Escolha a Catástrofe

Isaac Asimov · Capítulo 32 de 68

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Escolha a Catástrofe

A Aproximação da Lua

Assim, há 400 milhões de anos, quando o dia terrestre durava apenas 21,9 horas, a distância entre os centros da Lua e da Terra era somente 96 por cento do que é agora. A Lua estava a apenas 370 000 quilômetros da Terra.

Se calcularmos regressivamente dessa maneira, concluiremos que, há 4,6 bilhões de anos, quando a Terra acabara de ser formada, a Lua distava dela somente 217 000 quilômetros, pouco mais que metade da distância atual.

O cálculo não é justo, pois à medida em que a Lua vai se aproximando da Terra (voltando os olhos para o passado), o efeito das marés se torna maior, desde que todas as outras condições se mantenham constantes. É provável que nos primórdios da história da Terra, a Lua tenha estado ainda mais próxima, talvez a apenas 40 000 quilômetros.

Olhando para o futuro, agora, à medida em que o período de rotação da Terra se reduz, a Lua e a Terra vagarosamente se separam. A Lua está lentamente espiralando para longe da Terra. Cada translação à volta da Terra aumenta sua distância média de aproximadamente 2,5 milímetros.

A rotação da Lua se tornará mais lenta muito gradualmente, de modo que continuará a combinar com a crescente duração do mês. Finalmente, quando o período de rotação terrestre aumentar até que ela, também, sempre tenha o mesmo lado voltado para a Lua, esta terá recuado tanto que o mês se comporá de 47 dias. Então, a rotação lunar durará 47 dias atuais a mais que a da Terra. Os dois corpos volverão rigidamente, como um haltere com um eixo invisível. A Terra e a Lua estarão, então, separadas, de centro a centro, por uma distância de 480 000 quilômetros.

 

A APROXIMAÇÃO DA LUA

 

Se não existissem efeitos de marés sobre a Terra ou sobre a Lua, a translação do haltere persistiria para sempre. Todavia, ainda existiriam os efeitos das marés exercidos pelo Sol. Esses efeitos funcionariam de um modo um tanto complexo e que aumentaria a velocidade das rotações da Terra e da Lua, atraindo os dois corpos um para o outro, em ritmo mais lento que aquele pelo qual eles estão agora se separando. Aparentemente, essa crescente proximidade continuaria indefinidamente, de modo que a Lua, poder-se-ia supor, acabaria por cair sobre a Terra (embora eu tenha começado dizendo que isso não poderia acontecer), já que seu momento angular de translação, no final, será transferido totalmente para o momento angular de rotação.

Porém, ela não cairá no sentido habitual do termo, mas avançará em nossa direção numa espiral decrescente, extremamente lenta e gradual. Mesmo nesse sentido, não cairá realmente, porque não haverá nenhum contato direto.

À medida em que os dois corpos forem se aproximando, os efeitos das marés aumentarão à razão do cubo da distância decrescente. Quando ambos estiverem separados, de centro a centro, por uma distância de apenas 15.500 quilômetros, de forma que as duas superfícies se encontrem separadas por somente 7.400 quilômetros, os efeitos de marés da Lua sobre a Terra serão 15 000 vezes mais fortes que atualmente. Por seu lado, a Terra estará exercendo esse efeito sobre a Lua com uma força 32,5 vezes maior, ou quase 500 000 vezes o efeito das marés lunares sobre a Terra, hoje.

Nessa época, então, a força das marés sobre a Lua será tão grande que esta simplesmente se romperá e se quebrará em pequenos fragmentos, que, por colidirem, se fragmentarão ainda mais, espalhando-se pela órbita lunar, e a Terra acabará tendo um anel — como os de Saturno, mas muitíssimo mais brilhante e denso.

E o que acontecerá à Terra enquanto tudo isso ocorrer?

À medida em que a Lua for se aproximando da Terra, o efeito das marés sobre a Terra crescerá enormemente. A Terra não correrá o risco de se quebrar, porque o efeito sobre ela será consideravelmente menor que o seu sobre a Lua. Além disso, seu maior campo gravitacional manterá mais eficientemente sua estrutura intata, em contraposição às forças das marés, do que no caso da Lua. E, obviamente uma vez a Lua tendo se estilhaçado e estando o campo gravitacional de seus fragmentos distribuído regularmente ao redor da Terra, o efeito das marés fica muito menor.

Entretanto, pouco antes do despedaçamento da Lua, as marés na Terra serão tão gigantescas que o oceano, formando bojos de alguns quilômetros de altura, arremessarse-á inteiramente sobre os continentes, de lado a lado.

Como o período rotacional terrestre pode ser de menos de dez horas na ocasião, as marés estarão subindo e baixando a cada cinco horas.

Não parece que a terra ou o mar possam ser estáveis o bastante, sob tais condições, para sustentar qualquer coisa além de formas altamente especializadas de vida, provavelmente de estrutura muito simples.

Certamente, pode-se pensar que os seres humanos, se ainda existirem, poderão desenvolver uma civilização subterrânea à medida em que a Lua se aproximar (realmente seria uma aproximação muito vagarosa, que de modo algum estaria vindo de surpresa). Isso, contudo, não os salvaria, pois, sob as forças das marés, o globo terrestre ficaria sujeito a constantes terremotos.

Não há, todavia, nenhum motivo para nos preocuparmos com o destino da Terra quando a Lua se aproximar demais, porque, na verdade, a Terra já terá se tornado inabitável bem antes.

Suponhamos a Terra e a Lua completando a volta uma em torno da outra, como um haltere,. a cada 47 dias. Nesse caso, podemos deduzir que a Terra já seria um mundo morto. Imaginemos a superfície da Terra exposta à luz solar por um período de 47 dias. A temperatura com certeza seria a da ebulição da água. Imaginemos a superfície terrestre exposta à escuridão por um período de 47 dias. A temperatura seria a da Antártida.

Naturalmente, as regiões polares ficam expostas à luz solar por até mais de 47 dias de uma só vez, mas isso quando o Sol está baixo no horizonte. Numa Terra girando lentamente, as regiões tropicais estariam sujeitas a um Sol tropical por 47 dias — o que é bem diferente.

Os extremos de temperatura fariam a Terra inabitável para a maioria das formas de vida. Pelo menos assim seria na superfície, embora possamos imaginar seres humanos estabelecendo uma civilização subterrânea, como mencionei há pouco.

E, no entanto, não precisamos nem nos preocupar com o sistema Terra-Lua em forma de haltere, porque, por sorte, isso jamais acontecerá.

Se o dia terrestre está ganhando 1 segundo a cada 62 500 anos, então nos 7 bilhões de anos em que o Sol permanecerá na seqüência principal, o dia ganharia umas 31 horas e teria a duração de 2,3 dos nossos dias.

Contudo, a Lua estará recuando nesse intervalo e seu efeito de marés estará diminuindo, e assim seria justo dizer que, ao fim do período de 7 bilhões de anos, o dia terrestre teria aproximadamente o dobro da duração atual.

Ele não teria possibilidade de se estender mais, nem de chegar até o ponto de fazer da Terra e da Lua um haltere, e muito menos de começar a espiralar para desenvolver aqueles anéis magníficos. Bem antes de qualquer coisa assim acontecer, o Sol se expandirá até o estágio de uma gigante vermelha e destruirá tanto a Terra quanto a Lua.

Segue-se, portanto, que a Terra continuará habitável no que diz respeito a seu período de rotação enquanto ela existir, embora com um dia duplo, quando os extremos de temperatura durante o dia e a noite seriam maiores que agora, e um pouco incômodos.

No entanto, a humanidade terá certamente deixado o planeta até lá (desde que a humanidade sobreviva àqueles bilhões de anos); a dilatação solar terá sido responsável por isso, e não a diminuição na velocidade de rotação.