Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 34 de 68

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Escolha a Catástrofe

Catastrofismo

Poderíamos especular se o rompimento radioativo de átomos no corpo terrestre não seria capaz de aumentar a temperatura até um ponto perigoso.

Em termos de explosões, tal medo não teria razão de ser. Se a temperatura fosse crescer a ponto de derreter toda a Terra, a atmosfera e os oceanos poderiam estar perdidos, mas o resto do planeta continuaria girando como uma imensa gota de líquido, que ainda permaneceria íntegra por causa de sua gravidade. (O planeta gigante, Júpiter, é atualmente tido como uma gota de líquido girando com temperaturas centrais de 54 000°C — e, todavia, com um campo gravitacional 318 vezes mais potente que o da Terra.) Naturalmente, se a Terra esquentasse a ponto de derreter o planeta inteiro, crosta e tudo, isso seria uma catástrofe do terceiro grau. Não mais precisaríamos postular uma explosão.

Mas isso também não deverá acontecer. A radioatividade natural da Terra está constantemente decrescendo. Ao todo, ela é, hoje, menos da metade do que era no início da história planetária. Se a Terra não derreteu em seus primeiros bilhões de anos de vida, não é agora que vai fazê-lo. E mesmo que a temperatura tenha crescido durante todo o tempo de vida do planeta a uma velocidade constantemente decrescente e ainda não conseguiu derreter a crosta, mas persiste na direção desse objetivo, a temperatura crescerá tão lentamente que favorecerá a humanidade com todo o tempo necessário para a fuga do planeta.

É mais provável que o calor interno da Terra esteja, no máximo, mantendo o mesmo nível, e à medida em que a radioatividade do planeta continua a cair, poder-se-á, na verdade, passar a testemunhar uma lentíssima perda de calor. Podemos até visualizar um futuro distante em que a Terra seja essencialmente fria — em todas as suas camadas, em todas as áreas de sua superfície.

Isso afetará a vida de modo a ser considerado uma catástrofe? No que diz respeito à temperatura da superfície terrestre, certamente não. Quase todo o calor de nossa superfície vem do Sol. Se o Sol parasse de brilhar, a temperatura da superfície cairia a níveis abaixo dos polares, e o calor interno do planeta desempenharia papel amenizador insignificante. Por outro lado, se o calor interno da Terra caísse para zero e o Sol continuasse a brilhar, nem perceberíamos a diferença — em relação à temperatura da superfície. No entanto, o calor interno aciona certos eventos com os quais estamos acostumados. A perda destes seria, de alguma maneira, catastrófica, ainda que o Sol continuasse a brilhar?

Não precisamos ocupar-nos com esta questão. Isso nunca acontecerá.

O declínio da radioatividade e a perda de calor devem prosseguir a passo tão lento que a Terra deverá, com certeza, ser um corpo internamente quente — como o é agora — até quando o Sol sair da seqüência principal.

 

CATASTROFISMO

Passemos para as catástrofes do terceiro grau que não comprometeriam a integridade da Terra como um todo, mas que, de qualquer forma, torná-la-iam inabitável.

Os mitos freqüentemente falam de cataclismos mundiais que puseram fim a toda ou quase toda a vida. Possivelmente, eles nasceram de desastres de menor monta, que são exagerados pela memória e ainda mais pela transmissão verbal.

Por exemplo, as civilizações primitivas surgiram em vales de rios, os quais, ocasionalmente, estão sujeitos a enchentes desastrosas. Se uma dessas, porventura, riscasse do mapa toda a área com que os habitantes estivessem familiarizados (e os povos das civilizações primevas tinham um vislumbre bem limitado da extensão da Terra), provavelmente ela representaria a destruição total, a seus olhos.

Os antigos sumerianos, que viviam no vale do Tigre-Eufrates — Iraque —, parecem ter presenciado uma enchente particularmente aterradora pelos idos de 2800 a.C. A impressão neles causada foi tal, pois que abalara sobremaneira seu mundo, que passaram a datar as coisas pelos critérios “antes do Dilúvio” e “depois do Dilúvio”.

Surgiu, assim, uma lenda sumeriana do Dilúvio, lenda essa contida no primeiro romance épico conhecido, a lenda de Gilgamesh, rei da cidade sumeriana de Uruck. Em suas aventuras, ele encontra Ut-Napishtin, cuja família era a única sobrevivente do Dilúvio (tinham-se refugiado num grande barco por ele construído).

O épico se popularizou e se tornou conhecido bem além dos limites da cultura sumeriana e daquelas que a sucederam no vale do Tígre-Eufrates.

Chegou aos hebreus e, provavelmente, aos gregos, povos esses que incorporaram a história do Dilúvio a seus mitos da origem da Terra. A versão mais difundida entre nós, ocidentais, é, naturalmente, a história bíblica narrada nos capítulos 6 a 9 do Livro do Gênese. A história de Noé e da arca é conhecida demais para ser recontada aqui.

Por muitos séculos, os eventos bíblicos foram aceitos por quase todos os judeus e cristãos como a palavra inspirada por Deus e, portanto, a verdade literal. Era ponto pacífico que realmente houvera, no terceiro milênio a.C, uma enchente mundial que virtualmente destruíra toda a vida sobre a Terra.

Isso predispôs os cientistas a suporem que os vários sinais de modificações por eles descobertos na crosta terrestre eram o resultado da violenta calamidade do Dilúvio planetário. Quando se tornou claro que o Dilúvio não preenchia todos os requisitos para ser responsabilizado por todas as modificações, tornou-se tentador admitir que outras catástrofes tenham ocorrido a intervalos periódicos. Essa tendência foi denominada “catastrofismo”.

A interpretação correta dos fósseis remanescentes de espécies extintas e a dedução do processo de evolução foram retardadas em razão da unilateralídade do catastrofismo. O naturalista suíço Charles Bonnet (1720-93), por exemplo, concordava em que os fósseis realmente eram remanescentes de espécies extintas, que tinham tido seu período de vida próprio, mas cria que elas haviam morrido em uma ou outra das catástrofes planetárias que haviam assolado o mundo em algumas ocasiões. Dessas catástrofes, o Dilúvio de Noé era o último representante. Após cada catástrofe, as sementes e outros remanescentes da vida pré-histórica se desenvolviam em novas e mais avançadas formas. Como se a Terra fosse uma lousa e a vida fosse uma mensagem constantemente sendo apagada e reescrita.

Essa noção foi retomada pelo anatomista francês Barão Georges Cuvier (1769-1832), que concluiu que quatro catástrofes, sendo a última delas o Dilúvio, explicariam os fósseis. Contudo, quanto mais fósseis eram descobertos, tornava-se mais evidente que mais e mais catástrofes eram necessárias para limpar e abrir caminho para outras. Em 1849, um discípulo de Cuvier, Alcide d’Orbigny (1802-57), concluiu que não menos de 27 catástrofes eram requeridas.

D’Orbigny foi a última expressão do catastrofismo na comunidade científica. Na verdade, à medida em que mais fósseis eram descobertos e que a história da vida passada era elaborada mais detalhadamente, tornou-se claro que jamais houve catástrofes do tipo Bonnet-Cuvier.

Calamidades sempre existiram na história da Terra, e a vida sempre foi por elas afetada dramaticamente, como veremos; porém, nenhuma catástrofe ocorreu de modo a acabar com toda a vida e forçá-la a começar de novo. Podese traçar qualquer linha divisória e dizer: “Aqui houve uma catástrofe”, mas sempre se encontrará grande número de espécies que sobreviveram a esse período sem se modificarem e sem serem afetadas de algum modo.

A vida é, sem sombra de dúvida, contínua, e jamais, desde que apareceu, há mais de 3 bilhões de anos, deu qualquer sinal de uma interrupção absoluta. A cada momento de todo esse tempo, a Terra parece ter sido ocupada por coisas vivas em rica profusão.

Em 1859, apenas dez anos depois da hipótese de D’Orbigny, o naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809-82) publicou seu livro Da origem das espécies pelo processo da seleção natural. Ele deu um passo à frente no que geralmente chamamos de “teoria da evolução”, que envolve a lenta modificação das espécies através das eras, sem catástrofes e regenerações. Essa teoria, de início, defrontou-se com grande oposição por parte daqueles que se escandalizavam com a forma pela qual as afirmações do Gênese eram contraditas, mas finalmente venceu-a.

Até hoje, grandes contingentes de pessoas, apegadas à interpretação literal da Bíblia e completamente desconhecedoras da evidência científica, permanecem hostis, por pura ignorância, ao conceito de evolução.

Entretanto, não restam dúvidas na comunidade científica de que a evolução é um fato, se bem que o espaço está aberto para disputas relativas aos mecanismos exatos pelos quais ela se

deu {38}. Mesmo assim, a história do Dilúvio e a sede de muitas pessoas por lendas dramáticas mantêm a noção do catastrofismo viva, de uma forma ou outra, naturalmente fora das fronteiras da ciência. A contínua atração exercida pelas sugestões de Immanuel Velikovsky, por exemplo, se deve, pelo menos em parte, ao catastrofismo que ele prega. Há algo de dramático e excitante na visão de Vênus voando até nós e parando a rotação da Terra. O fato de que isso contraria todas as leis da mecânica celeste não incomoda o tipo de pessoa que se deixa levar por tais histórias.

Velikovsky desenvolveu suas idéias originalmente para explicar a lenda bíblica de Josué, que parou o Sol e a Lua. Velikovsky não pestaneja em admitir que a Terra gira; assim, sugere que a rotação se interrompa. Se a rotação cessasse de repente, como fica implícito na lenda bíblica, tudo na Terra seria atirado longe.

Mesmo que a rotação parasse gradualmente, demorando um dia ou mais, como os apologistas de Velikovsky agora insistem — para explicar por que tudo permaneceu no lugar —, a energia rotacional ainda seria convertida em calor e os oceanos terrestres ferveriam. Se os oceanos terrestres tivessem fervido ao tempo do Êxodo, ficaria difícil explicar como a Terra é agora tão rica em vida marinha.

Ainda que ignoremos a fervura, qual a probabilidade de, após a rotação da Terra ter parado, Vênus afetar a Terra de modo a reiniciar a rotação na mesma direção e com o mesmo período — inclusive a nível de segundos — que antes existia?

Muitos astrônomos ficam absolutamente estonteados e frustrados pela influência que tais pontos de vista sem sentido exercem sobre tantas pessoas, mas eles subestimam o interesse do catastrofismo. Subestimam também a falta de informação da maioria dos indivíduos quanto a coisas científicas — especialmente entre aqueles que são cuidadosamente instruídos em assuntos não-científicos. De fato, os não-cientistas instruídos são os que mais facilmente adotam conceitos pseudocientíficos, porque o mero fato de terem conhecimento de digamos, literatura comparativa, pode fomentar a falsa crença no próprio poder de compreensão de assuntos de campos diversos.

Há outros exemplos de como o catastrofismo atrai os mal-informados em termos científicos. Um deles: qualquer asserção de que a Terra, de tanto em tanto tempo, dá uma guinada de 180 graus, de modo que o que antes era polar vira temperado ou tropical e vice-versa, sempre encontra ouvidos atentos. Dessa maneira, pode-se explicar por que alguns mamutes siberianos parecem ter congelado tão repentinamente. Mas supor que os mamutes fizeram algo tão simples como cair numa fenda de geleira ou num pântano congelado é insuficiente. Além do mais, mesmo que a Terra desse essa guinada, uma área tropical não congelaria instantaneamente. A perda de calor leva tempo. Se o aquecimento central de uma casa de repente pára de funcionar num dia frio, persiste um intervalo perceptível antes que a temperatura interna da casa caia para o enregelamento.

Além disso, é totalmente improvável que a Terra dê tal guinada.

Existe um bojo equatorial, resultado da rotação terrestre, que faz com que a Terra se comporte como um gigantesco giroscópio. As leis da mecânica que governam o movimento de um giroscópio estão perfeitamente compreendidas, e a quantidade de energia necessária para fazer a Terra dar uma guinada de 180 graus é enorme. Não existe fonte para tanta energia, com exceção da intrusão de algum objeto planetário vindo de fora e, disso, a despeito de Velikovsky, nunca houve nenhum sinal nos últimos 4 bilhões de anos, nem qualquer possibilidade de ocorrência num futuro próximo.

Uma sugestão mediadora é que não é a Terra como um todo que dá a guinada, somente sua crosta fina. A crosta, cuja espessura é de apenas dezenas de quilômetros e com somente 0,3 por cento da massa da Terra, repousa sobre o manto terrestre, uma espessa camada de rochas que, se não é muito quente para ser derretida, ainda é bem quente e pode, portanto, ser imaginada como sendo macia. Talvez, de vez em quando, a crosta escorregue pela superfície mais alta do manto, produzindo todos os efeitos no que se refere à vida na superfície, de uma guinada completa, às custas de bem menos energia. (O primeiro a sugerir isso foi o escritor alemão Carl Lõffelholz von Colberg, em 1886.)