Escolha a Catástrofe
Milenarismo
Em aproximadamente 50 d.C, vinte anos após a morte de Jesus, o apóstolo Paulo ainda aguardava o dia do Juízo Final de um momento para o outro:
“Nós, pois, vos dizemos isto, segundo a palavra do Senhor, que nós, os que estamos vivos, que fomos reservados para a vinda do Senhor, não passaremos adiante daqueles que adormeceram. Porque o mesmo Senhor, com alarido, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que vivemos, os que ficamos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras. Quanto ao tempo e ao momento (desta segunda vinda de Jesus Cristo) não tendes necessidade, irmãos, que vos escrevamos. Porque vós sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como um ladrão durante a noite” (I Tessalonicenses 4: 15-18, 5: 1-2).
Paulo, como Jesus, fazia notar que o dia do Juízo Final viria logo, mas tinha o cuidado de não estabelecer uma data exata. O que ocorreu é que o dia do Juízo Final não veio; os maus não foram punidos, o reino ideal não foi estabelecido, e aqueles que acreditavam que Jesus era o Messias tiveram que se contentar com a crença de que o Messias teria que vir uma segunda vez (a parusia ou “segunda vinda”) e que então tudo o que havia sido previsto ocorreria.
Os cristãos foram perseguidos em Roma, sob Nero, e, em maior escala, mais tarde, sob o Imperador Domiciano. Exatamente como a perseguição selêucida tinha gerado as promessas apocalípticas do Livro de Daniel nos tempos do Velho Testamento, assim as perseguições de Domiciano originaram as promessas apocalípticas do Livro do Apocalipse nos tempos do Novo Testamento. O Apocalipse foi provavelmente escrito em 95 d.C, durante o reinado de Domiciano.
Nesse livro, confusa e detalhadamente, o dia do Juízo Final é descrito.
Narra-se uma batalha final entre todas as forças do mal e as do bem, num lugar chamado Armagedom, contudo, os detalhes não são claros (Apocalipse 16: 14-16). Finalmente, porém, “E vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram…” (Apocalipse 21:1).
É bem possível, portanto, que, qualquer que tenha sido a origem do mito escandinavo de Ragnarok, a versão que chegou a nós deva algo àquela batalha de Armagedom no Apocalipse, com sua visão de um universo regenerado. E o Apocalipse, por sua vez, deve muito ao Livro de Daniel.
MILENARISMO
O Livro do Apocalipse introduziu algo novo: “Vi, então, descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. E prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o Demônio e Satanás, e amarrou-o por mil anos; meteu-o no abismo e fechou-o e pôs selo sobre ele, para que já não seduza mais as nações, até se completarem os mil anos; e depois disto deve ser solto por um pouco de tempo” (Apocalipse 20: 1-3).
Por que o demônio deva ter sua ação cerceada durante mil anos ou “milênio” e então solto “por um pouco de tempo” não está claro, mas pelo menos aliviou a aflição daqueles que criam que o dia do Juízo Final se aproximava. Poder-se-ia sempre dizer que o Messias tinha vindo e que o Demônio estava aprisionado, significando que o cristianismo podia resistir — mas a
verdadeira batalha final e o verdadeiro fim viriam mil anos mais tarde {3}.
Parecia natural supor-se que os mil anos tinham começado com o nascimento de Jesus, por isso no ano 1000 havia um clima de nervosa apreensão, mas passou — e o mundo não acabou.
As palavras de Daniel e do Apocalipse eram tão elípticas e obscuras, e a necessidade de crer tão grande, que permaneceu sempre possível uma releitura e reavaliação das vagas predições para levantamento de novas datas do dia do Juízo Final. Até grandes cientistas, como Isaac Newton e John Napier, ocuparam-se com isso.
Chamam-se “milenários” aqueles que tentaram calcular quando os cruciais mil anos se iniciariam e quando terminariam. Podem também ser chamados de “quiliastas”, da palavra grega para “mil anos”. Por estranho que pareça, o milenarismo, apesar dos repetidos desapontamentos, está agora mais fortalecido que nunca.
O movimento atual começou com William Miller (1782-1849), um oficial de exército que lutou na guerra de 1812. Até então um cético, após a guerra ele se transformou no que hoje denominamos “um cristão que nasceu de novo”. Começou com o estudo de Daniel e do Apocalipse e concluiu que a parusia ocorreria em 21 de março de 1844. Apoiado, para tanto, em diversos cálculos por ele mesmo realizados, predisse que o mundo terminaria em chamas, segundo o modelo das lúgubres descrições do Livro do Apocalipse.
Teve por seguidores cerca de 100 000 pessoas, muitas das quais, no dia indicado, tendo vendido seus bens materiais, se reuniram na encosta de uma colina para serem levadas para o alto, ao encontro com Cristo. O dia transcorreu sem incidentes; Miller refez seus cálculos e estabeleceu 22 de outubro de 1844 como o novo dia — o qual também passou normalmente.
Quando Miller morreu, em 1849, o universo ainda estava em pleno funcionamento.
Entretanto, muitos de seus seguidores não se desencorajaram.
Interpretaram os livros bíblicos apocalípticos de maneira que os cálculos de Miller indicassem o início de algum processo celestial ainda invisível à consciência terrena. Haveria ainda um outro “milênio” de espera, e a real parusia, ou “segunda vinda” de Jesus, foi postergada mais uma vez — porém, como sempre, para um futuro não tão distante.
Assim foi fundado o movimento adventista, que se subdividiu em várias seitas diferentes, incluindo os Adventistas do Sétimo Dia, que retornaram a costumes do Velho Testamento, como guardar o sábado (o sétimo dia).
Um dos que adotaram as crenças adventistas foi Charles Taze Russell (1852-1916), que, em 1879, fundou uma organização que veio a se chamar Testemunhas de Jeová. Russell esperava a parusia de um momento para outro e predisse várias datas para isso, tal como Miller, decepcionando-se a cada vez. Morreu durante a Primeira Guerra Mundial, a qual deve ter-lhe parecido ser o começo das batalhas finais descritas no Apocalipse — mas novamente o Advento não veio.
O movimento continuou a florescer, contudo, com Joseph Franklin Rutherford (1869-1942). Ele aguardava a parusia com o empolgante slogan: “Milhões vivendo agora jamais morrerão”. Ele mesmo morreu durante a Segunda Guerra Mundial, que, mais uma vez, deve ter parecido ser o início das batalhas finais descritas no Apocalipse — mas novamente o Advento não se seguiu.
Apesar disso, o movimento floresce, e, agora, alega agregar mais de 1 milhão de fiéis em todo o mundo.