Impulso

Gisele Souza · Capítulo 3 de 47

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Impulso

Capítulo 2

caindo em um buraco sem fim . Recostei e fechei os olhos, tentando afastar aqueles sons da m inha

m ente. Mas sabia que seria im possível, pois eu tinha um a m ania de guardar as coisas que m e

m agoavam a ferro e fogo dentro de m im . Nem após o desastre com o m eu ex, eu m e senti tão

quebrada.

Se antes eu ainda tinha dúvidas de que poderia sair da casa, agora era certo. Não conseguiria

conviver m ais com ele. Não depois de com provar o que estava acontecendo.

Lucas não m e am ava m ais, ele estava m e punindo por tê-lo rej eitado e arrum ou a m aneira m ais

dolorosa de fazer isso: segurando-m e e dem onstrando o que eu havia perdido.

Só que não seria m ais assim . Eu iria sair da sua vida para sem pre.

CAPÍTULO 2

Lucas

Depois de um a noite horrível de lam entações decidi não ir ao casam ento sozinho, liguei para

Kiara e a convidei. Ela prontam ente aceitou, m as ao chegar acom panhado por ela e ver Sabrina

sozinha m e senti um idiota total. Até que ela m e provocou com o sem pre, despertando o pior de m im .

E agi im pulsivam ente carregando m inha acom panhante para os fundos. Queria apenas distrair a

cabeça e talvez dar uns am assos, porém a m inha am iguinha, que tinha outras ideias, foi logo levantando o vestido e m e convidou para transar ao ar livre. Juro que tentei resistir, afinal era o

casam ento da m inha irm ã, m as a raiva falou m ais alto. Contudo não sentia nada enquanto estava ali.

O que Sabrina fazia com igo era pra lá de fodido. Eu tinha um a m ulher gostosa à m inha

disposição e a única coisa que conseguia sentir era repulsa de m im m esm o, de repente peguei um

vislum bre de cabelos negros correndo na direção oposta. Não deu para ver direito, pois havia um a

árvore na frente que atrapalhava a visão. Senti-m e m uito m al e não consegui prosseguir, m esm o

sendo solteiro e não dever nada a ela e a ninguém m e senti um cafaj este total.

Kiara não percebeu m eu incôm odo, ainda bem , não gostaria de ter que m e explicar. Apesar de

não term os nada sério, eu tinha certeza que não gostaria de saber em quem eu estava pensando

enquanto transava com ela. Afastei-m e e saí de dentro dela, que m e olhou com frustração. Não

conseguia term inar nada com a cabeça tão cheia.

Não tinha orgulho de ter m e tornado tão otário. Muito longe disso, m as não pude evitar, foi

infantilidade da m inha parte o que fiz. E m e sentia um com pleto idiota. Acabei decepcionando quem

eu m enos queria. Minha irm ã não aprovava o estilo de vida que estava tendo, e m esm o não falando

nada eu percebia. As m ulheres com as quais m e relacionava não eram exatam ente “garotas de

fam ília”, e Lay la não gostava. Mas quem estava reclam ando? Eram fáceis, práticas e sem am arras.

Decidi term inar logo a m erda que tive a brilhante ideia de fazer. Essa porcaria de tem peram ento

e hom em das cavernas nervosinho que adquiri, só m e colocava em fria.

Kiara logo se recuperou da decepção por não ter tido a transa que desej ava e olhou para a

m inha calça que j á estava fechada, franzindo a testa.

— O que foi, querido? Está tendo problem as de ereção? Deixa-m e cuidar de você. — Levou a

m ão para o zíper da m inha calça, m as eu logo segurei seus pulsos a im pedindo.

— Não, tá tudo bem ... — Droga! Não sabia o que dizer, ela j á estava fazendo careta da m inha

recusa. — Eu tenho que voltar para a festa, Lay la deve estar m e procurando. Nós vam os fazer um

dueto, não posso negar nada à m inha irm ã.

Kiara deu de om bros e fez biquinho. Ridículo! Será que ela achava que ficava sexy parecendo

um a criança birrenta?

— Por que você é tão ligado à sua irm ã? Parece um garotinho. E ela é bem chata pro m eu gosto,

não larga do seu pé! — Deu um sorriso debochado.

Ok, pausa aí. Essa garota iria rodar, ninguém falava da Lay la assim . E eu não ia deixar que

ficasse no casam ento dela dizendo isso.

— Passou dos lim ites, querida. Vam os, vou te levar até o portão e cham ar um táxi. Você j á devia

saber pelas outras enferm eiras que não se deve falar da Lay la assim , e se o Bruno sabe ele dá um

j eito de te botar no olho da rua. — Realm ente, m eu cunhado ficava possesso com as insinuações das

enferm eiras no início do nam oro, ainda m ais agora que estavam casados.

Já fui andando e nem escutei os protestos dela vindo atrás de m im . Se tinha um a coisa que não

adm itia era falar da m inha irm ã. Que vaca, quem ela pensava que era? No cam inho, eu m andei um a

m ensagem para a central de táxi e solicitei no endereço. Em cinco m inutos, teria um carro a postos.

Esperei im paciente para m e livrar daquele peso. Tinha que rever m inhas com panhias, não daria

para ficar m ais com esses tipos de m ulheres. Cansava-m e de suas conversas sem nexo. Graças a

Deus, o táxi não dem orou a chegar e coloquei a chata pra dentro do carro, j á pagando o m otorista, e

ainda dei um bônus por ter que aguentar aquela gralha.

Esperei até o autom óvel sum ir e voltei para a festa. Respirei fundo para encarar o rosto

m agoado da m ulher que tanto am ava, m as que se m antinha à distância. Eu sei, sou um idiota! Nem eu

m e entendia. Era um a porra de um a incógnita que não conseguia decifrar.

Varri m eus olhos pelos convidados e não a encontrei. Ué, onde ela tinha se enfiado? Nem pude

tentar achá-la. Lay la vinha em m inha direção furiosa. Droga!

— Onde você estava, Lucas?

Cara, quando m inha irm ã ficava brava eu trem ia na base. Juro por Deus, ela parecia um anj o

com o o Bruno dizia, m as a garota era um vulcão em erupção. Logo dei um passo atrás e levantei as

m ãos em rendição.

— Calm a irm ãzinha, não estou fazendo nada.

— Agora! Onde está aquela garota que você trouxe? — Apesar de linda de noiva, ela parecia

um a onça pronta para atacar.

— Ela foi em bora. Não estava a fim que ela ficasse para o resto da festa. Por quê?

Lay la colocou as m ãos nos quadris e m e olhou carrancuda. Conhecia bem aquela expressão. Eu

estava em apuros, ela sem pre m ordia o lábio quando estava brava. Devia ser para se segurar e não

fazer algo que iria se arrepender. Eu tinha que com eçar a pegar um as m anias assim , talvez não fizesse

tanta burrada.

— Você realm ente não vê o estrago que faz, Lucas? Sabrina ficou arrasada por você ter vindo

acom panhado de um dos seus rebotes.

Fiquei aliviado por m inha irm ã não saber de toda a m erda que aconteceu. Se Sabrina realm ente

presenciou m inha idiotice era bom ninguém m ais saber, j á bastava ser um a decepção para a m ulher

da m inha vida. Não precisava adicionar m inha irm ã nisso.

— Por que ela iria ficar arrasada, Lay la? Foi a própria Sabrina que m e rej eitou. Eu a queria

m uito... — A única pessoa que eu conseguia ser transparente era com a m inha irm ã, que m e entendia

de todas as m aneiras.

— Vocês dois devem ser burros, não é possível! Mas tudo bem eu não vou m e m eter, porque

um a coisa que aprendi é que em briga de m arido e m ulher não se m ete a colher. Vam os cantar aquela

m úsica que m e prom eteu e não cum priu. Tá na hora, seu chato!

Sorri am plam ente e abracei os om bros da m inha irm ã. Ela ficou m uito m ais tranquila depois que

se envolveu com o Bruno. Sua personalidade havia m udado totalm ente. Era um a nova m ulher.

Cam inham os em m eio às m esas e as pessoas acenavam cum prim entando-a. Eu não gostava tanto

do palco quanto ela, m as, às vezes, satisfazia suas vontades. Com o ainda cantava no Beer, ela m e

pedia para fazer duetos e até m esm o executar um solo. E eu sem pre atendia.

A escolha que fizem os há algum as sem anas era m uito legal. Com o sem pre, o repertório da m inha

irm ã eram m úsicas com letras significativas. Ela nunca cantava por cantar, sem pre tinha um

sentim ento em m eio a tudo.

Nos acom odam os no palco que foi m ontado no m eio do j ardim com os m icrofones e dem os o

sinal. Ela não iria usar o violão, só seriam nossas vozes e a banda contratada.

— Oi, pessoal. Obrigada por estarem aqui, esta data é m uito especial. Meu m arido que o diga.

— Ela sorriu em direção ao Bruno, que a cum prim entou com um a piscadela. Cara, esses dois era

dose de se ver, m elados ao extrem o! — E com o m uitos pediram , eu e m eu irm ão vam os fazer um dueto com Cruisin’ Together, de Huey Lewis & Gwy neth Paltrow.

Ela se virou para m im com um sorriso lindo no rosto e os olhos brilhantes. Lay la sem pre ficava

linda cantando. Tinha m uito orgulho da m ulher que havia se tornado. O prim eiro verso era m eu.

Esperei a introdução da m úsica e com ecei a cantar.

“Baby vamos viajar

Pra longe daqui

Não se confunda

O caminho está livre

E se você quiser, terá para sempre

Não é para ser só uma noite baby

Então deixa a música controlar sua mente

Apenas relaxe e você descobrirá

Que vai voar para longe

Fico feliz que você esteja no meu caminho

Adoro enquanto estamos viajando juntos

A música é tocada para o amor...”

A nossa separação foi tão im portante para m im quanto pra ela. Ficam os unidos por m uito tem po

e cada um seguiu sua vida. Mas, m esm o assim , o elo que nos uniu por todos os anos em que Lay la foi

m inha m ãe era inquebrável. Minha irm ã não sabia, m as tinha salvado m inha vida.

Visualizei Sabrina no m eio de todas as pessoas. Ela tinha os olhos inchados e verm elhos.

Algum a coisa em m im despedaçou. Saber que poderia ser a causa daquele sofrim ento acabou

com igo. Não gostava de vê-la daquela m aneira.

E de algum a form a eu tinha certeza que era m inha culpa que seus olhinhos claros estavam tão

tristes. Aquilo m e fez quase perder a voz. Dei um a gaguej ada e Lay la franziu a testa, seguiu m eu olhar

preocupado. Vendo o m esm o que eu, fechou o sem blante e balançou a cabeça em descrença.

Nem quis term inar a m úsica, dei um olhar cheio de significado para a m inha irm ã e larguei o

m icrofone na caixa de som partindo em direção à Sabrina. Podíam os não ter nada, m as ainda assim

ela era m inha am iga.

Corri com o um louco para alcançá-la. Ela nem m esm o ouviu m inha aproxim ação, estava parada

na porta da cozinha com um braço encostado na parede e a cabeça baixa. Merda, por que eu tinha

que ser um idiota? Mas o que eu iria fazer? Tornar-me um ermitão, sozinho esperando sua boa

vontade em me querer?

Aproxim ei-m e devagar e colei m eu nariz em seu pescoço. Nunca m ais avancei o sinal com ela.

Não, desde que m e recusou. Mas era im possível resistir ao seu perfum e m aravilhoso, quando sentia

tanto. Sem pre que estava relaxado em casa e num a boa, eu aproveitava um pouco. A proxim idade que

conseguia furtar, era com o um bálsam o para o m eu coração que tanto ansiava por essa m ulher.

Notei seu corpo ficar tenso e vi quando levantou a cabeça sem olhar para trás. Enlacei sua

cintura, a prendendo ao m eu corpo e sussurrei em seu ouvido:

— Onde você estava indo com tanta pressa?

Sabrina ficou em silêncio. Droga, a situação não era das boas. Aquela m ulher falava pelos

cotovelos, tê-la sem palavras não era um bom sinal.

— Sá, m e diz o que tá acontecendo. Eu não gosto de te ver sofrer.

Tive a im pressão que falei algum a besteira, porque a m ulher se tornou um a pilha, e

desvencilhou-se do m eu abraço — que pena, estava m uito confortável seu corpo m acio no m eu —, e

virou para m im com os olhos azuis furiosos. Suas pupilas estavam dilatadas e m ordia o lábio com

raiva. Mesm o assim , continuava linda.

Mas o que m ais m e incom odou foram as m arcas de lágrim as, ainda frescas em seu rosto bonito.

A m inha vontade era m e aproxim ar, enxugar seu rosto e acalentá-la por toda a noite, porém eu sabia

que se avançasse seria rechaçado. Estava cansado de ser recusado por ela. Tinha um orgulho dentro

de m im que não conseguia deixar pra lá.

— Você é um idiota sem noção, Lucas! — ela praticam ente gritou o que todo m undo parecia

saber, m enos eu.

— Não estou entendendo, Sabrina. O que aconteceu pra ficar toda nervosinha?

Cara, eu era um babaca total. Eu sabia que não tinha sido confortável para ela m e ver com a

Kiara. Mesm o Sabrina não querendo nada com igo, além de am izade, eu sentia certa atração física

vindo dela. E tinha certeza que m e ver com outra m ulher feria seu ego.

— Inacreditável! Você fica fodendo essas vadias por aí, em público, e ainda não sabe o que

aconteceu? Você é um babaca!

Sabrina estava furiosa. Gesticulava m uito e parecia prestes a explodir. E com o eu sou um filho

da puta, decidi colocar m ais lenha na fogueira.

— Mas o que você tem a ver com isso? Não m e quis e agora fica toda bravinha por eu estar

transando? O que você queria, Sabrina? Não ia ficar te esperando a vida inteira. Você não é a única

m ulher no m undo, m esm o elas não sendo tão gostosas quanto você! — Eu não sabia o que ela tinha,

que m e fazia ser um idiota, m as não conseguia evitar. Quando percebia, j á tinha soltado a m erda.

E a consequência disso? Um tapa, bem dado no m eio da cara. A garota tinha a m ão pesada.

— Você é um idiota, Lucas. Eu vou em bora, estarei procurando um apê pra m im am anhã. Não

aguento m ais essa m erda! — ela soluçava e gritava.

Senti um frio na barriga e um a dor que não tinha nada a ver com o tabefe que levei.

Não ter Sabrina com igo todos os dias ia ser o m eu fim . Mesm o estando separados, por um a

porcaria de fenda enorm e, ainda era com o um a calm aria em m eu coração revolto poder vê-la todos os dias, m esm o que fosse com aquele pij am a ridículo do Mickey.

— Você não pode ir em bora, Sabrina! — Sei que soei desesperado, m as estava pouco m e

lixando para a m inha dignidade naquele m om ento.

Sabrina abaixou a cabeça, parecia esgotada. Seu peito subia e descia com a respiração rápida,

por estar ofegante de raiva, enquanto as lágrim as caíam sem parar em seu rosto.

— Não aguento m ais, Lucas. Foram quatro anos de agonia. Não foi fácil ver aquele m onte de

m ulher entrando e saindo do seu quarto.

Nunca entenderia as m ulheres. Se ela não m e queria, por que isso a incom odava ou m achucava?

— Sabrina, m e aj uda aqui. Nosso arranj o é bom para os dois. Você não paga aluguel e

econom iza. Eu tenho relacionam entos sim , m as nunca a deixei ver ou ouvir nada. — Respirei fundo,

m e preparando para o que diria a seguir. — O que aconteceu hoj e não foi prem editado, agi sem

pensar. Nunca faria nada para m achucá-la. Quando fico com raiva das nossas brigas, viro um idiota

sem noção.

— Que briga, Lucas? Eu só perguntei por que você não estava com a vadia sem cérebro da vez.

— Tá aí. Esse é o m otivo. Você não m e quis e fica j ulgando as m eninas com quem eu saio.

Ok, Kiara não tinha nada na cabeça m esm o. Mas não iria dar esse gostinho pra ela saber que

tinha razão. Sabrina j á era egocêntrica o bastante, obrigado.