Escolha a Catástrofe
13 - o Conflito da Inteligência
OUTRAS INTELIGÊNCIAS
No capítulo anterior, discutimos os perigos que outras formas de vida podem representar para a humanidade e concluímos que a posição do homem diante de outras formas de vida competidoras varia entre a vitória definitiva e o beco sem saída. E, mesmo quando nos defrontamos com um beco sem saída, já há uma tecnologia em desenvolvimento se preparando para encontrar o caminho que nos possa levar à vitória. Certamente, uma derrota da humanidade por qualquer espécie não-humana (enquanto a tecnologia preponderar, assegurando o não-debilitamento da civilização por fatores outros) pareceria totalmente improvável.
Entretanto, aquelas formas de vida descritas como sendo incapazes de exterminar a humanidade têm uma coisa em comum: não possuem o mesmo nível de inteligência do Homo sapiens.
Mesmo onde a vida não-humana vence parcialmente — como quando um exército de formigas dá cabo de uma pessoa ou quando uma linhagem de bacilos em multiplicação mata milhões de seres humanos —, o perigo é o resultado de algo que é um comportamento mais ou menos automático e inflexível por parte dos atacantes temporariamente vencedores. Dado um certo tempo para se recobrarem, os seres humanos como espécie podem projetar uma estratégia de contra-ataque; e, pelo menos até agora, os resultados de tais contra-ataques têm variado entre o extermínio do inimigo e, no mínimo, sua contenção. E pelo que podemos prever, a situação não é passível de inverter-se para pior no futuro.
Mas e se os organismos com que nos defrontássemos fossem tão ou mais inteligentes do que nós? Não estaríamos, nesse caso, em perigo de sermos destruídos? Sim; onde, porém, em toda a Terra, pode-se achar algo igual em inteligência?
Os animais mais inteligentes depois do ser humano — elefantes, ursos, cachorros e mesmo os chimpanzés e gorilas — simplesmente não se nos equiparam. Nenhum deles poderia nos ameaçar por um instante que fosse se a humanidade decidisse fazer uso impiedoso de sua tecnologia.
Se considerarmos o cérebro como o repositório físico da inteligência, então o cérebro humano, com uma massa média de 1,45 quilo na maioria dos dois sexos, é praticamente o maior que já existiu ou existe. Somente mamíferos gigantescos (elefantes e baleias) constituem exceção neste aspecto.
O maior cérebro de elefante pode ter uma massa de até 6 quilos, um pouco mais que quatro vezes a de um cérebro humano; o maior cérebro de baleia já encontrado pesava cerca de 9 quilos, mais de seis vezes o peso de um cérebro humano.
Esses grandes cérebros, contudo, têm um corpo muito maior para controlar. O maior cérebro de elefante pode ter quatro vezes o tamanho do cérebro humano, mas seu corpo é talvez cem vezes maior em massa que o humano. Se cada quilograma de cérebro humano deve comandar 50 quilos de corpo humano, cada quilo de cérebro de elefante precisa comandar 1.200 quilos de corpo de elefante. Nas baleias maiores, cada quilo de cérebro precisa coordenar pelo menos 10.000 quilos de corpo de baleia.
Sobra, assim, menos espaço nos cérebros do elefante e da baleia para a reflexão e o pensamento abstrato, uma vez que as necessidades de coordenação do corpo são subtraídas e, aparentemente, não há dúvida de que, a despeito do tamanho do cérebro, o ser humano é muitíssimo mais inteligente que o elefante asiático ou o cachalote.
Naturalmente, em certos grupos de organismos aparentados, a razão cérebro/corpo tende a aumentar com a diminuição do tamanho. Em alguns macacos pequenos, portanto (e em alguns beija-flores, nesse aspecto), a razão é tal que cada grama de cérebro precisa somente manejar 17,5 gramas de corpo. Aqui, contudo, os pesos absolutos são tão pequenos que o cérebro do macaco simplesmente não é grande o suficiente para possuir a complexidade necessária para a reflexão e o pensamento abstrato.
O ser humano, então, atinge a média ideal. Qualquer criatura com um cérebro bem maior que o nosso tem um corpo tão enorme que uma comparação entre ambas as inteligências é inconcebível. Por outro lado, qualquer criatura com um cérebro maior, em comparação com seu corpo, como no caso do ser humano, tem um cérebro tão pequeno em tamanho absoluto que ter uma inteligência comparável à nossa é impossível.
Isso nos põe sozinhos no ápice — ou quase. Entre as baleias e seus parentes, a razão cérebro/corpo também tende a aumentar com a diminuição do tamanho. Que pensar dos menores membros do grupo? Alguns golfinhos e botos não pesam mais que seres humanos e, no entanto, têm cérebros maiores que o cérebro humano. O cérebro do golfinho comum pode pesar até 1,7 quilo e é um sexto maior que o cérebro humano. E é também mais espiralado.
O golfinho pode, então, ser mais inteligente que o ser humano? Com certeza não se questiona o fato de o golfinho ser excessivamente inteligente para um animal. Ele aparentemente tem padrões de linguagem complexos, pode aprender a exibir-se em shows e claramente diverte-se com isso. A vida no mar, porém, a fim de assegurar a destreza de movimentos através de um meio viscoso, privou os golfinhos de órgãos equivalentes às mãos. Além disso, como a natureza da água do mar impede a coexistência com o fogo, os golfinhos foram privados de uma tecnologia reconhecível. Por ambas as razões, os golfinhos não podem demonstrar o alcance de sua inteligência em termos humanos práticos.
Pode ser, é claro, que os golfinhos possuam uma inteligência profundamente introspectiva e filosófica; se tivéssemos meios de compreender seu sistema de comunicação, poderíamos até descobrir que seu pensamento é mais admirável que o dos seres humanos. Isso, contudo, é irrelevante para o tema central deste livro. Sem o equivalente de mãos e tecnologia, os golfinhos não podem competir conosco ou ameaçar-nos. De fato, os seres humanos, se se decidissem a isso (e espero que nunca o façam), poderiam sem grandes esforços dar fim à família das baleias.
Será possível, todavia, que alguns animais, no futuro, venham a desenvolver uma inteligência maior que a nossa e, então, nos destruir? Nem um pouco provável, enquanto a humanidade sobreviver e mantiver sua tecnologia. A evolução não se faz a passos largos, mas sim engatinha sem a menor pressa. Uma espécie só incrementará substancialmente sua inteligência num intervalo de 100 000 anos ou, mais provavelmente, de 1 milhão de anos. Haverá tempo mais que suficiente para os seres humanos (cada vez mais inteligentes, talvez) perceberem a mudança, e parece bem razoável supor-se que, se a humanidade previsse o aumento de inteligência de qualquer espécie como um crescente perigo, essa espécie seria
exterminada{50}.
Mas isso traz à baila outro ponto. O competidor inteligente precisa ser da própria Terra? Já falei das possibilidades de chegada de diversos tipos de objetos do espaço além do sistema solar — estrelas, buracos negros, antimatéria, asteróides, nuvens de poeira e gás, até microrganismos. Resta mais uma espécie de chegada a se considerar (e a última). Que tal a chegada de seres inteligentes de outros mundos? Estes não poderiam representar inteligências superiores com uma tecnologia bem mais avançada que a nossa? E será que eles não poderiam nos exterminar tão facilmente como nós poderíamos exterminar chimpanzés, se assim o desejássemos? Uma coisa dessas certamente jamais aconteceu, mas será que não pode acontecer no futuro?
Isso é algo que não podemos desconsiderar por completo. Em meu livro Extraterrestrial civilizations (Crown, 1979), expus motivos para a suposição de que civilizações tecnológicas podem ter-se desenvolvido em até 390 milhões de planetas em nossa galáxia e que praticamente todas elas seriam mais avançadas tecnologicamente do que nós. Se assim fosse, a distância média entre essas civilizações seria de aproximadamente 40 anos-luz. Haveria, pois, uma boa probabilidade de estarmos a 40 anos-luz, ou até mais perto, de uma civilização mais avançada que a nossa. Estaremos em perigo?
A melhor razão para sentirmos que estamos a salvo baseia-se no fato de que tal invasão nunca se deu no passado, pelo que sabemos, e que, durante os 4,6 bilhões de anos de vida da Terra, nosso planeta foi sempre deixado em paz e sozinho. Se permanecemos intocados por tanto tempo no passado, parece razoável supor-se que assim continuaremos por bilhões de anos no futuro.
Naturalmente, de tempos em tempos surgem alegações por parte de inúmeros irracionalistas ou beatos afirmando que inteligências extraterrenas já visitaram a Terra. Freqüentemente estes ganham seguidores entusiastas dentre aqueles que não são particularmente doutos em ciência. Assim é que temos, por exemplo, as lendas dos cultuadores dos “discos voadores” e as asserções de Erich von Dãniken, cujas histórias sobre “deuses astronautas” vêm fascinando os cientificamente analfabetos.
Entretanto, nenhuma alegação sobre invasões extraterrenas resistiu, no passado ou agora, à inquisição científica. E mesmo se se levam em conta as afirmações desses cultuadores, permanece o fato de que as ditas invasões nunca se mostraram perigosas. Realmente, não há indícios precisos de elas já terem afetado a Terra de alguma forma.
Se nos apegarmos ao racionalismo, devemos admitir que a Terra sempre esteve isolada durante toda a sua história. E precisamos nos perguntar o por quê disso. Três razões gerais podem ser oferecidas:
1. Há algo de errado em análises como as de meu livro sobre esse assunto; na verdade, não existem outras civilizações além da nossa.
2. Se tais civilizações realmente existem, o espaço entre elas é grande demais para tornar as visitas praticáveis.
3. Se a ultrapassagem do espaço é possível e se outras civilizações podem chegar até aqui, por alguma razão elas estão nos evitando.
Das três suposições, a primeira é certamente uma possibilidade; entretanto, a maioria dos astrônomos pô-la-ia em dúvida. Há algo de filosoficamente repugnante no pensamento de que, dentre todas as estrelas da galáxia (até 300 bilhões delas), só o nosso Sol aquece um planeta onde há vida. Já que existem muitíssimas estrelas como o Sol, a formação de um sistema planetário parece inevitável; a própria formação de vida em qualquer planeta apropriado parece inevitável, e a evolução da inteligência e da civilização pareceria igualmente inevitável, dado o tempo suficiente para isso.
É claro que não é difícil conceber-se que civilizações tecnológicas possam desenvolver-se aos milhões, mas que nenhuma sobreviva por muito tempo. O exemplo de nossa própria situação neste momento empresta certa credibilidade a este pensamento; e, no entanto, não é preciso que o suicídio seja a conseqüência inevitável. Algumas civilizações deveriam poder manter-se vivas. Até a nossa, quem sabe, possa.
A terceira razão também é duvidosa. Se a ultrapassagem do espaço entre as civilizações fosse possível, certamente expedições seriam enviadas para explorar e fazer reconhecimento, possivelmente ainda para colonizar.
Como a galáxia tem 15 bilhões de anos de vida, podem existir pelo menos algumas civilizações que tenham durado bastante tempo e atingido níveis altamente sofisticados.
Mesmo se a maioria das civilizações tivesse vida curta, as poucas que são exceção colonizariam os planetas abandonados e fundariam “impérios estelares”. E pareceria inevitável que nosso sistema solar tivesse sido alcançado por naves de reconhecimento desses impérios e que os planetas tivessem sido explorados.
Os cultuadores dos discos voadores poderiam bem apegar-se a essa linha de argumentação como um fundamento para sua crença. Mas, se os discos voadores são realmente naves de reconhecimento de impérios estelares explorando nosso planeta, por que não fazem contato? Se não desejam atrapalhar nosso desenvolvimento, por que se fazem ver? Se nem sequer nos consideram, por que tantos deles pairam continuamente sobre nós?
Além disso, por que só chegaram a nós exatamente quando nossa tecnologia já se afirmara, e não antes? Não parece provável que eles tivessem alcançado este planeta no intervalo de bilhões de anos em que a vida era primitiva, colonizando então o planeta e estabelecendo um posto avançado de sua própria civilização? Não há um indício sequer de tal fato; à falta de maiores evidências, parece racional concluir jamais termos sido visitados.
Isso nos deixa com a segunda razão, que parece a mais prática das três. Mesmo 40 anos-luz é uma enorme distância. A velocidade da luz no vácuo é a máxima velocidade com que qualquer partícula pode viajar ou qualquer informação pode ser transmitida. E a realidade é que partículas com massa sempre viajam a velocidades menores, sendo ainda menores as velocidades de objetos maciços como as naves espaciais (mesmo com altos graus de tecnologia). (Há, naturalmente, especulações relativas à possibilidade de viajar-se mais rápido que a luz, porém essas ainda são tão obscuras que não temos o direito de admitir que um dia isso será levado a cabo.)