Impulso

Gisele Souza · Capítulo 35 de 47

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Impulso

Capítulo 34

— Alberto e Heitor sofreram um acidente de m oto.

CAPÍTULO 34

Lucas

Quando as coisas com eçam a desandar é de um a vez só. Pela cara do Bruno, o acidente devia

ser sério. Observei Ana que estava pálida e procurava um lugar para se apoiar. Não em itia nenhum

som . Com ecei a m e preocupar. Ela se fazia de durona, m as quando envolvia o Alberto era com o um a

bom ba prestes a explodir.

— Ana, você está bem ? — perguntei m e aproxim ando devagar. Parei à sua frente e levantei seu

rosto, vi que seus olhos castanhos refletiam m uita preocupação.

Ela engoliu em seco e assentiu. Por via das dúvidas, a puxei pelo braço para que se sentasse na

poltrona que eu tinha ocupado. Voltei m inha atenção ao Bruno que parecia em basbacado.

— Já sabe da gravidade da situação?

— Parece que eles estavam próxim os à cidade e um carro em alta velocidade pegou os dois em

um cruzam ento. Eu não estou tendo boas perspectivas não, cara. — Passou a m ão no rosto em

nervosism o.

A sala estava em silêncio pela notícia, ninguém esboçou reação. Mas tinha que fazer algum a

coisa.

— Vam os lá, a gente procura saber m ais inform ações. — Bruno assentiu e saiu para o corredor,

voltei para a cam a onde Sabrina estava deitada e beij ei sua testa. — Volto logo, m eu am or. Qualquer

coisa m anda m e cham ar, e se a Ana passar m al não hesite em procurar aj uda. Ok?

— Tudo bem . Traga notícias. Meu Deus, eu não tive um bom pressentim ento dessa viagem .

— Eu sei princesa, m as vam os torcer para que nada m uito sério tenha acontecido aos nossos

m eninos. Volto com notícias. Ok?

Saí dali pra encontrar Bruno, que estava m eio abalado no corredor. Além de ser m uito ligado ao

Alberto, seu am igo de anos, teve o lance com a Sabrina e ainda o Heitor, que tinha se tornado tão

im portante para nós. Um am igo de verdade.

Chegam os à recepção e logo assaltam os a garota do plantão com perguntas:

— Patrícia, tem notícias do acidente do Alberto?

Ela balançou a cabeça concentrada, e digitou algum as coisas no com putador com um a expressão

triste no rosto.

— Eles estão sendo trazidos para cá e chegam ao m áxim o em dez m inutos. O acidente foi grave

e estão desacordados. Só isso que foi inform ado no sistem a. Sinto m uito.

Bruno se virou com as m ãos na cabeça. Estava m uito abalado, a noite não tinha sido fácil. E eu

suspeitava que estivesse longe de acabar.

— Porra, aqueles filhos da puta tinham que pegar a estrada à noite. Que m erda, nós avisam os a

eles, Lucas. Por que tinham que ser tão teim osos?

Aproxim ei-m e e coloquei a m ão em seu om bro.

— Vem , vam os nos trocar para cuidar dos nossos am igos quando chegarem .

Ele se virou com os olhos brilhando de lágrim as não derram adas.

— Você acha isso prudente? Por estarm os tão envolvidos? Tem todo um protocolo.

— Foda-se o protocolo, am bos são nossos am igos. Tem os que cuidar deles. Você é o m elhor na

sua área e m odéstia à parte eu sou bom tam bém , estam os sem ortopedista no plantão de hoj e e

provavelm ente eles têm ossos quebrados.

Bruno balançou a cabeça e m ais que depressa correm os para o vestiário, trocam os nossas

roupas pelos uniform es da em ergência. Voltam os apressadam ente para a entrada do hospital, agora

era só esperar a am bulância. Quando chegam os tinha vários am igos de profissão à espera. Alberto

era querido por todos no hospital. Estavam tensos e preocupados.

Minutos depois escutam os a am bulância se aproxim ando e não dem orou m uito para que parasse

no acostam ento. Eu e Bruno agim os rapidam ente, estávam os com o equipam ento todo em m ãos e

prontos para a realização da triagem , que era o principal a ser feito.

Dois param édicos saíram rapidam ente e deram a volta abrindo a am bulância, onde desceram

prim eiram ente um a m aca e notei ser Heitor, porque o reconheci pela cor da sua pele, pois seu rosto...

Deus, ele estava m uito m achucado! Seu braço estava em um ângulo estranho, enquanto o rosto, o

pescoço e as pernas... estavam esfolados e ensanguentados. Por ser careca podia ver a ferida aberta

em sua cabeça coberta com gaze para o estancam ento do sangue, porém ele j á estava entubado e no

balão de oxigênio.

A segunda m aca foi retirada do veículo e Bruno se aproxim ou. Depois de fazer a triagem de

Heitor iria verificar com o Alberto estava. Levantei suas pálpebras para ver se estavam reativas, ele

m ostrou um a pequena contração na pupila. Provavelm ente estava com traum atism o craniano.

— Paciente negro, 32 anos, com possibilidade de traum atism o craniano, pulsação baixa, braço

direito quebrado. Encam inhar urgente para a sala de ressonância m agnética — dei ordens para os

residentes responsáveis, de lá seria feito o exam e com pleto para encam inhar o m elhor tratam ento.

Voltei m inha atenção para o Alberto e Bruno j á estava fazendo a triagem . Ele não estava nada

bem , m achucado por todo o corpo. Seu rosto estava m uito ralado.

— Paciente caucasiano, 33 anos, pupilas reativas, descarto possibilidade de traum atism o

craniano. Pulsação forte, m as continua inconsciente. Fratura exposta na perna direita, cirurgia

urgente. — Ele m e olhou m ostrando em seus olhos o significado disso. Apesar de ser j ovem era

m uito com petente, deixando a m odéstia de lado, afinal eu trabalhei m uito para isso.

Assenti e j á fui dando ordens.

— Encam inhem Alberto para a sala de Traum atologia o m ais rápido possível, não podem os

dem orar, há risco de infecção e am putação da perna. — Me virei para o Bruno enquanto levavam

Alberto para a cirurgia. — Vá ver o Heitor, estou m uito preocupado. Ele m e parece péssim o, quase

não teve reação cerebral, Bruno.

— Ok. Cuide do nosso am igo.

Assenti e corri hospital afora. Estava nervoso, j á havia feito cirurgias sérias e de em ergência,

m as ali na m esa de operação estaria m eu am igo. Ele dependia de m im para ter sua perna no lugar.

Não que os outros pacientes fossem diferentes, porém sem pre ficava concentrado em m eu trabalho,

m as naquele m om ento tinha m uitos sentim entos duelando em m eu coração. Preparei-m e rapidam ente

esterilizando as m ãos, vesti a roupa descartável, colocando um a m áscara e a touca.

— Dr. Lucas, o paciente apresenta fratura exposta com inutiva no fêm ur da perna direita, o osso

foi quebrado em três pedaços. A carne foi lacerada. O restante dos órgãos encontra-se intactos. O

paciente está sedado, m as responde bem a estím ulos. O Dr. Ricardo está a cam inho para

supervisionar a cirurgia.

Assenti e m e posicionei ao lado do paciente. Sua perna estava coberta por um pano com

abertura só no ferim ento. Observei atentam ente e vi que o negócio estava feio. Se a cirurgia não fosse

bem feita, ele poderia perder a perna se infeccionasse. Sua recuperação seria dolorosa, o osso estava

quase esm igalhado. Olhei para o seu rosto. Naquele m om ento o diretor do hospital entrou todo

equipado para acom panhar o procedim ento.

— Aguenta aí, am igo, porque vou te aj udar. — Virei-m e para a equipe m édica presente. —

Vam os lá, pinos e placas aqui, por favor. Vam os esterilizar esse ferim ento para que fique fora de

infecção. Drenagem para o sangue, j á tem a intravenosa da transfusão?

Com tudo no lugar foquei totalm ente em m eu trabalho. Reposicionei os ossos dilacerados

tom ando cuidado para não ter nenhum pedaço preso à carne, e esterilizei tudo. Pedi a Deus para que

m e desse sabedoria, nunca tinha ficado tão nervoso em um a cirurgia. Coloquei a tala por baixo a fim

de m anter a perna reta e com eçar a fixação dos parafusos. Fiz um a incisão para trabalhar m elhor e

fixei os pinos com finalidade de m anter o osso no lugar posteriorm ente à placa, era algo com plicado

e m eticuloso. No total foram oito parafusos e a haste.

Quando a parte m ais com plicada acabou, dei m ais um a esterilização geral e fechei a incisão.

Ele iria ficar com um a boa cicatriz na coxa. Im obilizei sua perna em um a tala e enfaixei com o intuito de que ele não se m exesse e danificasse o osso. Com tudo term inado, respirei fundo e olhei para o

teto fazendo um a prece silenciosa pelo sucesso do tratam ento.

— Ok, pessoal. Levem -no para um quarto particular e o deixe sedado por horas, para que seu

corpo se cure sozinho, sem fortes em oções. Am anhã podem tirar a sedação para que ele acorde. Eu

vou avisar os fam iliares e am igos.

As enferm eiras assentiram e m e aproxim ei do rosto de Alberto que, apesar de m achucado e um

pouco pálido pela perda de sangue, estava bem .

— Você vai sair dessa, m eu am igo. Agora vou ver nosso careca tatuado. — Levantei-m e e olhei

para o diretor do hospital. — Ricardo, obrigada pela supervisão, sem você eu teria burlado o

protocolo.

— Sem problem as, Lucas. Você foi brilhante, ainda bem que não vou ter que dem iti-lo — sorriu

e foi j unto com a equipe.

Saí da sala e retirei a roupa descartável. Olhei m eu rosto no espelho e percebi o quanto estava

abalado com tudo aquilo, estava pálido e com olheiras. A noite não tinha sido fácil para ninguém ...

Engoli em seco e fui ver a Sabrina, dar notícias, pois deviam estar preocupadas. Depois veria com o

Heitor estava. Apesar de ter ficado por cerca de duas horas na sala, o caso dele era m ais grave e,

provavelm ente, a cirurgia dem oraria m ais.

Bati na porta e entrei, todas m e olhavam com expectativa, retirei a touca do cabelo e passei os

dedos para acertar. Sentei-m e na cadeira ao lado da porta e respirei fundo.

— Ah, porra Lucas, fala logo. Estou enlouquecendo sem saber nada. Com o eles estão? — Ana

tinha os olhos verm elhos e arregalados.

— Alberto teve a perna quebrada com fratura exposta. Eu fiz a cirurgia, m as o deixei dopado

para que descanse. Nada m ais sério do que isso, vam os adm inistrar antibiótico para conter qualquer

infecção que ele venha a ter. O problem a é o tatuado.

Lay la ofegou e se aproxim ou, além de obviam ente cansada, estava preocupada e assustada.

Acidentes m exiam conosco, perdem os nosso pai assim e a lem brança m achucava m uito.

— O que aconteceu com o Heitor, Luquinha?

— Ele foi o m ais atingido, está todo m achucado e com o braço evidentem ente quebrado, m as o

pior é a sua cabeça. Vim lhes dar notícias antes de procurar por ele. Ainda deve estar em cirurgia.

— Ah, m eu Deus, quanto desastre! — Dona Marisa estava horrorizada e sentada ao lado de

Sabrina na cam a.

Levantei-m e e fui ver m inha princesa.

— Você está bem , querida? Não aprontou nada, né?

— Não, eu saí e tentei procurar respostas, m as não m e deixaram ir para m uito longe. Tive que

voltar.

Balancei a cabeça sorrindo, Sabrina era im possível. Mesm o abalada e m achucada era teim osa.

— Trata de ficar quietinha aqui. Eu vou buscar por notícias e volto.

Olhei todas as m eninas e voltei para o corredor, andei de cabeça baixa com a touca na m ão,

teria que colocar de volta para entrar na sala de cirurgia. Não podia acreditar em tudo que acontecia.

Alberto estava fora de perigo de m orte, m as seu estado ainda era preocupante. O corpo teria que

reagir caso houvesse infecção. E teria que ser forte, pois a recuperação seria dolorosa, fora ainda os

m eses de fisioterapia.

Minha preocupação m aior era o tatuado. Cheguei à sala de Neurocirurgia e m e vesti com

m aterial esterilizado novam ente. Entrei e vi que Heitor ainda estava em cirurgia. Pelo visto, teve

vários rem endos, m as naquele instante era a sua cabeça que estava sendo operada. Bruno m e viu e se

aproxim ou, cham ando para a parte envidraçada do outro lado. Não era prudente barulho naquele

am biente.

— Ele tá m al, Lucas. Teve o baço perfurado por um a costela, o braço esquerdo fraturado e, o

pior, a concussão na cabeça. Seu cérebro está inchando consideravelm ente. Pascoal está retirando um

tam pão para que ele não tenha pressão intracraniana, o risco de AVC está altíssim o. Estou

preocupado, cara. — Ele balançou a cabeça, respirou fundo enquanto ainda olhava por detrás do

vidro. — E o Alberto?

— Fora de perigo. A fratura no fêm ur foi bem feia e sua recuperação não vai ser fácil, fora isso

m uitos arranhões e m achucados. Mas nada sério, agora é torcer para ele ficar fora de infecção.

Bruno assentiu e suspirou.

— Já falou com as m eninas? Devem estar preocupadas. Eu não pude ir lá. Depois de estancar a

hem orragia no baço dele, preferi ficar.

— Eu fui lá. Estão bem nervosas. Ana parecia bem abalada e Lay la ficou preocupada com o

tatuado.

Olham os na sua direção. Pancada na cabeça é com plicada, porque não depende apenas do

cérebro desinchar para que tudo acabe bem , pode haver sequelas irreversíveis, fora o fato que

depende tam bém do paciente ter força de vontade.

— Espero que esse pesadelo acabe logo. Você vai ficar? Vou ver se Lay la está bem . Espero por

você quando acabar do lado de fora. Ok?

— Tudo bem . Só saio daqui com notícias concretas. Vai tranquilo ver a sua m ulher.

Observei Bruno sair de cabeça baixa e observei nosso am igo. Heitor era um cara legal, m as

triste. Ainda m erecia um a chance de ser feliz. Só podíam os esperar que tudo desse certo.