Escolha a Catástrofe
O Oceano Ártico
Pode-se também acompanhar a mudança da temperatura oceânica registrando-se a proporção de duas variedades de átomos de oxigênio: o oxigênio 16 e o oxigênio 18. A água que contém o oxigênio 16 em suas moléculas evapora mais facilmente do que a água que contém o oxigênio 18.
Isso significa que a chuva e a neve são compostas por moléculas mais ricas em oxigênio 16 e mais pobres em oxigênio 18 do que a água do mar. Se uma grande quantidade de neve cai e se liga formando geleiras, a água do mar sofre um considerável déficit de oxigênio 16, enquanto o oxigênio 18 se acumula.
Ambos os processos de avaliação da temperatura da água (e a prevalência dò gelo sobre a terra) levaram ao mesmo resultado, embora tivessem origem diversa. Além disso, o ciclo produzido por esses sistemas era bem parecido com o ciclo calculado a partir das alterações da órbita terrestre e de sua inclinação axial.
Parece então que, embora carente de maior evidência, a noção das grandes estações de Milankovich é boa.
O OCEANO ÁRTICO
Se as eras glaciais se seguem às grandes estações, então deveríamos poder prever exatamente quando começará a próxima era glacial. Deverá ser daqui a 50 000 anos.
Logicamente não devemos crer que a causa de uma era glacial seja de uma única natureza. Deve haver mais que uma causa. Por exemplo, as alterações orbitais e axiais podem determinar o período básico, mas outros efeitos devem ter uma influência menos regular. Alterações na radiação solar, ou no empoeiramento do espaço entre a Terra e o Sol, ou na quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, podem por si sós, ou conjuntamente, influir no ciclo, reforçando-o em certas ocasiões e neutralizando-o em outras.
Se dois ou mais efeitos coincidirem, a era glacial pode assumir proporções descomunais. Se as alterações orbital e axial são neutralizadas por um espaço absolutamente limpo de poeira, ou uma quantidade de dióxido de carbono altíssima, ou um Sol manchadíssimo, a era glacial pode revelar-se muito moderada ou nem mesmo existir.
No nosso caso atual, podemos esperar pelo pior, pois dentro de 50 000 anos não apenas chegaremos ao grande inverno, como também (conforme descrevi no início do capítulo) poderemos estar adentrando uma nuvem cósmica que reduzirá a radiação solar que nos atinge.
Mas talvez estejamos completamente errados. Afinal de contas, as oscilações orbitais e axiais deveriam ter permanecido regulares desde que o sistema solar começou a existir com a estrutura atual. Deveria ter havido eras glaciais mais ou menos a cada 100 000 anos ao longo da história da vida.
No entanto, as eras glaciais têm ocorrido apenas no último milhão de anos, aproximadamente. Antes disso, por um período de cerca de 250 milhões de anos, parece não ter existido qualquer era glacial. Pode até ser que haja períodos sucessivos de eras glaciais no decorrer de 2 milhões de anos, a intervalos de 250 milhões de anos.
Mas por que os intervalos? Por que não houve eras glaciais durante esses longos intervalos, sendo que as oscilações orbitais e axiais existiam naquele tempo da mesma forma que agora? A razão deve estar na configuração terramar da superfície terrestre.
Se uma região polar consistisse em uma vasta extensão de mar, haveria alguns milhões de quilômetros quadrados de gelo marítimo não muito espesso girando em torno do pólo. O gelo marítimo seria mais espesso e extenso no inverno e mais fino e menos extenso no verão.
Durante o término da oscilação orbital-axial na era glacial, o gelo marítimo seria mais espesso e extenso no inverno e no verão, mas só isso.
Afinal, há correntes marítimas que trazem continuamente água quente das zonas tropicais e temperadas, e isso tende a amenizar o clima polar, mesmo durante uma era glacial.
Uma vez mais, se a região polar consistisse num continente com o pólo no centro e com um mar inteiro à sua volta, seria de se supor que o continente fosse coberto por uma calota polar que não degelaria durante o verão frio e que acumularia gelo ano após ano.
O gelo não se depositaria eternamente, é claro, pois ele escoa quando está sob pressão — conforme constatou Agassiz há um século e meio. O gelo escoa gradualmente rumo ao oceano, dividindo-se em enormes icebergs. Os icebergs, junto com o gelo marítimo, boiariam ao redor do continente polar e degelariam gradualmente ao se aproximarem de latitudes mais temperadas.
Numa era glacial, os icebergs se multiplicariam e, nos períodos interglaciais, diminuiriam, mas a diferença seria pequena. O oceano circundante, graças às correntes marítimas, conservaria a temperatura a nível normal, quer na era glacial, quer não.
Verifica-se tal ocorrência na Terra, pois a Antártida é coberta por uma calota polar muito espessa e o oceano ao redor é entupido de gelo.
Entretanto, a Antártida carrega essa calota polar há uns 20 milhões de anos, mal sofrendo influências das eventuais eras glaciais.
No entanto, suponhamos que haja um oceano polar, mas não muito vasto. Imaginemos que haja um oceano pequeno e cercado de terra, como o oceano Ártico. O oceano Ártico, com as mesmas dimensões do continente antártico, é quase totalmente cercado pelas enormes massas continentais da Eurásia e da América do Norte. A única ligação importante entre o oceano Ártico e o restante das águas do mundo é um estreito de 1 600 quilômetros de largura, entre a Groenlândia e a Escandinávia, que, mesmo assim, é parcialmente bloqueado pela ilha da Islândia.
É na terra do norte que está a diferença. Durante o início de uma era glacial, a neve adicional que viesse a cair num inverno moderado cairia na terra, e não no mar. No mar, a neve simplesmente derreteria, pois a água tem alta capacidade calorífica e também porque, mesmo se a neve acumulada baixasse a temperatura da água ao ponto de congelamento, as correntes marítimas oriundas de climas mais quentes neutralizariam esse fenômeno.
Na terra, porém, os flocos de neve têm mais sorte. A capacidade calorífica da terra é menor que a da água, e por isso a terra esfria com muito mais facilidade sob certa massa de neve. Ademais, não há qualquer tipo de corrente que amenize esse feito; portanto, o solo logo enregela. Daí, se não faz calor no verão para degelar a neve, esta vira gelo, e as geleiras iniciam sua marcha.