Impulso

Gisele Souza · Capítulo 17 de 47

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Impulso

Capítulo 16

m inha vida.

— Você não pode fazer isso, por favor.

Lucas segurou m eu rosto entre suas m ãos quentes e acariciou m inha bochecha com os polegares.

— Sabrina, quando aconteceu aquilo tudo com a Lay la, eles m e deixaram de fora. Eu quase

enlouqueci, não vou fazer o m esm o com seu irm ão. Mas fica tranquila. Vai dar tudo certo. —

Suspirou. — Agora, deixa eu te abraçar, m eu coração está despedaçado.

Deitei a cabeça em seu peito nu e deixei m inhas em oções lavarem a m inha alm a. Lucas m e

abraçou tão carinhosam ente que m e senti um a criança. Chorei pelo que pareceram horas. E ele só

sabia m e acariciar e cantar baixinho. Adorm eci com sua voz sussurrando em m eu ouvido:

— Eu te am o, m inha princesa. Vou cuidar de você.

CAPÍTULO 16

Lucas

Nos am am os a noite toda. Eu a em balei, acariciei seu rosto, deslizei as m ãos por seus cabelos.

Aspirei seu perfum e, m edi cada pedacinho de pele do seu corpo. Am ei Sabrina com tudo que tinha.

Coloquei em cada carícia sentim entos profundos, deixei bem claro em cada palavra dita que a am ava

e que ela era a m ulher m ais linda do m undo.

Não toquei naquele assunto em nenhum m om ento. Apenas apreciei tudo o que vivíam os, porém

não queria dizer que tinha esquecido tudo o que havia m e contado. Enquanto ela narrava o que passou

e o que o filho da puta lhe fez, um turbilhão de em oções invadiu m eu peito. Eu tive um a vontade

louca de abraçá-la e chorar até o am anhecer, m as tam bém um im pulso raivoso que m e instigava a

caçar o cara e acabar com a sua raça.

Contudo resolvi apenas am á-la. Acreditei que era o que Sabrina precisava. Com certeza não era

bom esconder todo aquele sofrim ento, sem ter ninguém para contar e desabafar. Não podia conceber

a ideia de alguém que se aproveita da confiança conquistada para aprontar um a dessas com um a

pessoa que diz am ar, apenas para se aproveitar e abusar.

O ser am ado deve ser valorizado ao m áxim o, desej ado com volúpia e delicadeza. Deve-se

proteger, não m agoar. Ouvir, conversar, se deliciar com cada m om ento e ser fiel aos sentim entos que

lhe é oferecido.

Mas nunca m achucar! Um abuso sexual não precisa ser com penetração. Apenas tocar sem

perm issão j á é um a invasão, que pode trazer traum as irreversíveis.

Observando Sabrina adorm ecida em m eus braços, deixei toda m inha angústia sair porque não

perm iti extravasar, pois ela precisava de apoio. Porém , não conseguia m ais segurar e, im aginar o que

m inha am ada sofreu, fez com que o nó na m inha garganta ficasse quase insuportável. Era difícil

respirar.

As lágrim as quentes m olhavam m eu rosto e peito, quando percebi j á estava soluçando em

silêncio. Senti um a dor insuportável no coração e tive vontade de gritar. Desvencilhei-m e do corpo

da Sabrina para não incom odá-la, preocupar m eu am or era a últim a coisa que queria.

Levantei e fui para o banheiro. Abri o chuveiro e entrei debaixo d’água fria e chorei com o nunca

havia feito. Já não m e aguentava em pé, fui deslizando pelo azulej o e sentei no chão apoiando a

cabeça nos j oelhos enquanto a água fria caía em m eus om bros. O barulho do chuveiro abafou m eus

soluços.

Descarreguei toda m inha frustração por não poder ter feito nada e ainda não fazer, m as naquele

m om ento prom eti achar esse cara e fazê-lo pagar. Pouco m e im portava se foi há quatro anos. Poderia

passar quarenta anos que, quando eu o encontrasse, ele iria pagar por cada m inuto de angústia que

Sabrina havia sofrido.

Estava tão entregue ao lam ento que não percebi o barulho da porta se abrindo. Só quando ela se

abaixou e m e enlaçou em seus braços que m e dei conta da altura dos sons que fazia. Aos m eus

ouvidos parecia m orrer de dor. Am aldiçoei-m e por dar m ais essa aflição a Sabrina.

— Lucas, não chore. Por favor, não fique assim .

Abracei m inha garota forte e sussurrei em seu ouvido:

— Dói dem ais saber o que você passou, não sei o que fazer para reparar isso. Você precisa de

m im e eu estou arrasado.

— Você j á fez dem ais, m eu am or. Consertou grande parte do m eu coração m achucado.

Balancei a cabeça e tentei m e acalm ar, não queria que ela tivesse que consolar-m e. Mas não m e

saía da cabeça que podia fazer algo a m ais, só não sabia o quê.

— Me prom ete que não vai esconder nada de m im ? — Me afastei do seu abraço e encarei seu

rosto. Sabrina chorava silenciosam ente.

Droga, não devia ter m e deixado levar pelas em oções. Ela precisava de carinho e apoio, não ter

que m e consolar.

— Prom eto.

Assenti e m e levantei, puxando-a pelos braços para que ficasse de pé.

— Ok, daqui a pouco vai am anhecer e a prim eira coisa que vou fazer é ir à casa do Bruno.

Sabrina arregalou os olhos e respirou pesadam ente. Percebi que estava à beira de um ataque de

nervos, a abracei e acariciei seus cabelos, agora m olhados, para que se acalm asse.

— Não precisa se assustar, ele não vai fazer nada com você. Eu prom eto. Ninguém m ais vai te

m achucar, m eu am or. Contudo, eu vou atrás daquele cara. E Bruno vai com igo, tenho certeza. Você

não está m ais sozinha.

— Mas e se m inha fam ília m e odiar porque escondi isso tudo? E se m e culparem ? Se acharem

que eu o acobertei? Eu não sei se aguento um a rej eição.

Afastei-m e do seu corpo e olhei em seus olhos azuis. Minha linda estava atordoada, seu rosto

lindo transfigurado, seus olhos estavam esbugalhados e verm elhos, e seus lábios roxos. Droga, a água

estava fria! Peguei seu queixo e levantei, dando um beij o leve em sua boca.

— Escuta um a coisa. Você não foi culpada de nada, e tenho certeza de que a reação da sua

fam ília vai ser bem parecida com a m inha. Ninguém vai te rej eitar Sabrina, e, em relação à questão

de “acobertar”, você estava apenas se protegendo. Não fique pensando dem ais. Vem , deixa te

enxugar e vam os para o quarto, porque eu quero te abraçar.

Deitei m inha m ulher na cam a e fiquei acalentando-a pelo resto da m adrugada. Não consegui

dorm ir. Minha cabeça estava a m il. Assim que o sol entrou pela j anela, levantei-m e e liguei para o

hospital. Disse para que encontrassem alguém para m e substituir, pois não iria trabalhar. Depois falei

com Bruno, avisei que estava indo à sua casa e queria conversar. Ele disse que m e aguardaria.

Assim que m e arrum ei rapidam ente, eu deixei Sabrina dorm indo, porém , antes de sair, deixei um

bilhete em seu travesseiro. Tinha apenas um a letra de m úsica que ficou m artelando em m inha cabeça

o tem po todo, depois que fizem os am or pela últim a vez. Acho que ela entenderia o que quis dizer.

Saí antes que ela despertasse. Segui o cam inho até a casa da m inha irm ã e vi que Bruno j á m e

esperava na porta. Pelo j eito devo ter transm itido m inha angústia na voz. Meu cunhado m e conhecia

bem , sabia quando tinha algum a coisa errada.

Desci do carro e acionei o alarm e. Cam inhei devagar até a varanda da frente e m e preparei para

o que teria que dizer. Mas não deixaria de contar, a fam ília tinha o direito de saber para poder aj udar

Sabrina a superar e se curar.

— O que foi, Lucas? Notei sua voz estranha.

Respirei fundo e olhei nos olhos do m eu cunhado.

— Lay la está em casa, né? Tá dorm indo?

— Sim , chegam os tarde do bar ontem . O que foi? Você e Sabrina não se acertaram ? Achei que

estava tudo bem .

— Estam os bem , m as é outra coisa. Podem os nos sentar? Não quero te contar em pé.

— Claro, vam os entrar.

Bruno se virou e abriu a porta da sala. Entrou e sentou na poltrona de frente para o sofá grande.

Acom odei-m e e olhei pra ele.

— O que eu tenho pra te contar não é legal, cara. Mas você tem o direito de saber.

Ele franziu a testa, confuso.

— Fala logo. Tá m e assustando.

Assenti e com ecei a relatar o que aconteceu a Sabrina, om itindo certos detalhes que ele não

precisava saber pra não sofrer com o eu. Apenas quando term inei, tive coragem de olhar pra cim a.

Bruno tinha os olhos arregalados e respirava fortem ente. Havia raiva e tristeza estam padas em

seu rosto. Não sabia que reação ele teria, vindo de um irm ão qualquer um a seria esperado.

Só não estava preparado para o seu grito de dor.

O sofrim ento do cara era evidente na tensão do seu corpo. Ele se levantou e com eçou a chutar e

socar a poltrona que estava sentado. Nem m e m ovi, pois faria o m esm o se soubesse da Lay la. Tanto

que o fiz longe deles quando descobri o que aconteceu à m inha irm ã. Ele xingava e gritava com o um

louco.

Assustada, Lay la saiu do quarto de pij am a e j á ia se aproxim ar do m arido, quando m e levantei e

fui ao seu encontro.

— Deixa o Bruno, Lala. Depois que passar, você vai até ele.

Lay la virou os olhos esbugalhados pro m eu lado. Acho que não tinha percebido m inha presença

até aquele m om ento.

— O que aconteceu? Por que ele está desse j eito?

— Depois você vai ficar sabendo. Basta dar o apoio que ele vai precisar.

Ela assentiu e aguardou pacientem ente enquanto Bruno descontava toda sua raiva e frustração,

que eu sabia que estava sentindo, na poltrona. Tão subitam ente quanto com eçou, parou. Ele caiu de

j oelhos no chão e apoiou os braços no tapete. Chorou com o um a criança, podia ouvir seus soluços do

outro lado da sala.

— Vai, Lala. — Minha irm ã prontam ente atendeu, ela estava confusa e assustada. Porém , não

questionou ou pestanej ou, abraçou o m arido e sussurrou em seu ouvido, tentando confortá-lo.

Bruno não se m oveu, apenas passou o braço em volta da Lay la. Podia ver suas costas se

m ovendo com seu pranto. Ela acariciava seus cabelos, se sentou e puxou o m arido para o seu colo.

Nunca tinha visto o m eu cunhado tão desesperado.

Claro que eu não fui diferente, apenas não pude extravasar na hora. Precisava dar apoio a

Sabrina e m ostrar que eu a queria com a m esm a intensidade de antes. Meu peito se com prim iu com

aquela cena. Graças a Deus, eu tinha vindo sozinho.

Depois que pareceram horas, ele se acalm ou e sentou, ainda de cabeça baixa. Ele acariciou o

rosto da esposa e enxugou as lágrim as. Olhou pra m im e vi m uita tristeza em seu olhar.

— Com o ela tá? — sua voz estava baixa e rouca.

— Deixei-a dorm indo, não queria incom odá-la. E queria te contar sem ela estar aqui, não sabia

sua reação. E realm ente foi m elhor assim .

Ele assentiu e Lay la olhava entre nós, ainda m ais confusa.

— Dá pra vocês m e contarem agora?

— Lala, depois eu te conto. Agora não vai ser legal. — Não queria que Bruno sofresse m ais.

— Não Lucas, tudo bem . Sei que pra você tam bém está sendo difícil, m as eu estou bem agora.

Lay la tem o direito de saber, eu m e descontrolei. — Desviou o olhar para a esposa. — Anj o, seu

irm ão veio m e contar que quando Sabrina teve aquele rolo todo com o ex, não foi só aquilo que

im aginam os. Ela foi forçada e film ada. Escondeu de nós todo esse tem po.

— Oh, Deus! — Lay la colocou a m ão na boca. — Onde ela tá, Lucas? Preciso ir até lá agora.

Assenti e olhei para o Bruno.

— Nós vam os atrás dele!

Não havia outra opção, o cara ia pagar. Mesm o se Bruno não concordasse, eu iria sozinho.

— Com certeza, m as agora eu só quero abraçar m inha irm ãzinha. Diga-m e Lucas, com o ela

ficou ao te contar?

Eu não gostava de lem brar todo o sofrim ento estam pado em seu rosto. Em todo o relato ela

enrolava a cam isa nas m ãos em sinal de nervosism o. Mas não podia tocá-la naquele m om ento.

Respeitei sua vontade e sofri j unto com ela.

— Ela está bem na m edida do possível. Eu cuidei dela. Contudo, enquanto falava

provavelm ente reviveu tudo. — Fui sincero m esm o sendo difícil para ele saber que a irm ã sofria.

— Vocês se entenderam ?

— Sim , agora ela é m inha! — Minha convicção o surpreendeu e um sorriso triste surgiu em seus

lábios.

— Bom ouvir isso. Sabrina m erece alguém com o você, pena que se conheceram tarde.

Eu concordava, m as a vida é assim . Tudo tem seu tem po. Lay la, que estava chorando em

silêncio, se levantou e aproxim ou-se. Me deu um abraço e apoiou a cabeça em m eu peito.

— Obrigada por você ser tão bom , Luquinha. Tenho orgulho do hom em que se tornou. Agora

vam os cuidar da nossa m enina. Ela j á deve ter acordado. Vou trocar de roupa para poderm os ir. —

Afastou-se e levou a m ão ao m eu rosto, acariciando levem ente. Depois subiu as escadas que levava

ao seu quarto. Bruno j á havia se levantado e cam inhado até a j anela. Estava de costas com os om bros

tensos e a cabeça baixa.

— Lucas, nós vam os atrás desse cara ainda hoj e. Não vai ficar assim ! Você j á ligou para o

hospital? Se quiser, eu ligo.

— Eu j á pedi que m e substituíssem .

Ele balançou a cabeça e depois ficou olhando pra fora.

— Sabrina sem pre foi um a m enina levada, eu costum ava cham á-la de pestinha. E não era à toa.

Ela era a m ais m oleca, brincalhona e sensível. Quatro anos atrás eu vi seu brilho apagar, não

consegui entender o porquê. Achei que era por ter sido enganada e pensei que poderia acabar logo e

se acertar com você. Precisava só de um em purrão. Mas não adiantou, ela construiu um m uro enorm e

que ninguém podia transpor. Depois desse tem po escondendo essa angústia, fico pensando se ela será

capaz de se levantar de novo, porque m inha irm ã parou no tem po. — Virou-se pra m im e m e encarou.

— Só você vai conseguir, cara. Sei que é pedir m uito, m as não desista dela. Por tudo que pode

acontecer fique com a m inha irm ã, am e-a com o ela nunca foi am ada. Trate-a com tanto carinho, que

sej a até chato e m eloso. Sej a para a Sabrina o que sua irm ã é pra m im .

Ele não precisava m e pedir nada daquilo. Eu a am ava desde o m om ento que coloquei m eus

olhos sobre ela. Mas entendi o que Bruno queria: um a segurança. Um a certeza que eu estaria com ela

para o que desse e viesse. Eu não o decepcionaria.

— Não se preocupe, m eu am igo. Eu am o sua irm ã com tudo o que tenho e não vou deixá-la.

Mesm o que ela m e m ande em bora, eu sou teim oso o suficiente.

Bruno sorriu e se aproxim ou. Éram os quase da m esm a altura. Passou um braço pelo m eu om bro

e bateu de leve.

— Minha irm ã é um a m ulher de sorte, cara. Vou indo na frente, leva a Lay la. Quero ver a

Sabrina, sozinho. Pode ser?

Assenti e ele se afastou. Pegou as chaves do carro na m esa ao lado da porta e saiu. O am or que Bruno tinha pela sua fam ília era o m esm o que eu tinha por Lay la. E nós protegíam os nossas m eninas.