Impulso

Gisele Souza · Capítulo 11 de 47

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Impulso

Capítulo 10

Depois de dizer isso tudo, ele sim plesm ente se virou, abriu a porta ao lado do m otorista e

sentou-se atrás do volante destravando o outro lado. Sua expressão era horrenda, porque a pura raiva

refletia em seus lindos olhos verdes, outrora tão am áveis.

Fiquei estacada onde havia m e deixado, absorvendo todo aquele ataque. E não pude deixar de

refletir se era verdade. Eu m e fazia de vítim a com ele? Lucas não sabia de nada que havia acontecido

com igo, m as de certo m odo tinha razão. Eu tinha que m anter m eu orgulho intacto, afinal era o que m e

restou.

Lucas virou o rosto pra m im ainda m ais enraivecido. Seu peito subia e descia rapidam ente. O

m eu m aior m edo estava batendo em m inha cara. Nossa am izade estava sendo am eaçada.

Só esperava que pudesse m e m udar antes de se com pletar esse ciclo. Lucas era im portante

dem ais para perdê-lo. Se não pudesse tê-lo com o hom em por qualquer m otivo que fosse, eu queria

conservar o am igo.

Só esperava não ter destruído tudo de um a vez.

CAPÍTULO 10

Lucas

Depois de falar tudo que estava entalado na m inha garganta há m uito tem po, perm aneci em

silêncio. Não queria m ais nenhum confronto com a Sabrina. Ela tinha o poder de m e irritar

profundam ente. De hom em m aduro e responsável, eu m e tornava um adolescente im aturo. Aquilo tudo

j á estava m e chateando.

Chegam os em casa e fui direto para o quarto m e acalm ar. Não estava no hum or para nada, ainda

m ais se ela viesse com outras provocações. Percebi que ela parou em frente à m inha porta pela

som bra dos seus pés, m as por algum m otivo desistiu e se afastou lentam ente. Esperei a casa ficar em

silêncio e fui tom ar um banho.

Debaixo da água fria fiz um balanço da m inha vida. Apesar de tudo, eu fui um m enino norm al,

m as ter m inha m ãe ausente o tem po todo não foi fácil. O que com pensava era o am or e o carinho da

Lay la. Ela m e ensinou tudo que era bom , e o que é preciso para ser um hom em leal e responsável.

Tudo bem que certos princípios se perderam um pouco por alguns anos. Mas o essencial é que

sem pre quis alguém para ter ao m eu lado. Devia ser algum com plexo, eu não podia conceber a ideia

de ver quem m e im porta se afastar.

Quando Lay la foi m orar com Bruno tentei não transparecer m inha angústia, m as fiquei m uito

aflito, porém sabia que era im portante para o nosso crescim ento. Estava na hora de cortarm os certos

laços. Fom os unidos dem ais. Eu am ei m inha irm ã por toda a vida. E quando m e vi sozinho, entrei em

um desespero interno que quase m e sufocou. Só m elhorou quando pensei em convidar Sabrina pra

m orar com igo. Seria m uito bom , porque eu j á a am ava.

Sem pre fui um cara rom ântico, e pensei num a m elhor m aneira de fazer o convite: declarando o

que sentia por ela. Foi um desastre! Ali desprendi todos os m eus laços, toda aquela fragilidade e

inocência que m inha irm ã cultivou em m im por m edo que eu m e m agoasse, porque ela sem pre foi

superprotetora.

Sabrina acabou com tudo num só dia. Então fui um idiota estúpido, e agi por im pulso. Não que

estivesse arrependido, nem perto. Mas podia ter esperado, porque não estaria tão m agoado com o

agora. Contudo, a culpa não era exclusivam ente m inha, com o Sabrina sem pre frisava. Ela tam bém

poderia ter deixado a teim osia de lado.

Agora não havia m uito que fazer. Eu ainda a am ava, m as no m om ento estava exausto e não tinha

nenhum a vontade de pensar num a estratégia de com o ter a Sabrina de volta. A única coisa que queria

era deitar na cam a, dorm ir e esperar por m ais um dia de trabalho para m atar a ansiedade de rever

m inha irm ã. Apesar de m orarm os separados, nos víam os quase todos os dias. Fora o fato que Bruno

falava dela frequentem ente. Era com o se eu estivesse ao seu lado.

Saí do chuveiro e enrolei um a toalha na cintura, nem m e preocupei em m e secar. Estava um a

noite quente e o corpo m olhado m e m anteria longe do calor por m ais tem po.

Cam inhei lentam ente

pelo corredor, parei em frente à porta do quarto da Sabrina, que estava escutando m úsica, com o

sem pre fazia antes de dorm ir. E não pude de deixar de proceder com a rotina de sem pre. Encostei-m e

à parede, fechei os olhos e m e deixei levar.

A m elodia de When I Was Your Man, do Bruno Mars, invadiu m eus sentidos, e quando percebi

estava cantando j unto. Aquela m úsica falava tanto que pude sentir m eus olhos m arej arem .

“... Meu orgulho, meu ego

Minhas necessidades e meu jeito egoísta

Fizeram uma mulher boa e forte como você

Sair da minha vida

Agora nunca, nunca conseguirei limpar

A bagunça em que me meti

E me assombra sempre que fecho meus olhos...”

Aquilo tudo m e m atava por dentro. O que fazer quando a pessoa que você m ais am a está fugindo

do seu alcance? Com o agir para que ela não vá, m esm o percebendo que é o que precisa? Em m eu

rosto deslizaram lágrim as de tristeza e saudade. De algo que realm ente nunca tive.

Eu nunca ansiei m uito, apenas fui de acordo com a m aré. Porém , algo se quebrou dentro de m im

quando a vi sorrir. Seus olhos azuis felizes era o que m ais m e alegrava nos anos em que passam os j untos. Foi seu sorriso que m e deu força para continuar, suportar e assisti-la todos os dias, m esm o

sabendo que não era m inha.

Um barulho suave cham ou m inha atenção e desencostei da parede. Sabrina entoava a m úsica

suavem ente. Sua voz não era das piores, m as não foi isso que advertiu e sim os pequenos soluços

vinham do quarto. Meu coração se quebrou. Não suportava saber que estava sofrendo.

E foi ali que tive um pensam ento que quase m e pôs de j oelhos. Sabe quando am am os tanto

alguém que alm ej am os a sua felicidade, m esm o que sej a longe de nós? Então, se era difícil dem ais

para a m inha m enina eu a deixaria ir, m esm o que aquilo m e estraçalhasse. Acho que esse é o

verdadeiro sentido do am or incondicional.

Minha vontade era adentrar aquele quarto e fazê-la ver o quanto nós dois seríam os bons j untos.

Só que a vida é m uito m ais com plicada do que desej am os. Eu tinha que respeitar sua decisão m ais

um a vez.

Afastei-m e do seu quarto antes que ela m e pegasse novam ente espreitando. Não que houvesse

acontecido outras vezes. Sabrina tinha m ania de ouvir m úsica dorm indo e eu sem pre ficava por ali

escutando, vendo se teria algum indício de que ela m e queria. Até há pouco tem po ela não ouvia

coisas tão significativas.

Já deitado na cam a fechei os olhos m e preparando para tudo que viria. Meu coração estava

cheio de um sentim ento que não som os capazes de im aginar o quão doloroso pode ser até

experim entá-lo: saudade. Eu j á estava acostum ado por tudo que passei em m inha vida, contudo sentir

aquilo por m otivos tão diferentes era algo totalm ente novo e intenso. Então, m e lem brei de um a frase

de William Shakespeare:

“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.”

Existem pessoas que não dá pra esquecer, nem se você tentar.

***

A m elhor coisa pra m im em um dia de trabalho é saber que você fez algo de bom para alguém .

Quando chegava um paciente para engessar eu ficava todo anim ado, ainda m ais quando era criança...

Chegou um a m enina com o braço m achucado e teria que colocar tala e gesso. Só que m uitas ficavam

assustadas, m as aprendi sobre um a coisa que anim ava as crianças em m eu período de treinam ento

quando ganhei a bolsa para a faculdade.

Tinha adesivos coloridos guardados na gaveta. E sem pre que colava alguns no gesso delas, elas

ficavam radiantes. Essa garotinha tinha por volta de oito anos e havia caído de um a altura razoável

enquanto brincava, não chegou a fraturar o osso, m as este saiu do lugar. E não era algo indolor, ainda

m ais pra alguém tão pequeno.

Quando colei as florzinhas em seu braço, ela ficou tão feliz, que m e deu um abraço desaj eitado

de lado e saiu saltitando. E era assim que eu ficava satisfeito por ter escolhido a profissão de

m édico. Na verdade, Bruno dizia que não era um a escolha que a gente fazia. Era um dom que nos era

dado, apenas bons profissionais chegam a se sentir realizados em aj udar os outros.

Depois de guardar tudo na sala de repouso dos pacientes, fui em direção à clínica cham ar o

próxim o e topei de frente com Kiara. Droga, tinha conseguido evitá-la por quase cinco dias! Estava

bom dem ais pra ser verdade. Tentei desviar, m as não foi possível. Ela deu um a corridinha e parou ao

m eu lado com um sorriso m alicioso.

— Oi, gato. Pensei em você esse tem po todo. Tem os que repetir a dose daquele dia, adorei

transar em local aberto. — Passou a unha por m eu braço, m e dando asco.

Cara, tem m ulher que não tem desconfiôm etro. Eu dei um fora nela, fui grosso, estúpido e ainda

assim ela tentava algum a coisa.

— Oi, Kiara. Er... Não podem os repetir, aquela foi a últim a vez. E não foi legal aquilo que fiz.

Sinto m uito, fui m uito rude. — Tentei ser educado, m as frio. Não queria dar falsas esperanças.

— Ah, que graça. Não precisa de m ãos e dedos com igo, querido. Eu gosto de você rude.

Fiz um a careta e a encarei. Que garota estranha!

— Não, eu não quero m ais. Arrum a outro cara. — O j eito era ser ríspido.

Ela fechou a cara e estreitou os olhos, m e fuzilando com um olhar cínico. A m ulher era m eio

assustadora.

— Então, é isso? Você tá m e dispensando m esm o? — Ela soava realm ente louca. — É por que

falei da sua irm ã? Sinto m uito, retiro tudo que disse.

— Não, é que não gosto de você. Eu não vou transar com você de novo. Agora se m e dá licença,

tenho m ais pacientes para atender.

Ela com prim iu a boca e franziu a testa.

— Quer dizer que você m e usou e agora j oga fora? — ela só faltou gritar pra todos ouvirem , sua

voz elevou um tom m ais estridente.

— Kiara, você dá m argem para os caras agirem assim . Não se faça de santa, nós sabem os que

não é. Tenha um pouco de autoestim a e não corra atrás de m im . Eu tô fora, não vou m ais ficar

contigo.

— Hum , você vai ver, Lucas. Ninguém m e trata assim , seu palhaço. — Saiu pisando duro em

direção à área de repouso. Dei de om bros e segui m eu dia. O resto foi tranquilo.

Estava a cam inho do vestiário quando m eu celular tocou. Tirei-o do bolso e vi que m inha irm ã

estava ligando. Seu rosto sorridente alegrou m eu dia.

— Ei, Lala. Com o você está? Estou m orrendo de saudades. — Pude ouvir sua risada do outro

lado.

— Tam bém estou, irm ão.

— Ah, que bom . E com o é a vida de casada? Já está entediada?

— Rá, m uito engraçado, seu bobo. Você sabe que não dá pra ficar entediada com o m eu

garanhão.

— Ugh, Lala. Não, por favor, sem detalhes.

Ela gargalhou do outro lado, Lay la m udou totalm ente, nunca havia feito brincadeiras desse j eito

antes. Estava m uito m ais solta e desinibida.

— Ai... ai... Bom , tô te ligando pra avisar que j á estou de volta. Am anhã você vai ao Beer, né?

— Claro, e vou perder a chance de ver o babaca do Bruno am arrado por com pleto? — Sorri,

adorava provocar m eu cunhado.

— Tá. Deixa ele te escutar... Bom , hoj e nós vam os descansar. Tem os um a novidade.

— Você não vai em bora, né? — ofeguei.

Meu coração afundou com a ideia da m inha irm ã ficar m ais longe do que j á estava.

— Não Luquinha, é outra coisa. Mas você ficou estranho. O que foi? — sua voz estava

preocupada com o eu conhecia bem .

— Nada não...

— Lucas, eu te conheço. O que está acontecendo?

Respirei fundo, tem endo o que ela diria.

— Lala, eu te decepcionei?

— Com o assim , irm ão? Claro que não, você é um cara ótim o.

— É que andei pensando na vida e fiz algum as escolhas erradas, estou sendo um a pessoa

diferente do que era. Não sei se gosto de m im assim .

O silêncio era um a coisa difícil de acontecer com m inha irm ã. Pensei até que ela tinha

desligado.

— Hum , entendi. Bem , eu não ia m e pronunciar, m as j á que você está tocando no assunto... Eu

não acho certo o m odo com o agiu esses anos. Creio que todos têm que errar pra aprender algo na

vida. Ninguém é perfeito, Lucas. O m elhor você j á fez. Entendeu que está errado e vai tentar m udar.

Nunca ficaria decepcionada com você, te criei m uito bem pra saber a espécie de hom em que se

tornou. Só estava confuso, o que é totalm ente com preensível.

Minha irm ã era a m elhor m ulher do m undo, sem som bra de dúvidas.

— E se nesse m eio tem po perdi algo que realm ente m e im portava?

— Aí cabe a você se esforçar ao m áxim o pra ter de volta. Ainda dá tem po.

Meu coração se aliviou um pouco com o que ela disse.

— Ok, Lala. Obrigado por tudo. Só queria te dizer que você foi, e continua sendo, m uito

im portante na m inha vida. Desculpe se fui um babaca esses tem pos.

— Irm ão, te am o dem ais. Agora vou indo, Bruno quer ver um film e. Beij o, te vej o am anhã.

Desliguei e guardei o celular no bolso. Troquei-m e rapidam ente e fui pra casa porque não

estava a fim de ir à academ ia, queria banho e cam a. Dias m ais lentos eram cansativos.

Quando estacionei em casa pude perceber que Sabrina não estava fora, seu carro na garagem era

um indício. Estranho... Achei que iria pra academ ia. Assim que entrei, um arom a delicioso m e

brindou. Ela estava cozinhando, sem pre fazia várias guloseim as quando estava nervosa ou feliz por

algum a coisa.

Tinha m edo de descobrir qual das opções era a correta.

Quando a vi, tive um pequeno infarto. Ela tinha fones no ouvido e estava vestida com um

shortinho curto rasgado, top de m alhar preto e seus cabelos negros estavam presos em um rabo de

cavalo. Sua cintura delineada pedia para ser acariciada, assim com o sua bunda torneada. Sabrina

dançava, provocante. Minha vontade era de sentá-la no balcão e fodê-la ao esquecim ento, até que nós

dois estivéssem os tão esgotados que ninguém conseguiria abrir a boca para m agoar um ao outro.

Agi sem pensar, dei dois passos e parei atrás dela, que tensionou e parou de dançar. Coloquei as

m ãos em sua cintura fina, acariciei por algum tem po e deslizei até sua barriga escorregando

lentam ente. Fechei os olhos e aproveitei para sentir a pele quente da m ulher. Desci a boca até seu

pescoço, inalando seu perfum e provocante, beij ei lentam ente, passei a língua por sua pele sentindo seu gosto eletrizante. A m ulher m e acendia sem fazer nada. Com os dentes tirei um fone de seu ouvido