Escolha a Catástrofe
Animais de Pequeno Porte
Na realidade, os mamíferos pequenos podem representar maiores riscos do que os grandes. É claro que um mamífero pequeno sozinho é menos perigoso que um grande — por razões óbvias. O menor tem menos energia a ser despendida, é mais facilmente eliminável e é menos eficiente no revide.
Aliás, os mamíferos pequenos não tendem a revidar; eles fogem. E, porque são pequenos, podem se esconder mais facilmente, enfiar-se em cantos e gretas onde não possam ser vistos e de onde dificilmente são tirados.
A menos que sirvam como alimento, sua própria pequenez tende a reforçar sua pouca importância, e a perseguição (por parte de seus oponentes) é mais facilmente abandonada.
E, também, um mamífero pequeno, geralmente, não significa nada sozinho. Organismos pequenos tendem a viver menos que os grandes; viver menor tempo de vida, porém, significa chegar à maturidade sexual e procriar mais cedo. E requer-se bem menor investimento energético para a produção de um mamífero de pequeno porte do que de um grande. Nos mamíferos pequenos, a gestação é mais curta e a prole é muito mais numerosa do que nos mamíferos grandes.
Um ser humano não amadurece sexualmente antes dos treze ou catorze anos, em média; a duração da gestação é de nove meses; uma mulher que tivesse dez filhos já teria um número bem suficiente. Se um casal humano tivesse dez filhos e se todos esses se casassem e tivessem, cada um, dez filhos, os quais, por sua vez, se casassem e tivessem dez filhos, então, em três gerações, o número total de descendentes do casal original seria de 1110.
Um rato norueguês, por outro lado, alcança a maturidade sexual entre a oitava e a décima segunda semana de vida. Ele pode se reproduzir de três a cinco vezes por ano, tendo de quatro a doze rebentos a cada vez. Esse rato tem um tempo de vida de apenas três anos, mas, durante esse período, consegue facilmente produzir sessenta rebentos. Se cada um destes produzisse outros sessenta e, cada um destes, novos rebentos, então, em três gerações, 219 660 ratos teriam sido criados — em nove anos.
Se esses ratos continuassem a se multiplicar normalmente durante o prazo médio de vida humana (setenta anos), o número total de ratos somente na última geração seria assombrosamente grande: 5000000000000000000000000000000000000000000, os quais pesariam quase que 1 quatrilhão de vezes o peso da Terra.
Naturalmente, nem todos sobrevivem, e o fato de que bem poucos ratos vivem o suficiente para se reproduzir com sua total potencialidade não é exatamente um desperdício, no esquema global, pois ratos são uma parte essencial da dieta das criaturas maiores.
Entretanto, essa “fecundidade”, essa capacidade de produzir grandes proles muito rapidamente significa que o rato como indivíduo é virtualmente uma cifra e que a matança de ratos praticamente não surte efeito. Ainda que quase todos os ratos sejam mortos numa cruzada organizada contra eles, os que sobreviverem podem compensar o déficit em velocidade desencorajadora. De fato, quanto menor o organismo, menos importante e efetivo o indivíduo e mais “imortal” e potencialmente perigosa a espécie.
Além do mais, a presença da fecundidade acelera o processo da evolução. Se, em qualquer geração, a maioria dos ratos é afetada de modo adverso por um certo veneno, ou se torna vulnerável por causa de certo traço de comportamento reflexo, em contrapartida sempre há alguns que são estranhamente resistentes ao veneno, como resultado de uma afortunada mutação ao acaso, ou que apresentam um traço comportamental que os faz menos vulneráveis. São estes ratos resistentes e menos vulneráveis que tendem a sobreviver e procriar, e suas proles freqüentemente herdam a resistência e a comparativa invulnerabilidade. No espaço de um brevíssimo período de tempo, portanto, qualquer estratégia usada para tentar reduzir a população de ratos falha.
Isso dá a impressão de que os ratos são malevolamente inteligentes; eles realmente são inteligentes para seu tamanho, mas não tão inteligentes.
Não é o indivíduo que estamos combatendo, mas a espécie, fecunda e em evolução.
Realmente, é bem razoável supor que, se existe uma característica dos seres vivos que mais contribui para a sobrevivência da espécie e, portanto, para um maior sucesso obtido pela espécie, é a fecundidade.
Julgando a partir de nosso próprio ponto de vista, habituamo-nos a crer que a inteligência é o objetivo final para o qual se encaminha a evolução. Contudo, é ainda questionável se a inteligência às custas da fecundidade inevitavelmente vence a longo prazo. Os seres humanos virtualmente destruíram muitas das espécies grandes não particularmente fecundas; e ainda não marcaram nem um tento em relação à população de ratos.
Outra propriedade de grande valor para a sobrevivência é a capacidade de adaptar-se a uma grande variedade de alimentos. Comer um e apenas um tipo específico de dieta possibilita ao animal desenvolver um sistema digestivo e um metabolismo altamente sofisticados. O animal não sofre qualquer problema nutricional — desde que o suprimento de alimentação especializada seja abundante. Assim, o coala australiano, que come somente folhas de eucaliptos, se sente no paraíso em regiões ricas em eucaliptos. Onde não existem eucaliptos, não há coalas (exceto artificialmente, nos zoológicos). Se todos os eucaliptos desaparecessem, igual sorte caberia aos coalas — mesmo nos zoológicos.
Por seu lado, um animal com uma dieta variada suporta bem os infortúnios. A perda de um item prazeroso significa ter que se contentar com menos prazer, mas pode-se muito bem sobreviver sem ele. Uma das razões pelas quais a espécie humana evoluiu mais que as outras espécies primatas é que o Homo sapiens é onívoro (come praticamente de tudo), ao passo que os outros primatas são basicamente herbívoros (o gorila, por exemplo, é inteiramente herbívoro).
Infelizmente para nós, o rato também é onívoro e qualquer variedade alimentar que satisfaça aos seres humanos satisfará igualmente ao rato.
Conseqüentemente, aonde quer que o homem vá, o rato irá atrás. Se perguntássemos qual o mamífero que mais nos ameaça hoje, não poderíamos dizer ser o leão ou o elefante, de quem podemos dar cabo (mesmo a nível de toda a população de um e outro) a qualquer momento, se assim o desejarmos.
Não. Teríamos que dizer que é o rato norueguês.
Entretanto, se ratos são mais perigosos que leões e se, nesse sentido, estorninhos são mais perigosos que águias, o pior que se pode afirmar pela humanidade é que sua luta contra os pequenos mamíferos e os pássaros está, atualmente, num beco sem saída. Como outros organismos do mesmo tipo, eles incomodam e frustram e não podem, sem grandes esforços, ser mantidos em xeque. Entretanto, realmente não há perigo de destruírem a humanidade a menos que, antes, soframos um ataque repentino e mutilador de outra forma.
Mas há organismos mais perigosos que ratos ou quaisquer demais vertebrados. Se ratos, por seu pequeno tamanho e fecundidade, são difíceis de se vencer, que dizer de outros organismos ainda menores e mais fecundos? Os insetos, por exemplo?
De todos os organismos multicelulares, os insetos são certamente os mais bem-sucedidos, se considerados sob o prisma do número de espécies.
Os insetos têm vida tão curta e são tão fecundos que seu grau de evolução é simplesmente assombroso, e existem agora 700 000 espécies de insetos conhecidas — em comparação com as 200 000 espécies de animais de todos os outros tipos juntos.
Ademais, a lista de espécies de insetos está incompleta. A cada ano descobrem-se de 6 000 a 7 000 novas espécies de insetos, e é bem provável que existam pelo menos 3 milhões de espécies ao todo.
Quanto ao número de insetos em geral, é inacreditável. Num único acre de solo úmido pode haver até 4 milhões de insetos de centenas de espécies diversas. Pode haver 1 bilhão de bilhões de insetos vivendo no mundo agora; são cerca de 250 milhões deles para cada homem, mulher e criança vivos. O peso total de insetos vivos no planeta é superior ao peso total de todos os outros animais vivos juntos.
Quase todas as diferentes espécies de insetos são inofensivas ao homem. Umas 3 000, no máximo, dentre os possíveis 3 milhões, são estorvos. Estas incluem os insetos que vivem sobre nós, sobre nossa comida ou sobre outras coisas que valorizamos — moscas, pulgas, piolhos, vespas, vespões, gorgulhos, baratas, besouros, cupins e outros.
Alguns deles são mais que um estorvo. Na Índia, por exemplo, existe um inseto chamado “bicho-do-algodão-vermelho”, que vive na planta de algodão. Anualmente, metade de toda a plantação de algodão indiana é destruída por eles. O gorgulho se alimenta da planta do algodão nos Estados Unidos. Conseguimos combater o gorgulho mais eficazmente do que os hindus combatem o bicho do algodão. No entanto, como resultado do estrago causado pelo gorgulho, cada libra do algodão produzido nos Estados Unidos custa dez cents a mais do que custaria se o gorgulho não existisse. Os prejuízos resultantes dos estragos causados por insetos em plantações e outras propriedades imóveis somente nos Estados Unidos perfazem algo como 8 bilhões de dólares por ano.
As armas tradicionais elaboradas pelos seres humanos em tempos primevos adequavam-se aos grandes animais mais temidos pelos homens.
Quanto menor o alvo, menos eficazes elas se tornam. Lanças e flechas, tão adequados contra veados, são de pouca utilidade contra coelhos ou ratos. E atirar uma lança ou uma flecha contra um gafanhoto ou um pernilongo é tão ridículo que, provavelmente, nenhum homem mentalmente são já o fez.
A invenção de canhões e revólveres em nada contribuiu para esse problema. Nem armas nucleares podem extirpar os animais pequenos tão fácil e completamente quanto podem extirpar a própria humanidade.
Para começar, então, inimigos biológicos foram usados contra os pequenos animais. Cães, gatos e doninhas foram usados para caçar e destruir ratos e camundongos. Os pequenos carnívoros são mais capazes de perseguir os roedores onde quer que possam ir e, já que esses pequenos carnívoros executam a busca com o propósito único de comer, em vez de eliminar um estorvo, eles são muito mais ardentes e persistentes em sua perseguição do que os seres humanos.
Os gatos, especialmente, podem ter sido domados na era egípcia, não tanto por suas qualidades de companheirismo (que é tudo o que esperamos deles atualmente), mas por sua habilidade na caça aos pequenos roedores.
Por isso, os gatos se colocaram entre os egípcios e a destruição de seu suprimento de grãos. Tratava-se de manter os gatos ou morrer de fome — e não é de espantar que os egípcios tenham endeusado o gato e estabelecido a pena de morte para quem o matasse.
Existem também os inimigos biológicos dos insetos. Pássaros, mamíferos menores e répteis são excelentes consumidores de insetos.
Mesmo alguns insetos alimentam-se de outros insetos. Escolha o predador certo, a hora certa e as condições certas, e poderá ter muito bom êxito no controle de uma praga de insetos específicos.
Contudo, o uso de tal arsenal biológico não era algo com que as civilizações primitivas pudessem lidar, e o inseto equivalente ao gato demorou a ser encontrado. Aliás, até cerca de um século atrás, não se conhecia nenhum método útil de controle dos insetos — até que foram descobertos os pulverizadores de veneno.
Em 1877, compostos de cobre, chumbo e arsênio tornaram-se o método de combate ao inseto inimigo. Um veneno de insetos largamente usado era o verde-paris, que é um acetoarsenito de cobre. Funcionava razoavelmente e não afetava as plantas sobre as quais era pulverizado. As plantas se alimentavam de materiais inorgânicos do ar e do solo, e eram fortalecidas por energia solar. Vestígios de cristais minerais em suas folhas não atrapalhavam. Qualquer inseto que tentasse comer as folhas, porém, seria imediatamente morto.
Esses “inseticidas” minerais têm também suas desvantagens{46}. Em primeiro lugar, eles são nocivos a outras formas de vida animal — e, portanto, para a vida humana também. Em segundo lugar, são bastante duradouros. A chuva tende a remover parte dos minerais e depositá-los no solo. Pouco a pouco, o solo acumula cobre, arsênio e outros elementos, que acabam alcançando as raízes das plantas. Dessa forma, afetam as plantas adversamente, e o solo vai gradualmente se envenenando. Além do mais, esses minerais não podem ser usados nos próprios seres humanos. São, portanto, ineficazes em relação aos insetos, que fazem dos homens suas vítimas.
Naturalmente, houve tentativas de se encontrarem produtos químicos que somente fizessem mal aos insetos e que não se acumulassem no solo. Em 1935, um químico suíço, Paul Müller (1889-1965), começou a pesquisar tal produto. Ele queria um produto que pudesse ser feito sem muita despesa, não tivesse odor e fosse inofensivo à vida dos não-insetos. Investigou dentre compostos orgânicos — compostos carbônicos parecidos com os encontrados em tecidos vivos —, esperando achar um que não fosse tão duradouro no solo quanto os compostos minerais. Em setembro de 1939, Müller deparou-se com o “diclorodifeniltricloroetano”, mais conhecido por sua abreviação, DDT. Este composto já tinha sido preparado e descrito em 1874, mas durante 65 anos suas propriedades de inseticida tinham permanecido desconhecidas.