Impulso
Capítulo 3
— Você não m e deu tem po de m e arrepender, Lucas. Se eu quis ou não, nem im porta m ais. Eu
não quero m ais isso. — Gesticulou entre nós com o dedo. — Tô fora.
E saiu em disparada pra dentro de casa, enquanto eu fiquei estático. O que ela quis dizer com
aquilo? Com o assim eu não dei tem po? Sabrina m e recusou m esm o sabendo o que eu sentia, e queria
dela. E em quatro anos não deu indicação nenhum a de ter se arrependido. Sem pre m e tratou com o um
am igo e fazia piadinhas constantes das garotas que eu saía. Mas se eu fosse forçar m inha m ente,
desde que com ecei a residência no hospital e aum entou o assédio de m ulheres, ela ficou estranha.
Ficava nervosa e chateada.
Será que ela estava pronta para ceder? Será que tinha visto que fom os feitos para ficarm os
j untos? E eu fui idiota o bastante para não perceber os sinais.
E queria sair da m inha vida? Tão rápido? Sem ao m enos se explicar? Ela estava enganada se eu
iria deixar assim . Não m esm o!
Saí do m eu estado catatônico e entrei na casa à sua procura. Ela ia ver quem era teim oso nessa
história.
CAPÍTULO 3
Sabrina
Quando eu o vi no palco com Lay la, o m eu coração acelerou. Idiota traidor. Aquela voz rouca
inebriava m eus sentidos, era com o um entorpecente. Enquanto m il coisas passavam pela m inha
cabeça, parecia que o m eu Lucas antigo estava de volta, porque ele sem pre ficava lindo ao lado da
irm ã. Acho que por isso consegui aguentar todos esses anos m orando na m esm a casa. Apesar dos
m om entos esporádicos, ele não era exatam ente o m esm o hom em . Só que agora tive um vislum bre
dele e tinha certeza que ficaria guardado para sem pre em m im .
Tive que sair em disparada quando o vi descendo do palco, não queria que m e visse no estado
em que m e encontrava. Eu era m uito orgulhosa para adm itir que o episódio no j ardim havia m e
m achucado dem ais.
Então ele veio e colou seu corpo bem próxim o ao m eu, fiquei tensa. A m inha prim eira reação
era pular em seu colo, enlaçar m inhas pernas em seus quadris e beij ar aquela boca gostosa que
provei apenas um a vez em um deslize. Com o fui idiota em negar tudo o que Lucas tinha a m e
oferecer, porque ele havia sido o único que eu estaria disposta a abrir m eu coração depois do fiasco
com m eu ex e, m esm o assim , m e fechei e o perdi. E j á era tarde dem ais. Muita coisa rolou. Muita
m erda se passou. Odiava adm itir, m as no fundo ainda estava quebrada pelo que Rick m e fez.
Ele parecia confuso com a m inha reação. Eu tinha m inhas dúvidas quanto à inteligência do
Lucas. Com o não havia percebido todos esses anos o m eu interesse? Ou será que ele era tão orgulhoso quanto eu para não dar o braço a torcer? Só que eu não ficaria ali para descobrir. Era
doloroso dem ais olhar em seus olhos e im aginar que há pouco estavam fixados em outra m ulher.
Acho que nunca m e esqueceria do que quase presenciei.
Entrei em disparada depois de soltar que não viveria m ais com ele. Não levou m uito bem , com o
eu previa, m as não tinha alternativa.
Estava na frente do m eu antigo quarto quando senti um a m ão forte segurando m eu braço. Antes
m esm o de olhar pra trás, j á sabia que era ele. Seu toque estava gravado a ferro em m im . Am aldiçoei-
m e por ser tão desequilibrada quando Lucas estava envolvido.
Arrastou-m e para um quarto qualquer fechando a porta logo atrás de si. Encostou-m e à parede e
fixou seus olhos verdes nos m eus. Sua expressão era de raiva e confusão. Prendi a respiração, era
difícil vê-lo daquela m aneira. E podia parecer idiotice m inha, m as um m edo repentino assolou m eu
coração. Minhas pernas ficaram bam bas e cairia se ele não estivesse tão próxim o.
— Você não faz isso com igo, Sabrina! Solta um a bom ba dessa e vai em bora com o quem não
quer nada?
Não queria responder, sabia que iria acabar falando dem ais, com o antes. Deveria ter ficado em
silêncio, não era bom que ele soubesse da m inha fraqueza. Tentei sair, m as ele prendeu as duas m ãos em m eus pulsos prendendo-os com força na parede, porém não chegavam a m achucar. Só m e senti
incom odada por estar presa, essa sensação não era boa para m im .
— Me deixa sair, Lucas! — Desviei o olhar. Não aguentaria encará-lo por m uito tem po sem
expor m eus sentim entos.
— Não sem você m e dizer o que está acontecendo. Por que quer ir em bora? Você não pode m e
deixar.
Era m uita audácia ele exigir um a coisa dessas depois de esfregar cada m ulher que levava pra
cam a na m inha cara. Mas com o um a idiota que sem pre fui, vacilei um pouco ao seu tom sofrido.
— Com o não? Aliás, nós nunca estivem os j untos m esm o... Som os apenas am igos que dividem a
casa para evitar custos excessivos.
Lucas estreitou os olhos e aproxim ou seu rosto do m eu, m uito perto para a m inha sanidade
m ental.
— Você sabe que não som os apenas isso. — Encostou seu quadril na m inha barriga, deixando
evidente o quanto m e desej ava. — Não sei por quanto tem po você conseguiu esconder isso, Sabrina.
Mas se você não fosse tão cabeça-dura teríam os algo há m uito tem po.
— Rá, com o se eu fosse querer sobras. Você pegou m etade do hospital e ainda m ais um pouco
da cidade. Conseguiu ser m ais galinha que o Alberto.
Ele sorriu de lado, desdenhoso.
— Alberto saiu de linha há quatro anos quando tom ou um a decisão. Mas não vam os falar dele...
Quer dizer que está com cium inho?
— Idiota!
Tentei m e desvencilhar e soltar as m inhas m ãos que estavam presas, m as era im possível. Ele
tinha um aperto forte e possessivo. Por m ais que eu odiasse adm itir, m esm o sendo a m im , aquilo
estava m e excitando. O que não era natural, m eus relacionam entos eram com caras fáceis de levar e
eu estava sem pre no com ando. Não costum ava transar com qualquer um , tive encontros esporádicos,
m as de repente j á não m e satisfazia, era com o se cansasse de estar sem pre à frente. Nunca baixei a
guarda, exceto para o hom em furioso e excitante que segurava m eus pulsos.
— Com o ousa insinuar que eu quero algo de você, Lucas? É m uito pretensioso. Não, você não é
nada im portante. Será que ficou claro agora?
O babaca teve a audácia de sorrir.
— Você não vai se safar dessa vez, Sabrina. Fiquei um a porra de quatro anos pulando de galho
em galho por sua culpa. Não queria nenhum a daquelas m ulheres. Só você m e faz ficar duro com o
estou agora. Eu era um idiota ingênuo por ter acreditado em tudo que você disse naquele dia, m as não
sou m ais. A experiência desses anos m e fez bem . Sei quando você está m entindo, suas pupilas se
dilatam e seus olhinhos perdem o brilho lindo. — Aproxim ou os lábios roçando levem ente em m inha
boca. — Não serei m ais um tolo. Você vai ser m inha, custe o que custar!
Um a im agem piscou em m inha m ente: Nosso prim eiro beij o, anos atrás. Foi em um a saída louca
quando eu j oguei aquela vadia na piscina, Lucas veio atrás de m im com essa m esm a atitude de
hom em das cavernas. Eu não resisti e foi explosivo, se eu não estivesse tão perturbada na época teria
percebido que só ele era capaz de fazer aquele fogo todo acender em m im .
Ofeguei e fechei os olhos tentando m e controlar para não atacá-lo com o um a louca. Meu peito
subia e descia com a respiração rápida. Lucas não se m oveu um m ilím etro, estava com a boca
próxim a à m inha e tinha certeza que aqueles olhos verdes que incom odava m eu sono estavam abertos
e atentos a cada reação que eu tinha, resolvi atacar. Era a m elhor arm a.
— Com o j á disse, eu não quero resto. Sobras não são para m im . Se eu quisesse isso, eu o teria
tido aquele dia em que estava bêbado há uns m eses atrás, quando você veio com um papinho m eloso
querendo transar no sofá. Não, Lucas. Eu m ereço m ais que você.
Com o obj etivo atingido, senti a pressão em m eus pulsos aliviarem . Não ousei abrir os olhos,
sabia o que veria ali. Ele não gostava das vezes em que chegava bêbado, ficava extrem am ente
envergonhado no dia seguinte.
E aquele dia não foi diferente. Quis saber tudo que aconteceu logo que acordou, eu só fingi que estava tudo bem . Nada de m ais. O que era longe da realidade, nessas horas ele ficava alegre e
falante. E deixou escapar o quanto m e queria. Tive que reunir todas as m inhas forças para não ceder
às investidas bêbadas, m as m uito eficazes de m e levar pra cam a. Confesso que fiquei tentada, m as
sabia que no dia seguinte ele não se lem braria.
E, claro, o adicional de dizer que não queria sobras e insinuar que ele era um resto, m agoou seu
orgulho. Ainda de olhos fechados senti-o se aproxim ando de novo. Seu hálito fez cócegas em m eu
pescoço quando ele se inclinou para falar no m eu ouvido:
— Não adianta querer m e atingir, Sabrina. Por agora você fica livre. Mas eu vou tê-la, custe o
que custar. Eu espero o tem po que for.
Soltou-m e subitam ente e saiu batendo a porta. Eu desci pela parede e sentei no chão tentando
colocar m eus sentim entos em ordem . Estava m uito confusa. Meu coração batia acelerado, e m eu
corpo todo trem ia. Eu não entendia o que ele queria, m as eu não seria m ais um a de suas conquistas.
Que eu iria m e m udar j á estava certo, m as tinha que ter coragem de dizer adeus à sua am izade
tam bém . Não seria fácil. Depois de tanto tem po era rotina vê-lo todos os dias só de cueca boxer
tom ando café pela m anhã, m esm o que fosse torturante.
Sorri tristem ente ao lem brar as vezes que ficam os batendo papo até quase m eio-dia, sem perceber que ainda estávam os do m esm o j eito que acordam os. Perder essas coisas era o que doeria
m ais. Lucas acabou sendo m eu porto seguro, algo que aliviava toda a dor que havia dentro de m im .
Mas não podia m ais viver assim , era doloroso dem ais. Am ar e não ser correspondida é m uito
ruim .
Fiquei m ais um tem po no chão e notei que na verdade era o m eu antigo quarto, onde um dos
m om entos m ais difíceis da m inha vida aconteceu. Lucas não sabia o que havia ocorrido com igo. Na
época foi horrível, m as aprendi a lidar. Não conseguia perm anecer m uito tem po naquele quarto.
Levantei-m e e cam inhei em direção à porta, com um suspiro virei a m açaneta e notei a casa
silenciosa.
Do lado de fora eu sabia que m e esperavam fam iliares querendo conversar e m atar a saudade, e
outras pessoas im portantes que se preocupavam com igo. Mas acim a de todos estaria o hom em que
m exia com m eu coração e m inha alm a. Não tinha certeza se conseguiria resistir por m uito tem po.
Andei devagar pela casa retardando ao m áxim o ter que encontrar seus olhos novam ente. Já na
sala pude escutar os burburinhos das pessoas na festa. Subitam ente a porta se abriu e Ana entrou
bufando com Alberto em seu encalço, com cara de cachorro pidão. Ele sem pre m antinha esse
sem blante perto dela.
Bem , parecia que certas pessoas tinham m ais problem as que eu. Não entendia o m otivo de todo
esse rebuliço. Minha irm ã devia ter um a teim osia de ferro, porque eram m ais de dez anos resistindo
às investidas dele. Quatro anos pra cá elas se intensificaram de um a m aneira absurda, pois Alberto
costum ava ficar plantado na porta do hospital em que Ana trabalhava só pra vê-la sair. Chegava a ser
hilário vê-lo assim , o todo pegador se arrastando por um a m ulher.
— Cara, eu j á te disse. Se quiser dançar, pega um a vassoura. São iguais àquelas “varetas” que
você costum a sair m esm o... — Ana parou com as m ãos apoiadas no balcão da cozinha, de costas pra
ele, m as pude ver que fechou os olhos respirando fundo.
Eles não tinham m e visto, não que eu quisesse fuxicar, m as se eu saísse am bos poderiam ficar
envergonhados por ter presenciado algo íntim o. Então m e encostei no canto da sala e esperei
term inarem o arranca rabo de sem pre.
Alberto se aproxim ou, m as não tocou m inha irm ã.
— Larga de ser teim osa, Ana. Eu quero dançar com você, nada m ais j usto, eu sou o padrinho e
você é a m adrinha. Qual o problem a?
Ela se virou subitam ente, de onde eu estava não dava pra ver m uito bem , m as eu apostava que
estava m ordendo a boca de raiva. Era um a m ania que tinha.
— O problem a é você, seu cafaj este. Eu não quero que você m e toque.
Ele sorriu, debochado.
— Você gostava quando eu te tocava.
Pude perceber que Ana estava nervosa, ela se inclinou para trás tentando fugir da abordagem
dele, m as estava presa. Parecia um a porcaria de um déjà vu.
— Eu era um a idiota. Não quero você perto de m im nunca m ais. Tenho noj o de você, não sei
onde você andou se esfregando, m uito m enos com quem .
O sem blante do Alberto se fechou e ele estreitou os olhos se aproxim ando da m inha irm ã.
— Faz m uito tem po, Ana Luiza. Eu não sou m ais um m oleque, j á te pedi perdão m il vezes, m as
você parece não ouvir. Eu ainda te am o da m esm a m aneira que na época em que estávam os j untos.
Mas vai chegar um a hora que vou m e cansar e quando acontecer, vai dar m erda. Quando tom o um a
decisão definitiva, j á era.
— Eu vou adorar, pelo m enos ficarei livre de você — Ana tentava soar firm e, m as só quem a
conhecia bem notaria o vacilo em sua voz quando não estava certa do que dizia. E infelizm ente para
ela, Alberto era um a dessas pessoas.
— Aham , sei... Continue dizendo isso até você acreditar. Mas agora nós vam os dançar a porra
da m úsica, e você vai estar quietinha. Cansei de brigar. Se não estiver lá fora em dez m inutos, eu
venho te buscar nem que for pelos cabelos.
Ele saiu e Ana ficou ofegante. Uau, eu nunca vi o hom em daquele j eito. Achei que m inha irm ã
iria sair quebrando as coisas, histérica. Mas fiquei surpresa com sua reação. Ela sorriu discretam ente
e abaixou a cabeça. Achando que estava sozinha, levou as m ãos ao coração e respirou fundo, se
afastou da bancada e foi andando devagar em direção à porta da cozinha. Antes de abrir a m açaneta,
fechou a cara.
Que m erda!
Eu nem ia tentar entender aqueles dois, m inha vida j á era bem com plicada. Saí e encontrei
Alberto e Ana, lado a lado. Am bos estavam com a cara fechada e pareciam desconfortáveis. Se eu
não tivesse presenciado a atitude contraditória da m inha irm ã ia ficar até com pena, m as depois
daquilo, nem sabia o que pensar.
Avistei Bruno se aproxim ando com seu terno preto, lindo. Meu irm ão parecia m uito feliz. Eu não
podia nem im aginar sua reação quando soubesse que seria pai.
— Sá, você vai ter que dançar com o Lucas.
Legal, era só o que m e faltava.
— Bruninho, m eu irm ão. Será que não dá pra ser com o Heitor? Ele tam bém foi padrinho. Bota
o Lucas com outra, por favor?
Ele torceu a boca e fez um a careta.
— Ok, ele vai m e m atar, m as eu sei com o é ruim pra você estar perto dele.
Meu irm ão se via em um a sinuca de bico porque, além de ser cunhado dele, os dois tinham se tornado grandes am igos. Após todos saberem que ele tinha salvado a vida do irm ão da sua am ada,
vim os com o a am izade entre am bos se intensificara. Então eu estava realm ente grata por pensar em
m im acim a de tudo.
— Obrigada!
— Beleza, vai com eçar em cinco m inutos, o Heitor tá perto do DJ. Ele tá louco pra m exer no
bar. Eu disse que nada de trabalho, m as o hom em não para quieto.
Todos tinham se tornado bons am igos. Heitor cativava com seu j eito educado e gentil. O hom em
parecia um bad boy, m as parava por aí. Eu o cham ava de ursinho. E só a m im era perm itido esse
privilégio. Ele dizia que eu parecia um a boneca com os olhos azul-clarinhos.
Sorri e fui à procura do m eu par. Ele estava encostado na parede com um copo na m ão e
olhando a m ultidão. Eu sem pre o notava recluso, quieto. Nunca o vi com ninguém . Não entendia,
Heitor era lindo e sexy. Eu sabia que tinham m uitas m ulheres no Beer loucas para darem o bote,
porém não dava atenção a nenhum a delas. A única pessoa que eu sabia com certeza que ele havia
saído era Elisa, a garçonete, m as tam bém foi casual, acabou no m esm o dia que aconteceu. Com
certeza tinha encontros esporádicos, nada perm anentes.
Heitor era m isterioso e triste. Não sabia o que poderia ter acontecido, m as devia ser m uito sério
para o hom em carregar tanto pesar em suas costas.