Impulso
Capítulo 40
carro e Alberto se aproxim ou, m as antes de se sentar inclinou-se para perto do m eu ouvido e
sussurrou:
— O dragão é da história da Bela Adorm ecida, ou seria do Shrek? Não im porta, m as se você
quiser Ann baby eu posso te com er no alm oço e no j antar. — Sorriu e entrou sentando-se.
Filho da puta! Meu corpo ficou em cham as logo que ele disse isso. Virei-m e, tentando disfarçar
e dei um tchau pro Lucas, que tentava a todo custo não rir. Nem dei ideia. Agora tinha um baita
problem a nas m ãos, só esperava não m e entregar ao ímpeto que poderia m e destruir.
CAPÍTULO 40
Sabrina
— Sabrina, sem desculpa, nós vam os pra casa do Alberto fazer um a visitinha de boas-vindas.
— Lay la riu baixinho e continuou. — Você não pode faltar.
Suspirei cansada, o dia tinha sido exaustivo e só queria cam a.
— Tudo bem . Vou cham ar o Lucas e passam os por lá, m as não vou dem orar.
— Ok, entendo. Tam bém não estou a fim de m adrugar. Com o foi tudo? E seu trabalho na ONG?
Sorri am plam ente ao lem brar... Tinha se passado duas sem anas do dia fatídico do segundo
ataque, eu estava fazendo terapia três vezes por sem ana com a Jeny. E, em m eio a um a sessão, ela
sugeriu que eu fizesse algum trabalho relacionado ao que sofri. De início fiquei receosa, m as depois
cedi e procurei na internet algum local nas proxim idades, acabei achando um instituto que fazia
trabalhos e reuniões com m ulheres que sofreram abuso sexual. Marquei um a visita e fui esperançosa.
Encontrei m ulheres de todas as idades, m eninas e m eninos tão j ovens quanto m eus sobrinhos de
oito anos. Fiquei arrasada em ver tantos casos sem elhantes, m as ao m esm o tem po distintos. Com o
alguém que se diz ser um ser hum ano é capaz de um a atrocidade daquelas, tinha histórias de pessoas
da fam ília que ganhava a confiança e, então, com etia esse crim e dia após dia por anos.
A diretora do local m e cham ou até a sua sala e m e ofereceu um “cargo”, para que eu pudesse
aj udar as pessoas que ainda não conseguiram reerguer suas vidas e seguir em frente. Então fui
convidada a participar de um a palestra, tipo aquelas reuniões dos alcoólicos anônim os.
Levantávam o-nos e relatávam os nossas experiências, com o apoio recíproco de quem j á sofreu
aquilo, porém , ao m esm o tem po, eu sentia que tam bém estava sendo aj udada por aquelas pessoas.
Tinha frequentado três reuniões e eu m e em ocionava em todas. Fiquei sabendo que ali eram só
m ulheres, além de alguns m eninos e m eninas, m as tinha m uitos garotos adolescentes passando por
essa situação. Eu fiquei chocada com isso, porque m uitas pessoas pensam que o estupro é causado apenas por hom ens, m as existe um núm ero alarm ante de casos em que m ulheres adultas abusam de
m eninos na puberdade. E nesses casos as vítim as se sentem duplam ente culpadas, pois a fisiologia
m asculina é sim ples, se estim ulada há ereção. Então a própria vítim a acaba não considerando um
abuso, m as a partir do m om ento que alguém força um a situação, sej a hom em ou m ulher, ela está
com etendo o crim e.
Eu frequentei todas as reuniões e passei o que estava aprendendo nas consultas, com o tam bém
tentei aj udar da m elhor m aneira possível, porque na verdade eu ainda estava fragilizada. E para
sem pre estaria m arcada por aquele ato hediondo.
— Tudo ótim o. Muita coisa triste que tem por ali Lay la, m as é bom ver essas pessoas tentando
se reerguer.
— Estou m uito orgulhosa de você, Sabrina. Além de ter se tornado um a m ulher forte e guerreira,
ainda aj uda outras que passaram por situação sem elhante. Você é incrível!
Meus olhos lacrim ej aram , eu não m e achava forte. Tinha m edo de m uitas coisas, m as só pelo
fato de tentar e seguir em frente, m e fez conseguir ter m inha felicidade de volta.
— Eu só consegui porque tinha o apoio de vocês. Mesm o não sabendo de nada, nunca deixaram
de m e am ar. Bom , Lala, vou tom ar um banho e esperar pelo Lucas. Beij o.
Desliguei o telefone e fiquei sentada no sofá pensando em m inha vida, que tinha se transform ado totalm ente. Meu coração estava cheio de am or, m inha alm a leve. Eu tinha o hom em m ais m aravilhoso
do m undo, um bebê a bordo e um a fam ília linda que m e am ava incondicionalm ente.
Levantei-m e e fui para o banheiro, tom ei um a chuveirada relaxante e dem orada. Cam inhei nua
para o quarto e parei em frente ao espelho enorm e que tinha ao lado do guarda-roupa.
Observei m eu reflexo com cuidado. Estava com um m ês de gestação, claro, não tinha nada
aparecendo, m as podia m uito bem im aginar. Certo? Fechei os olhos e coloquei as m ãos sobre m inha
barriga e senti um am or em anando de m im , que m e fez sorrir.
Visualizei-m e de sete, oito m eses... E depois com um bebê lindo em m eus braços. Não via a
hora de isso acontecer.
Algum as pessoas, tenho certeza, poderiam achar cedo dem ais para serm os pais. Novos? Talvez.
Porque nosso relacionam ento havia apenas com eçado... Mas o am or que Lucas e eu tínham os um pelo
outro ultrapassava as barreiras do tem po. Sofrem os “separados” por um período m uito longo.
Relacionam o-nos com outras pessoas. Vivem os j untos, m as não de verdade. E não havia alegria
m aior do que saber que o fruto desse am or tão intenso e im pulsivo estava por vir. Nós am ávam os
nosso filho com todo o nosso ser, assim com o sem pre foi conosco.
Desde o início não pensam os, apenas agim os. Tivem os m om entos de tristeza absoluta que achei não ter j eito, perdia as esperanças de poder am á-lo sem m oderação, m as a felicidade por um gesto
sim ples com pensava a dor e voltava a esperar pelo m elhor. Apenas pelo sim ples fato de cada um
existir.
Ser am ada e valorizada, m esm o que em parte desse tem po tenha sido apenas com o am iga, foi o
ingrediente principal para m e tornar quem eu sou. Foi o pontapé inicial para a m inha superação.
Já sentia um a conexão com aquela pessoa que ainda nem conhecia, o bebê que crescia em m im
era resultado de um am or tão grande que transbordou, um pedacinho m eu e do Lucas que se
transform aria em um ser diferente e lindo. Meu filho seria am ado incondicionalm ente. Não, esse
acontecim ento não foi cedo nem por im pulso. Mas na hora certa, porque foi concebido no m om ento
em que m ais nos am am os.
Senti um par de m ãos quentes e fortes por cim a das m inhas. Abri um sorriso e senti seu perfum e.
Eu estava tão perdida em m eus pensam entos que nem notei sua aproxim ação. Abri os olhos e encarei
aquele am or que sem pre via refletido em seus olhos verdes.
Durante anos eu procurei um am or sublim e, e quando o encontrei quase o perdi. Lem brar-m e
disso fazia um nó se form ar em m inha garganta, m as eu não deixava essa depressão tom ar conta de
m im . Sabia o quanto ele m e am ava.
— Há quanto tem po você estava m e observando?
Lucas sorriu e encostou o queixo em m eu om bro. Estávam os de frente para o espelho, nos
encarando.
— O suficiente para perceber o quanto eu sou sortudo de ter um a m ulher m aravilhosa com o
você, e um bebê tam bém lindo a cam inho. Você tem noção da m inha felicidade e quão grande é m eu
am or por vocês?
Sorri am plam ente, ele sem pre dizia coisas assim . Em ocionava-m e saber com o eu o fazia feliz. E
a recíproca era verdadeira.
— Que bom , pois nós tam bém am am os dem ais o papai. — Me virei, enlaçando-o pelo pescoço.
Ele ainda vestia a roupa branca do hospital e tive que m e segurar para não levá-lo pra cam a e
esquecer qualquer j antar na casa do Alberto. Eu j á estava nua m esm o, seria bem fácil. Mas tínham os
que ir, tinha certeza que se não aparecêssem os a Lay la estaria batendo na nossa porta logo, a m ulher
tinha ficado im possível com os horm ônios da gravidez. Coitado do Bruno!
— Tem os que ir para a casa do Alberto. Se não fosse isso, te j ogaria naquela cam a.
— Hum ... Dizem que a libido das m ulheres aum enta na gravidez. Será que é verdade? —
Mordeu os lábios sensualm ente, fazendo-m e latej ar em antecipação.
— Am or, se for verdade você tá perdido. Pode tom ar uns energéticos para aguentar o tranco, tem os oito m eses pela frente. E toda vez que te vej o todo gostoso tenho vontade de devorar cada
pedacinho.
E era verdade, Lucas era um a tentação de hom em . Com um a barba rala e um sorriso travesso no
rosto, ele sem pre m e deixava em cham as.
— Tem os que ir nesse j antar m esm o? Creio que vai ser um caos. — Riu gostosam ente. — Você
tinha que ver a confusão que teve na porta do hospital. Alberto não queria Ana próxim a a ele, m as
sabe com o ela é. Turrona, teim osa e orgulhosa. O cara está ferrado!
— Sério? E será que ela vai estar no j antar?
Lucas deu de om bros e encarou m eus lábios entreabertos.
— Agora só um a coisa m e interessa. Seus lábios quentes nos m eus.
Beij ou-m e de um j eito distinto, parecendo esfom eado. Mas, apesar de nos beij arm os tanto, era
sem pre novo e diferente. Sua língua acariciava a m inha e sugava vorazm ente. Senti m eu corpo
form igar. Decidi que talvez um atraso de algum as horas não fizesse m al. O puxei pela gola da cam isa
polo e o arrastei até a cam a. Joguei-m e de costas e Lucas caiu por cim a.
Assustado, ele separou-se de m im , apoiando os cotovelos na cam a.
— Você é louca, e se eu am assei o bebê?
— Não am assou nada, agora cala a boca e faz am or com igo!
Ele sorriu e olhou-m e com m alícia, m ordendo a boca com gosto.
— Seu desej o é um a ordem !
Nos am am os por m eia hora, sem pausa. Não conseguia resistir estar tão perto e não poder tê-lo
dentro de m im , tocando e am ando. Correm os para a casa de Alberto, pois estávam os atrasados. E
provavelm ente Lay la e Bruno j á estavam lá. Apertam os a cam painha com um sorriso culpado no
rosto. E im agina qual foi a m inha surpresa ao ver quem atendeu a porta com roupa inform al, descalça
e com os cabelos em um rabo de cavalo: m inha irm ã Ana Luiza, que nos olhava com aquele j eito
durão e sarcástico dela.
— O que você está fazendo aqui, Ana? — disparei de um a vez.
Ela bufou e revirou os olhos.
— Nossa, você não tem outra coisa pra perguntar? Bruno disse a m esm a coisa. O que é tão
surpreendente assim ?
Arqueei as sobrancelhas, com o se dizendo: Sério que você não sabe? Olhei para o Lucas
pedindo um a aj uda, m as ele apenas deu de om bros.
— Ah, cara. Já vi que vou ter que m e explicar pra cada um de vocês. Mas que gente chata! Bem ,
o m ala do Alberto vai precisar de um a enferm eira, e aqui estou eu. Tirei férias e vou aj udá-lo.
— Sei... Tudo bem . O pessoal j á está aí, né?
Ela assentiu e nos deu passagem , cam inham os até a sala onde tinha várias caixas de pizza na
m esa, Lay la e Bruno estavam ao lado de Alberto. Larissa e Maurício com os gêm eos e m am ãe acariciando a barriguinha que m inha cunhada ostentava.
Ana passou por nós e sentou de frente para Alberto. Cum prim entam os a todos e fui logo m e
servindo de um a fatia de pizza calabresa e de quatro queij os. Hum , delícia.
— Então Sá, j á fez sua prim eira ultrassonografia? — Lay la perguntou sorrindo.
— Não, está m arcada para a sem ana que vem . Não vej o a hora. Sei que ainda é pequenino, m as
estou ansiosa.
Ela sorriu am plam ente e olhou para o m arido. Bruno pegou seu queixo, o apertando levem ente e
deu um selinho em seus lábios. Depois se virou para nós, sorrindo com o um idiota.
— Bom , nós fizem os e conseguim os ver o sexo, ainda não é 100% certo, m as sentim os que está
correto.
Olhei com expectativa para eles e fiquei anim ada instantaneam ente, tudo bem que eu tam bém
desconfiava, porém com o iria saber?
— Fala logo, cara. Quero saber se serei padrinho de um a gatinha ou de um garotão — disse
Alberto levando um pedaço de pizza à boca.
Ana o encarou, fuzilando-o com os olhos.
— E quem disse que você será padrinho do m eu sobrinho?
Ele sorriu am plam ente e piscou. Caram ba, não sei com o m inha irm ã aguentava. Alberto tinha um
sorriso safado e era tão sedutor que aquele olhar poderia ser proibido.
— Não fique assim Ann baby, serei j unto com você. De algum a m aneira, nós estarem os j untos
no altar.
— Você é um babaca!
— E você, um a frígida.
Minha irm ã grunhiu e j á ia levantar com um a espátula na m ão. De onde ela tirou aquilo, m eu
Deus? Mas, antes de qualquer coisa, Bruno olhou para os dois repreendendo-os:
— Dá pra parar vocês dois? Que m erda, j á disse o que precisam para liberar essa tensão! E
sim , serão os dois padrinhos do m eu filho, assim com o Larissa e Maurício, Sabrina e Lucas. Então,
engulam essa m erda e se aturem — bufou, se sentando e m assageando a testa com o se assim se
acalm asse. Lay la sorriu am avelm ente e balançou a cabeça.
— Bem , nós terem os um a m enina.
Ficam os felizes com a notícia, e m eu palpite estava certo. Bruno teria um a m enina para cuidar,
seria bem engraçado vê-lo com um a filha adolescente. Mas ainda era m uito cedo, porém tenho
certeza que j á estaria tom ando providências para m anter os gaviões longe.
— Já escolheram o nom e? — disse Ana sorrindo.
Bruno abraçou Lay la dando um beij o em sua testa.
— Sim , Ângela, pois tenho certeza que será outro anj o em m inha vida.
Gente, onde iríam os im aginar que Bruno Petri, o garanhão da parada, ficaria com os quatro
pneus arriados por um a m ulher e agora viria m ais um a para deixá-lo babando. Alguns podiam achar esse cuidado todo pela Lay la m uita rasgação de seda, m as pra m im o que m eu irm ão tinha com a
esposa era lindo de se ver. Acho que falta no m undo hom ens com pletam ente apaixonados e que
dem onstrem isso, que deem carinho e atenção.
Ficam os m ais algum tem po, e senti m uita falta do Heitor. Nosso grupo sem ele era m uito vazio.
Seu sorriso sincero e doçura para com todos eram sim plesm ente encantadores. Segundo Alberto e
Bruno, Liz era a m elhor “neuro” da área e ficaria até que ele se recuperasse. Meu coração se encheu
de alegria por ter alguém para cuidar do ursinho. O cara era m uito sozinho e triste, um a am izade nova
seria boa para ele.
Despedim o-nos do pessoal e fom os para casa, eu estava cansada e só queria cam a. Lucas foi
dirigindo e acabou tom ando o cam inho m ais longo, não entendi, m as tam bém nem perguntei. Quando
percebi estávam os parados em frente à pracinha que rolou o nosso prim eiro beij o. Lucas desligou o
carro e virou-se para m im .
— Lem bra-se da prim eira vez que viem os aqui?
Engoli em seco e assenti. Aquele dia eu tinha j ogado aquela vaca dentro da piscina e saí com o
um a louca, acabam os parando na praça e quase transam os em um dos bancos.
— Sim , foi nosso prim eiro beij o. Com o ia esquecer?
Ele sorriu e levou a m ão até m eu rosto, acariciando carinhosam ente com o polegar.
— Aquele dia eu tive que m e segurar para não te possuir naquele banco. Se eu tivesse insistido,
você teria cedido. E o que teria sido de nós? Será que teríam os ficado j untos? Ou você j am ais m e
perdoaria por não ter esperado seu tem po? — Segurou m eu queixo, pois tinha abaixado a cabeça ao
lem brar aqueles m om entos angustiantes que sentia com o se m eu coração tivesse sido arrancado do
m eu corpo. — Olha pra m im Sá, eu am o você. Te am ei desde a prim eira vez que a vi. Já te disse
isso. E pra m im aquele beij o foi o m ais gostoso que provei. Sabe, eu sonhei com ele por anos
consolando-m e por não ter m ais. Foi o que m e fez seguir em frente e continuar te am ando porque
precisava de m ais, pois tinha esperanças de provar sua boca novam ente.
— Eu teria m esm o m e entregado a você naquela noite. Um a névoa tom ou conta de m im naquele
m om ento e m e esqueci de tudo, m as depois em casa m e senti absurdam ente ridícula. Ainda tinha
feridas abertas que sangravam sem pre. E por isso te dei aquele fora na últim a vez, por isso não podia
deixá-lo tentar m ais, pois eu cairia em seus braços e não sabia se te odiaria ou a m im m esm a. Tinha
que ter tem po. E m esm o sofrendo e m orrendo de raiva de você, no fundo eu era agradecida por ter
respeitado essa decisão.
Ele suspirou e sorriu triste.
— Se eu soubesse não teria feito a m etade das m erdas que fiz. Nunca quis te m agoar. Mas eu tam bém fico feliz por não ter sido precipitado. Acho que tudo aconteceu no tem po certo,