Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 57 de 68

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Escolha a Catástrofe

Catástrofes do Quinto Grau

Parte V

 

CATÁSTROFES DO QUINTO GRAU

14 — O ESGOTAMENTO DOS RECURSOS

 

ITENS RENOVÁVEIS

 

Nos dois últimos capítulos chegamos à conclusão de que a única catástrofe do quarto grau que pode sobrevir é uma guerra termonuclear suficientemente intensa e prolongada que destrua toda a vida humana — ou que deixe míseros remanescentes da humanidade em condições tão deploráveis que só possam se encaminhar para a extinção.

Se isso acontecer, é provável que outras formas de vida venham a ser eliminadas, mas pode ser também que os insetos, a vegetação, os microrganismos, etc, sobrevivam para povoar o mundo novamente e fazê-lo florescer uma vez mais como um planeta habitável, até o dia (se este chegar) em que uma nova e sadia espécie inteligente evolua.

Discutimos a improbabilidade de essa guerra termonuclear intensa e prolongada ser provocada. Mesmo assim, um menor grau de violência bastaria para destruir a civilização, ainda que a própria humanidade sobrevivesse. Isso seria uma catástrofe do quinto grau, a menos drástica a ser discutida neste livro — mas suficientemente drástica.

Agora, suponhamos que a guerra, junto com graus mais baixos de violência, torne-se coisa do passado. Não é esperado que isso aconteça, mas pode até ser possível. Suponhamos que a humanidade resolva que a guerra é suicídio e não tem sentido algum, que é preciso agir racionalmente quando se quer resolver disputas, corrigir as injustiças que ocasionam a guerrilha e o terrorismo, e agir efetivamente para desarmar e conter aqueles a quem o racional (definido pelo senso comum humano) não satisfaz. Suponhamos, também, que a cooperação internacional chegue quase a ponto de instaurar uma forma federalizada de governo mundial, que participe globalmente da solução dos grandes problemas e projetos.

Isso pode parecer extremamente idealista, um verdadeiro sonho dourado, mas imaginemos que ocorra. A questão que se coloca é: garantindo-se um mundo de paz e cooperação, estaremos eternamente seguros?

Continuaremos aperfeiçoando nossa tecnologia até aprendermos a evitar a próxima era glacial daqui a 100 000 anos e a controlar o clima terrestre a nosso gosto? Continuaremos a aperfeiçoar nossa tecnologia ainda mais, após adentrarmos o espaço e nos tornarmos independentes do Sol e da Terra, para podermos fugir quando for chegada a hora de o Sol se tornar uma gigante vermelha daqui a 7 bilhões de anos (caso já não tenhamos fugido)? Será que continuaremos a aperfeiçoar nossa tecnologia até aprendermos a sobreviver ao universo em contração ou à máxima entropia, excedendo o universo em tempo de duração? Ou haverá perigos mortais iminentes e quase (ou totalmente) inevitáveis, mesmo em um mundo pacífico?

Pode acontecer. Consideremos, por exemplo, a questão de nosso aperfeiçoamento tecnológico. No desenrolar deste livro, considerei como ponto pacífico que a tecnologia se desenvolveria indefinidamente, dadas as condições favoráveis; ela não tem fronteiras naturais, pois o conhecimento não tem limites e pode se ampliar indefinidamente. Mas qual o preço da tecnologia? Quais as condições necessárias? Visto isso, o que acontecerá se não pudermos pagar tal preço nem reunir as devidas condições?

Para ser bem sucedida, a tecnologia depende da exploração de recursos oriundos de nosso ambiente, e todo o avanço tecnológico implicaria um aumento no grau de exploração, ao que parece. Nesse caso, por quanto tempo esses recursos vão durar?

Devido à presença da radiação solar pelos próximos bilhões de anos, muitos recursos da Terra são indefinidamente renováveis. A vegetação utiliza a energia solar para converter a água e o dióxido de carbono em seu próprio tecido, liberando o oxigênio excedente para a atmosfera. Os animais dependem, enfim, do mundo vegetal para obter alimento e combinam esse alimento com o oxigênio, formando água e dióxido de carbono.

Esse ciclo de oxigênio e alimento (a que se podem adicionar vários minerais essenciais à vida) existirá enquanto houver a luz solar — pelo menos em potencial — e, do ponto de vista humano, tanto o alimento que comemos quanto o oxigênio que respiramos são eternamente renováveis.

Alguns aspectos do mundo inanimado também se renovam. A água, que é constantemente consumida e escoada para o mar, renova-se com a evaporação do oceano pelo calor solar e com a precipitação em forma de chuva. Os ventos existirão enquanto durar a distribuição irregular do calor solar sobre a Terra; as marés terão seu fluxo e refluxo enquanto a Terra girar em relação ao Sol e à Lua, e a si mesma.

Todas as formas de vida diversas da humana só lidam com recursos renováveis. Determinados organismos podem morrer por falta temporária de alimento e água em determinado lugar, ou por causa de aberrações climáticas, ou por presença e atividade de predadores, ou meramente por causa da idade avançada. Toda uma espécie pode morrer devido a mudanças genéticas, à incapacidade de adaptar-se a alterações ambientais, ou à substituição por outra espécie com melhores possibilidades de sobrevivência.

Entretanto, a vida continua, pois a Terra segue sendo habitável, graças à eterna reciclagem de recursos renováveis.

Somente o ser humano lida com recursos não-renováveis e, portanto, só ele corre o risco de estruturar um modo de vida cujos elementos essenciais podem faltar repentinamente. Essa falta pode representar tamanha desarticulação que é capaz de pôr fim à civilização humana. Aí, então, a Terra poderá ainda comportar a vida, mas não mais o avanço tecnológico.

Os primórdios da tecnologia sem dúvida utilizaram-se dos recursos renováveis. Os primeiros instrumentos eram fornecidos pela natureza. Um galho caído era usado como uma clava, assim como o era um osso dos membros de um grande animal. Eles eram recursos renováveis. Sempre temos um novo galho e um novo animal a nosso alcance.

Nem mesmo quando os humanos aprenderam a atirar pedras, a situação mudou. As pedras não são renováveis, entendendo-se que não se formam com a rapidez com que se desenvolve a atividade humana. Por outro lado, elas também não se consomem ao serem atiradas. Uma pedra que foi atirada pode ser apanhada e atirada novamente. A novidade surgiu quando as pedras começaram a ser moldadas, a partir da lascagem, aparação ou afiamento, criando um corte ou uma ponta que permitissem usá-las como facas, machados, lanças ou pontas de flecha.