Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 56 de 68

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Escolha a Catástrofe

Da Pólvora Às Bombas Nucleares

O Império Mongol havia sido estabelecido a partir do nada por três gerações de dirigentes durante um período de meio século.

Se a civilização jamais fora abalada de cima a baixo por tribos bárbaras, essa era a grande oportunidade. (E, cem anos depois, veio a peste negra — pior que qualquer outra calamidade já experimentada.) E, por fim, os mongóis também não representaram uma ameaça. Suas guerras de conquista tinham sido sangrentas e implacáveis, é claro, e eram deliberadamente planejadas para acovardar seus inimigos e vítimas, porque os mongóis eram demasiadamente poucos para serem capazes de dominar império tão abrangente, a menos que os habitantes do lugar tivessem sido submetidos pelo terror.

Realmente constava dos planos de Gengis Khan, no início, ir além disso (assim dizem os relatos históricos). Ele se entretinha com o pensamento de arrasar as cidades e converter as regiões conquistadas em pastagens para rebanhos nômades.

É duvidoso afirmar-se se ele realmente poderia tê-lo feito, ou se ele não teria visto o erro de tal procedimento logo, mesmo se já tivesse começado a pô-lo em prática. O fato é que ele nunca chegou a tentar. Sendo um gênio militar, ele rapidamente aprendeu o valor da guerra civilizada e elaborou formas de usar as complexas tecnologias necessárias para sitiar cidades, escalar e bombardear muros, e assim por diante. É só um passo entre a visão do valor da civilização em conexão com a arte da guerra e a visão do valor da civilização para a arte da paz.

Entretanto, certa destruição inútil foi levada a cabo. O exército de Hulagu, após tomar o vale do Tigre-Eufrates, passou a arrasar arbitrariamente o complexo sistema de canais de irrigação que havia sido poupado por todos os antigos conquistadores e que mantinha a área como um próspero centro de civilização durante 5 000 anos. O vale do Tigre-Eufrates foi transformado

na região pobre e retrógrada que é até hoje{53}.

O fato é que os mongóis se tornaram dirigentes relativamente cultos, não muito piores que seus predecessores e, em alguns casos, melhores.

Kublai Khan, especialmente, foi um soberano culto e humanitário, com quem vastas extensões asiáticas experimentaram uma época de ouro como jamais tinham conhecido e não conheceriam de novo até (exagerando um pouco) o século XX. Pela primeira e última vez, o imenso continente eurasiano ficou sob controle unitário desde o mar Báltico até o golfo Pérsico, e a leste numa larga porção se estendendo até o Pacífico.

Quando Marco Polo, vindo da insignificante porção de terra que se supunha o reduto da “Cristandade”, visitou o poderoso reino de Catai, ficou intimidado e assombrado; o povo de sua terra recusou-se a acreditar em suas descrições, por mais verdadeiras que tenham sido.

 

DA PÓLVORA ÀS BOMBAS NUCLEARES

Não demorou muito (depois das invasões mongóis), porém, para que a oscilante luta entre os fazendeiros citadinos e os bárbaros nômades se convertesse num permanente duelo. Um avanço na área militar deu à civilização uma ponta de vantagem sobre os bárbaros — e essa nunca pôde ser alcançada pelos últimos —, de modo que os mongóis foram chamados de “últimos bárbaros”. Esse avanço era representado por uma invenção, a pólvora (que é uma mistura de nitrato de potássio, enxofre e carvão), que, pela primeira vez, colocou um

 

explosivo nas mãos da humanidade {54}. Para fabricar a pólvora requeria-se uma indústria química cada vez mais refinada, o que faltava às tribos bárbaras.

A pólvora parece ter sido criada na China, porque, aparentemente, era usada lá para fogos de artifício já em 1160. Realmente, pode ser que tenham sido as invasões mongóis e o caminho aberto por seu vasto império para o comércio que tenham trazido à Europa o conhecimento da

pólvora {55}.

Na Europa, todavia, a pólvora deixou de ser componente de fogos de artifício para constituir um mecanismo de propulsão. Em vez de arremessar pedras com a catapulta, usando madeira arqueada ou tiras de couro onde se localizava a força propulsora, a pólvora podia ser colocada num tubo (um canhão) com uma extremidade aberta. A bala do canhão seria disposta na extremidade aberta e a pólvora explosiva se encarregaria da propulsão.

Exemplos bem primitivos de tais armamentos foram usados em diversas ocasiões no século XIV, especialmente na Batalha de Crécy, em que a Inglaterra derrotou os franceses nos estágios iniciais da Guerra dos Cem Anos. Canhões como os usados em Crécy eram, contudo, relativamente inúteis, e a batalha foi definida pelos arqueiros ingleses, cujas flechas eram muitíssimo mais letais que os canhões daqueles dias. Aliás, o arco manteve-se senhor absoluto nos campos de batalha (quando era usado) por mais oitenta anos. Venceu a Batalha de Azincourt para os ingleses em 1415, sendo que eles se defrontavam com um exército francês bem superior em número, e conseguiu a vitória final para eles também em Verneuil, em 1424.

Entretanto, melhorias na pólvora e na criação e manufatura do canhão gradualmente possibilitaram a formação de uma artilharia eficiente, baseada na pólvora, que abatia o inimigo sem matar o próprio atirador. Na segunda metade do século XV, a pólvora dominava os campos de batalha — e assim foi durante outros quatro séculos.

Devido ao desenvolvimento da artilharia francesa, em contraposição ao arco, os ingleses, que haviam passado oitenta anos lentamente derrotando a França com seus arcos, foram expulsos em vinte anos. Além disso, a artilharia contribuiu decisivamente para pôr fim ao feudalismo na Europa ocidental. Não só os canhões podiam derrubar os muros de castelos e cidades sem dificuldade, como também só um governo forte e centralizado teria recursos para construir e manter um comboio de artilharia, de forma que, pouco a pouco, os grandes nobres se viram forçados a submeter-se ao rei.

Essa artilharia significava, de uma vez por todas, que o flagelo bárbaro estava terminado. Nenhum cavalo, por mais veloz que fosse, e nenhuma lança, mesmo a mais certeira, podiam enfrentar a boca de um canhão de igual para igual.

A Europa ainda estava em perigo diante daqueles que prazerosamente ela considerava

bárbaros, mas que eram tão civilizados quanto os europeus{56}.

Os turcos, por exemplo, haviam inicialmente adentrado o reino do Império Abácida como bárbaros em 840, ajudado a causar sua desintegração (que os mongóis completaram) e sobrevivido ao Império Mongol, que havia se dividido em fragmentos deteriorados logo após a morte de Kublai Khan.

No processo, eles tinham se civilizado e capturado a Ásia Menor e partes do Oriente Próximo. Em 1345, os turcos otomanos (cujo reino veio a ser conhecido por Império Otomano) atravessaram os Bálcãs e se estabeleceram na Europa — de onde jamais foram inteiramente retirados. Em 1453, os turcos capturaram Constantinopla e puseram fim à história do Império Romano, mas fizeram-no com o auxílio de uma artilharia melhor que a possuída por qualquer potência européia.

As conquistas de Tamerlão (que se dizia descendente de Gengis Khan) tinham, enquanto’ isso, parecido restaurar a era dos mongóis e, de 1381 a 1405, ele venceu batalhas na Rússia, no Oriente Médio e na índia.

Um nômade em espírito, ele utilizava as armas e a organização das regiões civilizadas que controlava, e (exceto o ataque breve e sangrento desfechado contra a índia) nunca se moveu além dos reinos previamente conquistados pelos mongóis.

Após a morte de Tamerlão, finalmente chegava a vez da Europa. Com a pólvora e a bússola, os navegadores europeus começaram a desembarcar nas linhas litorâneas de todos os continentes, e a ocupar e povoar os totalmente bárbaros e a dominar os basicamente civilizados. Durante um período de 550 anos, o mundo tornou-se crescentemente europeu. E, quando a influência européia começou a diluir-se, foi porque nações não-européias se tornaram europeizadas, se não em outra coisa, pelo menos nas técnicas de combate.

Com os mongóis, pois, eliminou-se qualquer possibilidade (nunca muito grande) de destruição da civilização pela invasão bárbara.

Entretanto, enquanto a civilização se defendia contra a barbárie, as guerras entre potências civilizadas iam se tornando cada vez mais selvagens.

Mesmo antes do advento da pólvora, houve casos em que a civilização parecia em risco de suicídio, pelo menos em algumas áreas. Na Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C), o general cartaginês Aníbal assolou a Itália durante dezesseis anos, pelo que esta levou bastante tempo para se recuperar.

A Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França (1338-1453) ameaçou reduzir a França à barbárie, e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) finalmente acrescentou a pólvora aos horrores anteriores, acabando com metade da população alemã. Essas guerras, no entanto, se circunscreveram a determinadas áreas e, independentemente de quanto a Itália ou a França ou a Alemanha possam ter sofrido neste ou naquele século, a civilização, como um todo, continuou a se expandir.

Mas então, à medida em que a era da explosão fazia o domínio europeu alastrar-se pelo mundo, as guerras européias começaram a afetar a configuração dos continentes, e a era das guerras mundiais teve início. A primeira guerra que poderia ser considerada uma guerra mundial, no sentido de que os exércitos penetravam em diferentes continentes e mares — sempre em lutas que, sob um ou outro aspecto, giravam em torno de problemáticas multilaterais —, foi a Guerra dos Sete Anos (1756-63). Nesta, a Prússia e a Grã-Bretanha, de um lado, combatiam a Áustria, a França, a Rússia, a Suécia e a Saxônia, de outro. As principais batalhas dessa guerra aconteceram na Alemanha, com a Prússia enfrentando uma tremenda desvantagem. Esta era, porém, governada por Frederico II (o Grande), o último

monarca legítimo a ser um gênio militar — e ele sagrou-se vencedor {57}.

Entrementes, contudo, ingleses e franceses se combatiam na América do Norte, onde a guerra, na realidade, se iniciara em 1755. Batalhas foram travadas na porção ocidental da Pensilvânia e em Quebec.

Batalhas navais entre a Grã-Bretanha e a França foram travadas no Mediterrâneo e fora das costas francesas, na Europa, e indianas, na Ásia. A Grã-Bretanha também lutou com os espanhóis nos mares que banham Cuba e as Filipinas, enquanto combatia em terra a França (isto, na índia). A Grã–Bretanha ganhou, arrebatando para si o Canadá, pertencente até então à França, e conquistou uma base incontestável na índia.

Foi no século XX que as guerras se alastraram tanto ou mais que no caso da Guerra dos Sete anos, e com intensidade cada vez maior. A Primeira Guerra Mundial presenciou graves combates em terra (desde a França até o Oriente Médio) e disputas navais em todos os mares (embora a única batalha naval séria envolvendo diversos navios de guerra tenha se passado no mar do Norte). A Segunda Guerra Mundial assistiu a uma ação ainda mais intensa em extensas partes da Europa e do Oriente Médio e em grandes porções da África setentrional e do Extremo Oriente, com contendas navais e aéreas ainda mais difundidas e de maior escala. Mas não foi só o aumento da escala que incrementou a ameaça à civilização. O grau tecnológico em desenvolvimento fez as armas de guerra progressivamente mais destrutivas.

O reinado da pólvora terminou no final do século XIX, com a invenção de explosivos fortes como o TNT, a nitroglicerina e o algodão-pólvora. Aliás, a Guerra Hispano-Americana de 1898 foi a última guerra de alguma monta a ser travada com a pólvora. Daí por diante, os navios começaram a ser couraçados e maiores, além de carregar mais armas de fogo poderosas.

A Primeira Guerra Mundial introduziu o uso militar de tanques, aviões e gases tóxicos. A Segunda Guerra Mundial introduziu a bomba nuclear. Desde então, surgiram os mísseis balísticos intercontinentais, os gases paralisantes, os raios laser e a guerra biológica.

Mais importante é o fato de que, embora a guerra se tenha tornado mais extensiva e as armas de destruição mais poderosas, o nível de inteligência dos generais não aumentou. De fato, à medida em que as complexidades e a destmtividade das armas cresciam, e que o número de homens empregados aumentava e a complexidade das operações combinadas estendidas a maiores áreas se multiplicava, ficava mais difícil preencher os requisitos cie decisões rápidas e inteligentes, e os generais iam cada vez menos ao encontro das expectativas. Os generais podem não ter ficado mais estúpidos, mas pareciam ser mais estúpidos em relação ao grau de inteligência necessário.

A Guerra Civil americana assistiu a tremendos prejuízos cuja responsabilidade foi de generais incompetentes, porém isso nada significa perto dos prejuízos causados pelos incompetentes generais da Primeira Guerra Mundial, igualmente poucos em comparação com alguns dos erros fatais perpetrados na Segunda Guerra Mundial.

Não se aplica, portanto, a regra de que o combate civilizado não destruirá a civilização, desde que vencedores e vencidos igualmente se preocupem em salvar os frutos da civilização.

Primeiro: a destrutividade das armas intensificou-se até um grau que seu emprego pleno não só pode destruir a civilização como até, talvez, a própria humanidade; segundo: a normal incapacidade de líderes militares para executar seu trabalho agora pode conduzir a enganos tão monstruosos que a civilização ou até a humanidade possam ser arrasadas sem que haja qualquer intenção nesse sentido. Por fim, encaramos a única verdadeira catástrofe do quarto grau que podemos com razão temer: que uma guerra termonuclear sem precedentes possa de alguma forma ser acionada e levada a cabo, sem sentido, até o ponto do suicídio humano.

Isso pode acontecer. Acontecerá?

Vamos supor que os líderes políticos e militares do mundo tenham mentes equilibradas e detenham controle firme sobre os arsenais nucleares.

Nesse caso, não há probabilidade real de uma guerra nuclear. Duas bombas nucleares foram usadas em situações perigosas: uma em Hiroxima, no Japão, em 6 de agosto de 1945, e a outra em Nagasáquí, também no Japão, dois dias depois. Eram as duas únicas bombas existentes naquela época e a intenção era a de acabar com a Segunda Guerra Mundial. Nisso tiveram êxito, pois não havia possibilidade de um contra-ataque nuclear naquele tempo.

Durante quatro anos, os Estados Unidos foram os únicos detentores de um arsenal nuclear, mas não tiveram uma boa oportunidade de pô-lo em uso, porque todas as crises capazes de provocar a guerra, como o bloqueio soviético de Berlim em 1948, eram resolvidas ou neutralizadas sem a necessidade de utilizá-lo.

Então, em 29 de agosto de 1949, a União Soviética explodiu sua primeira bomba nuclear; daí por diante, a possibilidade de uma guerra com armas nucleares cresceu em ambos os lados — guerra essa que nenhum dos lados poderia ganhar, uma guerra que os dois lados sabiam bem ser impossível a qualquer deles ganhar.

Tentativas de conseguir uma linha de conduta suficientemente controladora a fim de fazer da guerra uma possibilidade racional falharam.

Ambos os lados conseguiram fabricar a muito mais perigosa bomba de hidrogênio em 1952; ambos desenvolveram mísseis e satélites; ambos buscaram uma constante sofisticação das armas em geral.

Conseqüentemente, a guerra entre as superpotências tornou-se impensável. O caso mais ameaçador de uma crise deu-se em 1962, quando a União Soviética instalou mísseis em Cuba, a 150 quilômetros da costa da Flórida, pondo os Estados Unidos à mercê de um ataque nuclear de perto. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval e aéreo a Cuba e mandaram um virtual ultimato à União Soviética para remover aqueles mísseis. De 22 a 28 de outubro de 1962, o mundo esteve mais próximo de uma guerra nuclear do que jamais — antes ou depois.

A União Soviética cedeu e retirou seus mísseis. Em compensação, os Estados Unidos, que haviam apoiado uma tentativa de golpe no governo revolucionário de Cuba em 1961, aceitaram a política de não-intervenção em Cuba. Cada lado aceitou uma retirada inimaginável em dias prénucleares.

Novamente, os Estados Unidos lutaram durante dez anos no Vietnam e finalmente aceitaram uma humilhante derrota, sem tentar empregar armas nucleares, que teriam destruído o inimigo de imediato. Similarmente, a China e a União Soviética não se empenharam numa intervenção direta na guerra, contentando-se em apoiar o Vietnam de formas nada comprometidas com a guerra, porque não queriam provocar os Estados Unidos para uma ação nuclear.

Finalmente, em repetidas crises no Oriente Médio, nas quais os Estados Unidos e a União Soviética têm-se colocado em lados opostos, nenhuma das duas superpotências tentou uma intervenção direta. Aliás, as guerras ali têm sido impedidas de se desenvolver até o ponto em que um ou outro lado fosse forçado a tentar a intervenção direta.

Em resumo, nas quase quatro décadas desde que as armas nucleares surgiram em cena, elas nunca (exceção feita às proto-explosões em Hiroxima e Nagasáqui) foram usadas em guerras, e as duas superpotências têm se desdobrado extraordinariamente para evitar seu uso.

Se isso persistir, não seremos destruídos por uma guerra nuclear — mas persistirá? Afinal de contas, há uma proliferação nuclear. Somam-se aos Estados Unidos e à União Soviética, como construtores de armamentos nucleares, a Grã-Bretanha, a França, a China e a índia. Outros podem imitá-los; talvez inevitavelmente o façam. Será que uma potência secundária não poderia deflagrar uma guerra nuclear?

Se admitirmos que os líderes das potências secundárias também têm mentes equilibradas, então fica difícil ver por que o fariam. Ter bombas nucleares é uma coisa; ter um arsenal suficientemente grande para evitar a repentina e certa aniquilação por uma ou outra das superpotências é outra.

Aliás, é bem provável que qualquer das potências menores que faça o mínimo gesto em direção ao uso de uma bomba nuclear tenha imediatamente unidas contra si ambas as superpotências.

Mas quanta confiança podemos depositar na manutenção do equilíbrio mental dos líderes mundiais? No passado, algumas nações estiveram sob a liderança de personalidades psicóticas; e mesmo um líder mentalmente “normal” poderia, num acesso de raiva e desespero, perder o controle racional. Podemos facilmente imaginar alguém como Adolf Hitler ordenando um holocausto nuclear se a alternativa fosse a destruição de seu poder; entretanto, poderíamos imaginar também seus subalternos se recusando a executar suas ordens. Na realidade, por exemplo, algumas das ordens dadas por Hitler em seus últimos meses de vida «5o foram executadas por seus generais e administradores.

Por outro lado, existem agora alguns líderes nacionais que parecem ser bem fanáticos para puxar o gatilho nuclear, se tiverem algum. A sorte é que não o têm, e suspeito de que eles são tolerados pelo mundo em geral justamente porque não o têm.

Mesmo que todos os líderes políticos e militares permaneçam mentalmente sãos, será possível que o arsenal escape a seu controle e que uma guerra nuclear seja deflagrada pela decisão psicótica ou desesperada de um subalterno? Pior ainda, será que isso pode se iniciar por uma série de pequenas decisões, cada uma das quais parecendo a única solução possível diante de um movimento do inimigo, até que, finalmente, a guerra nuclear estoure sem que ninguém a deseje e todo mundo torcendo desesperadamente para que não aconteça? (Foi bem assim que a Primeira Guerra Mundial começou.)

Pior de tudo, será possível que as condições mundiais se deteriorem tanto que uma guerra nuclear possa parecer uma alternativa preferível a não se fazer nada?

Sem dúvida, a única forma segura de se evitar uma guerra nuclear é destruir todas as armas nucleares; talvez o mundo ainda possa chegar a isso antes que a guerra nuclear estoure.