Impulso
Capítulo 29
— Senhor Petri, j á pode entrar — disse a recepcionista sorrindo.
Levantam o-nos e fom os até a sala que a recepcionista indicou. Bruno deu duas batidas na porta
e escutam os alguém respondendo de dentro da sala. Ele abriu e entrou.
Um hom em j ovem se levantou dando a volta na m esa para nos receber. Notei Sabrina parada no
lugar e olhei em seu rosto. Estava em basbacada. Depois hom ens que são óbvios quando veem m ulher
bonita. Ela só estava faltando babar no advogado. Estalei os dedos na sua frente e ela piscou
corando. Virei-m e e vi que o cara sorria.
— Ei, Bruno, quanto tem po, hein? Vej o que trouxe reforços. Prazer, sou o Dr. Alexandre Ferraz.
CAPÍTULO 29
Sabrina
Ao sair do elevador percebi que o lugar era de alto nível. Tudo de m uito bom gosto e arrum ado.
Aguardei ansiosa e nervosa para conhecer o advogado. E se ele m e j ulgasse de algum a form a? Meu
Deus, não via a hora que esse suplício term inasse logo.
Quando a recepcionista disse que podíam os entrar quase tive um ataque de ansiedade, se estava
assim por falar com o advogado que iria m e defender, im agina quando fosse dar depoim ento.
Quando adentram os na sala parei por um m om ento. O cara que vinha sorrindo em nossa direção
era lindo de viver, aquele tipo de hom em que te deixa em basbacada e sem reação: alto, forte, vestido em um terno bem feito e caro, cabelos castanhos, olhos azuis penetrantes e um sorriso safado. Acho
que era dele m esm o, porque não vi nenhum a m alícia em seu olhar. Quando percebi que Lucas estava
estalando os dedos na m inha frente, eu pisquei envergonhada por ter sido pega em flagrante.
— Ei, Bruno, quanto tem po, hein? Vej o que trouxe reforços. — Virou-se para nós e sorriu. —
Prazer, sou o Dr. Alexandre Ferraz.
Ele estendeu a m ão para o Bruno e o Lucas, e quando chegou a m inha vez j á havia m e
recuperado do choque inicial.
— Obrigado por nos receber Ferraz, essa é m inha irm ã Sabrina e seu nam orado Lucas, irm ão da
m inha esposa.
Cum prim entam o-nos com um aceno. O Dr. Ferraz colocou as m ãos na cintura e sorriu.
— Sem form alidades, por favor, nos conhecem os há tem pos. Sentem -se, vam os conversar.
Deu a volta na m esa, acom odando-se em um a cadeira revestida em couro preto. Lucas puxou a
cadeira pra m im e se sentou ao m eu lado.
— Então, pelo que o Bruno m e disse ao telefone seu caso aconteceu há quatro anos, e por isso o
crim e de estupro prescreveu. Com o vídeo podem os dar entrada ao processo de danos m orais. Mas
ele não será preso por isso, Sabrina — disse m e olhando nos olhos, era tão profissional e sério, m as em anava um a energia calm ante. Não estava m ais nervosa na sua presença. — Mas, pelo que eu
analisei dos vídeos que o Bruno m e enviou, coisa que não foi fácil, tem um recente de três m eses
atrás.
Arregalei os olhos com essa inform ação. Deus, Rick era m ais doente do que eu podia supor.
Cobri a boca com a m ão e tentei sufocar o soluço que am eaçava sair.
— Se eu tivesse prestado queixa logo que aconteceu teria evitado m uitos desses estupros.
Alexandre m e olhou carinhosam ente e balançou a cabeça.
— Acho que sua fam ília j á te disse isso. Eu vej o que você está cercada de am or, m as vou falar
m esm o assim . — Respirou fundo. — Você não é culpada Sabrina, é totalm ente com preensível tudo
que aconteceu. Eu j á vi vários casos, e posso dizer com certeza que você é um a m ulher e tanto. Não
se deixou abalar, claro que o traum a não passou, porém seguiu sua vida e enfrentou tudo sozinha.
Lucas pegou m inha m ão e entrelaçou os dedos nos m eus.
— Verdade. Ela arrebentou a cara do filho da puta.
Ao ouvir isso, o Dr. Ferraz arregalou os olhos sorrindo.
— Boa m enina, gosto disso. Conheço algum as m ulheres assim . — Sorriu suavem ente. — Então,
querida, não se sinta dessa m aneira. Talvez quando aconteceu contigo ele não tivesse sido preso,
sabe com o é o nosso sistem a j udiciário, e as m ulheres de que abusou seriam m altratadas da m esm a
m aneira. É m uito com plicado!
Assenti, m as no fundo ainda m e sentia culpada. Bruno m e olhou e sorriu suavem ente.
— Então, Alexandre, com o vam os prosseguir? Onde acharem os essa garota?
Ele passou a m ão entre os cabelos e suspirou.
— Além do desgraçado e filhinho de papai gravar essas m erdas... Desculpe o linguaj ar, m as eu
fico revoltado. Ele tam bém deixa nom es das m eninas além da data, então nós j á a localizam os e ela
está aí fora. — Inclinou o queixo para a porta.
— Oh, Deus. Ela vai m e culpar.
— Não, Sabrina. Eu j á conversei com ela, e disse o básico por telefone. Ela quer te conhecer,
apesar de parecer chateada, achei que estava m ais curiosa. Talvez queira saber com o seguir em
frente, com o j á disse nem todas conseguem .
Olhei em seus olhos azuis e desviei para encarar o olhar lindo do m eu am or.
— Alexandre, m esm o que eles não soubessem eu tive apoio, porque sentia o am or em anando
deles a todo instante.
— Muito bom isso. Parece-m e que ela está na cidade sozinha e não tem ninguém . Bom , ela está
aí fora, posso m andar entrar?
Engoli em seco e assenti. Alexandre apertou a tecla do telefone.
— Ana, peça à m enina para entrar, por favor. — Ele olhou pra m im sorrindo. — Fica calm a
Sabrina, vai dar tudo certo, nós vam os conseguir pegar esse cara.
Assenti, porque de algum a m aneira eu confiava nele. Devia ser im placável quando agia em sua
profissão, seu olhar presunçoso devia fazer os adversários trem erem de raiva.
Escutam os um a batida na porta e m e levantei j unto com o Alexandre. Aguardam os e um a j ovem
de cabeça baixa entrou devagar. Quando ela levantou os olhos, eu senti m eu coração com prim ido
dentro do peito.
Eu conhecia essa m enina, ela andava com a turm a do Rick, sem pre atrás dele. Aproxim ei-m e
devagar com m edo de um a rej eição ou algo parecido. Percebi os olhares dos caras à m inha volta,
m as m inha atenção estava voltada na garota. Estendi a m ão e falei baixo:
— Prazer, sou Sabrina Petri. — Ela olhou para a m inha m ão estendida e seus olhos
transbordaram lágrim as presas, m ostrando sua m ágoa em relação a tudo que lhe aconteceu.
— Por que você não o denunciou? Por que deixou um m onstro daqueles solto?
Abaixei a cabeça envergonhada. Por m ais que m inha fam ília e m eus am igos m e dissessem , eu
sabia que poderia ter evitado que ele fizesse isso com as outras j ovens. Por isso iria carregar essa
culpa para sem pre. Percebi Lucas se aproxim ando e parando ao m eu lado.
— Olha, sei que você sofreu e sofre, m as a Sabrina passou por isso igualm ente. E acho que
você tam bém não o denunciou, então não pode j ulgá-la.
— E o que você tem a ver com isso? — gritou a garota, exasperada.
Lucas j á ia responder, m as eu olhei em seus olhos e balancei a cabeça, pedindo para que
perm anecesse quieto. Voltei m eu olhar para a m enina.
— Sim , eu sou culpada quanto a isso. Mas creio que ele a am eaçou com o fez com igo. Então,
nesse caso, se não fosse pelo Alexandre te procurar você não estaria aqui e o Rick continuaria
im pune. — Ela engoliu em seco abaixando a cabeça.
— Me desculpe, eu m e descontrolei. Não tenho ninguém aqui e não consigo superar.
Soltei a m ão do Lucas e m e aproxim ei colocando a m ão em seu braço, dando um aperto
carinhoso.
— Olha, isso não acontece de um a hora pra outra, não. Eu dem orei m uito tem po para querer
tocar m inha vida. Quase perdi a coisa m ais im portante do m undo e não m e perdoo, porque ainda acho
que sou culpada e que podia ter resistido m ais. Mas, querida, você tem que ser forte por você m esm a
e m ais ninguém . Se apegue a algo e siga em frente.
Ela levantou os olhos e sorriu tristem ente.
— Eu tenho algo a m e apegar. Ver aquele noj ento atrás das grades.
Assenti e olhei para o Ferraz com os olhos suplicantes, estava doida que acabasse tudo de um a
vez. Ele assentiu entendendo o que eu queria.
— Ok, Patrícia, sente-se que eu vou explicar o que vam os fazer.
Lucas deixou que Patrícia se acom odasse ao m eu lado e postou-se atrás de m im com as m ãos nos m eus om bros. Alexandre colocou os cotovelos sobre a m esa e j untou os indicadores na frente dos
lábios.
— Com o tem m enos de seis m eses o que aconteceu com você, podem os tentar um a denúncia de
estupro e com os vídeos será m ais garantido. Mas quero que saibam que não é certo que ele vai
cum prir pena atrás das grades. Ele pode responder em liberdade até o j ulgam ento, que pode dem orar
anos. Não vou dar essa garantia a vocês, ainda m ais se ele tiver influência e conseguir um bom
advogado.
— Mas será que conseguim os? — Bruno, que até então só observava, perguntou com o cenho
franzido.
Ele sorriu de lado e encostou-se à cadeira.
— Olha, Bruno, eu sou o m elhor do ram o. Modéstia à parte, não tem ninguém que se iguala, m as
você sabe que tem m uitos corruptos por aí. Mesm o os pais dele dizendo que vão apoiar e denunciar o
filho, acho m eio difícil porque vão fazer o possível para que o garoto fique solto.
Bruno m e olhou com os olhos cheios de dor e pesar por toda a situação, além de estar cansado.
— Não fique assim , vai dar tudo certo! — tentei confortá-lo.
— Isso, não adianta ficar se estressando. Tudo vai se encam inhar, de algum a m aneira esse cara
vai se dar m al. Vou fazer o m eu m elhor, podem ter certeza! Com o depoim ento da Patrícia ele receberá um a intim ação em breve, porque na verdade eu vou levá-la na delegacia agora.
— Eu preciso ir, Dr. Ferraz? — Mesm o não querendo pisar naquele lugar, eu iria se fosse
preciso.
Ele levantou os olhos azuis lindos, sorrindo.
— Não querida, eu estarei te representando. Você vai receber a intim ação para depor tam bém ,
m as quem vai fazer a prim eira denúncia é ela.
Assenti e olhei para a garota ao m eu lado.
— Quer que eu te acom panhe?
— Não precisa. Estou acostum ada a ser sozinha. Você pode m e dar seu telefone para o caso de
eu querer conversar?
Fiquei na dúvida, não era de dar m eus dados pessoais assim . Mas a m enina era sozinha e eu
poderia aj udá-la com algum a coisa que precisasse, peguei na bolsa um cartão e estendi em sua
direção.
Ela agradeceu e guardou na bolsa que levava no om bro. Alexandre se levantou e olhou para o
m eu irm ão.
— Eu vou à delegacia e te dou notícias pelo celular quando chegar em casa. Ok?
Ele assentiu, cam inhou até a porta e estendeu a m ão para o advogado.
— Obrigado pela atenção e pelo seu tem po. Aguardo sua resposta.
— Im agina, quando precisei você tam bém esteve a postos. — Depois se virou para nós e sorriu.
— Te vej o de novo Sabrina, fique bem . E Lucas, cuide da princesa. Elas são j oias raras. — Sorriu
am plam ente, acho que o cara estava apaixonado. Pude ver em seus olhos o m esm o brilho que via no
espelho todos os dias.
Despedim o-nos e voltam os para o carro. Cansado, Bruno disse que iria para o bar e pegar a
Lay la, pois quem fecharia hoj e era a Elisa. Coitado do m eu irm ão, estava exausto!
Seguim os para casa em silêncio. Eu estava olhando m ensagens nas redes sociais pelo celular e
vi um a de um nom e estranho, devia ser fake. A m ensagem era m eio sinistra, com im agens estranhas
de corpos nus. Apaguei e disfarcei, não queria que Lucas visse.
Quando ele estacionou na nossa garagem , eu desci e fui direto tom ar um banho. Quando saí,
Lucas estava sentado na m inha cam a aguardando-m e voltar, depois se levantou e pegou m eu queixo
segurando firm e.
— Nunca m ais diga que foi culpa sua. Entendeu? Nunca! Nem pelo que ele fez, nem porque não
o denunciou. Já passou da hora de abandonar essa m entalidade. O único culpado de um estupro é o
estuprador. Não há m otivos que incitam esse ato horrendo, só um a m ente doente tem coragem disso.
— Engoli em seco e olhei em seus olhos verdes, sinceros. — Você é forte e guerreira, suportou anos
com isso só pra si e continuou firm e. Não quero se culpando nunca m ais. É bom tirar isso da sua
cabeça. Entendeu? Diga!
— Entendi — falei em um fio de voz.
Ele m e puxou para os seus braços, acariciando m eus cabelos m olhados. Acom odei-m e em seu
abraço carinhoso e senti seu perfum e. Fechei os olhos e tentei im aginar m inha vida sem ele. Não
existia! Sorri com esse pensam ento. Com Lucas ao m eu lado, talvez conseguisse deixar de m e culpar.
Mas sabia que isso não iria acontecer de um a hora pra outra.
— Lucas, você acha que eu preciso de terapia?
Ele se afastou m e segurando pelos braços.
— O que você acha? Você é inteligente e lúcida. Acha que precisa de aj uda profissional?
Desviei o olhar do seu, vasculhando pelo quarto em busca de um a resposta. Em m eu coração, eu
sabia que sim . Não que eu fosse louca ou desequilibrada. Mas por m ais carinho e atenção eu
recebesse da m inha fam ília, eu sentia que eles diziam que não era culpada por m e am arem .
— Acho que sim .
Ele puxou m eu rosto e deu um beij o suave em m eus lábios entreabertos. Seu hálito quente era
um bálsam o para a angústia dessa noite.
— Se é o que você quer, princesa, que assim sej a. Tem um a psicóloga m uito boa no hospital e
vou m arcar um a consulta pra você, ok?
— Tudo bem , m as não quero que o Bruno saiba.