Impulso

Gisele Souza · Capítulo 6 de 47

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Impulso

Capítulo 5

— Na verdade, o que você quer? Se está sendo sincero, pode ir. Mas se for pra atrapalhar, fique

em casa. Ou quem sabe, vá atrás das suas enferm eiras sem cérebro.

Ela tinha que atacar. Era seu m ecanism o de defesa. Mas eu não m e im portei e fingi não ter

escutado.

— Não, é sincero m esm o. Só vou vestir um a roupa e j á te alcanço. — Me levantei e fui em

direção ao quarto. No m eio do cam inho parei e olhei para ela. — Ou você acha que está bom pra eu

ir assim ?

Sabrina não resistiu e m e avaliou de novo. Senti-m e com o um a presa. Minha gata tinha fom e.

Percebendo m inha provocação, ela fechou a cara e desviou o olhar.

— Veste um a porcaria de roupa de frio.

— Ué, m as tá calor. Acho que vou até sem cam isa...

— Não! — gritou histérica.

Eu sorri e cam inhei em direção ao quarto, m as pude ouvi-la praguej ando. Adorava provocá-la,

ficava tão bonitinha. Sabrina não perdia por esperar, eu estava pronto para conquistá-la e só havia

um a m aneira de fazer isso.

CAPÍTULO 5

Sabrina

Quando a coisa quer desandar é com plicado.

Nada parecia querer dar certo pra m im . Rodam os a cidade toda e não encontrei um m ísero

apartam ento que valesse a pena. E pra com pletar, Lucas colocava defeito em todos. Às vezes, quando

eu gostava de algum , ele achava problem as e m e convencia do contrário.

Tinha um últim o endereço para visitar, dos m ais de dez que encontrei em um site na internet.

Estava torcendo para que fosse viável. Porém , m eus sentim entos e pensam entos estavam em conflito:

feliz e triste ao m esm o tem po, porque não conseguia conceber a ideia de m e afastar do Lucas, ainda

sendo o m elhor a fazer.

Percorrem os a cidade e fom os parar na periferia, um local m ais afastado do centro. Não vi nada

de m ais no lugar, a não ser que era m uito longe do m eu trabalho. Lucas logo endureceu o corpo e

olhou pra m im com seus olhos verdes suplicantes.

— Sabrina, vam os em bora. Esse não é um lugar pra você m orar. Nem sabe com o é a

vizinhança...

— Calm a, Lucas. Nem entram os pra ver com o é. Não sej a preconceituoso.

Ele respirou fundo e saiu, eu o segui e param os em frente ao prédio. Olhei tudo ao redor e gostei

do que vi, era um lugar sim ples, m as bem conservado. Abri a porta e para m inha surpresa saiu um

bando de crianças correndo e gritando.

Sorri ao im aginar que seria legal ficar em um lugar cheio de bagunça boa. Eu podia parecer um pouco im pulsiva, m as havia um lado m aternal em m im que ninguém conhecia. Lucas cam inhava ao

m eu lado em silêncio, observando tudo. Devia estar m aquinando algum defeito para m e fazer m udar

de ideia. Mas fiz um a prom essa de não escutar nada do que ele dissesse.

Subim os quatro andares de escada e param os em frente a um a porta antiga de m adeira

descascada. Bati e aguardei, o inquilino atual ainda estava ocupando o apartam ento. De acordo com

as inform ações no site, ele se m udaria para um a casa que havia acabado de adquirir, m as tinha ficado

para receber os interessados em alugar e m ostrar a residência.

Escutei passos do lado de dentro e logo a porta se abriu. Eu quase caí pra trás. Um cara de

quase 1,90m abriu a porta, e era lindo de m orrer. Não pude de deixar de ter a reação de todas as

m ulheres ao ver um m onum ento daqueles.

Com ecei olhando os pés descalços, ele vestia um a calça de m oletom cinza, que deixava pouca

coisa escondida, j á que era bem visível o contorno das suas coxas grossas, subi m ais um pouco e

fiquei salivando por sua barriga tanquinho. Sério! O cara não era depilado com o o Lucas, tinha

cabelos espalhados por seu tórax m alhado, seus braços eram cobertos de tatuagens, não que eu

estivesse prestando atenção a elas. Aqueles bíceps estavam m e deixando m eio louca. No rosto

m arcado por um m axilar forte e queixo quadrado tinha desenhado um sorriso irônico conhecedor do seu encanto. Em seus olhos castanho-esverdeados havia um brilho m alicioso, e ele m e avaliava da

m esm a m aneira que eu, seus cabelos desgrenhados e a barba por fazer davam um charm e a m ais.

Jesus, m orri e fui pro céu dos hom ens gostosos!

— Olá, posso aj udá-los? — Aquela voz grave era capaz de fazer um a m ulher se derreter aos

seus pés, com o um sorvete em dia ensolarado.

— Oi, sou Sabrina Petri e esse é m eu am igo Lucas. Nós viem os pelo anúncio do aluguel.

Ele sorriu m ostrando todos os dentes alinhados, e pasmem havia um a covinha em cada lado da

sua bochecha.

— Ah, sim . Tinha esquecido que você m andou o e-mail Sabrina. Prazer, m eu nom e é Alex Wolf.

— Estendeu a m ão e segurou a m inha levando-a aos lábios. Ainda era um galanteador. Meu cérebro

gritava “perigo” o tem po todo.

Ouvi um grunhido vindo do Lucas. Nossa, havia m e esquecido dele por um m inuto.

— Wolf? — Lucas tinha um tom zom beteiro na voz.

Sem tirar os olhos hipnotizantes dos m eus, Alex respondeu:

— Sim , m inha m ãe era aficionada em livros sobrenaturais de m etam orfose. Sabe com o é?

Não sei por que, m as ele m e fazia querer rir o tem po todo. Devia ser o m agnetism o que

em anava, o cara era sexo am bulante. Im aginei que m eu acom panhante não estaria m uito feliz com

aquilo. Mas, quem ligava?

— E o que você faz, Alex? — Nunca vi o Lucas tão sem noção. Disse o nom e do suj eito com um

desdém sem tam anho e ainda ficava futricando na profissão do cara. Pelo am or de Deus, estávam os

só visitando o local.

— Sou professor de Muay Thai na academ ia do centro da cidade... Podem entrar, vou te m ostrar

o am biente, ainda tem algum as coisas m inhas por aqui, não levei tudo pra casa nova.

— E por que você quis se m udar, Alex? — Credo, por que, de repente, m inha voz ficou tão

fina?

— Aqui é m uito distante de tudo. Consegui j untar um a graninha e com prar m eu próprio apê. Não

é grande coisa, m as é m eu! — Deu de om bros com o se não fosse tão im portante realizar o sonho de

ter seu próprio canto.

Entram os na sala e o local era bem arej ado, dava um a sensação de conforto. Porém , com o ele

disse, tinha o em pecilho da distância. Lucas nos acom panhou com um a carranca. Achei graça, porque

ele nunca agiu daquela m aneira com nenhum am igo m eu.

Alex era pura sim patia, além de lindo, claro. Mostrou-nos cada cantinho falando dos prós e

contras do apartam ento. Segundo ele os vizinhos eram m eio barulhentos, por conta de terem filhos

pequenos, m as não se incom odava porque gostava da bagunça. Identifiquei-m e na hora.

Depois de nos oferecer um suco que recusam os, fom os até a saída.

— Sabe, gata, acho que aqui não é o lugar m ais adequado para você ficar. Talvez, se puder

esperar, na terça m e m udo e vej o se tem algum a coisa no m eu prédio novo. O que acha? — Sorriu

com os olhos fixos nos m eus.

— Nossa, eu adoraria. É m ais perto do trabalho e do centro da cidade. Aliás, eu gostaria que

m e desse seu telefone e da academ ia que dá aula. Estava pensando em entrar em algum a luta m esm o.

Sabe com o é? Mulher sozinha andando pela rua é perigoso, gosto de m e sentir segura.

— Com certeza, m uito bom que pense assim . Só um m inuto, que vou anotar e volto.

Ele saiu em direção ao quarto e tive que apreciar aquele bum bum durinho na calça de m oletom .

Acho que cheguei até a virar a cabeça, porque ouvi um a rosnação atrás de m im que parecia um m onte

de cachorros loucos. Assustada por ter esquecido totalm ente do Lucas e olhado a bunda do cara, m e

virei de olhos arregalados.

Ele tinha um a expressão de m orte no olhar.

— Sério, Sabrina? Muay Thai?

— Ué, qual o problem a? Eu gosto de m e exercitar e j á queria fazer aula de luta m esm o. Quer

m elhor coisa do que conhecer o professor?

Ele estreitou os olhos e se aproxim ou. Muito perto, m inha cabeça gritava.

— O problem a é que você ficou toda assanhadinha com o “professor” — falou entre dentes,

estava tão próxim o que sentia o calor da sua respiração no m eu nariz.

— E daí? — Dei de om bros.

— E daí que você vai ver, se ficar dando m ole pra ele.

A cada palavra dita, ele dava um passo em m inha direção. Estávam os na casa de um quase

desconhecido, e a eletricidade que em anava entre nós estava a todo vapor. Qualquer um que nos

visse, até m esm o de longe, perceberia que algum a coisa rolava. Mas Lucas não m e queria, a vida

dele era diversão e, apesar de nunca tê-lo deixado ver, eu tam bém tive m eus encontros esporádicos.

Nada sério, porém não era nenhum a santa em ficar quatro m alditos anos sozinha.

Só que nenhum chegou aos pés do acontecia com igo quando era Lucas o envolvido, na verdade

achava que nunca chegaria. O que era um a porcaria, porque eu tentava a todo custo ser alguém

diferente e am ar quem m e desse valor.

— Lucas, se afasta! — Estava m uito nervosa com aquilo, seria no m ínim o constrangedor se

Alex presenciasse toda aquela ceninha.

— Por que, Sabrina? Do que você tem m edo?

— A gente conversa em casa, ok?

— Por quê? Aqui m e parece bom . — Seus lábios estavam m uito próxim os, m e preparei para um

ataque que não veio.

Um barulho no corredor fez com que nos afastássem os, estava corada de vergonha e podia sentir

m inhas bochechas queim arem . Era horrível essa reação cada vez que Lucas estava perto dem ais.

— Desculpem , dem orei a achar um a caneta. Metade das m inhas coisas j á foram em bora.

Alex se aproxim ou e estendeu um bilhetinho com um a letra típica de hom em .

— Me liga, então. E aparece m esm o na academ ia, tenho um a turm a especial de m ulheres. Você

vai gostar, tenho certeza.

Deu pra perceber que ele era um conquistador nato. Possuía um a cara de safado, e não tinha o

m enor pudor em dem onstrar que conseguia o que queria com seu charm e.

— Ok, Alex. Te ligo na quarta pra ver se conseguiu o apartam ento.

— Beleza. — Em seguida, ele se virou para o Lucas, que parecia um cão raivoso e só faltava

espum ar, e estendeu-lhe a m ão. — Bom te conhecer, Lucas. Cuida da sua am iga para que fique bem

até as aulas, o m undo anda m uito violento para um a garota tão bonita ficar andando sozinha.

— Você não precisa dizer isso, cuidei dela por quatro anos.

Uau, nem ia corrigir, senão podia dar m erda. Hom ens era um a espécie engraçada, ficavam se

m edindo e com petindo em um tipo de torneio que não entendia m uito bem . Parecia até aqueles

desenhos anim ados, só faltavam levantar a perna e ver quem fazia xixi m ais alto.

— Ok, Alex. Obrigada, vam os indo porque não alm oçam os e Lucas fica estranho quando tem

fom e.

O tal parecia que nem m e escutou, encarava Alex sem nem piscar. Dei as costas e cam inhei

dando um tchauzinho ao Alex. Lucas m e seguiu pisando duro, nem liguei, m as sabia que vinha m erda

quando entrássem os no carro.

E não deu outra.

— Porra, Sabrina. Você m al conhece o cara e j á vai pedir pra ver apartam ento. Vizinha daquele

suj eito? — ele falava socando o volante.

— Qual o problem a, Lucas? Eu sei m e cuidar e não é com o se eu estivesse pulando na cam a

dele. Se bem que não seria de todo ruim . — Mordi a unha com o pensam ento.

— O QUÊ?! — Ele quase estourou m eus tím panos.

— Credo, que bicho te m ordeu?

— Sabrina, não brinca com igo. Você j á quer transar com esse cara? — Deve ter virado um

costum e repentino ele ficar rosnando.

— Hum , não seria ruim . Ele é um gato. Ainda tem aquela fala m ansa...

— Porra, você tá de sacanagem ! Estava na cara que ele queria te pegar. E sabe com o caras

com o aquele agem ? Eles pegam e j ogam fora!

— Igual ao que você faz?

Isso o fez calar a boca. Toda aquela pinta de “sou todo m acho” caiu no chão j unto com seus

olhos. Ele abaixou o olhar e balançou a cabeça.

— Sabe que nós fizem os m uita m erda nesses anos, né? Mas te digo um a coisa, m e arrependo de

cada m ulher que tive. Não por ter transado por aí, m as porque realm ente não era o que eu queria.

Mas tudo bem . Você insiste em não entender e parece nem tentar.

Deu partida no carro e seguiu o cam inho de volta ao centro da cidade. Decidi não entrar em

detalhes a respeito do que ele disse, m as algo estava m artelando na m inha cabeça.

Se ele não queria estar com todas aquelas m ulheres, por que vadiou tanto? Seriam coisas de

hom em ?

Droga, bicho com plicado! Depois som os nós que dificultam os tudo. Eu sabia da m inha parcela

de culpa em tudo, fui m edrosa e fraca na época, porém logo m e arrependi e olha que nem era tão

tarde assim . Foi ele que estragou tudo em um im pulso.

Acho que nosso relacionam ento todo foi regado a esse sentim ento. Era o que nos m ovia.

Percorrem os todo o cam inho em silêncio absoluto. Em frente da nossa casa, Lucas parou o carro

e aguardou para que eu descesse.

— Você não vem ?

Ele negou, cabisbaixo. Eu não gostava de vê-lo chateado assim , m e dava um a dor lacerante no

peito.

— Não, vou com prar algo pra gente alm oçar. — Nem um a vez Lucas olhou em m inha direção.

— Você tá chateado?

Ele suspirou e encostou a cabeça no volante.

— Não, Sabrina. Eu nunca vou conseguir ficar chateado com você. Só... fiquei com ciúm es.

— O... O... quê? Com o assim ? — Devia estar escutando dem ais, não podia acreditar naquilo.

— O que tem de tão estranho? Você nunca dem onstrou interesse por nenhum cara na m inha

frente. A prim eira vez dói, né?

É, eu sabia bem o que ele estava falando. Quando ele levou aquela oxigenada na festa do seu

próprio aniversário, foi com o se m eu chão tivesse sido tirado de m im . Então decidi nem m e explicar,

porque na verdade eu não tinha nada a dizer. Flertei com um gato e ponto. Eu era solteira e

desim pedida.

— Ok, te espero. Vou fazer um a sobrem esa.

— Tudo bem .

Desci do carro e fui andando até a porta da frente, antes de virar a m açaneta percebi que ele

ainda não tinha dado partida. Olhei pra trás e Lucas m e olhava da m esm a m aneira de quando nos

vim os a prim eira vez no bar. Tinha ternura em seus olhos, desej o, m as algo diferente. Parecia triste e

desanim ado.

Eu não podia fazer m uita coisa para m udar aquilo, porque m eu próprio coração estava em

frangalhos há m uito tem po. Entrei e fechei a porta. Tinha que usar de todas as m inhas forças para dar