Impulso

Gisele Souza · Capítulo 5 de 47

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Impulso

Capítulo 4

Aproxim ei-m e e toquei em seu om bro, ele se virou lentam ente e sorriu.

— Ei, boneca, o que tá fazendo aqui?

— Sou seu par de dança, ursinho.

Ele m e avaliou de cim a a baixo. Não tinha nenhum interesse m alicioso nele, apenas diversão.

— Com esse pezinho pequeno? Eu vou esm agar seus dedos. Não sei dançar.

Estiquei-m e nas pontas dos pés e sussurrei:

— Eu tam bém não! — Arregalei os olhos, divertida com m eu segredo.

Ele sorriu lindam ente e pegou m inha m ão.

— Então vam os! Mas espero que tenha um plano de saúde. Ah, e o seu cavalheiro de arm adura

branca está louco pra vir te salvar. Se olhar m atasse eu estaria esticado, m ortinho no chão.

Olhei na direção em que ele indicou e avistei Lucas nos olhando com raiva m ortal. Dei de

om bros e fui para a pista de dança, porém não estava focada, porque pensava dem ais e isso não era

bom .

O que seria de m im a partir de agora?

Meu corpo e m eu coração queriam algo, e eu sabia que só m e faria sofrer.

Será que seria forte o suficiente para aguentar toda a pressão? Ou a alternativa era ter apenas

encontros casuais, tirá-lo do m eu pensam ento e dizer adeus logo em seguida?

Resolvi parar de pensar um pouco e m e divertir ao lado de um cara lindo e engraçado.

CAPÍTULO 4

Lucas

Depois de vê-la dançando com Heitor, e querer torturar m eu am igo lenta e dolorosam ente,

acabou o suplício, graças a Deus. O casal vinte partiu em lua de m el em m eio a m uitas felicitações.

Era m uito bonito ver a felicidade daqueles dois. Eu sem pre quis o m elhor para m inha irm ã, e

finalm ente ela encontrou o cara que faria tudo que estivesse ao seu alcance e além para que Lay la

fosse feliz.

Com um sorriso no rosto observei-os se afastarem para um a viagem curta, m as m erecida. Bruno

não poderia se desligar m uito tem po do hospital e m inha irm ã não queria ficar sem cantar.

Varri m eus olhos por todo o canto procurando Sabrina. Já havia virado rotina estar sem pre à sua

procura. Só que não a encontrei em lugar algum . Poucas pessoas perm aneciam no quintal da dona

Marisa. Som ente am igos íntim os e fam iliares ainda estavam conversando e bebendo algum a coisa.

Aproxim ei-m e de um a Ana furiosa, e decidi abordar o paradeiro da irm ã caçula antes de ela soltar

fogo pelas ventas.

— Ana, você viu a Sabrina? Estou indo em bora, e queria saber se ela precisa de um a carona pra

casa. — Tinha a necessidade de m e explicar para Ana, m as não entendia bem por quê.

Ana Luiza não era alguém fácil de lidar. Apesar de ser m uito boa pessoa, seu gênio forte irritava até o m ais calm o dos hom ens. Não sabia com o Alberto insistia tanto em algo que era evidente que

não iria rolar. Devia ser coisas do am or, esse sentim ento que nos transform ava em panacas totais.

— Ela foi em bora com o Heitor, que estava indo verificar o fecham ento do bar e ofereceu

carona.

Puta m erda! Precisei m e segurar para não ser grosseiro, ela não tinha nada a ver com m eu surto

repentino de m au hum or. Mas tive que fechar as m ãos em punhos para conter m inha raiva súbita. Era

sem pre assim quando se tratava da Sabrina. Tudo m uito intenso.

— E faz m uito tem po que eles saíram ? — falei entre dentes.

Ana arqueou um a sobrancelha, com um olhar zom beteiro m e m ediu de cim a a baixo.

— Sabe, querido. Você é um a gracinha, um m enino m uito bom . Lay la te criou direitinho. Porém ,

com o um a praga que assola todos os hom ens, sem exceção, você acha que seu pau é o único que vale

a pena. Tenho um a grande novidade, essa porra é tudo igual. Você se esfrega em qualquer rabo de

saia e ainda quer que Sabrina fique te esperando? — Sorriu m aliciosa. Não disse que ela era

geniosa? — Acorda, garoto! Ela não vai ficar solteira por m uito tem po. Acho até que esperou

dem ais. Porém , com o você é um a fofura, vou te dizer. Eles saíram há uns dez m inutos...

Não esperei nem m ais um segundo, parti em direção ao carro. Quanto m ais cedo chegasse em casa m elhor. Interrom peria qualquer coisa que pudesse estar acontecendo, m as ainda pude ouvir Ana

gritando:

— Não sej a idiota, Lucas. Orgulho é um a m erda!

Sabia bem disso. Tanto eu quanto Sabrina erram os em não dar o braço a torcer. Fom os

im prudentes e im pulsivos.

Saí em disparada pela cidade. Em quinze m inutos estava estacionado na garagem . Não havia

nem sinal do Heitor. Ainda bem , porque iria dar m erda se ele estivesse dentro de casa.

Nós ficam os m uito am igos. Depois que Lay la saiu da nossa casa, eu m e senti independente e

com ecei a m e divertir e sair m ais. Frequentava o Beer direto com o pessoal da faculdade e depois

com os am igos do hospital. Era um point bem badalado. Em todos os anos, o bar só cresceu.

E, claro, tinha o adicional da m inha irm ã cantar m uito bem e cham ar clientes para o

estabelecim ento. Por m ais que Bruno tentasse, ela nunca cogitou a ideia de gravar e se

profissionalizar, dizia que seu único sonho j á havia se realizado.

Então, por ventura da m inha am izade com ele, não gostaria de ter que dar um as porradas no

suj eito por querer roubar a m inha garota. Mesm o não sendo a título oficial, Sabrina era m inha e

ponto! Era só um a questão de tem po até que se concretizasse.

Mesm o ela sendo um poço de teim osia, eu a am ava com loucura.

E realm ente poderia ser essa a qualificação do que tínham os. Porque sofrer por anos sem nem

m esm o se ligar no que um ou o outro queria era loucura. Mas agora eu sabia o que ela queria de m im .

Por m ais que Sabrina negasse e tivesse sentim entos que queria esconder, eu não a deixaria fugir tão

facilm ente.

Respirei fundo e abri a porta do carro. Ela estava um pouco furiosa com igo, não sabia com o seu

hum or se encontrava, teria que ser cauteloso. Iria devagar, ou então a assustaria. Sabrina era retraída

por algum m otivo, eu não sabia direito o que aconteceu, m as iria descobrir. Era a única m aneira de

fazê-la confiar em m im , porém eu tinha um prazer estranho em vê-la com raiva. Ficava extrem am ente

linda. Devia ser m asoquista e não sabia.

Entrei pelos fundos, porque se ela estivesse na sala assistindo televisão a surpreenderia com o

gostava de fazer. Iria agir com o se nada tivesse acontecido.

Mas a casa estava em silêncio, se não fosse pelo som abafado que vinha do quarto que ela

ocupava, poderia dizer que estava vazia. Na sala retirei os sapatos para não fazer barulho, tirei o

paletó e afrouxei a gravata. Com o era de m adrugada im aginava que ela podia estar dorm indo com a

m úsica tocando, com o fazia de vez em quando.

Aproxim ei-m e lentam ente e encostei-m e à parede do corredor. Fixei m eu olhar na porta com o se assim pudesse conj urar Sabrina abrindo e se deixando levar por tudo o que sentíam os.

A m úsica leve que tocava dentro do quarto m e deu um aperto no peito. Tive que esfregar a m ão

para ver se conseguia aliviar um pouco. Ela ouvia Don’t Know Why, da Norah Jones. Aquela letra

era m uito forte. Em um a estrofe dizia tudo o que nós dois passávam os.

“Meu coração está encharcado de vinho

Mas você vai estar na m inha m ente

Pra sem pre”

Senti m eus olhos ficarem m arej ados, m eu peito doía de tanto tem po perdido. Naquele m om ento

eu prom eti a m im m esm o que não iria perder a m ulher da m inha vida por nada nesse m undo.

E a razão da m inha alegria e tristeza abriu a porta. Meu coração parou por um m ilésim o de

segundo. Sabrina tinha os cabelos m olhados j ogados nos om bros e um a cam isola rosa m inúscula, que

não deixava nada pra im aginação.

Olhava-m e com confusão no olhar. Só então eu percebi que realm ente estava fazendo papel de

louco parado no m eio da m adrugada em frente à porta da garota. Parecia um tarado. Desencostei da

parede e dei um passo à frente. Ela, claro, recuou.

— Queria saber se chegou bem em casa. Aí ouvi a m úsica e achei que estivesse dorm indo.

Sabrina arregalou os olhos azul-clarinhos e m ordeu o lábio inferior, causando-m e um arrepio na espinha. Am aldiçoei m entalm ente. Estava louco para segurá-la pela nuca e encher de beij os aquela

boca deliciosa. A lem brança de anos atrás ainda estava gravada em m im , m as desgastada. Estava

frenético para sentir tudo que se acendia quando estava ao lado dela.

— Você está aí há m uito tem po? — sua voz estava rouca e arranhava em m eus ouvidos.

— Não, cheguei há pouco.

Ela assentiu e abaixou a cabeça. Dei um passo à frente e m e peguei erguendo o seu queixo para

que pudesse observar seus olhos brilhantes. Sabrina resfolegou.

— Você sabe que é inevitável, né? — falei baixo quase sussurrando. Mas percebi que ela m e

ouvia perfeitam ente. Suas pupilas dilataram e entreabriu os lábios, m e deixando louco. — Eu não

vou desistir. Você é m inha há m uito tem po. Só não sabe disso.

Sua respiração estava tão acelerada quanto a m inha. Tentei ao m áxim o m e conter. Se fosse

incisivo ela recuaria. Não perm itiria que eu abrisse cam inho. Ela m e expulsaria sem nem pestanej ar.

E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa que m e fizesse falar m erda, dei um beij o na sua

testa com carinho e m e afastei. Pude sentir o peso do seu olhar nas m inhas costas e forcei m inhas

pernas seguirem adiante até o m eu quarto. Só lá dentro m e perm iti relaxar. Encostei-m e à porta e

respirei fundo pra não voltar e tê-la exatam ente do j eito que eu queria.

Afastei-m e e vasculhei a bagunça em busca de algum a roupa para um banho rápido, pois com o

j á era m adrugada de dom ingo e não tinha plantão no hospital poderia dorm ir até m ais tarde.

E na m anhã seguinte, colocaria m eus planos em prática.

***

Sonhos m olhados. Parecia um adolescente. Era um a porcaria de rotina. Só que desta vez foi tão

real que quase tive um treco. Aquela porcaria de cam isola devia ser proibida a não ser que você

estivesse disposta a aguentar as consequências. Droga!

Sentei-m e na cam a para avaliar o estrago. Suspirei resoluto e levantei, m inha m eta do dia era

tom ar um banho relaxante e colocar o m eu plano em prática. Sabrina não saberia o que fazer e com o

reagir, era perfeito. Um sorriso se espalhou em m eu rosto. Mal podia esperar para a finalização da

m inha estratégia.

A porta do seu quarto estava aberta, sinal que j á não se encontrava lá. Devia estar na cozinha.

Era um hábito que ficássem os altas horas conversando no café da m anhã, quando estávam os os dois

em casa. Só esperava que por causa de toda a m erda que aconteceu não m udasse isso.

No banheiro larguei a cueca no m eu cesto e abri o boxe. Tom ei um banho rápido, m as relaxante.

Não queria m e atrasar, se ela ainda estava em casa era por pouco tem po. Logo estaria na rua com

algum a desculpa para ficar longe de m im .

Sabrina era assim , quando a coisa esquentava ela dava um j eito de fugir. Parei em frente ao

espelho e observei m eu reflexo. Estava m ais velho e m aduro. Com vinte e cinco anos poderia dizer

que vivi m uito, coisas boas e outras nem tanto. Tinha orgulho de tudo o que fiz, até m esm o dos erros.

Com eles aprendi a dar valor ao que realm ente im portava. Nunca fui santo e não seria, porém se

havia um a coisa que tinha aprendido é nunca desistir. E não iria!

Arm ei m eu m elhor sorriso e fui em direção à m ulher m ais teim osa e m aravilhosa do planeta.

Estava ainda m olhado quando cheguei à cozinha. Com o previa, Sabrina estava na bancada tom ando

café e com endo cream cracker, m as pronta para sair, porque sua bolsa j á estava em local estratégico

na sala.

Fingi que não m e incom odava. Ainda estava de cueca, era norm al andar assim pela casa.

Tínham os um nível de intim idade que am igos norm ais não possuíam , porque a cada suspiro que

Sabrina dava m e excitava a um nível quase doloroso.

Ela se virou e m e presenteou com um olhar fam into. Percorreu todo o m eu corpo e tive a certeza

naquela hora que Sabrina m e queria de todas as m aneiras que pudesse, porém logo disfarçou e

m urm urou algum a coisa que não pude captar. Cheguei ao seu lado e dei um beij o em seu rosto, com o

fazia todos os dias quando a via pela prim eira vez.

— Bom dia.

Minha vontade era ficar m ais tem po ao seu lado sentindo seu perfum e delicioso. Mas com o não

era esse o plano, m e afastei para pegar um a caneca e pude senti-la m e observando a cada passo. Era

até um pouco incôm odo, na verdade. Mas não m e im portava desde que fosse em m im que aqueles

olhos lindos estivessem fixados.

Sentei-m e e não olhei em sua direção. Ela continuava em silêncio. Percebi que tam bém devia

estar usando de algum a estratégia, porém por m otivos diferentes dos m eus. Mas o vencedor eu j á

sabia quem seria.

Estendi a m ão e peguei um biscoito para passar m anteiga, notei que suas m ãos estavam cruzadas

em cim a da m esa e um leve trem or passou por seu corpo. Sorri de lado e levantei os olhos.

Ela m e encarou com o nunca fez antes. Seus olhos queim avam em m im com o dois faróis. Eu não

entendi a m udança repentina de atitude. Seus lábios carnudos e rosados im ploravam por um beij o

m eu. Sabrina estava corada e ficava linda assim .

— Que foi, Sá?

— O que você quer de m im , Lucas?

Sua respiração estava acelerada e podia apostar que estava com o coração acelerado no peito,

porque o m eu parecia que iria explodir.

— Com o assim ?

— Não sej a idiota. O que aconteceu ontem ? Por que estava na porta do m eu quarto?

Fechei os olhos e procurei relaxar. Essa não era um a boa abordagem . Se eu dissesse qualquer

coisa, ela fugiria com o estava acostum ada.

— Já te disse, estava preocupado — tentei soar desinteressado, m as era com plicado por tudo o

que carregava dentro de m im .

— E você acha que eu vou acreditar nessa m erda?

— Acredite no que quiser, Sabrina. Só queria saber se estava bem . Eu estava cansado e a

m úsica m e relaxou.

Ela bufou e franziu a testa. Ficava tão bonitinha assim .

— Sei, ok. Já que é assim que você vai agir, tudo bem . Hoj e estou saindo para procurar um

apartam ento.

Merda, tinha esquecido daquilo. Teria que fazer algum a coisa para im pedi-la sem dem onstrar o

quanto isso m e incom odava.

Balancei a cabeça com o se não m e im portasse.

— Ok, eu posso ir com você pra te aj udar? Sabe, m uita gente gosta de se aproveitar de um a

garota sozinha.

Sabrina estreitou os dois faróis azuis em m inha direção, m e avaliando. Em anos de aprendizado

sabia esconder bem m inhas reações, eu tentava sem pre m e cam uflar para que m inha irm ã não se preocupasse com nada m ais que o necessário. Virei um expert.