Impulso

Gisele Souza · Capítulo 36 de 47

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Impulso

Capítulo 35

Sabrina

Quando Lucas saiu atrás de inform ações, Ana desabou em m eio a um desespero que chegava a

doer em quem estava próxim o. Era m uito difícil de assistir ao sofrim ento da m inha irm ã. Acho que

ela só não saiu com o Lucas para esperar a am bulância por falta de forças. As lágrim as desciam pelo

seu rosto e os soluços dolorosos ecoavam altos pelo quarto. Mam ãe correu e a abraçou, tentando

acalm á-la.

Ana falava coisas desconexas, m as entendi um pouco. Ela pedia a Deus para não levá-lo, que

ainda tinham m uita coisa para resolver. Que poderiam recuperar o tem po perdido. Que o passado não

tinha m ais im portância, m as ela não podia perder o único hom em que am ou.

Não sei se ela tinha a intenção de que ouvíssem os isso tudo, m as Ana estava perturbada dem ais

para prestar atenção ao que dizia. Estava ansiosa e preocupada com eles, resolvi ir atrás e procurar

inform ações. Com o as m eninas estavam cuidando de Ana, nem perceberam a m inha saída.

Porém , não fui m uito longe, um enferm eiro m e colocou de volta no quarto prom etendo nos trazer

inform ações. Sentia um a angústia pura em esperar sem fazer nada, pois im aginava m il cenas na

cabeça, boas e m ás. Mas não queria cogitar a hipótese de acontecer algo m uito grave com m eus

am igos.

Tive um m au pressentim ento quando falaram da viagem , m as achei que fosse coisa da m inha

cabeça. Ou saudade antecipada. Mas existem situações que fogem do nosso alcance e entendim ento.

Elas sim plesm ente têm que acontecer.

Lucas entrou depois de m ais ou m enos duas horas, parecendo extrem am ente cansado. Ana

relaxou totalm ente com a notícia de que Alberto estava bem , m as dopado; o que m e preocupou foi

Heitor. Ainda nada conclusivo. E, m ais um a vez, senti algo estranho no ar, um a tensão que antes não

estava ali.

Mais algum tem po se passou e todos estavam tensos, Bruno voltou para o quarto atrás de Lay la

querendo tranquilizá-la, m as não quis contar nada, só que o caso dele era grave. Depois saiu dizendo

que iria esperar Lucas na porta da sala de cirurgia para ver se pegava m ais inform ações.

Quando retornaram , am bos estavam com os sem blantes fechados e m uito cansados. Já devia ser

de m adrugada, m as ninguém quis ir pra casa. Estavam todos m uito preocupados.

— E então? Com o foi tudo?

Desci da cam a, m e aproxim ando do Lucas e o abracei de lado encostando a cabeça no seu peito

m usculoso.

— Bom , ele passou por um a cirurgia para aliviar o inchaço do cérebro. Sofreu traum atism o craniano, um baço perfurado, a costela e o braço esquerdo quebrado. A cirurgia foi bem -sucedida

agora resta esperar pra ver se ele reage, vai continuar dopado para a recuperação.

Nossa, pelo j eito Heitor estava m esm o arrasado. Bruno abraçou Lay la, que chorava baixinho, e

beij ou o topo da sua cabeça, dando conforto à esposa.

— E j á sabem com o tudo aconteceu? Teve algum a testem unha? O carro que os atingiu foi

identificado?

Lucas encostou a cabeça na parede onde estava parado e fechou os olhos. Estava visivelm ente

cansado.

— Não sabem os, parece que o m otorista não prestou socorro. Alguém que passava pelo local

disse que eles estavam dirigindo corretam ente e o carro avançou sinal. Nem parou para anotar placa

nem nada, apenas pediu socorro.

Deve ter sido algo m uito rápido para pegar os dois de um a vez. Mam ãe se aproxim ou pegando

m eu rosto entre as m ãos.

— Querida, eu vou pra casa levar a Ana, ela não está bem .

— Com o assim ? Quem disse que eu não estou bem ? Estou ótim a. Por que não estaria? — Todos

olharam pra ela estranhando sua atitude tresloucada.

Há pouco tem po chorava se lam entando por ter perdido tem po... Agora dizia com o se não se

im portasse com nada. Minha irm ã era com plicada, para entendê-la totalm ente precisaria saber de

tudo que aconteceu em sua vida. Com o não era um a opção, pois ela não se abria, nós ficávam os a ver

navios.

Só que, às vezes, chegam os ao lim ite, por m ais que ninguém queira se introm eter. Minha m ãe

encarava Ana com o rosto que conhecíam os bem , estava pronta para um a bronca. Encolhi-m e ao lado

do Lucas antecipando o que viria.

Dona Marisa sabia ser intim idante quando queria. Colocou as m ãos na cintura e andou até parar

em frente de um a Ana com os olhos arregalados.

— Olha, m inha filha, eu sei que você pode estar sofrendo, e sem pre teve essa atitude m aluca de

desdenhar do que te m agoa. Não sei o que aconteceu entre você e o Alberto, que te m agoou tanto,

porque você não diz. Mas acho que j á tá na hora de deixar de ser tão hipócrita e adm itir que está

m orrendo de vontade de vê-lo, que você o am a. Todos aqui sabem . Não é segredo pra ninguém . Mas

tenha em m ente que vai acabar perdendo o seu hom em por causa de um orgulho besta. — Suspirou

pesadam ente, balançando a cabeça. — Depois que alguém passa por algo com o o Alberto acabou de

passar, vê a vida de outra m aneira e tende a querer aproveitar cada segundo dela. E, se ele perceber

que está perdendo m ais tem po com você, vai acabar dando no pé. Então, Ana Luiza, use os neurônios que eu te dei e essa inteligência que tanto se orgulha, e dê um j eito na sua vida. Ninguém aqui aguenta

m ais seus desfiles com m anés que só sabem abaixar a cabeça para você.

Uau, olhei para o rosto da Ana, que estava sem reação. Branca com o papel, achei que ela fosse

desm aiar. Mas a única coisa que fez foi se virar, pegar a bolsa na poltrona e sair batendo a porta.

Mam ãe se virou e franziu a testa.

— Alguém tinha que dizer isso a ela, depois que perder de vez não adianta chorar. Mas não se

preocupe, ela deve estar lá fora m e esperando. — Se aproxim ou de m im e alisou o m eu rosto. Seu

carinho é sem pre bem -vindo. — Venho te ver am anhã. Ok? Fique bem , m inha filha.

Virou-se para o Lucas, passou e o abraçou sussurrando em seu ouvido, ela o adorava assim

com o a Lay la. Depois saiu com Larissa atrás. Ficam os os quatro no quarto m eio aéreos. A noite não

tinha sido fácil. Saindo do seu devaneio, m eu irm ão soltou a esposa e se aproxim ou.

— Nós vam os em bora, ok? Lucas disse que vai ficar. Preciso levar Lay la pra casa.

— Claro, coloca ela pra descansar. Foi tudo m uito tenso hoj e. E Lucas, você podia m uito bem ir

pra casa, pelo m enos pra tom ar um banho.

Ele sorriu de lado e coçou a cabeça parecendo ofendido.

— Por acaso eu tô fedendo? Vou tom ar um banho aqui, visto algo lim po do hospital. Não sairei

do seu lado, princesa.

Lay la parou ao lado de Bruno, enlaçando sua cintura com o braço, e m e encarou com seus olhos

verdes carinhosos.

— Acho que você não vai conseguir se livrar dele tão cedo, Sabrina. Lucas é pior que um a

m am ãe-galinha. — Ele sorriu e m ostrou a língua pra ela. — Fica bem , tá? Am anhã, à tarde, eu volto.

Assenti e sorri.

— Acho que virão tom ar seu depoim ento de m anhã, Sá. Eu pedi para que não incom odassem

hoj e.

Não fiquei confortável com a notícia, m as dessa vez não seria com o a outra que fiquei quieta e

deixei aquele m onstro livre.

— Tudo bem , Bruno. Conversarei com eles.

Ele se abaixou beij ando m inha testa com o fazia quando eu era criança. Bruno sem pre foi

carinhoso e preocupado. Im aginei com o estaria seu coração com tudo o que estava acontecendo, pois

sem pre se sentiu responsável. Mesm o sendo m ais novo que Larissa, lem bro-m e que, quando ela

conheceu o Maurício, ele fez um a entrevista assustadora com nosso cunhado.

Eu nunca m e incom odei com essa superproteção, sem pre tive em m ente que era porque ele nos

am ava. Observei-os saindo e adm irei o am or que em anava deles. Você quase podia ver ondas de

bons sentim entos saindo dos seus poros.

— Vou tom ar um banho no vestiário e volto, guarda um lugarzinho para m im na cam a. — Lucas

piscou sensualm ente e sorriu.

Sabia que ele estava brincando, porque a últim a coisa que queria naquele m om ento era sexo.

— Ok. Não dem ora.

Quando ele saiu, m e deitei e encostei a cabeça na cam a, pensei em toda a m erda que aconteceu

naquela segunda-feira am aldiçoada. A única coisa boa era o desgraçado do Ricardo estar preso.

Por m ais preocupados que todos estivessem com m inha sanidade m ental, eu m e sentia bem .

Claro que fiquei assustada e m ortificada por ter aquele m onstro m e tocando, m as dessa vez estava

com a cabeça no lugar, não m e culpava pelo que aconteceu porque eu sabia que o único responsável

era ele.

Eu não era m ais um a vítim a, m as um a sobrevivente!

Agora, nossa única preocupação era os m eninos terem sofrido esse acidente. Droga, por causa

da im prudência de alguns, pessoas inocentes acabam pagando por isso.

Um a batida na porta m e tirou dos pensam entos que invadiam m inha m ente, e um a enferm eira

entrou sorrindo.

— Olá, está se sentindo bem ? — Parou ao lado da cam a aj eitando o cobertor no lugar. A m oça

parecia ter seus trinta anos, era baixinha, tinha cabelos castanhos presos num coque e um sorriso

gentil.

— Estou sim . Obrigada por perguntar.

— Im agina. Vim trazer seu exam e para dar um a olhada, tem algo ali que precisa saber. Esperei o

Dr. Lucas sair para trazer, m as se quiser esperar eu ir tam bém pode ser. Fiquei sabendo que você é

conhecida do Dr. Alberto. Pobrezinho, ele e o am igo. Tsc, tsc... Tom ara que se recuperem . Bom , j á

falei dem ais, tenho essa m ania. Vou sair e esperar o doutor voltar. Qualquer coisa, m e cham a. —

Colocou um envelope em m inhas m ãos e saiu.

Franzi a testa estranhando a atitude da m ulher. Por que esperar o Lucas sair? Será que eu estava

doente? Ai, que droga, odeio ficar curiosa. Sentei-m e m elhor, cruzei a perna, e abri o envelope

tirando dali um a folha com o resultado.

Passei o olhar pelo que estava escrito e arregalei os olhos. Deus, isso era real? Não conseguia

acreditar. Era dem ais para um a noite só. Não sabia até quando m eu coração aguentaria tanta em oção

contraditória.

Engoli em seco e olhei em volta do quarto tentando assim ilar tudo que vi naquela folha de

papel.

— Puta m erda! — gritei exasperada.

Guardei o envelope com o exam e e a enferm eira colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Você está bem ? Viu o exam e?

Balancei a cabeça, e ela sorriu.

— Quer conversar?

— Agora não. Preciso digerir tudo prim eiro.

Ela sorriu am igavelm ente e saiu. Deitei na cam a e cobri os olhos com o braço. Com o contaria

para o Lucas? Estávam os em um m om ento tão delicado. Tanta confusão acontecendo. Teria que

enfrentar depoim entos, j ulgam entos, processo longo. Ai, m eu Deus...

— Por que está com essa carinha, princesa? Já está com saudades de m im ?

Arregalei os olhos e virei a cabeça para ver se o envelope estava no seu cam po de visão.

Tom ara que ele não tenha percebido. Então, voltei a olhá-lo e sorri.

— Só estou cansada, m eu am or. Vem dorm ir com igo. Estou louca para ir pra casa. Não sei por

que m e seguraram aqui até agora.

Ele deitou-se atrás de m im e ficam os de conchinha. A cam a não era grande, m as cabíam os nela.

— É porque a Jeny vem te ver am anhã cedo. Quer dizer, hoj e. Daí vai receber alta.

— Tô louca para ir pra casa. Aqui está se m ostrando um a caixinha de surpresas.

Lucas pegou m eu queixo, fazendo com que eu olhasse para o seu rosto.

— Tá preocupada com os caras? Vai dar tudo certo. Não se preocupe.

Assenti e deitei a cabeça no travesseiro. Esperava que desse tudo certo m esm o. Mas, quanto à

surpresa, Lucas não perdia por esperar. Acho que abalaria a nossa vida para sem pre.