Impulso
Capítulo 17
Ninguém ficaria im pune se as m agoasse.
O filho da puta que nos aguardasse!
CAPÍTULO 17
Sabrina
Depois de tudo o que sofri não conseguia dorm ir direito. Acordava assustada com pesadelos
horríveis daquele dia fatídico. Tinha vezes que m eu terror noturno era tão forte que não aguentava
ficar sozinha no quarto, saía para a varanda e olhava o am anhecer chegar. Tinha m edo que, se eu
fechasse os olhos, veria o rosto do Rick novam ente.
Contudo, após desabafar com Lucas e am á-lo a noite inteira, m eu coração estava leve. Dorm i
um sono tranquilo sem sonhos, bom ou ruim . Só que quando acordei e ele não estava lá, m e
desesperei por ter sido dem ais tudo que lhe contei. Minhas inseguranças vieram totalm ente de um a
vez só, até que vi um bilhete na cabeceira da cam a.
Com as m ãos trêm ulas, peguei o papel bem dobrado com m eu nom e na frente e li a seguinte
frase: Leia que você vai entender.
No papel tinha rabiscado a letra de um a m úsica de rock popular brasileira, que eu era fã: Só
Hoje, do Jota Quest. Meus olhos lacrim ej aram ao perceber o que ele queria m e dizer. Havia um
trecho sublinhado que fez m eu coração acelerar e paralisar ao m esm o tem po. “Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo”
Eu entendi, Lucas m e queria de qualquer j eito, de qualquer m aneira. As lágrim as desceram e eu
sorri. Não chorava de m edo ou tristeza, m as de um a alegria im ensa que tom ou conta do m eu peito.
Deu-m e um a vontade louca de pular e dançar e foi o que fiz. Vestia apenas a cam isa do m eu am ado e
fiquei de pé na cam a, pulei e gritei feliz com o um a m enina, coisa que há anos não era.
Depois dessa estripulia toda, caí deitada com os braços esticados e sorri para o teto. Apesar de
toda a m ágoa, ainda sentia um gosto de felicidade. Talvez seria possível, teríam os tem po.
O barulho da cam painha cham ou m inha atenção. Levantei e coloquei um short, não im aginava
quem poderia ser, j á que Lucas havia saído, então não poderia ir de qualquer j eito. Nem tinha ideia
onde ele poderia ter ido. Aliás, tinha sim . Só não queria pensar na reação do m eu irm ão. Cheguei à
porta rapidam ente e abri. Minha respiração parou ao ver Bruno com os om bros caídos e os olhos
verm elhos e inchados.
Não tive tem po de falar qualquer coisa porque fui arrebatada por um abraço forte e Bruno
soluçou com o rosto enfiado em m eus cabelos. Envolvi m eus braços em seu pescoço e deixei-o desabafar. Não sei se ele não se aguentava em seus pés, m as estava bem pesado, por isso acabei
sentada no chão com m eu irm ão m ais velho em m eu colo chorando com o um a criança.
Meus olhos se encheram de lágrim as, não pelo que eu sofri, pois j á tinha chorado o suficiente
por isso, m as ao ver m eu irm ão sofrendo por algo que m e aconteceu. Esse era um dos m eus m aiores
m edos. Ver a m inha fam ília triste por m inha causa.
Acariciei seus cabelos negros tão parecidos com os m eus. Quando percebi j á estava soluçando
e Bruno se agarrava às m inhas pernas, cada vez m ais forte. Não soube dizer quem consolou quem ,
m as apesar de toda a angústia, eu senti um a liberdade ao deixar tudo sair. Sabia que podia contar
com alguém , que se quisesse conversar ele estaria ali pra m im .
Abaixei-m e e sussurrei em seu ouvido:
— Não fique assim , irm ão, eu estou bem ! Por favor, não chore m ais.
Só que ele ainda continuou. Por uns bons dez m inutos perm anecem os na m esm a posição. Seu
pranto foi dim inuindo e Bruno levantou o rosto, m e observando. Engoliu em seco e passou a m ão
pela m inha bochecha.
— Você está bem m esm o? — Assenti. — Me diga por que escondeu isso todos esses anos,
Sabrina?
Desviei o olhar, envergonhada. Bruno se sentou à m inha frente e puxou m eu queixo, m e
encarando.
— Não m inta!
Pisquei algum as vezes pra tentar espantar a em oção que m e consum ia quando lem brava tudo.
Olhei pra fora, pois a porta perm aneceu aberta.
— Ele m e am eaçou, film ou tudo e disse que se eu contasse para alguém iria espalhar o vídeo na
internet. Eu não poderia suportar que vissem todo aquele horror.
— Mas existem advogados, Sabrina. Nós iríam os processá-lo por tudo que te fez. Aquele filho
da puta estaria preso agora. Im agina só. Ele pode ter feito isso de novo. Não quero que se sinta
culpada, m as em um a situação dessas esconder é a pior solução.
— Eu sei, você acha que não pensei nisso por todos esses anos? Mas quando estava recente eu
fiquei m uito abalada, não conseguia m e olhar no espelho sem lem brar o que aconteceu. E depois que
m elhorei o suficiente para viver, j á tinha passado m uito tem po. Com o ia provar?
— Entendo. Mas você podia ter nos contado antes. Não deve ter sido fácil guardar isso por
tanto tem po.
— Não foi, eu só contei ao Lucas porque não aguentava m ais m e esconder dele.
— Ele te m achucou?
— Claro que não, ele m e consertou!
Bruno sorriu tristem ente e se aproxim ou, m e abraçando m eio atrapalhado.
— Fico feliz por você ter alguém pra te apoiar. Muitas m ulheres não têm o apoio da fam ília e vivem com essa angústia por um a vida inteira. Algo tão forte e traum ático tem que ser colocado pra
fora, ficar guardando não pode ser bom . Saiba que sem pre estarem os prontos a te aj udar.
Em ocionei-m e por ter o apoio incondicional do m eu irm ão. Balancei a cabeça, concordando e
nos levantam os. Já ia fechar a porta quando vi o carro Lucas parando ao lado do Civic do Bruno.
Lay la desceu em disparada e veio correndo em direção a casa.
Alcançando-m e, ela m e abraçou apertado e carinhosam ente, transm itindo tanta paz do j eito que
só ela sabia. Abracei m inha cunhada, am iga e irm ã. E fechei os olhos. As lágrim as não vieram ,
estava m e sentindo am ada. Plenam ente!
Lay la se afastou e vi que seus olhos verdes, tão parecidos com os do irm ão, estavam cheios de
tristeza.
— Não fica assim , Lala. Eu estou bem .
Ela balançou a cabeça e se aproxim ou do m eu ouvido:
— Am o você, Sá. Saiba disso, ok?
Um nó se form ou em m inha garganta. Eu nunca fui m altratada ou senti falta de am or pela m inha
fam ília, m as, m esm o assim , ouvir quem se im porta com você em m om entos que precisam os, é um
bálsam o ao nosso coração.
Desviei o olhar da Lay la e vi o am or da m inha vida vindo em m inha direção. Ele sorriu e se
aproxim ou, m e abraçando. Fiquei um pouco envergonhada, não estava acostum ada a dem onstrar
intim idade perto da nossa fam ília. Contudo, Lucas parecia não se im portar nem um pouco.
Aproxim ou os lábios do m eu pescoço e m e deu um beij o m olhado.
— Viu o bilhete que lhe deixei m ais cedo? — Concordei com a cabeça. — E entendeu o que eu
quis dizer?
Afastei-m e e olhei em seus olhos.
— Entendi!
Lucas sorriu am plam ente e m e beij ou na boca. Deus, eu nunca ia m e cansar disso. Acabei
esquecendo que Bruno e Lay la estavam presentes e enlacei seu pescoço. Retribuí seu beij o na m esm a
intensidade, nossas línguas dançavam e se enrolavam . Seus lábios carnudos se m oviam nos m eus com
vontade, parecia que nunca seria dem ais. Poderia provar sua boca por um a eternidade. Muito cedo
ele se afastou e observei seu rosto corado. Nossa respiração estava acelerada. Estendeu a m ão
passando por m eu rosto.
— Você está linda, m inha princesa.
Sorri e olhei para os lados. Meu irm ão e m inha cunhada não estavam na sala. Corei
envergonhada por ter perdido o controle. Mas acho que quatro anos guardando tantos sentim entos
libertos de um a vez só fazia isso com a pessoa.
— Eles foram pra cozinha. Vem , Bruno quer falar conosco.
— Com o você sabe que foram pra cozinha?
— Porque ele disse. Você não ouviu?
Neguei e ele sorriu. Droga, eu ficava tão concentrada no Lucas que perdia a noção de tudo.
Bruno e Lay la estavam abraçados, encostados no balcão. Falavam baixinho e sorriam . Acho que
não nos perceberam , deviam ter o m esm o deslum bram ento um pelo outro com o eu e Lucas.
— Tem os boas lem branças aqui, né, Anj o? Sente falta?
— Às vezes, m as estou feliz onde você estiver, m eu garanhão.
Bruno estendeu a m ão e acariciou o rosto da esposa. Presenciar o am or e o carinho entre eles
era lindo. Perm aneciam apaixonados e felizes. Às vezes eram até inconvenientes...
Lucas pigarreou cham ando a atenção deles. Bruno se afastou da bancada e deu de om bros.
— Essa bancada traz m uitas lem branças, fazer o quê. Relem brar é viver.
Lay la ficou verm elha com o um pim então porque ainda se envergonhava com o j eito do m eu
irm ão, que não tinha m udado nem um pouco. Continuava arrogante e sarcástico.
— Ah, cara. Que m erda, m uita inform ação. — Lucas sorriu e se aproxim ou do banquinho se
sentando. — Agora tem os que conversar e decidir o que fazer.
Bruno assentiu se virando pra m im .
— Nós vam os atrás desse cara, Sabrina. Ele vai pagar por tudo.
— Mas e se acontecer algum a coisa com vocês?
— Com o assim , Sabrina? Nada pode acontecer conosco. Vam os pegar esse vídeo e destruir,
provavelm ente ele fez isso m ais vezes com outras pessoas e podem os denunciá-lo.
— Mas vocês podem ser presos. — Minha cabeça não estava captando o que eles diziam .
Minha visão estava construindo im agens de Lucas e Bruno tirando satisfações com as próprias m ãos.
E dando algum a coisa errada.
Lucas m e puxou pelo braço, fazendo com que m e sentasse em seu colo. Acariciou m eus cabelos
colocando algum as m echas atrás da orelha.
— Sabrina, não vam os fazer nada de m ais. Mesm o porque se acontecer algum a coisa com ele
perdem os a razão e não querem os isso, m as acho que um soco bem dado, o filho da puta m erece.
Tudo bem que vai ser difícil parar depois. Contudo, vai dar tudo certo. Pode confiar.
Olhando Lucas e Bruno percebi que as coisas poderiam ter sido diferentes anos atrás. Se eu
tivesse contado a eles não teria passado por tudo sozinha.
— Tudo bem , m as eu vou com vocês.
— O quê?! — Bruno se afastou dos braços de Lay la e se aproxim ou segurando m inhas m ãos,
fazendo m e levantar. — Você não está falando sério!
— Estou sim , eu quero j ogar fora tudo que esteve entalado na m inha garganta.
Lay la se aproxim ou do m arido e colocou um a m ão em suas costas.
— Deixa ela ir, Bruno. Sabrina precisa disso. Verdade?
Assenti e desviei m eu olhar para Lucas sentado ao m eu lado. Ele tinha a cabeça baixa e olhava
para o chão. Soltei das m ãos do Bruno e parei à sua frente, envolvi seu rosto e olhei em seus olhos.
— Que foi? Ficou chateado?
Ele negou com a cabeça e levantou os braços, m e envolvendo em um abraço forte e carinhoso.
— Só não quero que você sofra. E se você reviver tudo ao olhar para aquele desgraçado?
— Eu preciso! — falei com convicção. Às vezes, confrontar seus m edos é o m elhor tratam ento.
Lucas m e observou atentam ente e suspirou.
— Ok, m as se ele falar algum a gracinha tá fodido.
— Eu sei...
Ficam os m ais algum tem po em casa. Preparei café para todos e partim os logo em seguida.
Deixam os Lay la em casa, m esm o ela querendo nos acom panhar Bruno não achou saudável, pois
podia rolar m uito estresse e estando grávida não seria bom .
Com o só eu sabia onde Rick m orava, indiquei o cam inho. Estávam os em um silêncio pesado
dentro do carro. Ninguém se atrevia a falar. Quando Bruno estacionou em frente à casa do m eu ex-
nam orado quase perdi a coragem . As lem branças m e atorm entaram naquela hora. Estava quase
pedindo pra voltar quando a porta da frente se abriu e Rick saiu do m esm o j eito que m e lem brava:
arrogante e noj ento.