Impulso

Gisele Souza · Capítulo 37 de 47

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Impulso

Capítulo 36

Lucas

Dorm ir abraçado naquela cam a de hospital não foi m uito confortável, m as ao lado dela era

sem pre m uito bom . Acordei sobressaltado com um barulho no quarto. Sabrina j á estava sentada

conversando com alguém . Quando m e virei, quase caí da cam a. Kiara estava ali no quarto.

— O que você está fazendo aqui, Kiara?

Elas pararam de falar com o se notassem a m inha presença só naquele m om ento. Kiara sorriu

envergonhada e abaixou a cabeça.

— Ela m e atendeu ontem quando cheguei, am or. Por isso não sej a ignorante em falar assim com

a garota. Você foi o cafaj este! Ela veio m e ver porque pegou no plantão agora.

Arregalei os olhos e m e virei para a Sabrina, que estava calm a até dem ais. Fiquei com m edo

dessa reação. Mas que porra é essa?!

— Hum , e não tem problem a com isso?

Sabrina apenas arqueou um a sobrancelha, m e desafiando a dizer o porquê do “problem a”. Eu

que não iria tocar naquele assunto. Virei-m e para a enferm eira que continuava no m esm o lugar. Kiara

havia m udado da água para o vinho, quando tivem os o rolo ela era atirada e cínica, agora parecia até

tím ida em estar na m inha presença. Coisa estranha...

— Não Lucas, está tudo certo. Eu não vou incom odar sua nam orada. Só queria saber se ela

estava bem .

— Desculpa Kiara, não queria te ofender, porém acordei assustado. — Levantei-m e e dei um

beij o na testa da Sabrina. — Bom dia, am or. Eu vou ver com o estão todos. Você tem algum a notícia

do Alberto, Kiara?

— Não, eu cheguei e vim direto pra cá.

— Tudo bem , vou lá. Daqui a pouco Jeny deve passar por aqui, e vou ver se consigo sua alta.

Dos seus m achucados superficiais, eu cuido direitinho em casa.

Sabrina segurou m eu rosto entre as m ãos e sorriu, dando um selinho na m inha boca. Um beij o

tão suave e doce que derreteu o m eu coração.

— Volta logo, que vou m orrer de saudades — falou com os lábios encostados nos m eus.

Sorri e m e afastei. Entrei no banheiro, fiz todo o ritual da m anhã e fui para o corredor. Fiquei

feliz em saber que Sabrina estava bem o suficiente para rir, brincar e conversar. Acho que dessa vez

daria tudo certo.

Àquela hora, o hospital estava tranquilo por causa da troca de plantão. Aliás, eu estaria

trabalhando agora, m as decidi pedir um a dispensa para cuidar da m inha princesa.

Prim eiro, resolvi olhar com o o Heitor estava. No dia anterior, quando saí da sala, a perspectiva

não era boa. Ele respondia pouco aos estím ulos e o m edo da equipe era que ficasse com sequelas, se

sobrevivesse. Ele estava internado na UTI, m e aproxim ei da porta de vidro e apertei o botão para

cham ar a enferm eira. Quando ela apareceu, sorriu e destravou a porta.

Entrei e esterilizei as m ãos.

— Tudo bem ? Vim ver o Heitor Teles.

— Ah, sim . Segunda cam a à direita, ele ainda está dopado.

Assenti e fui até lá. Quando abri a cortina que separava do resto do corredor, m eu coração se

apertou. O tatuado estava m eio irreconhecível. Quando se sofre um a pancada na cabeça m exe com

tudo, seu rosto estava inchado e m achucado, o braço engessado. Muito triste presenciar aquilo.

— Porra, cara! Vê se reage, am igo, porque ainda tem os m uitas coisas pra aprontar. E o Beer,

com o vai ficar sem você? A Lay la vai surtar. Vai deixar sua estrela sozinha? Alberto tá acabado, todo

fodido e de perna quebrada. Tem que levantar pra dar uns tapas na cabeça dele. — Suspirei olhando

para o seu rosto. Mesm o sabendo que estava dopado, eu ainda tinha esperança que ele abrisse os

olhos e m e respondesse. — Não se entrega, irm ão. Ainda é m uito cedo.

Existe um a coisa que se cham a vontade de viver, e m uitas pessoas perdem isso ao longo da

vida. Por acontecim entos diversos, a escuridão tom a conta de nós que nos esquecem os de cam inhar

para a luz. E, em casos com o o do Heitor, é im prescindível que tenham os vontade de viver. Esperava

que ele se apegasse a algo, porque pelo que conhecia do tatuado, ele ainda cam inhava nas som bras.

Fiquei ali por m ais alguns m inutos e fui em bora, não poderia perm anecer na UTI por m uito

tem po. Agradeci a enferm eira e pedi que se houvesse qualquer alteração no quadro dele, que

m andasse m e avisar. Agora era a vez de eu ver o Alberto, que j á devia estar acordado.

Quando parei em seu quarto, o circo estava arm ado. Ele tentava se levantar enquanto dois

enferm eiros o m antinham no lugar.

— Mas que porra é essa?! — Ao ouvir m inha voz, Alberto se virou com o rosto transform ado

em fúria.

— Ainda bem que você chegou Lucas, esses brutam ontes não m e deixam ir ver com o o Heitor

está.

— Eu não sei que ideia de louco é essa, cara. Você não pode sair andando agora, tem que

esperar pelo m enos 24h da cirurgia. Tem noção de quantos pinos tem na sua perna? Eu tenho!

Ele bufou e recostou-se na cam a parecendo exausto. Claro que estava, todo esforço para se

levantar, ainda m ais em seu estado, era no m ínim o cansativo. Alberto abriu os olhos e m e encarou.

— Com o ele está, Lucas? Fiquei sabendo por alto.

Respirei fundo e m e sentei na cadeira ao lado da sua cam a. Coloquei os cotovelos no j oelho e

abaixei a cabeça.

— Ele está em com a induzido por traum atism o craniano. Fora as outras m erdas que aconteceu,

m as o m ais sério é isso. Agora é esperar pra vê-lo reagir.

— Droga! Que m erda, e tudo culpa m inha. — Alberto socava a cam a parecendo atorm entado.

Levantei a cabeça e percebi que ele realm ente estava, porque seus olhos brilhavam de lágrim as

não derram adas.

— Com o culpa sua, cara? Foi culpa daquele m otorista, filho da puta, que avançou o sinal.

Ele m e olhou e suspirou.

— Eu quis vir em bora antes do program ado, não aguentava ficar longe. Heitor concordou e,

com o estávam os sem pre viaj ando à noite, não quis esperar. Não conseguim os nem pensar, quando

percebi estava voando longe e senti um a dor da porra na perna, daí só acordei hoj e.

— Cara, não se m artirize! Não tinha com o saber que essa m erda toda iria acontecer. —

Balancei a cabeça e suspirei, tanta coisa tinha ocorrido que não sabia por onde com eçar. — A Ana

esteve no hospital ontem .

Alberto ficou estranho, fechou a cara e olhou para o outro lado, parecendo incom odado por eu

ter m encionado o nom e dela.

— Por m inha causa? Rá, claro que não. Deve ter vindo pelo Heitor.

— Não, ela veio pela Sabrina. Aquele louco atacou m inha princesa de novo, m as cheguei a tem po, porém ela ficou m uito m achucada. O desgraçado bateu nela. — Cada vez que m e lem brava

disso sentia um a repulsa no peito, além de um a vontade insana de ter m atado aquele filho da puta.

— Mas que m erda para um dia só. Ah, se eu pego esse cara nem sei o que faço, m elhor m antê-lo

longe m esm o. Mas ela está bem ?

Assenti e contei a ele que estava m elhor do que eu esperava. Que até estranhei Kiara estar no

quarto de m anhã e m e assustei. Mas parecia que Sabrina estava tranquila com tudo.

— Se eu pudesse, ia lá ver a bonequinha. Traga ela aqui quando tiver alta.

— Ok. Não vai perguntar da Ana?

Ele virou o rosto e com prim iu os lábios.

— Não tenho porque saber dela.

Sorri, j á tinha passado por essa fase: a negação. Era um a m erda, porque você queria saber, falar

e tocar na pessoa, m as não dava o braço a torcer. Aqueles dois teriam m uito trabalho pela frente, j á

podia até ver a briga de gato e rato, porque algum a coisa m e dizia que o tem po deles estava

chegando.

— Mas eu vou falar m esm o assim . Quando ela ficou sabendo do seu acidente entrou em choque,

e segundo a Sabrina m e contou à noite quando elas foram em bora, Ana chorou com o um a louca

balbuciando coisas, com o tem po perdido e toda essa m erda. E depois entrou em negação assim com o você... — Sorri e ele fechou a cara. — Aí, dona Marisa entrou em ação, e isso eu vi. Ela deu o m aior

chega pra lá nela. A garota ficou perturbada.

Os olhos arregalados do m eu am igo foram hilários de se ver, abria e fechava a boca com o um

peixe fora d’água.

— Não precisa dizer nada. O problem a é exclusivo de vocês, m as reforçando o que m inha

sogrinha linda disse, está na hora de deixarem a hipocrisia de lado e ver o quanto são loucos um pelo

outro.

— Dona Marisa disse isso?

Levantei-m e sorrindo e arqueei as sobrancelhas.

— Disse sim , e é válido para os dois idiotas. Bom , vou indo que a Sabrina j á deve ter recebido

a Jeny. Tom ara que dê tudo certo e possa levar m inha princesa para casa. Se cuida e nada de

aprontar. Seu osso esm igalhou em três pedaços, tem noção de com o essa m erda vai doer?

Ele fez um a careta antecipando o processo que seria dali pra frente. Saí dali deixando o cara

com seus pensam entos e fui ver a m inha m ulher.

Quando cheguei ao quarto, Sabrina j á estava com um a roupa lim pa que Bruno havia trazido,

aliás, m eu cunhado estava ali com o policial pegando o seu depoim ento.

Peguei o final do seu relato, ela estava em ocionada, m as firm e. Quando disse sobre eu ter

chegado e a salvado senti um novo aperto no peito, um a vontade louca de em balar Sabrina nos m eus

braços e não deixar que nada a m achucasse. Observei seu rosto contorcido com as lem branças que a

assolavam . Não via a hora de esse pesadelo acabar.

O investigador saiu e m e aproxim ei. Não disse nada, e a beij ei. Nem m e im portei do Bruno

ainda estar no quarto, só queria m ostrar à m inha princesa que dessa vez ela não estava sozinha e que

eu nunca iria abandoná-la. Aspirei seu perfum e doce e apreciei seus lábios com delicadeza e am or,

aquele beij o era ao m esm o tem po suave e intenso, m as carregado de sentim ento e em oção. Deslizei

m eus lábios pelos dela entreabertos pedindo passagem , ela abriu a boca um pouco e acariciei sua

língua doce com a m inha.

Levei a m ão ao seu rosto deslizando pela pele m acia da sua bochecha e pescoço, garganta e

queixo. Entrelacei os dedos em seus cabelos m assageando devagar. Pude sentir Sabrina relaxando,

aquilo que sentíam os era hipnotizante, não tínham os noção de onde estávam os quando nos

concentrávam os um no outro. Afastei-m e um pouco da sua boca e dei beij os por seu rosto subindo até

os olhos. Encostei m inha testa na dela e aguardei aqueles faróis azuis se abrirem . E sem pre que

acontecia isso, m eu coração acelerava loucam ente no peito, com o agora.

Sorri e ficam os assim por alguns m inutos.

— Q-que foi isso, am or? Fui ao céu e voltei só com um beij o.

Passei o polegar pelos hem atom as em seu rosto e quis chorar, m as não faria isso; se ela estava

sendo tão forte, eu tam bém seria.

— Só quis te beij ar, sabe que não resisto a essa boca verm elhinha e linda. — Sabrina sorriu e

corou levem ente.

— Nem m e olhei no espelho ainda. Devo estar horrível. Ainda sinto m eu rosto latej ar.

Porra, eu daria um braço para não ouvi-la falando assim . Ainda m ais sentir tudo isso.

— Tá linda, m eu am or. Mas, e aí? Com o foi com a Jeny ?

— Legal, conversam os e ela m e liberou. Estava esperando só você voltar. O Bruno tam bém . —

Ela inclinou para o lado procurando o irm ão. — Ué, cadê o Bruno?

Sorri m aliciosam ente.

— Deve ter se queim ado com o nosso fogo. — Balancei as sobrancelhas.

— Caram ba, esqueci-m e dele. Deve ter ficado envergonhado.

Dei de om bros, j á presenciam os tantos m om entos dele com a Lay la que m erecia ter de volta.

— Então, j á que está de alta, vam os pra casa. Eu peguei folga de três dias para cuidar da m inha

princesa. O Alberto m e pediu pra te levar lá.

— E o ursinho?

Respirei fundo e fui j untar suas coisas na bolsa, enquanto ela se levantava da cam a.

— Está estável, m as você não pode ir lá hoj e. Ele está na UTI. Ok? Outro dia trago você. — Eu queria esperar ele m elhorar, porque não sabia a reação da Sabrina ao ver seu am igo tão destruído.