Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 61 de 68

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Escolha a Catástrofe

Energia: A Nova

Dentre as catástrofes já discutidas, esta é a que enfrentamos de forma mais iminente.

 

ENERGIA: A NOVA

 

Apesar de o prognóstico da falta de energia poder ser concebido como sendo iminente e horrível, não chega a ser inevitável. É uma catástrofe provocada pelo homem e, portanto, sujeita a um adiamento ou anulação por parte do homem.

Como no caso do esgotamento de outros recursos, também aqui há contra-ataques possíveis.

Em primeiro lugar, há a preservação. Há duzentos anos a humanidade tem tido a sorte de contar com energia fácil e barata, que tem seus efeitos colaterais menos favoráveis. Tem havido poucos motivos que levem à preservação e muita tentação de entregar-se a um consumo exagerado.

Mas a era da energia barata findou (pelo menos por enquanto). Os Estados Unidos, por exemplo, não são mais autosuficientes em termos de petróleo. Sua produção petrolífera é bem superior à de qualquer nação, mas precisamente por esse motivo suas reservas minguam rapidamente, à medida em que o nível de consumo nacional continua a crescer.

Isso significa que os Estados Unidos precisam importar cada vez mais petróleo. O que impõe um desvio na direção do comércio, pressiona duramente o dólar, favorece a inflação e, de forma geral, prejudica a posição econômica americana.

A preservação, portanto, não é apenas desejável, como também absolutamente necessária para nós.

Há muitos campos em que é possível a conservação de energia, a começar pelos maiores esbanjadores de energia: as diversas máquinas militares do mundo. Como não há guerra sem suicídio, a manutenção de máquinas bélicas a custos astronômicos de energia é loucura, especialmente porque a principal fonte energética do mundo está minguando.

Além da preservação imediata do petróleo, há possibilidades evidentes de se aumentar a eficiência com que se extraí o petróleo de poços já existentes, para que os poços secos possam, até certo ponto, jorrar novamente.

Pode também haver um aumento na eficiência com que se extrai a energia da queima do petróleo (ou do combustível em geral). No momento, a queima de combustível produz explosões que acionam as partes de um motor de combustão interna; ou converte a água em vapor, cuja pressão gira uma turbina para produzir eletricidade. Nesses dispositivos, apenas de 25 a 40 por cento da energia é transformada em trabalho útil; o restante se perde como calor desperdiçado. Há pouca esperança de que a eficiência aumente significativamente.

Entretanto, há outras estratégias. A queima do combustível pode aquecer os gases até que os átomos e as moléculas se transformem em fragmentos eletrícamente carregados que podem ser impulsionados para um campo magnético, produzindo, assim, uma corrente elétrica. Os processos “magneto-hidrodinâmicos” (MHD) são mais eficientes do que quaisquer técnicas convencionais.

Teoricamente, é até possível produzir eletricidade pela combinação do combustível com o oxigênio em uma pilha elétrica, sem a produção intermediária de calor. Assim se alcançam facilmente eficiências de 15 por cento, podendo-se até atingir o nível de 100 por cento. Até hoje, nenhuma “pilha de combustível” foi inventada, mas as dificuldades que se interpõem a isso podem ser superadas.

Aliás, novos poços de petróleo podem ser descobertos. A história da última metade de século é uma história de sucessivas previsões de esgotamento do petróleo que nunca se realizaram. Antes da Segunda Guerra Mundial, percebeu-se que a produção de petróleo teria um ápice e entraria em declínio nos anos 40; após a guerra, a data foi transferida para os anos 60; hoje, a data foi transferida para 1990. Será que ela sempre será transferida?

Seguramente não podemos contar com isso. O que contribui para o adiamento desse cálculo é a descoberta de novos recursos petrolíferos de tempos em tempos. A maior delas deu-se após a Segunda Guerra Mundial, no Oriente Médio, surpreendendo a todos pela sua imensidade. Atualmente, 60 por cento das reservas de petróleo conhecidas concentram-se em uma pequena área situada na proximidade do golfo Pérsico (coincidentemente, o berço da civilização humana).

Não é provável que venhamos novamente a encontrar riqueza tão grande. A cada década, mais a Terra é varrida em busca de petróleo com técnicas cada vez mais sofisticadas. Encontramos um pouco ao norte do Alasca, um pouco mais no mar do Norte, estamos sondando detalhadamente as plataformas continentais — mas chegará o dia, muito brevemente, em que não haverá mais petróleo a ser encontrado.

Mesmo que possamos fazer algo por meio da preservação — aumentar a eficiência e encontrar novos poços de petróleo —, parece inevitável que no início do século XXI encontremos poços praticamente secos. E então?

Pode-se obter o petróleo a partir de outras fontes que não os poços; há a possibilidade de encontrá-lo nos interstícios de materiais subterrâneos de onde se pode extraí-lo com relativa facilidade. Há rochas, chamadas “argilitos”, a que está associado um material orgânico, como o piche, chamado “querogênío”. Quando o argilito é aquecido, as moléculas do querogênio se rompem e obtém-se uma substância parecida com o petróleo bruto. A quantidade de petróleo de argilito na crosta terrestre deve ser 3.000 vezes maior que a quantidade de petróleo de poço. Um só campo petrolífero de argilito no oeste dos Estados Unidos deve conter sete vezes a quantidade de petróleo do Oriente Médio.

O problema é que o argilito tem que ser minerado, aquecido, e o petróleo produzido teria que ser refinado com métodos diversos dos que se utilizam hoje (e observe-se que mesmo o argilito mais rico produziria apenas dois barris por tonelada de rocha). Em seguida, o argilito teria que ser descartado. As dificuldades e os gastos são altos demais, e o petróleo de poço ainda está disponível e não justifica tamanho emprego de capital. No futuro, porém, à medida em que declinar o petróleo de poço, o petróleo de argilito servirá para quebrar o galho (por um preço mais alto, é claro).

Depois, logicamente, há o carvão. O carvão foi a fonte de energia principal, antes de o petróleo substituí-lo, e ainda está à disposição.

Costuma-se dizer que o carvão da Terra é suficiente para permitir que o consumo energético atual mantenha o mesmo nível por milhares de anos.

Porém, nem todo o carvão pode ser obtido com as técnicas atuais de mineração. Mesmo assim, de um ponto de vista bastante conservador, o carvão deve durar algumas centenas de anos e, até lá, novas técnicas de mineração já se terão desenvolvido.

Por outro lado, a mineração é um perigo. Há explosões, sufocamentos, desmoronamentos. O trabalho físico é árduo e os mineiros morrem de doenças pulmonares. O processo de mineração tende a destruir e poluir a terra à volta da mina e produz um cenário de miséria e desolação. Uma vez minerado, o carvão tem que ser transportado — tarefa mais árdua que o bombeamento de petróleo em um oleoduto. O carvão é muito mais difícil de ser trabalhado e de inflamar do que o petróleo, e solta uma cinza densa e uma fumaça poluente (a menos que se empreguem técnicas de limpeza do carvão antes de utilizá-lo).

Mesmo assim, podemos esperar que o carvão seja tratado com técnicas novas e mais sofisticadas. A terra pode recuperar seu estado original após a mineração. (Deve-se lembrar que isso custa tempo, trabalho e dinheiro.) Além disso, muito se pode fazer na própria mina com a finalidade de evitar o gasto e o problema de transporte de carga.

Por exemplo, pode-se queimar o carvão na própria mina, para produzir eletricidade mediante técnicas magneto-hidrodinâmicas. Nesse caso, é a eletricidade que deve ser transportada, e não o carvão.

Ademais, o carvão pode ser aquecido na mina para liberar gases, incluindo o monóxido de carbono, o metano e o hidrogênio. Estes podem ser tratados de modo a se produzirem os equivalentes ao gás natural, à gasolina e a outros derivados do petróleo. O óleo e o gás é que serão transportados em vez do carvão, e as minas de carvão transformar-se-ão em nossos novos poços de petróleo.

Mesmo o carvão que tem que ser usado como carvão, na fabricação do ferro e do aço, por exemplo, pode ser utilizado com maior eficiência.

Pode ser reduzido a pó, talvez, e ser transportado, inflamado e controlado quase tão facilmente quanto o próprio petróleo.

Com o argilito e o carvão, poderíamos muito bem ter petróleo mesmo depois de os poços secarem, e manter o estado atual de nossa tecnologia durante séculos.

Há, porém, uma séria dificuldade quando se depende do petróleo e do carvão, por mais avançadas que sejam nossas técnicas. Esses “combustíveis fósseis” jazem no subsolo há centenas de milhões de anos, e representam muitas toneladas de carvão que não adentrou a atmosfera durante todo esse tempo.

Hoje queimamos esses combustíveis fósseis com uma taxa cada vez mais alta, convertendo o carbono em dióxido de carbono e eliminando-o na atmosfera. Parte dele se dissolverá no oceano. Parte será absorvida pela planta cujo crescimento for incentivado por sua presença. Outra parte, porém, permanecerá no ar, aumentando o teor de dióxido de carbono da atmosfera.

Desde 1900, por exemplo, o dióxido de carbono da atmosfera aumentou de 0,029 para 0,032 por cento. Calculase que no ano 2000 a concentração atinja a marca de 0,038 por cento, um aumento equivalente a 30 por cento num século. Isso deve ser conseqüência, pelo menos em parte, da queima de combustíveis fósseis, embora possa se dever, em parte, à eliminação das florestas, mais eficientes do que qualquer outro tipo de vegetação enquanto absorventes de dióxido de carbono.

Na verdade, o aumento do dióxido de carbono na atmosfera não é tão grande. Mesmo que o processo da queima de combustíveis fósseis persista e se acelere, calcula-se que a máxima concentração que atingiremos será de 0,115 por cento. Nem isso chegaria a impedir nossa respiração.

Mas não é com a respiração que devemos nos preocupar. Não é preciso um grande aumento na concentração de dióxido de carbono para intensificar o efeito de estufa. A temperatura média da Terra poderá ser 1 grau centígrado mais alta no ano 2000 do que em 1900 por causa

do dióxido de carbono adicionado {64}. Precisaria muito mais que isso para se atingir o ponto em que o clima terrestre fosse afetado seriamente e em que as calotas polares começassem a degelar, causando resultados desastrosos nas planícies continentais.

Sempre há, na verdade, aqueles que apresentam o fato de que, se o dióxido de carbono aumentar além de determinado nível, a ligeira elevação na temperatura média do mar fará com que o dióxido de carbono se desprenda da solução com a água, o que acentuará o efeito de estufa, aumentando ainda mais a temperatura do mar, eliminando mais dióxido de carbono, e assim por diante.

Esse “efeito encadeado de estufa” pode elevar a temperatura da Terra acima do ponto de ebulição da água e torná-la inabitável — o que configuraria uma catástrofe causada pela queima de combustíveis fósseis.

Há considerações de que um certo período de efeito de estufa moderado deixou drásticas conseqüências no passado terrestre.

Aproximadamente há 75 milhões de anos, as placas tectônicas alteraram a crosta terrestre a ponto de causar a drenagem de alguns mares rasos. Esses mares eram particularmente ricos em algas, que serviam para absorver o dióxido de carbono do ar. À medida em que os mares desapareciam, a quantidade de algas ia diminuindo, o mesmo acontecendo com a absorção de dióxido de carbono. Com isso, houve um aumento do dióxido de carbono na atmosfera, e a Terra foi se aquecendo.

Os animais de grande porte são os que mais sofrem com a perda de calor corpóreo, pois é-lhes difícil a adaptação interna ao frio. Em particular, os espermatozóides, especialmente sensíveis ao calor, devem ter sido prejudicados na época, causando a perda de fertilidade nos animais de grande porte. Pode ser que a extinção dos dinossauros tenha ocorrido em função disso.

Será que um destino desses — autopunitivo — nos aguarda?

Em outros casos, afins, confiei no auxílio de avanços tecnológicos para prevenir ou evitar a catástrofe, e podemos conceber a idéia de que a humanidade será capaz de tratar a atmosfera eliminando o excesso de dióxido de carbono. Entretanto, se o efeito encadeado de estufa vier, é provável que venha tão cedo que custa-nos imaginar um avanço tecnológico tão rápido que nos salve. (O mesmo não ocorre em relação a catástrofes como uma futura era glacial ou o Sol em expansão.) Pode ser que os projetos de pesquisa de novos poços de petróleo, ou de sua substituição pelo argilito e o carvão, sejam problemas sem importância prática; pode ser que exista um limite para o nível de queima do combustível fóssil (de qualquer tipo e fonte) sem que se corra o risco de uma catástrofe de estufa. Isso nos deixa alternativas, ou só nos resta o desespero de esperar até que a civilização se arruine de um jeito ou de outro dentro de mais um século?

Há alternativas. Temos as velhas fontes de energia conhecidas pela humanidade antes que os combustíveis fósseis entrassem em cena. Temos nossos músculos e os dos animais. Temos o vento, a água corrente, as marés, o calor interno da Terra, a madeira. Nenhum desses chega a poluir com conseqüências graves, e todos são renováveis e inesgotáveis. Além disso, podem ser utilizados de formas mais sofisticadas que as antigas.

Por exemplo, não precisamos abater as árvores feito loucos para queimá-las e produzir calor ou carvão vegetal para a fabricação de aço.

Podemos produzir safras especiais, escolhidas por sua velocidade na absorção do dióxido de carbono e estruturação de tecidos em função disso (“bio-massa”). Podemos queimar essas safras diretamente ou, melhor ainda, plantar tipos específicos dos quais possamos extrair o óleo inflamável ou que possamos fermentar e transformar em álcool. Esses combustíveis produzidos naturalmente podem ajudar a pôr em marcha nossas futuras fábricas e automóveis.

A grande vantagem dos combustíveis vegetais é que não envolvem a constante liberação de dióxido de carbono no ar. O combustível se produz a partir do dióxido de carbono absorvido meses ou anos antes, e que simplesmente está sendo devolvido à atmosfera de onde se originou recentemente.

Uma vez mais, moinhos de vento ou equivalentes poderiam ser construídos e funcionariam com muito mais eficiência que as estruturas medievais de que se originaram; muito mais energia seria extraída do ar.

Antigamente, as correntes e marés eram utilizadas somente para deslocar os navios dos portos. Hoje podem ser utilizadas para encher reservatórios, e estes, por ocasião da maré vazante, estariam produzindo uma queda de água que giraria uma turbina e produziria eletricidade. Nas áreas em que o calor interno da Terra fica próximo à superfície, ele poderia ser canalizado e utilizado para mover uma turbina e gerar eletricidade. Foi até sugerido o uso da diferença de temperatura da água à tona e no fundo do oceano tropical, ou a energia incessante das ondas dos mares, para gerar eletricidade.

Todas essas formas de energia são seguras e constantes. Não produzem poluição perigosa e sempre se renovarão enquanto durarem a Terra e o Sol.

No entanto, não são abundantes. Isto é, nem isoladas nem juntas elas conseguem suprir toda a demanda de energia tão bem quanto o petróleo e o carvão nos últimos dois séculos. Isso não significa que não têm importância.

Para começar, em dado lugar e hora, para determinado propósito, cada uma delas pode ser a forma de energia mais conveniente possível. E todas juntas podem servir para prolongar o emprego de combustíveis fósseis.