Impulso
Capítulo 36
Lucas
Dorm ir abraçado naquela cam a de hospital não foi m uito confortável, m as ao lado dela era
sem pre m uito bom . Acordei sobressaltado com um barulho no quarto. Sabrina j á estava sentada
conversando com alguém . Quando m e virei, quase caí da cam a. Kiara estava ali no quarto.
— O que você está fazendo aqui, Kiara?
Elas pararam de falar com o se notassem a m inha presença só naquele m om ento. Kiara sorriu
envergonhada e abaixou a cabeça.
— Ela m e atendeu ontem quando cheguei, am or. Por isso não sej a ignorante em falar assim com
a garota. Você foi o cafaj este! Ela veio m e ver porque pegou no plantão agora.
Arregalei os olhos e m e virei para a Sabrina, que estava calm a até dem ais. Fiquei com m edo
dessa reação. Mas que porra é essa?!
— Hum , e não tem problem a com isso?
Sabrina apenas arqueou um a sobrancelha, m e desafiando a dizer o porquê do “problem a”. Eu
que não iria tocar naquele assunto. Virei-m e para a enferm eira que continuava no m esm o lugar. Kiara
havia m udado da água para o vinho, quando tivem os o rolo ela era atirada e cínica, agora parecia até
tím ida em estar na m inha presença. Coisa estranha...
— Não Lucas, está tudo certo. Eu não vou incom odar sua nam orada. Só queria saber se ela
estava bem .
— Desculpa Kiara, não queria te ofender, porém acordei assustado. — Levantei-m e e dei um
beij o na testa da Sabrina. — Bom dia, am or. Eu vou ver com o estão todos. Você tem algum a notícia
do Alberto, Kiara?
— Não, eu cheguei e vim direto pra cá.
— Tudo bem , vou lá. Daqui a pouco Jeny deve passar por aqui, e vou ver se consigo sua alta.
Dos seus m achucados superficiais, eu cuido direitinho em casa.
Sabrina segurou m eu rosto entre as m ãos e sorriu, dando um selinho na m inha boca. Um beij o
tão suave e doce que derreteu o m eu coração.
— Volta logo, que vou m orrer de saudades — falou com os lábios encostados nos m eus.
Sorri e m e afastei. Entrei no banheiro, fiz todo o ritual da m anhã e fui para o corredor. Fiquei
feliz em saber que Sabrina estava bem o suficiente para rir, brincar e conversar. Acho que dessa vez
daria tudo certo.
Àquela hora, o hospital estava tranquilo por causa da troca de plantão. Aliás, eu estaria
trabalhando agora, m as decidi pedir um a dispensa para cuidar da m inha princesa.
Prim eiro, resolvi olhar com o o Heitor estava. No dia anterior, quando saí da sala, a perspectiva
não era boa. Ele respondia pouco aos estím ulos e o m edo da equipe era que ficasse com sequelas, se
sobrevivesse. Ele estava internado na UTI, m e aproxim ei da porta de vidro e apertei o botão para
cham ar a enferm eira. Quando ela apareceu, sorriu e destravou a porta.
Entrei e esterilizei as m ãos.
— Tudo bem ? Vim ver o Heitor Teles.
— Ah, sim . Segunda cam a à direita, ele ainda está dopado.
Assenti e fui até lá. Quando abri a cortina que separava do resto do corredor, m eu coração se
apertou. O tatuado estava m eio irreconhecível. Quando se sofre um a pancada na cabeça m exe com
tudo, seu rosto estava inchado e m achucado, o braço engessado. Muito triste presenciar aquilo.
— Porra, cara! Vê se reage, am igo, porque ainda tem os m uitas coisas pra aprontar. E o Beer,
com o vai ficar sem você? A Lay la vai surtar. Vai deixar sua estrela sozinha? Alberto tá acabado, todo
fodido e de perna quebrada. Tem que levantar pra dar uns tapas na cabeça dele. — Suspirei olhando
para o seu rosto. Mesm o sabendo que estava dopado, eu ainda tinha esperança que ele abrisse os
olhos e m e respondesse. — Não se entrega, irm ão. Ainda é m uito cedo.
Existe um a coisa que se cham a vontade de viver, e m uitas pessoas perdem isso ao longo da
vida. Por acontecim entos diversos, a escuridão tom a conta de nós que nos esquecem os de cam inhar
para a luz. E, em casos com o o do Heitor, é im prescindível que tenham os vontade de viver. Esperava
que ele se apegasse a algo, porque pelo que conhecia do tatuado, ele ainda cam inhava nas som bras.
Fiquei ali por m ais alguns m inutos e fui em bora, não poderia perm anecer na UTI por m uito
tem po. Agradeci a enferm eira e pedi que se houvesse qualquer alteração no quadro dele, que
m andasse m e avisar. Agora era a vez de eu ver o Alberto, que j á devia estar acordado.
Quando parei em seu quarto, o circo estava arm ado. Ele tentava se levantar enquanto dois
enferm eiros o m antinham no lugar.
— Mas que porra é essa?! — Ao ouvir m inha voz, Alberto se virou com o rosto transform ado
em fúria.
— Ainda bem que você chegou Lucas, esses brutam ontes não m e deixam ir ver com o o Heitor
está.
— Eu não sei que ideia de louco é essa, cara. Você não pode sair andando agora, tem que
esperar pelo m enos 24h da cirurgia. Tem noção de quantos pinos tem na sua perna? Eu tenho!
Ele bufou e recostou-se na cam a parecendo exausto. Claro que estava, todo esforço para se
levantar, ainda m ais em seu estado, era no m ínim o cansativo. Alberto abriu os olhos e m e encarou.
— Com o ele está, Lucas? Fiquei sabendo por alto.
Respirei fundo e m e sentei na cadeira ao lado da sua cam a. Coloquei os cotovelos no j oelho e
abaixei a cabeça.
— Ele está em com a induzido por traum atism o craniano. Fora as outras m erdas que aconteceu,
m as o m ais sério é isso. Agora é esperar pra vê-lo reagir.
— Droga! Que m erda, e tudo culpa m inha. — Alberto socava a cam a parecendo atorm entado.
Levantei a cabeça e percebi que ele realm ente estava, porque seus olhos brilhavam de lágrim as
não derram adas.
— Com o culpa sua, cara? Foi culpa daquele m otorista, filho da puta, que avançou o sinal.
Ele m e olhou e suspirou.
— Eu quis vir em bora antes do program ado, não aguentava ficar longe. Heitor concordou e,
com o estávam os sem pre viaj ando à noite, não quis esperar. Não conseguim os nem pensar, quando
percebi estava voando longe e senti um a dor da porra na perna, daí só acordei hoj e.
— Cara, não se m artirize! Não tinha com o saber que essa m erda toda iria acontecer. —
Balancei a cabeça e suspirei, tanta coisa tinha ocorrido que não sabia por onde com eçar. — A Ana
esteve no hospital ontem .
Alberto ficou estranho, fechou a cara e olhou para o outro lado, parecendo incom odado por eu
ter m encionado o nom e dela.
— Por m inha causa? Rá, claro que não. Deve ter vindo pelo Heitor.
— Não, ela veio pela Sabrina. Aquele louco atacou m inha princesa de novo, m as cheguei a tem po, porém ela ficou m uito m achucada. O desgraçado bateu nela. — Cada vez que m e lem brava
disso sentia um a repulsa no peito, além de um a vontade insana de ter m atado aquele filho da puta.
— Mas que m erda para um dia só. Ah, se eu pego esse cara nem sei o que faço, m elhor m antê-lo
longe m esm o. Mas ela está bem ?
Assenti e contei a ele que estava m elhor do que eu esperava. Que até estranhei Kiara estar no
quarto de m anhã e m e assustei. Mas parecia que Sabrina estava tranquila com tudo.
— Se eu pudesse, ia lá ver a bonequinha. Traga ela aqui quando tiver alta.
— Ok. Não vai perguntar da Ana?
Ele virou o rosto e com prim iu os lábios.
— Não tenho porque saber dela.
Sorri, j á tinha passado por essa fase: a negação. Era um a m erda, porque você queria saber, falar
e tocar na pessoa, m as não dava o braço a torcer. Aqueles dois teriam m uito trabalho pela frente, j á
podia até ver a briga de gato e rato, porque algum a coisa m e dizia que o tem po deles estava
chegando.
— Mas eu vou falar m esm o assim . Quando ela ficou sabendo do seu acidente entrou em choque,
e segundo a Sabrina m e contou à noite quando elas foram em bora, Ana chorou com o um a louca
balbuciando coisas, com o tem po perdido e toda essa m erda. E depois entrou em negação assim com o você... — Sorri e ele fechou a cara. — Aí, dona Marisa entrou em ação, e isso eu vi. Ela deu o m aior
chega pra lá nela. A garota ficou perturbada.
Os olhos arregalados do m eu am igo foram hilários de se ver, abria e fechava a boca com o um
peixe fora d’água.
— Não precisa dizer nada. O problem a é exclusivo de vocês, m as reforçando o que m inha
sogrinha linda disse, está na hora de deixarem a hipocrisia de lado e ver o quanto são loucos um pelo
outro.
— Dona Marisa disse isso?
Levantei-m e sorrindo e arqueei as sobrancelhas.
— Disse sim , e é válido para os dois idiotas. Bom , vou indo que a Sabrina j á deve ter recebido
a Jeny. Tom ara que dê tudo certo e possa levar m inha princesa para casa. Se cuida e nada de
aprontar. Seu osso esm igalhou em três pedaços, tem noção de com o essa m erda vai doer?
Ele fez um a careta antecipando o processo que seria dali pra frente. Saí dali deixando o cara
com seus pensam entos e fui ver a m inha m ulher.
Quando cheguei ao quarto, Sabrina j á estava com um a roupa lim pa que Bruno havia trazido,
aliás, m eu cunhado estava ali com o policial pegando o seu depoim ento.
Peguei o final do seu relato, ela estava em ocionada, m as firm e. Quando disse sobre eu ter
chegado e a salvado senti um novo aperto no peito, um a vontade louca de em balar Sabrina nos m eus
braços e não deixar que nada a m achucasse. Observei seu rosto contorcido com as lem branças que a
assolavam . Não via a hora de esse pesadelo acabar.
O investigador saiu e m e aproxim ei. Não disse nada, e a beij ei. Nem m e im portei do Bruno
ainda estar no quarto, só queria m ostrar à m inha princesa que dessa vez ela não estava sozinha e que
eu nunca iria abandoná-la. Aspirei seu perfum e doce e apreciei seus lábios com delicadeza e am or,
aquele beij o era ao m esm o tem po suave e intenso, m as carregado de sentim ento e em oção. Deslizei
m eus lábios pelos dela entreabertos pedindo passagem , ela abriu a boca um pouco e acariciei sua
língua doce com a m inha.
Levei a m ão ao seu rosto deslizando pela pele m acia da sua bochecha e pescoço, garganta e
queixo. Entrelacei os dedos em seus cabelos m assageando devagar. Pude sentir Sabrina relaxando,
aquilo que sentíam os era hipnotizante, não tínham os noção de onde estávam os quando nos
concentrávam os um no outro. Afastei-m e um pouco da sua boca e dei beij os por seu rosto subindo até
os olhos. Encostei m inha testa na dela e aguardei aqueles faróis azuis se abrirem . E sem pre que
acontecia isso, m eu coração acelerava loucam ente no peito, com o agora.
Sorri e ficam os assim por alguns m inutos.
— Q-que foi isso, am or? Fui ao céu e voltei só com um beij o.
Passei o polegar pelos hem atom as em seu rosto e quis chorar, m as não faria isso; se ela estava
sendo tão forte, eu tam bém seria.
— Só quis te beij ar, sabe que não resisto a essa boca verm elhinha e linda. — Sabrina sorriu e
corou levem ente.
— Nem m e olhei no espelho ainda. Devo estar horrível. Ainda sinto m eu rosto latej ar.
Porra, eu daria um braço para não ouvi-la falando assim . Ainda m ais sentir tudo isso.
— Tá linda, m eu am or. Mas, e aí? Com o foi com a Jeny ?
— Legal, conversam os e ela m e liberou. Estava esperando só você voltar. O Bruno tam bém . —
Ela inclinou para o lado procurando o irm ão. — Ué, cadê o Bruno?
Sorri m aliciosam ente.
— Deve ter se queim ado com o nosso fogo. — Balancei as sobrancelhas.
— Caram ba, esqueci-m e dele. Deve ter ficado envergonhado.
Dei de om bros, j á presenciam os tantos m om entos dele com a Lay la que m erecia ter de volta.
— Então, j á que está de alta, vam os pra casa. Eu peguei folga de três dias para cuidar da m inha
princesa. O Alberto m e pediu pra te levar lá.
— E o ursinho?
Respirei fundo e fui j untar suas coisas na bolsa, enquanto ela se levantava da cam a.
— Está estável, m as você não pode ir lá hoj e. Ele está na UTI. Ok? Outro dia trago você. — Eu queria esperar ele m elhorar, porque não sabia a reação da Sabrina ao ver seu am igo tão destruído.