Impulso

Gisele Souza · Capítulo 2 de 47

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Impulso

Capítulo 1

Virei-m e na cam a e encarei o teto. Por que a vida tinha que ser tão com plicada? Por que eu não

o esquecia de um a vez? Estava entrando em um tipo de autodepreciação e não gostava de m e sentir

assim , j á estive nesse cam inho e prom eti a m im m esm a nunca m ais ficar assim . Por ninguém ! Estava

na hora de sair desse poço que m e enfiei. Era hora de deixar o passado de lado e viver m inha vida,

nem que significasse estar sem a presença do único hom em que am ei.

CAPÍTULO 1

Sabrina

Sabe quando seu coração parece ser quebrado em pedaços? Quando alguém pisoteia e ainda ri

da sua desgraça? Era assim que m e sentia. Eu o am ei desde o prim eiro m om ento em que o vi. Lucas

m e encantou com o nenhum outro foi capaz. Mas depois do fiasco que provoquei, ele nunca m ais m e

procurou. Tratou-m e com o um a am iga-irm ã. Jam ais tocou no assunto. Parecia que havia passado um a

borracha em tudo.

Foram quatro anos em que m e am aldiçoava por ter sido tão idiota. Por ter tido m edo de algo

inconcebível. Lucas não era ele, nunca m e trataria daquela m aneira. Claro que m e arrependi

profundam ente, quase no m esm o m om ento em que m e deixou no banco, sentada e m e lam entando.

Mas quando fui procurá-lo, vi que tinha saído com a vaca da vizinha loira. Desde então não m e im portei m ais. Mentira deslavada, eu tentava não m e im portar. Era um desfile constante de periguetes

ao redor. De todos os tipos, parecia querer esfregar na m inha cara que ele havia seguido em frente.

Não que eu vivi com o um a freira, longe disso. Agora com vinte e três anos tive m inha quota de

encontros quentes, m as nenhum deles m e abalou com o Lucas havia feito. Eu não m e envolvia

em ocionalm ente com m eus casos, que eram poucos, m as satisfatórios até certo ponto.

Além do fato de ter sem pre controle, qualquer m ovim ento brusco m e apavorava. Com o Lucas

eu teria que m e render. Ele sem pre fora m inha fraqueza, e vê-lo m ostrando nitidam ente que tinha um a

vida, que estava feliz vivendo daquela m aneira, com m uitas m ulheres, m achucava dem ais. Nunca o

deixei perceber que tinha alguém , porque apesar de tudo eu tinha receio que ficasse com ciúm es.

Sei que você está se perguntando: “Ué, m as se ainda estão m orando j untos, então pra que ficar

sofrendo?”. A resposta seria: “Sim , sou um a idiota”. Eu não sei, talvez eu deva ter um lado m eio

m asoquista. Ele tinha o cuidado de não levar as “garotas” enquanto eu estava em casa. Mas, às vezes,

eu chegava cedo do trabalho e dava de cara com algum as cenas nada agradáveis. Nunca foi explícito

dem ais, Lucas tinha a cautela de perm anecer com a nudez dentro do quarto, m as seus beij os m olhados

tam bém faziam m eu coração sangrar.

Aí você vai pensar: Mas por que você não sai, garota? Pra que ficar vendo e ouvindo coisas

desagradáveis? Minha resposta seria: Ele não deixou. Eu j uro que um a vez tentei, m as Lucas

arrum ou um m onte de desculpas para que eu ficasse. Disse que era m ais difícil se virar sozinha.

Então, com o tam bém era difícil m e im aginar longe, acabei ficando.

Eu sei que boa parte de toda a confusão é m inha culpa. Fui insegura, m edrosa e im pulsiva. Mas,

cara, se eu pudesse estrangular cada idiota sem noção que passava pela cam a dele, eu faria. Juro,

sem nenhum rem orso. Mas não, eu m e controlava diariam ente com um a paciência que até m esm o

Buda ficaria orgulhoso. Piorou quando ele virou m édico residente. Nossa, com o caía de m ulheres em

cim a dele! Será que era porque ficava gato de branquinho, e todo com petente e dedicado com o seu

trabalho? Às vezes, eu queria que ele fosse feio... Talvez dim inuísse o assédio. Mas acho que não,

beleza não tinha nada a ver com o charm e do Lucas. Ele era lindo, sim ! Só que nada com parado com

a sensualidade do seu olhar e gestos.

Será que eu estava querendo tê-lo de volta? Não saberia dizer ao certo. Perdi a esperança de

algo a m ais, exatam ente no dia em que ele saiu e foi viver suas aventuras, porém algo despertou em

m im ao vê-lo tão norm al, um vislum bre do hom em que am ava e há m uito tem po se foi. Talvez sej a

por isso que m e m antive nos bastidores, Lucas raram ente se m ostrava o cara por quem m e apaixonei.

Agora eu estava sentada em um a m esa reservada no casam ento do m eu irm ão e com um a taça de

champagne na m ão, observando Lucas dançar com a irm ã.

Lay la enrolou três anos pra concluir o m atrim ônio, apesar de eu achar que j á estavam casados

há m uito tem po. Ela dizia querer fazer tudo nos m ínim os detalhes, e não decepcionou. A m ulher se

superou totalm ente. Foi um a das cerim ônias m ais lindas que j á tinha visto. Mas, apesar de toda a

felicidade que o am biente exaltava, m e bateu um a m elancolia que só Deus para explicar.

Não havia m otivo, a alegria contagiou todo m undo com a união do casal, que, aliás, estavam

lindos, pois o am or deles era quase palpável. O vestido da noiva era um tom ara que caia, j usto e

drapeado, nada de m odelo convencional para ela. Bateu o pé com a costureira quando disse que

queria um a faixa no quadril em tom verm elho, que caía j unto com a cauda, toda rendada e cravej ada

de pedrinhas brilhantes. Seus cabelos castanhos estavam soltos e em olduravam seu rosto sorridente.

E enquanto eu observava m inha cunhada, que havia se tornado m inha m elhor am iga, o m arido a

roubou dos braços do irm ão, que cedeu prontam ente. Bruno estava im pecável em seu traj e preto,

tentei focar m inha atenção no noivo e desviar o olhar de com o Lucas estava bonito com aquele terno.

Ele havia levado Lay la até o altar, foi em ocionante e m eu coração se apertou ao vê-lo tão lindo lá.

Fiquei observando a dança dos recém -casados. Nunca tinha visto m eu irm ão tão feliz. Depois

que conheceu seu anj o, com o ele ainda a cham ava, só transbordava felicidade.

Tentei não reparar no cara que vinha em m inha direção: Lucas. Ele não veio ao casam ento

sozinho, porque levou de rebote um de seus troféus. Um a loira peituda siliconada, com um vestido

totalm ente vulgar. Sinceram ente? Eu quase não o reconhecia m ais, porque não agia m ais com o o cara

que eu havia m e apaixonado anos atrás.

Lucas sentou-se ao m eu lado e m e observou atentam ente, desde m eus saltos até o colo desnudo

pelo vestido. Continuei bebericando o champagne tentando não m e im portar, só que nem sentia m ais

o gosto. Meu corpo todo estava em alerta com a proxim idade e o perfum e que exalava. Ele inebriava

m eus sentidos. Aproxim ou-se quase colando aquela boca carnuda em m eu ouvido.

— Você tá linda, Sabrina — sussurrou com a voz rouca.

Só faltei desm aiar, pois quando falava daquela m aneira eu ficava igual gelatina. Meu vestido

era um tom ara que caia longo, de cetim , estilo sereia e azul-m arinho. Igual ao das outras, nada de

m uito especial. Mas ao olhar intenso do Lucas eu m e sentia linda, e não gostava, pois logo ele iria

atrás de sua acom panhante e Deus sabia com o eu m e sentia ao vê-lo com outra pessoa.

— Er... Obrigada — m eio que m e engasguei.

Ele sorriu safado e se encostou à cadeira fazendo com que o paletó se abrisse m ostrando a

cam isa branca de botão que não escondia seus m úsculos peitorais. Subitam ente m e subiu um a raiva

sem tam anho por ele estar ali. E cadê a sua maldita acompanhante? Não devia estar mimando

aquela garota em vez de estar mexendo com meu juízo?

— Lucas, por que você está aqui? Cadê a vadia sem cérebro da vez?

O sorriso que havia em seu rosto m orreu na hora. Ué, será que ele achava que não tinha

notado a mala que trazia grudada em seu braço?

— Não a cham e assim , Sabrina. Você não conhece a Kiara.

Com o se eu m e im portasse...

— Ok, não conheço. Mas aquele tipinho, a gente farej a de longe.

Ele levantou um a sobrancelha e sorriu cinicam ente, fazendo-m e odiá-lo e am á-lo ao m esm o

tem po.

— Quer dizer que está farej ando agora? Virou algum tipo de anim al ou algo assim ? — Ele

sem pre vivia m e provocando, nossa relação nesses anos todos foi assim . Um brigando com o outro,

só que no fim a tensão sexual gritava m ais alto e fazíam os as pazes, porém nenhum dois tom ava a

iniciativa de com eçar qualquer coisa além do carinho fraterno.

— Você m e entendeu, seu idiota! — Desviei o olhar para que não visse o quanto ele m e

incom odava.

— Sabe, Sabrina, se baixasse essa crista de se achar a m elhor em tudo, ficaria m ais fácil

conviver com você. Estou cansado dessa m erda!

Levantou-se e saiu disparado em direção à m esa que a vadia loira estava. Fez um sinal e ela se

aj eitou toda sorridente, acom panhando-o para onde quer que fossem . Devia ganhar um prêm io de

consolação por ser idiota o bastante para estar com aquele babaca. E dali pra frente a festa virou um a

m erda pra m im . Eu não sabia ao certo o que o irritou, não dava a m ínim a, na verdade ele poderia se

explodir que eu nem ligaria.

Minhas irm ãs vieram falar com igo, perguntar o porquê de estar com aquela trom ba de elefante,

m as eu não queria conversar com ninguém . Se aparecesse um a alm a para dar um soco no Lucas eu

ficaria feliz, porém achava m eio im possível. Ele era o queridinho entre m inha fam ília. Meu desej o

foi quase atendido quando Lay la se aproxim ou preocupada.

— O que foi, Sabrina? O que m eu irm ão aprontou dessa vez?

Lay la estava tão chateada com Lucas quanto eu. Não entendia o porquê de ele ter se tornado tão

safado. Só que eu sabia que em parte era culpa m inha, m as não iria estragar o dia dela com

lam entações. Estava tão feliz. Eu resolvia os m eus próprios problem as, afinal tinha vinte e três anos,

pelo am or de Deus!

— Não foi nada, cunhada. Ele deve ter ido espairecer — bufei internam ente, até parece que com

a anim ação da vadia eles iriam cam inhar pelo quintal.

— Sabrina, não ofenda m inha inteligência. Eu sei com o Lucas está agindo. Não vou m e m eter

porque ele é adulto. Mas não entendo o porquê de você ainda estar m orando com ele.

Às vezes, nem eu m e entendia. Mas Lay la m erecia um a explicação, e eu sem pre fui sincera com

ela.

— Ah, você sabe o que eu sinto por ele, m as j á estou com eçando a ficar de saco cheio. Não

estou aguentando m ais. Foram m alditos quatro anos de agonia, agora que m eu trabalho na em presa de

adm inistração se fixou e estou ganhando legal, por isso querendo procurar um apê só pra m im . Sei

que fui um a burra de tê-lo rej eitado na época e teim osa o suficiente para não dar o braço a torcer,

m as j á deu.

Lay la assentiu e prendeu os lábios, pensativa. Adorava m inha cunhada, que tinha um j eito doce e

não gostava de incom odar ninguém . Parecia inquieta com algum a coisa e não conseguia encontrar

palavras para se expressar.

— O que foi, Lay la? Você pode contar com igo, sabe disso. — Ela olhou pra m im com os olhos

m arej ados e se aproxim ou m ais.

— Eu tô grávida — sussurrou.

— O quê?!

— Psiu, Sabrina. Fica quieta, ainda não contei para o Bruno. Eu sei que ele devia ser o prim eiro

a saber, m as queria contar na lua de m el. Porém , com o nós não vam os m ais viaj ar para m uito longe,

decidi contar hoj e à noite. No entanto não aguento m ais segurar. Precisava dividir essa felicidade

com alguém . — Ela tinha um sorriso lindo em seu rosto delicado.

— Oh, Deus! Eu vou ser tia de novo. Que m aravilha, Lay la. Você vai ser um a ótim a m ãe. —

Minha confiança nela se devia aos anos em que foi um a m ãe substituta para Lucas.

Dei-lhe um abraço de lado por conta de estarm os sentadas, m as que valeu, porque todo gesto de

carinho vindo da Lay la era m aravilhoso. Minha cunhada exalava am or!

— Estou m uito anim ada, Sabrina. Por m ais que eu tenha sido m ãe do Lucas por tanto tem po,

agora é um sentim ento diferente. Será que sou um a irm ã m á por m e sentir assim e diferenciar o am or

que estou sentindo?

Nossa, isso não tinha nem cabim ento! Ela sem pre fora excepcional, fez de tudo para que o irm ão

tivesse do bom e do m elhor e ainda tinha dúvidas se tinha sido o suficiente.

— Claro que não, Lay la. Você fez tudo por ele. Até m ais do que qualquer um faria. Por que isso

agora? Pensei que j á tivesse se desligado dessas inseguranças.

Ela torceu a boca e baixou os olhos para as m ãos entrelaçadas em seu colo.

— É porque ele está tão estranho. Estou m e sentindo fracassada.

Droga, não gostava de tocar no assunto do que aconteceu há quatro anos. Mas não deixaria

m inha cunhada, que tanto batalhou pelo irm ão, se sentir assim .

— Não é sua culpa. O que aconteceu é que eu o rej eitei. E Lucas decidiu que era m elhor

galinhar... Então, pode tirar toda essa m erda dessa cabecinha e vai ser feliz. E olha, seu m arido está

te devorando com os olhos. Vai até ele e esquece os problem as.

Realm ente, Bruno não desgrudava os olhos da esposa. Ai, ai, só queria ver a reação daquele

pateta quando soubesse que iria ser pai.

— Ok. Hum , você sabe se ele foi em bora?

Lay la nem precisava dizer que “ele” era o Lucas. Só a cara de envergonhada que fazia quando

pronunciava seu nom e na m inha frente j á denunciava seu desconforto. Não tinha m uito sentido, j á que

eu m orava j unto com o dito cuj o.

— Acho que não, deve tá por aí pegando aquelazinha siliconada que trouxe. Por quê?

Minha cunhada fez um a careta na m enção da “acom panhante” do irm ão.

— Ele prom eteu cantar com igo antes de eu ir em bora. Mas tudo bem , j á deve aparecer.

Olhou-m e cheia de pena e saiu ao encontro do seu garanhão, com o ela cism ava de cham ar,

m esm o ele tendo tom ado j eito. Era lindo ver o am or entre os dois.

Mas eu odiava aquele olhar, as pessoas achavam que eu estava tão desesperada que ainda vivia

com ele. Já aguentava aquilo há m uito tem po. Iria falar com Lucas quando chegasse em casa.

Mudaria-m e o m ais breve possível. Não estava nem m e reconhecendo m ais, era um a pessoa que

falava o que queria e na hora que bem entendia. Com ele por perto parecia um a gatinha m anhosa.

Levantei-m e e fui andar pelo quintal. Com o a festa foi m ontada na casa da m inha m ãe, eu tinha

liberdade total, porque conhecia todos os esconderij os ao redor. Cam inhei por entre a área

arborizada nos fundos. Mam ãe adorava a natureza, por isso m orava em um a propriedade tão grande

para não abrir m ão do verde, então uniu o útil ao agradável ligando a m odernidade da cidade à

calm aria de ter um lugar gostoso para relaxar.

Quando cheguei perto do banquinho que costum ava sentar e pensar na vida — o tal que dei o

fora no cara que tanto m e im portava —, ouvi gem idos e sussurros que partiram m eu coração. Parecia

ser um a constante quando se relacionava a ele. Aproxim ei-m e para confirm ar se aquilo era m esm o

verdade. Mas peguei apenas um vislum bre, só que não m e enganava. Lucas estava transando com a

vadia. Antes que eles m e vissem ali, eu virei as costas e corri, j á que a extensão da casa da m inha

m ãe era grande. Papai deixou um a boa herança quando se foi.

Dim inuí o ritm o e passei a m e arrastar em silêncio até um banco afastado do m eu de costum e, porque não voltaria m ais lá. As lem branças seriam dolorosas dem ais. Sentia com o se estivesse