Impulso

Gisele Souza · Capítulo 4 de 47

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Impulso

Capítulo 3

— Você não m e deu tem po de m e arrepender, Lucas. Se eu quis ou não, nem im porta m ais. Eu

não quero m ais isso. — Gesticulou entre nós com o dedo. — Tô fora.

E saiu em disparada pra dentro de casa, enquanto eu fiquei estático. O que ela quis dizer com

aquilo? Com o assim eu não dei tem po? Sabrina m e recusou m esm o sabendo o que eu sentia, e queria

dela. E em quatro anos não deu indicação nenhum a de ter se arrependido. Sem pre m e tratou com o um

am igo e fazia piadinhas constantes das garotas que eu saía. Mas se eu fosse forçar m inha m ente,

desde que com ecei a residência no hospital e aum entou o assédio de m ulheres, ela ficou estranha.

Ficava nervosa e chateada.

Será que ela estava pronta para ceder? Será que tinha visto que fom os feitos para ficarm os

j untos? E eu fui idiota o bastante para não perceber os sinais.

E queria sair da m inha vida? Tão rápido? Sem ao m enos se explicar? Ela estava enganada se eu

iria deixar assim . Não m esm o!

Saí do m eu estado catatônico e entrei na casa à sua procura. Ela ia ver quem era teim oso nessa

história.

CAPÍTULO 3

Sabrina

Quando eu o vi no palco com Lay la, o m eu coração acelerou. Idiota traidor. Aquela voz rouca

inebriava m eus sentidos, era com o um entorpecente. Enquanto m il coisas passavam pela m inha

cabeça, parecia que o m eu Lucas antigo estava de volta, porque ele sem pre ficava lindo ao lado da

irm ã. Acho que por isso consegui aguentar todos esses anos m orando na m esm a casa. Apesar dos

m om entos esporádicos, ele não era exatam ente o m esm o hom em . Só que agora tive um vislum bre

dele e tinha certeza que ficaria guardado para sem pre em m im .

Tive que sair em disparada quando o vi descendo do palco, não queria que m e visse no estado

em que m e encontrava. Eu era m uito orgulhosa para adm itir que o episódio no j ardim havia m e

m achucado dem ais.

Então ele veio e colou seu corpo bem próxim o ao m eu, fiquei tensa. A m inha prim eira reação

era pular em seu colo, enlaçar m inhas pernas em seus quadris e beij ar aquela boca gostosa que

provei apenas um a vez em um deslize. Com o fui idiota em negar tudo o que Lucas tinha a m e

oferecer, porque ele havia sido o único que eu estaria disposta a abrir m eu coração depois do fiasco

com m eu ex e, m esm o assim , m e fechei e o perdi. E j á era tarde dem ais. Muita coisa rolou. Muita

m erda se passou. Odiava adm itir, m as no fundo ainda estava quebrada pelo que Rick m e fez.

Ele parecia confuso com a m inha reação. Eu tinha m inhas dúvidas quanto à inteligência do

Lucas. Com o não havia percebido todos esses anos o m eu interesse? Ou será que ele era tão orgulhoso quanto eu para não dar o braço a torcer? Só que eu não ficaria ali para descobrir. Era

doloroso dem ais olhar em seus olhos e im aginar que há pouco estavam fixados em outra m ulher.

Acho que nunca m e esqueceria do que quase presenciei.

Entrei em disparada depois de soltar que não viveria m ais com ele. Não levou m uito bem , com o

eu previa, m as não tinha alternativa.

Estava na frente do m eu antigo quarto quando senti um a m ão forte segurando m eu braço. Antes

m esm o de olhar pra trás, j á sabia que era ele. Seu toque estava gravado a ferro em m im . Am aldiçoei-

m e por ser tão desequilibrada quando Lucas estava envolvido.

Arrastou-m e para um quarto qualquer fechando a porta logo atrás de si. Encostou-m e à parede e

fixou seus olhos verdes nos m eus. Sua expressão era de raiva e confusão. Prendi a respiração, era

difícil vê-lo daquela m aneira. E podia parecer idiotice m inha, m as um m edo repentino assolou m eu

coração. Minhas pernas ficaram bam bas e cairia se ele não estivesse tão próxim o.

— Você não faz isso com igo, Sabrina! Solta um a bom ba dessa e vai em bora com o quem não

quer nada?

Não queria responder, sabia que iria acabar falando dem ais, com o antes. Deveria ter ficado em

silêncio, não era bom que ele soubesse da m inha fraqueza. Tentei sair, m as ele prendeu as duas m ãos em m eus pulsos prendendo-os com força na parede, porém não chegavam a m achucar. Só m e senti

incom odada por estar presa, essa sensação não era boa para m im .

— Me deixa sair, Lucas! — Desviei o olhar. Não aguentaria encará-lo por m uito tem po sem

expor m eus sentim entos.

— Não sem você m e dizer o que está acontecendo. Por que quer ir em bora? Você não pode m e

deixar.

Era m uita audácia ele exigir um a coisa dessas depois de esfregar cada m ulher que levava pra

cam a na m inha cara. Mas com o um a idiota que sem pre fui, vacilei um pouco ao seu tom sofrido.

— Com o não? Aliás, nós nunca estivem os j untos m esm o... Som os apenas am igos que dividem a

casa para evitar custos excessivos.

Lucas estreitou os olhos e aproxim ou seu rosto do m eu, m uito perto para a m inha sanidade

m ental.

— Você sabe que não som os apenas isso. — Encostou seu quadril na m inha barriga, deixando

evidente o quanto m e desej ava. — Não sei por quanto tem po você conseguiu esconder isso, Sabrina.

Mas se você não fosse tão cabeça-dura teríam os algo há m uito tem po.

— Rá, com o se eu fosse querer sobras. Você pegou m etade do hospital e ainda m ais um pouco

da cidade. Conseguiu ser m ais galinha que o Alberto.

Ele sorriu de lado, desdenhoso.

— Alberto saiu de linha há quatro anos quando tom ou um a decisão. Mas não vam os falar dele...

Quer dizer que está com cium inho?

— Idiota!

Tentei m e desvencilhar e soltar as m inhas m ãos que estavam presas, m as era im possível. Ele

tinha um aperto forte e possessivo. Por m ais que eu odiasse adm itir, m esm o sendo a m im , aquilo

estava m e excitando. O que não era natural, m eus relacionam entos eram com caras fáceis de levar e

eu estava sem pre no com ando. Não costum ava transar com qualquer um , tive encontros esporádicos,

m as de repente j á não m e satisfazia, era com o se cansasse de estar sem pre à frente. Nunca baixei a

guarda, exceto para o hom em furioso e excitante que segurava m eus pulsos.

— Com o ousa insinuar que eu quero algo de você, Lucas? É m uito pretensioso. Não, você não é

nada im portante. Será que ficou claro agora?

O babaca teve a audácia de sorrir.

— Você não vai se safar dessa vez, Sabrina. Fiquei um a porra de quatro anos pulando de galho

em galho por sua culpa. Não queria nenhum a daquelas m ulheres. Só você m e faz ficar duro com o

estou agora. Eu era um idiota ingênuo por ter acreditado em tudo que você disse naquele dia, m as não

sou m ais. A experiência desses anos m e fez bem . Sei quando você está m entindo, suas pupilas se

dilatam e seus olhinhos perdem o brilho lindo. — Aproxim ou os lábios roçando levem ente em m inha

boca. — Não serei m ais um tolo. Você vai ser m inha, custe o que custar!

Um a im agem piscou em m inha m ente: Nosso prim eiro beij o, anos atrás. Foi em um a saída louca

quando eu j oguei aquela vadia na piscina, Lucas veio atrás de m im com essa m esm a atitude de

hom em das cavernas. Eu não resisti e foi explosivo, se eu não estivesse tão perturbada na época teria

percebido que só ele era capaz de fazer aquele fogo todo acender em m im .

Ofeguei e fechei os olhos tentando m e controlar para não atacá-lo com o um a louca. Meu peito

subia e descia com a respiração rápida. Lucas não se m oveu um m ilím etro, estava com a boca

próxim a à m inha e tinha certeza que aqueles olhos verdes que incom odava m eu sono estavam abertos

e atentos a cada reação que eu tinha, resolvi atacar. Era a m elhor arm a.

— Com o j á disse, eu não quero resto. Sobras não são para m im . Se eu quisesse isso, eu o teria

tido aquele dia em que estava bêbado há uns m eses atrás, quando você veio com um papinho m eloso

querendo transar no sofá. Não, Lucas. Eu m ereço m ais que você.

Com o obj etivo atingido, senti a pressão em m eus pulsos aliviarem . Não ousei abrir os olhos,

sabia o que veria ali. Ele não gostava das vezes em que chegava bêbado, ficava extrem am ente

envergonhado no dia seguinte.

E aquele dia não foi diferente. Quis saber tudo que aconteceu logo que acordou, eu só fingi que estava tudo bem . Nada de m ais. O que era longe da realidade, nessas horas ele ficava alegre e

falante. E deixou escapar o quanto m e queria. Tive que reunir todas as m inhas forças para não ceder

às investidas bêbadas, m as m uito eficazes de m e levar pra cam a. Confesso que fiquei tentada, m as

sabia que no dia seguinte ele não se lem braria.

E, claro, o adicional de dizer que não queria sobras e insinuar que ele era um resto, m agoou seu

orgulho. Ainda de olhos fechados senti-o se aproxim ando de novo. Seu hálito fez cócegas em m eu

pescoço quando ele se inclinou para falar no m eu ouvido:

— Não adianta querer m e atingir, Sabrina. Por agora você fica livre. Mas eu vou tê-la, custe o

que custar. Eu espero o tem po que for.

Soltou-m e subitam ente e saiu batendo a porta. Eu desci pela parede e sentei no chão tentando

colocar m eus sentim entos em ordem . Estava m uito confusa. Meu coração batia acelerado, e m eu

corpo todo trem ia. Eu não entendia o que ele queria, m as eu não seria m ais um a de suas conquistas.

Que eu iria m e m udar j á estava certo, m as tinha que ter coragem de dizer adeus à sua am izade

tam bém . Não seria fácil. Depois de tanto tem po era rotina vê-lo todos os dias só de cueca boxer

tom ando café pela m anhã, m esm o que fosse torturante.

Sorri tristem ente ao lem brar as vezes que ficam os batendo papo até quase m eio-dia, sem perceber que ainda estávam os do m esm o j eito que acordam os. Perder essas coisas era o que doeria

m ais. Lucas acabou sendo m eu porto seguro, algo que aliviava toda a dor que havia dentro de m im .

Mas não podia m ais viver assim , era doloroso dem ais. Am ar e não ser correspondida é m uito

ruim .

Fiquei m ais um tem po no chão e notei que na verdade era o m eu antigo quarto, onde um dos

m om entos m ais difíceis da m inha vida aconteceu. Lucas não sabia o que havia ocorrido com igo. Na

época foi horrível, m as aprendi a lidar. Não conseguia perm anecer m uito tem po naquele quarto.

Levantei-m e e cam inhei em direção à porta, com um suspiro virei a m açaneta e notei a casa

silenciosa.

Do lado de fora eu sabia que m e esperavam fam iliares querendo conversar e m atar a saudade, e

outras pessoas im portantes que se preocupavam com igo. Mas acim a de todos estaria o hom em que

m exia com m eu coração e m inha alm a. Não tinha certeza se conseguiria resistir por m uito tem po.

Andei devagar pela casa retardando ao m áxim o ter que encontrar seus olhos novam ente. Já na

sala pude escutar os burburinhos das pessoas na festa. Subitam ente a porta se abriu e Ana entrou

bufando com Alberto em seu encalço, com cara de cachorro pidão. Ele sem pre m antinha esse

sem blante perto dela.

Bem , parecia que certas pessoas tinham m ais problem as que eu. Não entendia o m otivo de todo

esse rebuliço. Minha irm ã devia ter um a teim osia de ferro, porque eram m ais de dez anos resistindo

às investidas dele. Quatro anos pra cá elas se intensificaram de um a m aneira absurda, pois Alberto

costum ava ficar plantado na porta do hospital em que Ana trabalhava só pra vê-la sair. Chegava a ser

hilário vê-lo assim , o todo pegador se arrastando por um a m ulher.

— Cara, eu j á te disse. Se quiser dançar, pega um a vassoura. São iguais àquelas “varetas” que

você costum a sair m esm o... — Ana parou com as m ãos apoiadas no balcão da cozinha, de costas pra

ele, m as pude ver que fechou os olhos respirando fundo.

Eles não tinham m e visto, não que eu quisesse fuxicar, m as se eu saísse am bos poderiam ficar

envergonhados por ter presenciado algo íntim o. Então m e encostei no canto da sala e esperei

term inarem o arranca rabo de sem pre.

Alberto se aproxim ou, m as não tocou m inha irm ã.

— Larga de ser teim osa, Ana. Eu quero dançar com você, nada m ais j usto, eu sou o padrinho e

você é a m adrinha. Qual o problem a?

Ela se virou subitam ente, de onde eu estava não dava pra ver m uito bem , m as eu apostava que

estava m ordendo a boca de raiva. Era um a m ania que tinha.

— O problem a é você, seu cafaj este. Eu não quero que você m e toque.

Ele sorriu, debochado.

— Você gostava quando eu te tocava.

Pude perceber que Ana estava nervosa, ela se inclinou para trás tentando fugir da abordagem

dele, m as estava presa. Parecia um a porcaria de um déjà vu.

— Eu era um a idiota. Não quero você perto de m im nunca m ais. Tenho noj o de você, não sei

onde você andou se esfregando, m uito m enos com quem .

O sem blante do Alberto se fechou e ele estreitou os olhos se aproxim ando da m inha irm ã.

— Faz m uito tem po, Ana Luiza. Eu não sou m ais um m oleque, j á te pedi perdão m il vezes, m as

você parece não ouvir. Eu ainda te am o da m esm a m aneira que na época em que estávam os j untos.

Mas vai chegar um a hora que vou m e cansar e quando acontecer, vai dar m erda. Quando tom o um a

decisão definitiva, j á era.

— Eu vou adorar, pelo m enos ficarei livre de você — Ana tentava soar firm e, m as só quem a

conhecia bem notaria o vacilo em sua voz quando não estava certa do que dizia. E infelizm ente para

ela, Alberto era um a dessas pessoas.

— Aham , sei... Continue dizendo isso até você acreditar. Mas agora nós vam os dançar a porra

da m úsica, e você vai estar quietinha. Cansei de brigar. Se não estiver lá fora em dez m inutos, eu

venho te buscar nem que for pelos cabelos.

Ele saiu e Ana ficou ofegante. Uau, eu nunca vi o hom em daquele j eito. Achei que m inha irm ã

iria sair quebrando as coisas, histérica. Mas fiquei surpresa com sua reação. Ela sorriu discretam ente

e abaixou a cabeça. Achando que estava sozinha, levou as m ãos ao coração e respirou fundo, se

afastou da bancada e foi andando devagar em direção à porta da cozinha. Antes de abrir a m açaneta,

fechou a cara.

Que m erda!

Eu nem ia tentar entender aqueles dois, m inha vida j á era bem com plicada. Saí e encontrei

Alberto e Ana, lado a lado. Am bos estavam com a cara fechada e pareciam desconfortáveis. Se eu

não tivesse presenciado a atitude contraditória da m inha irm ã ia ficar até com pena, m as depois

daquilo, nem sabia o que pensar.

Avistei Bruno se aproxim ando com seu terno preto, lindo. Meu irm ão parecia m uito feliz. Eu não

podia nem im aginar sua reação quando soubesse que seria pai.

— Sá, você vai ter que dançar com o Lucas.

Legal, era só o que m e faltava.

— Bruninho, m eu irm ão. Será que não dá pra ser com o Heitor? Ele tam bém foi padrinho. Bota

o Lucas com outra, por favor?

Ele torceu a boca e fez um a careta.

— Ok, ele vai m e m atar, m as eu sei com o é ruim pra você estar perto dele.

Meu irm ão se via em um a sinuca de bico porque, além de ser cunhado dele, os dois tinham se tornado grandes am igos. Após todos saberem que ele tinha salvado a vida do irm ão da sua am ada,

vim os com o a am izade entre am bos se intensificara. Então eu estava realm ente grata por pensar em

m im acim a de tudo.

— Obrigada!

— Beleza, vai com eçar em cinco m inutos, o Heitor tá perto do DJ. Ele tá louco pra m exer no

bar. Eu disse que nada de trabalho, m as o hom em não para quieto.

Todos tinham se tornado bons am igos. Heitor cativava com seu j eito educado e gentil. O hom em

parecia um bad boy, m as parava por aí. Eu o cham ava de ursinho. E só a m im era perm itido esse

privilégio. Ele dizia que eu parecia um a boneca com os olhos azul-clarinhos.

Sorri e fui à procura do m eu par. Ele estava encostado na parede com um copo na m ão e

olhando a m ultidão. Eu sem pre o notava recluso, quieto. Nunca o vi com ninguém . Não entendia,

Heitor era lindo e sexy. Eu sabia que tinham m uitas m ulheres no Beer loucas para darem o bote,

porém não dava atenção a nenhum a delas. A única pessoa que eu sabia com certeza que ele havia

saído era Elisa, a garçonete, m as tam bém foi casual, acabou no m esm o dia que aconteceu. Com

certeza tinha encontros esporádicos, nada perm anentes.

Heitor era m isterioso e triste. Não sabia o que poderia ter acontecido, m as devia ser m uito sério

para o hom em carregar tanto pesar em suas costas.