Escolha a Catástrofe
Cometas
Finalmente, ele se depositaria no centro, deixando para trás uma Terra crivada, com uma região oca no centro — e esse espaço oco aumentaria lentamente. Se a Terra estivesse tão estruturalmente enfraquecida a ponto de constringir-se, mais material se depositaria no buraco negro central e, finalmente, o planeta seria consumido.
O buraco negro resultante, com a massa da Terra, continuaria a se mover na órbita terrestre em volta do Sol. Para o Sol e os outros planetas, isso não faria qualquer diferença. Até a Lua continuaria a circundar esse minúsculo objeto de 2 centímetros de diâmetro, como se fosse a Terra com seu tamanho original, o que seria verdadeiro em termos de massa.
Isso, no entanto, seria o fim do mundo para nós — a sinopse de uma catástrofe do terceiro grau. E (teoricamente) isso poderia acontecer amanhã.
Da mesma forma, um pedaço de antimatéria, pequeno demais para transtornar apreciavelmente o Sol, mesmo que colidisse com aquele corpo, poderia ser suficientemente grande para devastar a Terra. Ao contrário do buraco negro, se tivesse massa asteroidal ou menos, ele não atravessaria o planeta. Mas abriria, sim, uma cratera que poderia destruir uma cidade ou um continente, dependendo de seu tamanho. Porções de matéria do tipo mais comum, oriundas do espaço interestelar, naturalmente causariam menores danos.
A Terra está protegida dessas catástrofes por invasão por dois motivos:
1. No caso de miniburacos negros e de corpos de antimatéria, não sabemos realmente se objetos dessa espécie sequer existem.
2. Se esses objetos realmente existem, o espaço é tão imenso em volume e a Terra um alvo tão pequeno que a probabilidade de sermos atingidos, ou mesmo de que apenas haja grande aproximação, é extraordinariamente mínima. Isto, é claro, se aplica também a objetos de matéria comum.
De modo geral, pois, podemos ignorar os invasores do espaço interestelar, de qualquer
natureza, e a possibilidade de representarem perigo considerável à Terra{30}.
COMETAS
Se fôssemos procurar mísseis que pudessem ser lançados de encontro à Terra, não precisaríamos nos preocupar com invasores do espaço interestelar. Há objetos assim de sobra no próprio sistema solar.
Desde aproximadamente 1800, graças ao trabalho do astrônomo francês Pierre Simon Laplace (1749-1827), é bem conhecido o fato de que o sistema solar é uma estrutura estável, desde que não sofra interferências externas. (E, pelo que se sabe, ele não tem sofrido interferências durante os 5 bilhões de anos de sua existência e assim deve continuar, pelo que se pode julgar, por um futuro indeterminado.)
Por exemplo, a Terra não pode cair sobre o Sol. Para isso, ela teria que se livrar do enorme suprimento de momento angular de translação. Esse suprimento não pode ser destruído; pode apenas ser transferido, e não sabemos de nenhum mecanismo que não uma invasão por um corpo do tamanho de um planeta do espaço interestelar que absorvesse o momento angular da Terra, deixando-a imóvel em relação ao Sol e, portanto, passível de nele cair.
Pela mesma razão, nenhum outro planeta pode cair sobre o Sol, nenhum satélite pode cair sobre seu planeta, e, particularmente, a Lua não pode cair sobre a Terra. E os planetas não
podem alterar suas órbitas de modo a colidir uns com os outros {31}.
Naturalmente, o sistema solar nem sempre foi tão ordenado como o é agora. Quando os planetas estavam começando a se formar, uma nuvem de poeira e gás nas regiões periféricas do Sol coalescente se condensou em fragmentos de diversos tamanhos. Os fragmentos maiores cresceram às custas dos menores, até que grandes núcleos de tamanho planetário se formaram. Porém, restaram objetos menores, mas de tamanhos ainda consideráveis. Alguns deles se transformaram em satélites, circundando os planetas, pelo que vieram a ter órbitas estáveis. Outros colidiram com o planeta ou com os satélites, adicionando-lhes os últimos fragmentos de massa.
Podemos, por exemplo, ver as marcas das últimas colisões com a Lua, usando apenas um bom binóculo. Há 30 000 crateras na Lua, com diâmetros variando entre 1 e mais de 200 quilômetros — cada uma delas é a marca de uma colisão com uma porção de matéria veloz.
Sondagens feitas por foguetes têm-nos mostrado as superfícies de outros mundos; achamos crateras em Marte, em seus dois pequenos satélites, Fobos e Deimos, e em Mercúrio. A superfície de Vênus é recoberta de nuvens e difícil de se explorar, mas sem dúvida também possui crateras. Há crateras até mesmo em Ganimedes e Calisto, dois dos satélites de Júpiter. Por que, então, não há crateras indicativas de bombardeamento na Terra?
Mas há, sim! Ou melhor, já houve. A Terra possui características que faltam a outros mundos de igual tamanho. Ela possui uma atmosfera ativa, o que a Lua, Mercúrio e os satélites jupiterianos não têm, e que Marte possui somente em pequena quantidade. Ela tem um volumoso oceano, sem mencionar o gelo, a chuva e a água corrente, coisas não compartilhadas por quaisquer outros objetos celestes, embora haja gelo e possa já ter havido água corrente em Marte. Finalmente, a Terra tem vida, algo que parece não existir em nenhum outro corpo do sistema solar. O vento, a água e a atividade vital, todos servem para corroer os traços da superfície; já que as crateras se formaram há bilhões de anos, as da Terra estão agora
apagadas{32}.
Durante os primeiros bilhões de anos seguintes à formação do Sol, os vários planetas e satélites firmaram suas órbitas e adotaram os formatos atuais. No entanto, o sistema solar ainda não está totalmente completo. Resta ainda o que se poderia denominar “entulho planetário”, objetos que circundam o Sol, mas que são pequenos demais para constituir planetas, e que, contudo, são capazes de criar uma devastação se, de algum modo, colidirem com um corpo maior. Vejamos, por exemplo, os cometas.
Os cometas são objetos enevoados, que brilham vagamente e, às vezes, apresentam formas irregulares. Eles têm sido vistos desde que os homens começaram a olhar o céu, mas sua natureza permaneceu desconhecida até os tempos modernos. Os astrônomos gregos pensavam
serem eles fenômenos atmosféricos que consistiam em vapores se queimando no ar{33}. Foi só em 1577 que o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601) pôde demonstrar que eles existiam no espaço aberto e que deviam vagar entre os planetas.
Em 1705, Edmund Halley conseguiu calcular a órbita de um cometa (o cometa de Halley). Ele demonstrou que o cometa não se movia ao redor do Sol numa órbita circular, como os planetas, mas numa alongadíssima elipse de grande excentricidade. Era uma órbita que o trazia comparativamente perto do Sol, num extremo, e levava-o muito além da órbita dos planetas mais afastados, no outro.
O fato de que os cometas visíveis a olho nu parecem compridos, em vez de meros pontos de luz, como os planetas e as estrelas, fez com que se acreditasse serem eles corpos muito maciços. O naturalista francês George L.L. Buffon (1707-88) cria ser assim e, considerando a maneira pela qual eles pareciam esbarrar no Sol num extremo da órbita, conjeturou a possibilidade de um deles chegar a chocar-se com o Sol, como que por um pequeno erro de cálculo. Em 1745, ele sugeriu que o sistema solar ter-se-ia formado a partir de uma colisão dessa natureza.
Hoje sabemos que os cometas são, na realidade, corpos pequenos com, no máximo, alguns quilômetros de ponta a ponta. Segundo alguns astrônomos, como o holandês Jan Hendrik Oort (1900-), talvez haja cerca de 100 bilhões desses corpos formando uma camada em volta do Sol, a uma distância de aproximadamente 1 ano-luz. (Cada um deles seria tão pequeno e todos estariam espalhados por uma área tão imensa, que não alterariam nossa visão do universo.)
É bem possível que os cometas sejam resíduos inalterados oriundos das regiões mais externas da nuvem original de poeira e gás da qual se formou o sistema solar. Provavelmente, são compostos por complexos dos elementos mais leves, solidificados como substâncias congeladas — água, amônia, sulfeto de hidrogênio, cianeto de hidrogênio, cianogênio, etc.
Engastadas nesses gelos estariam diversas quantidades de material rochoso sob a forma de poeira ou de pedregulho. Em alguns casos, a rocha pode formar um núcleo sólido.
De vez em quando, um cometa dessa camada distante pode ser perturbado pela influência gravitacional de alguma estrela comparativamente próxima e modificar sua órbita, aproximando-se mais do Sol (muito mais, ocasionalmente). Se, ao passar através de um sistema planetário, o cometa for atraído pela força gravitacional de um dos planetas maiores, sua órbita será novamente alterada e ele poderá permanecer nesse sistema até que outra
perturbação planetária o expulse de novo {34}.
Quando um cometa adentra a parte mais interna do sistema solar, o calor do Sol começa a derreter o gelo e uma nuvem de vapor, tornada visível pela inclusão de partículas de gelo e poeira, envolve o “núcleo” central do cometa. O vento solar varre a nuvem de vapor para longe do Sol e estica-a até que forme uma longa cauda. Quanto maior e mais gelado o cometa e quanto mais perto do Sol ele chega, maior e mais brilhante é sua cauda. É esta nuvem de poeira e vapor, com o formato de uma cauda, que dá a impressão de que o cometa é enorme; na verdade, ele é uma nuvem muito fraca, de muito pouca massa.
Após passar pelo Sol e retornar às extremidades mais longínquas do sistema solar, o cometa fica menor por causa da quantidade de material perdido naquela passagem. A cada visita à extremidade próxima do Sol, ele perde mais material, até acabar morrendo. Isto é, ou se reduz a seu núcleo central rochoso, ou, se este inexiste, a uma nuvem de poeira e pedregulhos que lentamente se espalha por toda a órbita cometária.
Por se originarem de uma camada que circunda o Sol em três dimensões, os cometas podem adentrar o sistema solar por qualquer ângulo.
Porque são facilmente perturbadas, suas órbitas podem ser quase uma espécie de elipse, adotando qualquer posição em relação aos planetas. Além disso, a órbita está sempre sujeita a mudanças por perturbações ulteriores.
Nessas condições, um cometa não é um membro do sistema solar tão bem comportado como os planetas e os satélites. Qualquer cometa poderia, mais cedo ou mais tarde, chocar-se contra algum planeta ou satélite. Poderia, particularmente, chocar-se contra a Terra. O que impede que isso aconteça é simplesmente a vastidão do espaço e a comparativa pequenez do alvo.
Entretanto, é bem maior a probabilidade de a Terra ser atingida por um cometa do que por qualquer objeto relativamente grande do espaço interestelar.
Por exemplo, em 30 de junho de 1908, no rio Tunguska, no Império Russo — perto do centro exato do império, aliás —, houve uma enorme explosão às 6,45 horas da manhã. Todas as árvores num raio de quilômetros foram derrubadas. Uma manada de renas foi extinta e inúmeros outros animais foram mortos. Felizmente, nem um único ser humano foi ferido! A explosão deu-se no interior de uma impenetrável floresta siberiana, e nem seres humanos nem seus trabalhos estavam dentro do extenso raio de devastação. Só anos mais tarde o local da explosão pôde ser investigado; descobriu-se, então, não haver qualquer sinal de impacto na Terra. Por exemplo: parecia não haver crateras.
Desde então, várias explicações sobre a violência do evento e a inexistência de impacto — miniburacos negros, antimatéria, até naves extraterrenas com armas nucleares explosivas — vêm sendo elaboradas. Os astrônomos, contudo, têm certeza de que aquilo foi provocado por um pequeno cometa. O material gelado que o compunha se evaporou assim que ele se precipitou em nossa atmosfera — e fê-lo tão rapidamente que causou a explosão fragmentária. A explosão no ar, a talvez menos de 10 quilômetros acima do solo, teria causado todo o dano, porém, o cometa, é claro, nunca teria alcançado o solo, de forma que naturalmente não haveria cratera ou fragmentos de suas estrutura espalhados pelo local.
Foi por pura sorte que a explosão ocorreu em um dos poucos lugares da Terra onde nenhum mal seria causado aos seres humanos. De fato, se o cometa tivesse seguido exatamente seu curso regular e a Terra tivesse prolongado mais um quarto de sua rotação, a cidade de São Petersburgo (hoje Leningrado) teria sido apagada do mapa. Tivemos sorte daquela vez, mas isso pode acontecer de novo algum dia com conseqüências mais graves, e não sabemos quando. É improvável que surja qualquer aviso, sob as condições atuais.
Se contarmos a cauda como parte do cometa, a possibilidade de haver uma colisão aumenta ainda mais. Caudas de cometas podem se alongar por muitos milhões de quilômetros, e ocupar um volume espacial tão grande que a Terra poderia facilmente moverse através de uma delas. Aliás, em 1910, a Terra realmente atravessou a cauda do cometa de Halley.
Caudas de cometas, contudo, representam matéria tão finamente espalhada que são pouco mais que o próprio vácuo do espaço interplanetário.
Apesar de serem compostas por gases venenosos que poderiam ser perigosos se a cauda fosse tão densa quanto a atmosfera terrestre, com sua típica densidade elas são inofensivas. A Terra não sofreu qualquer efeito notável ao atravessar a cauda do cometa de Halley.