Impulso
Capítulo 19
Sabrina
Eu descarreguei toda a raiva que sentia em gritos chutes e socos. Não sei se fiz bem , m as
quando o vi feliz e inteiro enquanto eu m e despedacei por anos, tive que agir. Era o m esm o noj ento
que m e lem brava, e ainda se vangloriou de sua atrocidade. A única coisa que m e deu força depois
que passou a adrenalina foi saber que eu não estava sozinha. O am or e o apoio do Lucas foram
essenciais naquele instante.
A reação dos pais do Rick foi de dar pena. Sua m ãe não parava de chorar e o pai estava
arrasado, porque am bos não paravam de pedir perdão. Senti um a calm aria em m eu peito. Não m e
descontrolei m ais. Mas quando entram os no carro novam ente deixei as lágrim as descerem aliviando
a angústia dentro de m im . Pensar que poderia ter evitado através de um a denúncia que tantas m eninas
tivessem sofrido o que eu sofri, m e arrasou com pletam ente. Lucas m e abraçou e não disse nada,
apenas m e deu seu om bro.
Estávam os indo para a casa da m inha m ãe. Já im aginava o que encontraria lá. Mal percebi o
cam inho que percorrem os, porque estava curtindo o colo que recebia. Quando Bruno parou, olhei em
volta e avistei m inha m ãe parada na varanda da frente. Sem pre tão linda e forte, ela parecia acabada.
De longe podia ver seus olhos verm elhos. Tinha os braços cruzados e com um a m ão cobria a boca.
Estava saindo, quando vi m inhas irm ãs e Lay la se j untaram a ela na varanda.
Todas estavam tristes e chorando, porém estavam ali para m e aj udar e, ao m esm o tem po, m e
apoiar. Fiquei aliviada por não precisar falar nada. Engoli em seco e abri a porta, m as antes de sair
Lucas segurou o m eu braço. Olhei em seus olhos lindos e senti o am or que tinha por m im .
— Não fique com m edo, elas só querem te abraçar.
Assenti e saí. Abaixei os olhos e fui andando sozinha até m inha fam ília. Quando cheguei ao
prim eiro degrau de cabeça baixa percebi m inha m ãe parada à m inha frente. Ela colocou a m ão em
m eu queixo e ergueu.
— Nunca fique de cabeça baixa, m inha filha. Não há m otivo para ter vergonha, você é um a
vencedora. Eu tenho orgulho da m inha m enininha.
Meu coração se encheu de am or, j oguei-m e nos braços dela e m e senti com o um a criança
novam ente. Minhas irm ãs e Lay la vieram em um abraço grupal, protegendo-m e de todo o m al.
Estávam os em ocionadas e abaladas, m as o carinho da m inha fam ília levou em bora toda a dor
que ainda restava em m im . Estaria sem pre m arcada, um a tragédia com o a que aconteceu com igo
nunca iria sum ir da m inha m ente. Mas tendo am or, com preensão e apoio, conseguiria ultrapassar
qualquer barreira. Eu era feliz por ter seres m aravilhosos que m e am avam incondicionalm ente.
Murm úrios de prom essas e declarações de am or m e elevaram a um estado pleno. Prom eti ali no
abraço das m inhas m eninas viver cada m om ento único de am or e carinho. Sentir apenas as coisas
boas, além de felicidade. Por isso, decidi fechar essa página da m inha vida e dar um a chance para
ser feliz.
Não iria m ais chorar por algo que não valia a pena. Eu estava curada de toda raiva e m ágoa que
possa ter sido plantada em m eu coração e alm a.
Separam o-nos e encarei as m inhas garotas. Cada um a com seu j eitinho singular, que eu am ava.
Ana era a m ais abalada visivelm ente. Mesm o Larissa sendo a m ais velha, com a m inha irm ã do m eio
eu tinha um a relação de am izade e cum plicidade. Senti-m e m al por ter escondido tudo dela.
— Sinto m uito! — eu disse com a voz baixa.
Ela sacudiu a cabeça e m e olhou zangada.
— Não tem o que se desculpar. Não vou dizer que é um a vítim a, porque tenho certeza que não
quer ser vista assim . Você é um a lutadora, pois viveu por esses anos sem se entregar à solidão e à
dor, m inha irm ã. Quantos não aguentam , m esm o tendo tratam ento psicológico? E você evoluiu e
viveu. Realizou seus sonhos.
Sorri e olhei para trás onde Lucas e Bruno estavam parados.
— Menos um . — Voltei m inha atenção para elas. — Eu o perdi por m uito tem po.
Lay la sorriu carinhosa e passou a m ão por m eu braço.
— Você nunca o perdeu, Sabrina. Lucas sem pre te am ou e esperou o tem po que precisava para
se curar. Mesm o não sabendo o m otivo, ele respeitou sua vontade. Você tem um a vida inteira pela
frente. Ele é louco por você! Olha lá a cara de paspalho, nunca o vi assim .
— E olha sua sorte, m enina. Um gatinho que nem ele, não se acha em qualquer canto. Se liga,
hein, ou tom o ele de você. — Ana usava a brincadeira e o sarcasm o com o um a arm adura, m as j á
havia m e acostum ado com sua personalidade.
Larissa arregalou os olhos e sacudiu a cabeça, em desaprovação.
— Ana Luiza, pelo am or de Deus, o garoto é bem m ais novo que você.
— Nem tanto, e eu tenho todo um charm e. Dá licença, você está fora do m ercado. — Mostrou a
língua pra Larissa.
Essas duas sem pre se im plicavam . Às vezes, o hum or de Ana era irritante e Larissa, sendo tão
responsável, caía em sua provocação.
— Eu não sei com o vocês conseguem m udar o rum o da conversa tão fácil. Vam os entrar porque
tem um alm oço nos esperando. Os m eninos devem estar com fom e. — Minha m ãe sem pre apaziguava
os ânim os sem repreender ninguém .
— Que m eninos, m ãe?
— O m ala careca e os pestinhas da Larissa. Ah, e o estorvo do Alberto. Não sei pra que vocês
ainda o convidam . — Tem um ditado que diz assim : “Quem desdenha quer com prar”.
Vi um brilho diferente nos olhos da m inha irm ã ao pronunciar o nom e de Alberto. Será que ela
j á estava pronta para retom ar um am or há tanto tem po perdido? Só o tem po diria, relacionam ento é
m uito com plicado.
Bruno e Lucas se aproxim aram e seguim os para a sala com m inha m ãe à frente. Entram os de
m ãos dadas, j á estava m ais relaxada em relação à intim idade em público. Nunca m ais negaria o que
sentia pelo Lucas.
Quando cheguei à sala estavam todos em silêncio m e observando. Fiquei com m edo de ter que
falar algo. Não queria m ais relem brar tudo novam ente, m e explicar. Sei que m eu irm ão iria entrar
com um processo e teria que dar m eu depoim ento, m as não pra m inha fam ília. Agora queria esquecer.
Lucas deu um aperto reconfortante na m inha m ão e olhei em seus olhos.
O am or que vi ali m e fez querer beij á-lo, e assim fiz. Segurei seu rosto e fiquei nas pontas dos
pés. Um selinho carregado de carinho foi depositado em seus lábios. Afastei-m e e sorri. Alberto que
chegara há pouco, m as não sabia do que havia acontecido, estava se aproxim ando com um a
expressão engraçada.
— Cara, você tem noção do quanto é estranho ver você beij ando ela? Faz isso na nossa frente
não, que chato! — Ouvim os um bufo estridente e Ana estava com a cara torcida. — Que foi Ana
Luiza, tá com invej a?
Ela estreitou os olhos e levantou-se ficando cara a cara com Alberto. Afastam o-nos um pouco,
pois desses dois podia vir qualquer coisa.
— Pode até ser, porque Lucas é tudo que um a m ulher pode pedir a Deus. Sabe, preciso arrum ar
um nam orado logo. Será que não tem nenhum am igo no seu estilo no hospital, não, Lucas?
Lucas abriu a boca pra responder, m as m e inclinei e sussurrei:
— Não responde, só vai piorar. Ela perguntou para provocar. — Ele assentiu.
— Agora virou papa-anj o, Ana?
— Melhor do que galinha, filho da puta.
— Você não tem j eito. Será que vou ter que falar tudo de novo?
Eles se encaravam com o cães raivosos. Poderiam se m order a qualquer m om ento. Bruno
adiantou um passo e se postou ao lado deles.
— Dá pra parar os dois? Caram ba, porque não transam e m atam logo essa vontade? Porra, não
conseguem ficar um m inuto sem se atacarem m utuam ente!
Alberto tinha as narinas infladas e pensei que iria agarrar a Ana e tascar-lhe um beij o, talvez
fosse o que ela queria. Mas ele se afastou virando de costas, colocou as m ãos na nuca e respirou
fundo.
— Não se preocupe Ana Luiza, eu vou sum ir da sua vida. — Se virou para m inha irm ã e a
encarou, tinha tanta dor em seus olhos que fiquei com pena. — Só não se arrependa depois. Desculpe
pessoal, não posso ficar aqui. Tchau, Sabrina.
Acenei com a m ão e ele saiu disparado pela porta. Ana arregalou os olhos e deu um passo à
frente. Meu coração disparou porque parecia que eu via um film e, achei que ela iria sair correndo
atrás dele e fiquei na expectativa, porém Ana recuou e foi para a cozinha com o se nada tivesse
acontecido.
Bruno balançou a cabeça e m e observou.
— Ainda bem que você não é cabeça-dura assim . Ana ainda vai perder o cara e se arrepender
depois.
— Mas por que eles ainda ficam brigando tanto, se ela não quer ficar com ele?
— Porque ela sente algum a coisa por ele, e não gosta disso. Alberto vai viaj ar esse final de
sem ana e só volta em quinze dias. Acho que vai ser bom ficarem sem se ver por um tem po. —
Suspirou. — Ou m orrem de saudade um do outro, ou percebem que não há m ais nada a ser feito. —
Afastou-se alcançando sua esposa. Deu um beij o em sua testa e sentou ao seu lado. Depois de todos
voltarem ao norm al após a confusão, Lucas m e arrastou para a varanda de trás e parou na escada.
— Vem , vam os dar um a volta.
Assenti e o acom panhei pelo quintal. Andam os de m ãos dadas sem dizer nada. Estava um dia
nublado e fresco. Chegam os a um lugar que não tinha voltado desde o casam ento do m eu irm ão.
Estaquei ao ver que Lucas havia m e levado ao banco onde o peguei com aquela vagabunda.
Meu peito doeu com a lem brança e olhei para ele, m agoada.
— Por que m e trouxe aqui?
— Confia em m im ? Então, vem .
Droga, não gostava de voltar a esse lugar. Mas eu fiz um a prom essa a m im m esm a de confiar no
Lucas, então segui adiante. Com o estôm ago em brulhado, nos aproxim am os do banco. Fechei os
olhos quando a lem brança dos dois m e assolou.
— Sabrina olha pra m im , por favor.
Abri os olhos e Lucas estava na m inha frente com um a expressão séria e os olhos brilhantes.
Cobriu m eu rosto com a m ão espalm ada e passou o polegar pela m inha bochecha, em um carinho
relaxante. Estava m e contendo para não sair dali. O que m e segurou foi ver que tinha lágrim as nos
olhos do m eu am ado.
— Eu não te trouxe aqui para m agoá-la. Queria te pedir perdão para o que aconteceu nesse
lugar, sei que am ava esse banco e não foi legal o que ocorreu aqui. Se eu pudesse voltaria atrás em
m uita coisa que fiz e disse, fui um idiota sem noção e um egoísta que só pensou em si m esm o. —
Respirou fundo. — Se eu tivesse prestado atenção teria percebido que você m e am ava e sofria com
tudo que acontecia, m as eu tam bém estava m agoado. Aquele dia do casam ento foi o estopim da m inha
frustração, fui falar com você, que m e tratou friam ente enquanto eu queria te beij ar a noite toda,
porque estava linda naquele vestido. Então, fui idiota e im pulsivo. Eu quero fazer desse banco um a
lem brança diferente. Quero que lem bre que foi aqui onde eu finalm ente percebi que estava te
m agoando e resolvi lutar para ter você. Sei que pode soar estranho, m as eu nunca tinha notado a dor
em seus olhos até aquele dia. Eu te am o dem ais, Sabrina. Não quero que se negue a ficar em um lugar
onde você usava para relaxar. Então, aqui vai...
Lucas se aj oelhou e pegou um a caixa no bolso. Meu coração acelerou, ele não podia estar
fazendo o que eu im aginei. Arregalei os olhos e dei um passo atrás.
— Calm a, princesa. Deixa-m e term inar, não saia correndo. — Sorriu m alicioso. — Eu quero ter
você para o resto da m inha vida, entendo que não está preparada para algo m ais sério e respeito.
Mas eu tenho isso há quatro anos guardado, e achei que estava na hora de dar a você. Eu não farei o
pedido oficial agora, porque acho que você vai desm aiar. Mas você aceita ser m inha, e só m inha,
para sem pre?
Abriu a caixa e, finalm ente, vi o que tinha repousado na alm ofada de veludo. Um colar dourado
com um pingente delicado, um sím bolo do infinito com as pontas em form ato de coração. Na parte
que atravessava a frente era toda cravej ada de pedrinhas brilhantes.
— Lucas, isso deve ter sido m uito caro. — Foi só o que consegui pensar, pois há quatro anos
ele era som ente um estudante de Medicina.
Ele se levantou e pegou em m eu queixo fazendo-m e erguer a cabeça para olhá-lo nos olhos.
— Não interessa quanto foi. Ele está esperando para ficar em seu pescoço esse tem po todo. Eu
o com prei porque a única coisa que tinha certeza na vida era que eu te am ava tanto, e o “até que a
m orte nos separe” não é o bastante. Quando o vi na j oalheria não tinha outra opção a não ser vê-lo
em seu pescoço. Então, Sabrina, aceita ser m inha até o infinito? Assim com o esse colar sim boliza,
m eu am or por você não tem início, m eio ou fim .
Deus, nunca im aginei am ar alguém com tanta intensidade. Lucas segurava m eu pescoço,
im pedindo-m e de desviar o olhar. E só havia um a resposta a isso tudo. Eu era dele a partir do
m om ento que nossos olhos se cruzaram .
— Quando tudo aconteceu com igo, eu m e quebrei e fiquei insensível pelo que acontecia ao m eu
redor. Pretendia m e tornar alguém diferente. No m om ento que te vi no bar, m eu coração am eaçou bater novam ente, m as eu neguei até onde pude. Não queria ter essa fraqueza, ainda estava m agoada. E
depois percebi que não tinha j eito e te am ava dem ais, não pude ficar contigo por m edo de te m agoar.
Ainda estava quebrada. Após anos m e m achucando, perm anecendo na sua casa e vendo o vai e vem
de m ulheres... — Lucas fechou os olhos com o que eu disse, m as eu não queria j ogar na cara dele, era
um a explicação que m e senti obrigada a dar. — Não fique assim , não estou j ulgando, só quero que
saiba tudo o que senti. Depois disso percebi que tinha que ir em bora, m as o sim ples fato de não te
ver m ais toda m anhã, fazia m eu coração querer vegetar novam ente. Minha m ente pedia algo que m e
recusava a fazer, m esm o sendo o m ais fácil. E a nossa prim eira vez eu insisti para que fosse apenas
sexo, porque era o que eu estava acostum ada. Era m ais seguro assim , só que com você nunca foi só
sexo.
Ele sorriu e encostou a testa na m inha. Ficam os nos encarando e percebi que j á tinha lágrim as
escorrendo por m eu rosto tam anha era a em oção que sentia.
— Você finalm ente consertou todos os m eus pedaços quebrados, Lucas. Você é m eu infinito.
Não tem os início, m eio ou fim . Som os um .
Fui arrebatada por um beij o m aravilhoso. Ele ria dentro da m inha boca e m e contagiou com sua
alegria. De repente, fui levantada do chão por seus braços, Lucas soltou dos m eus lábios e j ogou a cabeça para trás rindo feito um m enino. Girou-m e, dando gargalhadas e m e j untei a ele. Abri os