no último milhão de anos.

A maior cratera fóssil definitivamente identificada é a cratera Ungava-Quebec, na península de Ungava, que compõe a maior parte do norte da província canadense de Quebec. Ela foi descoberta em 1950, por Fred W. Chubb, um explorador canadense (por essa razão ela é chamada também de “cratera de Chubb”), a partir de fotografias aéreas que mostravam a existência de um lago circular rodeado por outros lagos menores e igualmente circulares. A cratera tem 3,34 quilômetros de diâmetro e 0,361 quilômetros de profundidade. A margem do lago tem 0,1 quilômetro de altura acima do nível da paisagem local.

Se uma colisão dessas fosse repetir-se agora em Manhattan, certamente destruiria toda a ilha, causaria severos danos às vizinhas Long Island e Nova Jersey e mataria vários milhões de pessoas.

Menor, mas melhor preservada, é a cratera situada perto da cidade de Winslow, no Arizona. Nessa área, bastante seca, não há água, e a vida fez muito pouco para chegar a erodir a cratera. Ela parece nova até hoje, e lembra muito o tipo de crateras que vemos na Lua.

Foi descoberta em 1891, mas a primeira pessoa a insistir em que ela era produto de um impacto meteorítico, e não um vulcão extinto, foi Daniel Moreau Barringer, em 1902. Por isso, e l a é denominada “grande cratera meteorítica de Barringer” ou, simplesmente, “cratera meteorítica”.

A cratera meteorítica tem 1,2 quilômetro de ponta a ponta e 0,18 quilômetro de profundidade. Sua margem tem quase 0,06 quilômetro de altura acima do nível da paisagem local. Pode ter-se formado há já 50 000 anos, embora outras estimativas sugiram apenas 5 000 anos. O peso do meteorito que produziu a cratera foi estimado por diversas pessoas como sendo algo entre 12 000 e 1,2 milhão de toneladas. O que significa que seu diâmetro era cerca de 0,075 a 0,360 quilômetro.

Mas tudo isso faz parte do passado. O que podemos esperar do futuro? O astrônomo Ernst Opik calcula que um arranha-Terra deveria percorrer sua órbita durante uma média de 100 milhões de anos antes de colidir com a Terra. Se supusermos existirem 2 000 desses objetos com tamanho suficiente para destruir uma cidade ou algo pior que isso, se se chocarem conosco, então o intervalo médio de tempo entre tais calamidades se reduz para somente 50 000 anos.

Quais as chances de um alvo específico — digamos, a cidade de Nova York — ser atingido? A área de Nova York corresponde a 1,5 milionésimo da da Terra. Isso quer dizer que o intervalo médio entre colisões possíveis de devastar Nova York é de cerca de 33 bilhões de anos. Se admitirmos que a área total de cidades grandes densamente povoadas da Terra é cem vezes a de Nova York, o intervalo médio entre colisões destruidoras de cidades em algum lugar da Terra é de 330 milhões de anos.

Não há por que perdermos o sono com isso; nesse sentido, não é surpreendente o fato de não figurar nos anais formais da civilização humana (cuja idade é apenas de 5 000 anos) nenhuma

descrição clara de uma cidade sendo destruída por um meteorito{37}.

Um grande meteorito não precisa chocar-se diretamente contra uma cidade para danificá-la. Se for de encontro ao oceano — coisa que, em termos de probabilidade, será feita por sete entre dez meteoritos —, provocará um macaréu que devastará as costas continentais, afogando pessoas e destruindo obras da humanidade. Se o tempo médio entre colisões é de 50 000 anos, a média entre macaréus induzidos por meteoritos seria de 71 000 anos.

O pior de tudo é que, até agora, não há possibilidade de se prever a chegada de qualquer meteorito. Ele, provavelmente, seria bastante pequeno e moverse-ia suficientemente rápido para alcançar a atmosfera terrestre sem ser percebido. Quando começasse a brilhar, restariam uns poucos minutos antes do choque.

Se a devastação de uma grande colisão meteorítica é de algum modo menos improvável que qualquer das outras catástrofes apresentadas até aqui, delas difere em dois aspectos. Em primeiro lugar, embora possa ser desastrosa e causar prejuízos indescritíveis, ela de modo algum é capaz de ser catastrófica como seria a transformação do Sol em uma gigante vermelha.

Um meteorito não pode destruir a Terra ou extinguir toda a humanidade ou, mesmo, arrasar a nossa civilização. Em segundo lugar, talvez não demore muito até que esse tipo específico de desastre se torne totalmente evitável, até mesmo antes de o próximo choque acontecer.

Estamos nos aventurando cada vez mais pelo espaço afora; talvez neste mesmo século já contemos com sofisticados observatórios astronômicos na Lua e em órbita ao redor da Terra. Sem a interferência da atmosfera, os astrônomos em tais observatórios terão melhores condições de detectar os arranha-Terra. Poderão observar mais de perto esses corpos perigosos e delinear mais cuidadosa e precisamente suas órbitas. Isso incluirá os arranha-Terra que são pequenos demais para serem vistos da superfície terrestre, mas ainda suficientemente grandes para destruir uma cidade e que, por serem mais numerosos, oferecem muito mais riscos que as gigantes vermelhas.

Então, talvez daqui a cem ou mil anos, algum astrônomo espacial erguesse os olhos de seu computador e dissesse: “Órbita de contato imediato!” E um contra-ataque planejado e pronto para ser acionado por décadas ou séculos seria posto em ação. A perigosa rocha seria cuidadosamente espreitada até que, em certa posição do espaço (convenientemente pré-calculada), algum poderoso projétil fosse enviado para interceptá-la e explodi-la. A rocha brilharia e vaporizar-se-ia, transformando-se num aglomerado de pedregulhos. A Terra evitaria o perigo expondo-se, na pior das hipóteses, a uma espetacular chuva de meteoros.

Finalmente, talvez todo objeto que denotasse o mínimo potencial de risco e que fosse considerado pelos astrônomos como não tendo maior valor científico, seria explodido. Este tipo específico de desastre não mais precisaria nos preocupar.