Jaqueta Branca

Herman Melville · Capítulo 100 de 101 · parte 4/4

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Jaqueta Branca

Notas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

356. À época, Terra de Palmer era a designação que se dava, nos Estados Unidos, a toda a península Antártida (em homenagem ao caçador de focas oitocentista Nathaniel Palmer); o nome, contudo, não era adotado pelos britânicos, que a chamavam de Terra de Graham. O imbróglio entre os dois países resolveu-se em 1964, com o estabelecimento de uma linha divisória, ao norte da qual a extensão de terra ganha o nome do inglês e, ao sul, o do norte-americano. Apesar de tal esforço diplomático, a península Antártida conhece ainda outras designações, como Tierra de San Martín, na Argentina, e Tierra de O’Higgins, no Chile.

357. Um dos signatários da Declaração de Independência norte-americana e seu principal autor, Thomas Jefferson (1743-1826), político natural do estado da Virgínia, é um dos pilares do movimento revolucionário que levou à autonomia e à constituição dos Estados Unidos. Presidiu o país entre os anos de 1801 e 1809, sendo o terceiro a assumir o cargo, na esteira de seus companheiros fundadores George Washington e John Adams.

358. A República Puritana (1649-60) coincide com a ascensão ao poder executivo do puritano Oliver Cromwell, líder militar dos comuns do Parlamento inglês. Embora tenha existido num curtíssimo espaço de tempo, a república de Cromwell foi fundamental para a reorganização do Commonwealth britânico e a consolidação de seu poderio nos mares. Com a morte de Cromwell e a transmissão do poder a seu filho, Ricardo, a República enfraqueceu, e as formas de oposição monárquicas conseguiram assumir novamente o poder, restaurando o trono britânico sob o cetro de um representante da casa real dos Stuart, Carlos . George Jeffreys, primeiro barão Jeffreys de Wem (1645-89), foi juiz e lorde chanceler durante os anos do curto reinado de Jaime (1685-88), o lorde almirante da família Stuart citado por Melville na passagem. Ficou particularmente conhecido por sua postura durante o julgamento de Algernon Sydney (1623-83), político inglês e teórico republicano. Sydney, que tivera importante papel político nos anos da república, foi implicado na Conspiração da Rye House (1683), que planejara a morte de Carlos e de seu irmão Jaime. Durante o reinado deste último, mostrou-se particularmente severo no enfrentamento da agitação social que antecedeu a Revolução Gloriosa (1688), que destituiria os Stuart e restauraria a monarquia sob a hegemonia parlamentar.

359. Os primeiros Artigos de Guerra da Marinha em língua inglesa foram produzidos no séc. durante o décimo terceiro ano do reinado de Carlos , sob o título Um ato para o estabelecimento de artigos e ordenamentos para o regulamento e melhor governo dos navios, navios de guerra e forças marítimas de Sua Majestade. Esse ato foi revogado e, no que toca aos oficiais, uma modificação dele tomou seu lugar no vigésimo segundo ano do reinado de Jorge [1749], logo depois da proclamação da Paz de Aix-la-Chapelle [1748], há um século. Esse último ato, crê-se, compreende, em substância, os Artigos de Guerra até hoje vigentes na Marinha britânica. Não é pouco curioso, nem sem significado, que nenhum desses atos explicitamente empodera um oficial a usar da chibata. Era quase como se, nesse caso, os legisladores britânicos estivessem dispostos a deixar tal estigma fora de seu estatuto orgânico e conceder o poder do açoite de forma menos solene e, talvez, menos pública. De fato, os únicos grandes decretos sancionando o açoitamento na Marinha podem ser encontrados no Estatuto Geral americano e nas “Leis do Mar” do monarca absoluto, Luís, o Grande, de França. (Para referência ao último, L’Ord. de la Marine, conferir Curtis, Tratado sobre os direitos e deveres dos marinheiros mercantes, segundo a Lei Marítima Geral, parte ii, c.i.) Tomando por base o acima mencionado Código Naval Britânico e enxertando-o com as leis positivas de açoite, que a Grã-Bretanha relutava em reconhecer em seu estatuto orgânico, nossos legisladores americanos, no ano de 1800, estruturaram os Artigos de Guerra que hoje governam nossa Marinha americana. Eles podem ser encontrados no segundo volume das resoluções publicadas no Estatuto Geral americano sob o capítulo 23, “Um ato para o melhor governo da Marinha dos Estados Unidos”. (Nota do Autor)

360. Para Jaime II, ver nota 10; para seu sogro, Edward Hyde, ver nota 287.

361. John Benbow (1653-1702) foi oficial britânico da Marinha Real. Depois de desentendimentos com o alto comando naval que o levariam à exoneração do serviço militar, Benbow retornaria à Marinha Real, após a Revolução Gloriosa (1688), chegando ao almirantado em 1695. Sobre Blake, ver nota 187.

362. O Consulado do Mar foi um corpo de arbitragem jurídico-mercantil estruturado sobre a autoridade de cônsules e um prior, que, institucionalmente ligado ao reino de Aragão e suas mais importantes cidades costeiras à época, Barcelona e Valência, estendeu sua representatividade por todo o Mediterrâneo entre os sécs. e . Nesse período, o Consulado do Mar acabou por ir além da própria vitalidade do reino cuja hegemonia representava para se tornar, a partir das leis que constituiu ao longo de séculos de arbitragem de conflitos, a base do código de leis navais compartilhadas na região. Datado de 1494, o Livro do Consulado do Mar (no original catalão, Les costums marítmes de Barcelona universalment congudes per Llibre del Consolat de Mar) é a primeira compilação de tais leis e usos, consolidadas a partir de fontes legais que remontam ao Império Romano.

363. O Conselho dos Dez existiu na República de Veneza entre 1310 e 1797 para a manutenção da segurança institucional do Estado, após tentativa de golpe ditatorial por parte de Bajamonte Tiepolo, um patrício local. A Câmara Estrelada foi uma corte inglesa instalada no Palácio de Westminster entre fins do séc. e meados do .

Formada por um conselho sigiloso e juízes de direito comum (isto é, da lei consuetudinária britânica), dava sustentação às atividades legais ao garantir a efetividade da lei contra indivíduos de fortuna e poder, para os quais as cortes comuns talvez se mostrassem frágeis. Ao longo de seus dois séculos de uso, não raro mostrou-se tribunal político, condenando e absolvendo ao sabor das disputas de poder.

364. Sir Edward Coke (1552-1634) foi procurador, juiz e político britânico, considerado a maior autoridade jurídica do reino nos períodos elisabetano e jacobino. Algumas de suas decisões em corte — como as que tornavam a figura do rei legalmente imputável, e decretavam as leis do Parlamento injustificadas em caso de violação da “lei comum e da razão” — tiveram ressonância um século depois, durante os debates jurídicos que levariam as treze colônias britânicas da América a sua Guerra de Independência. Coke foi também autor de algumas das principais obras do pensamento jurídico britânico, como os Institutos das leis da Inglaterra.

365. Sir Matthew Hale (1609-76) foi importante procurador, juiz e advogado. Sua reputação como jurista transcendeu diferenças entre partidários do Parlamento e da realeza; e, apesar de seu posicionamento favorável aos últimos — verificável por seu papel de defensor de importantes membros da nobreza partidária de Carlos —, foi escolhido, já sob o Commonwealth da Inglaterra, para encabeçar uma reforma legal no país, além de ser nomeado parte da alta corte do direito comum.

366. Mais uma menção ao caso Somers (ver nota 355).

367. Comentários, Livro , Capítulo 13. (Nota do Autor)

368. A Magna Carta é documento datado de 1215, com o qual se limitava o poder dos monarcas da Inglaterra, no caso, nominalmente, o de João da Inglaterra (ou João Sem-Terra), vetando a este a prerrogativa do poder absoluto. À medida que enfraquece o poder monárquico, submetendo-o ao controle de outras instituições, a Magna Carta marca o início do longo processo de formação do Parlamento britânico e, consequentemente, das instituições democráticas do Estado moderno.

369. A Lex Rhodia (Lei Ródia, isto é, atribuída aos habitantes da ilha de Rodes, no mar Egeu) remonta ao séc. a.C. e constitui um conjunto de regulações concernentes à

navegação e ao comércio. Foi adotada pela República Romana e chegou a integrar o Código Justiniano (ver nota 182), a partir do qual chega à Idade Média, influenciando a legislação marítima das cidades italianas.

370. A Liga Hanseática foi uma importante associação (significado de die Hanse) comercial de cidades do mar do Norte e do mar Báltico, fundada para a proteção dos interesses econômicos e dos privilégios diplomáticos de seus membros. Estruturada sob leis de comércio e navegação próprias (não obstante as cidades fossem independentes entre si, sem fidelidade a qualquer poder central), a Hansa foi atuante entre os sécs. e . Wisbury (também conhecida como Visby) foi uma de suas cidades-membro; localizada na ilha de Gotlândia (atual Suécia), foi sede de um importante império comercial que remonta ao séc. . Suas leis marítimas datam

desse período. Contando aproximadamente sessenta artigos, sua reunião de Leis do Mar formava, junto com as Leis de Oleron (o primeiro documento formal de leis marítimas do noroeste europeu), a base das regulações marítimo-comerciais da Liga.

371. Isto é, área de acesso ao inferno. Iblis é a principal representação do demônio no islã.

372. As Tumbas era o nome popular dado a um conjunto de pequenas cadeias de bairro construídas em 1838, na ilha de Manhattan, a primeira delas ao estilo egípcio, em voga na arquitetura da época. Por extensão, a expressão passou a designar as cadeias públicas do sul de Manhattan, mais especificamente de Five Points, bairro pobre e violento da cidade. Charles Dickens, em visita aos Estados Unidos em 1842, descreveu de forma bastante viva as Tumbas, desde sua “fachada medonha, projetada segundo a bastardia do estilo egípcio, como se fosse o palácio de um feiticeiro num melodrama” aos horrores do cárcere e as execuções que ali ocorriam (Charles Dickens, “New York”).

373. Canção tradicional britânica. O título consta de registros do séc. ; no entanto,

por sua temática — uma viagem da Espanha ao sul da Inglaterra —, é possível relacioná-la à campanha britânica contra a França ainda durante as guerras revolucionárias francesas. A canção era também bastante identificada com a marinha de guerra; com a ascensão da celeuma da marinha mercante, certos modelos de canção caíram em desuso. Segundo o capitão e romancista britânico Frederick Marryat, em seu Poor Jack (1840), “Spanish Ladies” estava entre as antigas canções populares quase esquecidas naquele período.

374. Trecho de “A balada de sir Patrick Spens”. A canção, de origem escocesa e datação imprecisa, versa sobre dois casos, ambos de fins do séc. e início do : no reinado de Alexandre da Escócia (1249-86), sua filha, Margaret, foi conduzida por um grande grupo de nobres à Noruega, onde se casaria com o rei Eric, e um naufrágio no retorno da comitiva fez com que muitos morressem; vinte anos depois, com a morte de Alexandre , sua neta, também Margaret, princesa da Noruega, tornou-se herdeira do trono, mas morreu em outro naufrágio, em viagem à Escócia.

375. Trata-se de “A canção da sereia”, canção de origem britânica datada de fins do séc. .

376. Incorretamente grafado “Cardan” no original: Melville refere-se aqui ao capitão da fragata britânica Macedonian, John Surman Carden (1778-1855), oficial que lutou na Guerra Anglo-americana de 1812. Carden foi criticado pela Marinha britânica pelo desfecho desfavorável e nunca mais foi destacado ao comando de uma embarcação, não obstante tenha permanecido na Marinha e ascendido à posição de almirante.

377. Ver nota 19.

378. Descontado o nome fictício da embarcação e, muito provavelmente, do marinheiro que a narra, toda a ação descrita é verídica. Tão logo foi destacado ao comando da embarcação, em junho de 1810, Decatur recebeu ordens de velejar a Norfolk, Virgínia, para que o USS United States (o Neversink da narrativa) recebesse reparos. Naquele porto, encontrava-se o Macedonian de Carden, e os capitães travaram contato pacífico. Consta que, de fato, o inglês e o norte-americano apostaram um chapéu de castor pelo vencedor de um, àquelas alturas, improvável encontro em batalha entre ambos. Tal embate acabou por ocorrer em 25 de outubro de 1812, nas imediações da ilha da Madeira, com esmagadora vitória norte-americana. Após duas semanas de reparos, o Macedonian foi levado aos Estados Unidos, tornando-se o primeiro navio inglês a ser capturado e levado a um porto do país. Decatur e sua tripulação foram recebidos pelo presidente James Madison como heróis nacionais.

379. A Batalha de Valparaíso ocorreu no contexto da Guerra de 1812 (ver nota 43 [bloqueio]). Durante a batalha, o USS Essex, comandado por David Porter e enviado ao Pacífico com ordens de afundar ou confiscar baleeiros britânicos, foi capturado por duas fragatas adversárias, Phoebe e Cherub. Como no caso do Macedonian em relação aos norte-americanos (ver nota 378), o Essex acabaria reformado e incorporado à esquadra do Reino Unido.

380. Sir Benjamin Hallowell Carew (1761-1834) foi almirante da Marinha Real britânica. Presente aos mais importantes conflitos de seu tempo (a Guerra de Independência norte-americana, o enfrentamento da França revolucionária e as Guerras Napoleônicas), figurou entre os oficiais engajados na Batalha do Nilo citados por Nelson como sua irmandade. O presente de Hallowell a Nelson é verídico, e consta que Hallowell mandara fazer as seguintes palavras acompanharem o caixão: “Senhor, tomo a liberdade de presenteá-lo com um caixão feito do mastro principal do L’Orient, para que, quando encerrar vossa carreira militar neste mundo, possais ser enterrado num de vossos troféus. Que tal momento ainda tarde é o profundo desejo de seu sincero amigo, Benjamin Hallowell”.

381 o . Ocorrida entre 1 e 3 de agosto de 1798, a Batalha do Nilo foi um importante confronto das esquadras britânica e francesa na baía de Abukir, no Mediterrâneo egípcio. Deu-se após três meses de perseguição das fragatas britânicas, lideradas por Nelson, às francesas, que traziam o próprio Napoleão, por todo o Mediterrâneo. Os franceses e seu general rumavam ao Egito com exércitos para que ali se instalasse uma frente de batalha e, desse modo, as forças britânicas tivessem de deixar a frente europeia. O confronto teve início com a esquadra francesa já instalada na baía egípcia em posição de defesa. Os britânicos, no entanto, chegaram em grande número, atacando com sucesso as embarcações francesas; por fim, a destruição da nau capitânia francesa L’Orient (para a qual Hallowell foi peça importante) enfraqueceu o comando francês e marcou sua rendição e retirada da baía. A Batalha do Nilo ocasionou uma significativa guinada no rumo dos conflitos que cercaram a Revolução Francesa: com o recuo francês, os britânicos estabeleceram o controle do Mediterrâneo, o que motivou outras potências militares (como otomanos e russos) a declarar guerra contra a França. Napoleão, que seguira com suas tropas ao Cairo, permaneceu na África até o ano seguinte, sendo derrotado por sírios e otomanos no Cerco de Acre (1799) e retornando à França.

382. Sir Edward Codrington (1770-1851) foi um almirante britânico e destacado comandante militar em batalhas decisivas para o desenrolar de conflitos que moldaram o mapa europeu a partir do séc. , como as Guerras Napoleônicas (para a batalha de

Trafalgar, importante momento desse conflito, ver nota 111) e a Independência da Grécia (para a batalha de Navarino, ocorrida durante essa guerra, ver nota 26).

383. George Chapman (1559-1634) foi dramaturgo, poeta e tradutor. Tornou-se célebre por suas traduções da poesia homérica.

384. Projétil explosivo, disparado pelo chamado canhão paixhans, primeira peça de artilharia desenhada para o disparo de bombas. Foi desenvolvida por Henri-Joseph Paixhans entre 1822 e 1823.

385. Na condição de membros veteranos da Igreja da Inglaterra, alguns bispos são designados a ocupar um assento na Casa dos Lordes, no Parlamento Inglês. Os arcebispos da Cantuária, de York, Londres, Durham e Winchester, além de 21 outros prelados, formam o grupo dos chamados Nobres do Espírito. A bancada em que se sentam no Parlamento é a chamada bancada dos bispos. Diferentemente dos assentos de outras bancadas, os seus têm braços, símbolo de sua distinção. O espaço que ocupam é o mais próximo do trono real.

386. Filha primogênita de Henrique , fruto de seu primeiro casamento, com Catarina

de Aragão, a católica Maria da Inglaterra (1516-58) foi rainha inglesa entre 1553 e 1558. Ocupou o trono num período de fortes tensões religiosas em toda a Europa. Sucedendo o pai, criador da Igreja anglicana, e o irmão (Eduardo ), protestante, Maria alinhou-se às potências católicas contrarreformadas (casando-se com Filipe de Espanha em 1554) e empreendeu forte perseguição aos protestantes, o que lhe rendeu o epíteto de “sanguinária”. As fogueiras de Smithsonian representam esse momento: pelo menos 282 homens e mulheres sofreram martírio durante os três últimos anos de seu curto reinado. Os valdenses são uma seita cristã ascética fundada pelo comerciante francês Pedro Valdo em fins do séc. . Foram considerados hereges pela Igreja católica e perseguidos.

387. Álvaro de Mendaña y Neira (1541-95) foi navegador espanhol, responsável por duas expedições ao Pacífico e pela descoberta das ilhas Salomão e Marquesas. A interpretação de histórias contadas pelos quechuas do Peru, sobre a existência de ilhas repletas de ouro a oeste da costa, levou os espanhóis instalados na região a compará-las com a lendária Terra de Ofir, onde estariam as minas do rei Salomão. Na primeira das viagens que empreendeu, em 1567, descobriu as ilhas que, pela missão de que estava encarregado, ficariam conhecidas como Salomão, não obstante tenha tido seus objetivos frustrados. Em 1595, Mendaña foi destacado a uma segunda viagem à região, dessa vez com o intuito de fundar uma colônia nas ilhas e, delas, seguir às Filipinas; nessa expedição foi acompanhado da mulher, Isabel de Barreto, e por familiares da esposa. Durante a viagem, a comitiva chegou às ilhas batizadas Marquesas, em homenagem à mulher do vice-rei do Peru, marquesa de Cañete (importante para a segunda comissão do navegador). Na sequência da viagem, porém, Mendaña morreu, vítima de malária. A viagem, então, ficou sob a autoridade de sua mulher, que completou a missão. Isabel entraria para a história da Marinha espanhola como a única mulher a comandar uma embarcação do país.

388. Membro da pequena nobreza escocesa, William Wallace (?-1305) foi um dos principais líderes das Guerras de Independência da Escócia, ocorridas entre fins do séc. e início do , ao cabo das quais se manteve nação independente da Inglaterra. Depois de importantes vitórias contra os ingleses, Wallace quedou capturado pelas tropas de Eduardo , sendo enforcado e esquartejado por alta traição e crimes contra a população inglesa. Alçado à condição de herói nacional, foi objeto de grande interesse historiográfico e literário. O pai de George Washington foi o fazendeiro Augustine Washington Sr. São muitas as histórias apócrifas sobre a figura de George Washington, sempre responsáveis pelo aumento de sua fama; não se encontrou, porém, registros de alguma que tivesse por centro o mosquete de Augustine.

389. Uma das mais antigas formas de nomeação da China. Tornou-se bastante conhecida na Europa com a publicação do livro das viagens de Marco Polo, que assim designa o Norte e o Centro-oeste chineses.

390. Também chamado de santo Antão do Egito, é o mais conhecido dos chamados Padres do Deserto, eremitas, ascetas e monges que viveram, a partir do séc. , no deserto da Nítria, e foram fundamentais para o desenvolvimento do cristianismo primitivo e modelares para o monasticismo cristão.

391. Protagonista de poema homônimo de Robert Southey. Publicado em 1801, o poema narra como Talaba, filho de uma família dizimada por um grupo de feiticeiros, escapa ao morticínio e, por meio de um anel mágico, tomado a um dos homens que tenta matá-lo, ganha poderes especiais, atravessando o Oriente Médio para derrotar os magos malignos. Embora tenha por fundamento a exposição da cultura e da religião do islã, o poema está repleto de imprecisões, a começar por ambientar a ação em tempo anterior ao profeta Maomé e na Babilônia.

392. Teólogo e cosmólogo, Thomas Burnet (1635-1715) foi contemporâneo de Isaac Newton e autor de uma Teoria sagrada da Terra, publicada em dois volumes em 1681 e 1689. A obra, de natureza especulativa, pensa a formação geológica da Terra a partir da interpretação teológica da Bíblia.

393. Lázaro de Betânia, segundo consta do Evangelho de João, teria sido ressuscitado por Jesus.

394. Designação comum a diversas plantas com propriedades purgativas.

395. Coquetel à base de bourbon, produzido com folhas de menta, açúcar e gelo. Tradicionalmente servido em copo de prata.

396. Coquetel feito de xerez, laranja e açúcar.

397. Consta que o hábito de dar um ponto de linha no nariz do marinheiro a ser sepultado no mar tinha fundamento supersticioso — de selar a alma do falecido, de modo que esta não atormentasse a tripulação do navio — e utilitário, uma vez que permitia atestar, mediante dor, a morte do homem a ser lançado ao mar.

398. A Academia Militar dos Estados Unidos, localizada em West Point, no estado de Nova York, foi fundada a partir de uma importante guarnição militar norte-americana, conquistada pelo Exército continental em confronto com os ingleses em 1778, durante a Guerra de Independência. Transformada em forte, a guarnição passou, em 1794, a treinar cadetes do Exército norte-americano em artilharia e engenharia; em 1802, tornou-se academia militar, formando a partir de então as principais lideranças militares do país.

399. Charles Hutton (1737-1823) foi um matemático inglês, professor da Real Academia Militar britânica entre 1773 e 1807. As obras citadas por Melville em francês e italiano foram escritas, respectivamente, por Bernard Forest de Bélidor (personagem fundamental para o desenvolvimento da balística e da hidráulica) e Luigi Collado, em 1731 e 1586.

400. John Clerk de Eldin (1728-1812) foi mercador escocês, geólogo e autor naval. Considerado personalidade importante do Iluminismo escocês, ficou conhecido por seus escritos sobre táticas navais. Depois de travar contato com um oficial da Marinha britânica aposentado, Clerk passou a pesquisar profundamente o tema, partindo das palavras do amigo para vasculhar memórias de oficiais e crônicas de batalhas em alto-mar. Seu Ensaio sobre tática naval (1779) expõe pela primeira vez a estratégia conhecida como “cortar a linha”, fundamental para o desmantelamento da linha de batalha formada pelas naus adversárias. A eficiência das reflexões e propostas de Clerk foi testada por lorde Nelson, que usou a obra de Clerk para organizar a frota britânica na Batalha de Trafalgar (ver nota 111). Esq., que acompanha seu nome, é abreviatura de esquire (escudeiro), título honorífico que fica abaixo de knight (cavaleiro, título que faz o nome do agraciado passar a ser acompanhado de sir). As razões de sua atribuição variam com os séculos, mas em geral se relacionam à propriedade ou ocupação de cargos de alguma excelência no poder público inglês. Para in-quarto, ver nota 219.

401. A personagem expõe aos alunos a situação da Batalha de Saintes. Ocorrida entre 9 e 12 de abril de 1782 na região da Dominica durante a Guerra de Independência norte-americana, a batalha opôs as fragatas britânicas, comandadas por George Rodney (1718-92), e francesas, que tinham à frente o conde de Grasse (1722-88). A batalha ficou marcada pela instabilidade dos ventos; numa de suas mudanças, a frota britânica viu-se em condições de cortar a linha de batalha francesa (Rodney se tornaria célebre por ser um pioneiro da técnica sistematizada por Clerk; ver nota anterior) e, assim, impor severas perdas à esquadra adversária.

402. O Glorieuse foi um dos navios mais afetados pela variação dos ventos, decisiva para o sucesso da estratégia britânica. Com a quebra da linha de batalha francesa, tornou-se presa fácil da esquadra adversária, que, depois de atacá-la brutalmente, a capturou.

403. Dash é sobrenome que, como nome comum (ou verbo), poderia ser traduzido por “ataque”, “investida” ou “arrojo” (e seus respectivos verbos). Slim também permite dupla interpretação: além de sobrenome, é adjetivo, que se pode traduzir como “esguio”, “delgado”, “exíguo”. A exemplo de outras personagens do romance, os nomes dão ênfase caricatural a atributos das mesmas.

404. O sobrenome ganha sentido extra no contexto por ser uma variante em inglês de Ouessant, pequena ilha da região da Bretanha de antiquíssima tradição marítima. A ilha é citada em estrofe de uma das canções de Jack Chase, “Damas espanholas”.

405. Citação de A rainha das fadas, poema épico alegórico do poeta inglês Edmund Spencer (1552-99), publicado parcialmente em 1590 e 1596. Segundo carta a Walter Raleigh (ver nota 151), o plano do poema incluía doze livros, cada qual dedicado a uma virtude. Com a morte prematura do poeta, no entanto, apenas seis chegaram a ser publicados.

406. Aulo Pérsio Flaco (34-62) foi poeta satírico latino. A formulação citada por Melville consta de sua quarta Sátira, que tematiza a necessidade de autoconhecimento dos homens públicos. O “imortal bebedor de cicuta” refere-se a Sócrates (ver nota 197). O filósofo, cujos saberes fundam a filosofia ocidental a partir das obras de seu mais dileto discípulo, Platão, foi condenado ao suicídio por envenenamento por subverter a juventude ateniense com seus ensinamentos, sentença cumprida com um preparo à base de cicuta, erva venenosa.

407. Nação indígena da América do Norte, também conhecida como Ho-Chunk. Conheceu a morte em larga escala por epidemias e guerras que marca o destino das demais nações indígenas do que se tornaria o território norte-americano; em número bastante reduzido e desfeita de seu espaço tradicional, habita atualmente região de reserva no centro-norte do país.

408. Peter, o Menino Selvagem (c. 1713-85), foi um garoto de Hanover, Alemanha (diferentemente do que Melville afirma, atribuindo-lhe a nacionalidade francesa), achado nos bosques próximos a Hamelin, na mesma região. Segundo consta, o garoto sobrevivia sem qualquer referência ou modelo humano: alimentava-se de comestíveis da floresta, caminhava como quadrúpede e não falava. Encontrado por um grupo de caçadores liderado pelo rei britânico Jorge , em visita a sua terra natal, este levou-o consigo ao Reino Unido, onde despertou grande curiosidade da opinião pública. Na Inglaterra, ele viveu seus dias amparado por uma camareira da rainha e recebendo um razoável estipêndio da realeza. Jamais foi capaz de comunicar-se.

409. Os merovíngios formavam um subgrupo dos povos francos (de origem germânica), habitantes da fronteira norte do Império Romano, que a partir do séc. estiveram à frente de um longo processo de conquista que unificou, no auge de seu poder, em idos do séc. , uma vasta área da Europa ocidental, correspondente aos atuais territórios de França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça e norte da Itália. Os lombardos (ou longobardos, como Melville anota) eram igualmente um povo de origem germânica, cujo eixo migratório se estendia do sul da Suécia ao norte da Itália. Foram conquistados pelos francos no séc. .

410. O narrador ilustra seu “massacre” com duas imagens marcantes de rebelião e perseguição. Entre 23 e 24 de agosto de 1572, ocorreu o chamado Massacre de São Bartolomeu, ou Noite de São Bartolomeu, jornadas de extermínio de protestantes franceses pela população católica do país, cuja violência foi alimentada pela própria realeza, alinhada ao papado. Já as Vésperas Sicilianas são o nome dado a uma bem-sucedida rebelião na Sicília: ocorrida em 1282, a revolta dirigia-se ao rei de origem francesa Carlos , que governava a ilha desde 1266, e à população de mesma origem que nela vivia. Em seis semanas, milhares de franceses foram mortos.

411. Adriano foi imperador romano entre 117 e 138. A anedota sobre o mistério da barba de Adriano, no entanto, não consta de Plutarco. Na edição Oxford Express de Jaqueta Branca, a origem do comentário do narrador é associada ao poema “The Waltz”, de Byron, no qual Adriano esconderia verrugas com a barba.

412. De fato, data de 1841 o primeiro regulamento da Marinha norte-americana (o secretário da Marinha na ocasião era George Badger) a estabelecer normas de uso para cabelo, barba e suíças. Segundo as prescrições, cabelo e barba fechada deveriam ser curtos; já as suíças poderiam “descer à distância de uma polegada do lóbulo da orelha, e daí seguir em linha até os cantos da boca”. Desde então tais normas foram sucessivamente revistas ao sabor das circunstâncias e das opiniões.

413. Melville tivera acesso ao debate sobre a natureza da linguagem e sua relação com o pensamento no Ensaio sobre o entendimento humano (Livro , capítulo 2, “Sobre a significação das palavras”), de John Locke, para quem os pensamentos têm primazia sobre a palavra, e no Leviatã (Primeira parte, capítulo 4, “Sobre a palavra”), de Thomas Hobbes, para quem a palavra traduz outro nível de forma discursiva, um “discurso mental”.

414. “The [most] unkindest cut of all”: citação de Shakespeare, Júlio César, Ato , Cena 2, v. 182.

415. Ver nota 186.

416. Germânico Júlio César (15 a.C.-19 d.C.) foi um dos mais importantes generais dos primeiros anos do Império Romano, destacado sobretudo por suas campanhas nas fronteiras de Roma com a Germânia, cujas dificuldades — incluindo o amotinamento de parte de sua tropa, formada de soldados oriundos das próprias tribos germânicas — só foram superadas graças à habilidade do general.

417. O almirante Alexander Hood (1726-1814), primeiro visconde de Bridport, foi um destacado comandante da Marinha Britânica durante a Guerra Revolucionária Francesa (1792-1802) e, em seguida, as Guerras Napoleônicas (1803-1815), durante as quais foi alçado à condição de almirante. Durante os motins em Spithead (ver nota 189), teve pouco sucesso na pacificação da tripulação do navio que comandava, o HMS London. George John Spencer (1758-1834), segundo conde Spencer, ocupou o eminente posto de Primeiro Lorde do Almirantado entre os anos 1794 e 1801, justamente no período em que se sucedeu a revolta. Seus diários se tornaram interessante fonte de documentação acerca dos motins nos estaleiros de Spithead e Nore.

418. Tipo de faca sem corte, usada para descarnar peles.

419. O uso de barba era tradicional entre os homens atenienses; no entanto, tão logo foram dominados por Alexandre, o Grande, foram dissuadidos de cultivá-las por razões militares. Segundo Alexandre, as barbas longas poderiam acarretar desvantagem em situação de luta corporal e, por isso, não as admitia em seu exército.

420. Coquimbo é província do sul chileno, daí que a referência ao Spanish Main, do original, parece truncada: a região dos mares conhecida como tal é a que hoje se entende pelo Caribe. Segundo a edição Pleiade de Jaqueta Branca, Melville teria se referido a “águas de domínio espanhol”, não obstante toda a região (Chile, Peru, Equador e Colômbia) já tivesse levado a cabo seus movimentos de independência. Já Vega, pela paisagem outonal e o plantio de grãos, pode se referir a Cimanes de la Vega, na Espanha.

421. Sir Austen Henry Layard (1817-94) foi um explorador, arqueólogo, diplomata, político, conhecido por suas escavações em Ninrude e Nínive, onde descobriu grande quantidade de relevos de palácios assírios e, em 1851, a biblioteca de Assurbanípal.

422. Possível referência a Alarico, o Calvo (370-410), rei dos visigodos, que em 410 promoveu três cercos a Roma, sendo o primeiro líder bárbaro a invadir a capital do Império. Os citas eram povo nômade de origem iraniana que habitava as estepes da região do mar Cáspio, conhecidas na Antiguidade (o testemunho que resta é o das Histórias, de Heródoto) como Cítia.

423. Nestor foi herói celebrado como sábio e vivido conselheiro dos gregos à época da Guerra de Troia.

424. Considerado por muitos o pai da literatura inglesa, Geoffrey Chaucer (1343-1400) foi um importante humanista medieval inglês, imortalizado pelos inacabados Contos da Cantuária. A passagem citada (no original: “A dagger hanging by a las hadde he,/ About his nekke, under his arm adown;/ The hote sommer hadde made his beard all brown./ Hardy he is, and wise; I undertake/ With many a tempest has his beard be shake”) vem do “Prólogo geral” da obra e foi abreviada em alguns versos. Seguimos a mesma orientação, ajustando a seleção de versos (em tradução de José Francisco Botelho) para que a passagem não ficasse evidentemente mutilada em português.

425. A analogia tem por base, aqui, o fato de uma corda amarrar a boca do canhão à parte superior da portinhola enquanto a peça estivesse fora de uso.

426. O gladiador moribundo (também chamada O gálata moribundo) é uma cópia romana em mármore de uma escultura grega perdida, datada, estima-se, do período helenístico. Foi provavelmente comissionada no séc. a.C. por Átalo , de Pergamo, para celebrar a vitória romana contra os gálatas na região da Anatólia. Seu escultor teria sido Epígono.

427. O soldo (sou, em francês) era uma antiga moeda francesa, equivalente a cinco centavos de cobre.

428. Matthew Paris (c. 1200-59) foi monge beneditino, cronista inglês, cartógrafo e autor de iluminuras. Viveu na abadia de santo Albânio, em Hertfordshire, e produziu volumosa obra, fundamentalmente histórica. Em sua Chronica Maiora, escrita em latim, Paris traz relatos de eventos que, sendo ele um bom cristão, remontam à Criação do mundo e seguem até o ano de 1253. O que o torna referência para os historiadores modernos são, em especial, seus comentários sobre a vida política europeia de então, não obstante se reconheça sua falibilidade ou parcialidade. Em Historia Anglorum, Paris dá continuidade ao projeto da Chronica, chegando ao ano de sua morte, 1259. É muito provável que, por Historia Major, Melville se referisse equivocadamente à Chronica Majora, uma vez que os acontecimentos referentes à conquista normanda da Inglaterra datam do séc. . Em 1066, Guilherme , o Conquistador, invade a ilha com suas tropas e ao longo de anos de campanha submete todo o reino a seu poder. A invasão acarretou, a longo prazo, transformações sociais, políticas e culturais fundamentais para a formação do povo inglês.

429. Nome hebraico para o latim Calvaria, ou Calvário, colina em que Jesus Cristo foi crucificado, nas imediações da antiga Jerusalém. Todos os evangelistas — Mateus (27:33), Marcos (15:22), Lucas (23:33) e João (19:17) — mencionam o lugar, alguns referindo-se a seu significado original, “o lugar da Caveira”.

430. “The rogue’s march”, tema tocado por pífanos e acompanhado de tambor. Executava-se a marcha diante do condenado por grave delito que, depois de ser devidamente punido (com a chibata, por exemplo), era expulso ou dispensado de forma desonrosa.

431. O agiota judeu Shylock é personagem de O mercador de Veneza, comédia de William Shakespeare. Na peça que o tornou célebre, Shylock é antagonista de Antônio, o mercador, que lhe toma empréstimo por acreditar em sua generosidade. Em lugar dos juros, porém, firmava o contrato entre ambos que Shylock lhe cobraria, em caso de atraso, uma libra da própria carne.

432. Patriota italiano, Augustus Bozzi Granville (1783-1872) conheceu vida errante. Fugido de Milão temendo convocação do Exército napoleônico, foi médico em diferentes países europeus até tornar-se cirurgião da Marinha Real britânica. Publicou um diário de viagem à Rússia, St. Petersburg: A Journal of Travels to and from that Capital, em 1828. Ver também notas 168 e 181.

433. General durante a Guerra de 1812, William Henry Harrison (1773-1841) foi o nono presidente dos Estados Unidos. Não apenas foi o primeiro a morrer em exercício, como o que menos tempo permaneceu à frente do país: 32 dias. Depois de ser acusado pela campanha adversária, do então presidente Martin van Buren, de ser um provinciano tacanho, a quem mais valia viver numa pequena cabana embriagando-se de sidra caseira, Harrison adotou, ao lado da distinção como herói nacional, a garrafa de sidra e a cabana como símbolos de campanha. A campanha populista de Harrison e a ação predatória do Estado norte-americano explicam a ironia do narrador.

434. Gomorra aqui é eufemismo que alude aos comportamentos sexuais e à libertinagem dos marinheiros a bordo. Ver nota 191.

435. As três obras citadas por Melville têm por tema o incesto (aqui, substitutivo de outro dito “mal contra natura”, segundo tratamento que se dá no volume ao tema da homossexualidade). Publicada em 1791, a peça de caráter gótico The Mysterious Mother: a Tragedy, de Horace Walpole, versa sobre a angústia do protagonista por ter praticado incesto com a própria mãe. Já The Cenci: a Tragedy in Five Acts, de Percy Bysshe Shelley, é baseada na história real da família Cenci, cujo patriarca, o conde Cenci, submetia a família a terrível brutalidade (o que incluía o abuso de sua filha, Beatrice, que se tornaria uma lenda da resistência contra os abusos da nobreza); depois de ser preso por tais crimes e solto com a leniência das autoridades, sua violência acabou por levar toda a sua família a matá-lo, crime pelo qual todos foram condenados à morte. A tragédia Édipo tirano, de Sófocles (ou Édipo rei, primeira peça da chamada Trilogia Tebana, que conta ainda com Antígona e Édipo em Colono), é talvez a mais importante do gênero trágico e traz à cena a busca de Édipo, que antes de tornar-se rei de Tebas fugira de Corinto ao saber pelo oráculo de Delfos que seu destino era assassinar o pai e casar-se com a própria mãe, profecia que se realiza à revelia da personagem.

436. A passagem recupera um trabalho do artista inglês William Hogarth (1697-1764), pintor, gravurista, impressor e satirista, fundamental para o desenvolvimento da ilustração jornalística, da sátira política e mesmo do que hoje conhecemos como quadrinhos. Aqui, o narrador se refere à série de doze gravuras de Industry and Idleness (Engenhosidade e Vadiagem), de 1747, na qual Hogarth mostra o destino de dois aprendizes, o Industrioso (honesto e trabalhador) e o Vadio (praticante de crimes e, por fim, enforcado). Na quinta delas, “Tom Idle” (uma espécie de “Zé Vadiagem”) é representado a bordo de um bote, cercado de companheiros igualmente suspeitos, tendo ao fundo um navio e um cadafalso. Don Juan é a personagem em que se baseiam Mozart e seu libretista, Lorenzo da Ponte, para a ópera Don Giovanni (1787), na qual, ao fim de uma vida dissoluta, Don Giovanni é cercado por demônios, que o levam para o inferno.

437. Citada em diferentes passagens da Bíblia, Geena (ou Vale de Hinnom) é localidade próxima à velha Jerusalém. No Velho Testamento ( Crônicas e Jeremias), o lugar está associado a ritos endereçados a deuses baálicos e canaanitas, que sacrificavam crianças ao fogo. Na tradição cristã, é o destino dos cadáveres indignos, dos animais mortos, do descartado em geral. Por extensão, torna-se uma das figuras do inferno (termo que, na tradição lusófona, traduz a palavra em suas ocorrências). Não foi possível identificar as referências de Melville aos “místicos alemães”.

438. Antes de cristalizar-se como imagem do horror, “monstro” (do latim monstrare, mostrar) é figura de linguagem, cujo uso tem por finalidade dar concretude ao abstrato ou, por extensão, indizível. O narrador estende a construção retórica do original de Fuller, em sua analogia entre mar e terra (corrente no séc. , que ainda vivia os

primeiros passos da linguagem científica e da ciência empírica), conferindo nova “monstruosidade” aos vícios.

439. O comentário parece referir-se ao primeiro romance de Melville, Typee, or a Peep at Polynesian Life (1846). No início da narrativa, o Dolly, navio baleeiro a bordo do qual está o narrador (Tommo, apelido que, como Jaqueta Branca, pretende esconder o nome do próprio autor), lança âncora em Nuku-hiva, uma das ilhas Marquesas. Entre um e outro romance, no entanto, muda o número de naus: eram seis em Typee.

440. A presença de estrangeiros na marinha de guerra norte-americana era de fato numerosa. No caso dos britânicos, umas das fontes de Melville (o escocês Thomas Hodgskin, ver nota 189) afirma que o emprego de seus conterrâneos para as fragatas norte-americanas decorria, antes, de fugirem da prisão para a maruja em sua terra natal. Em Etchings of a Whaling Cruise (1846), importante influência para a obra náutica de Melville, J. Ross Browne pergunta-se sobre a presença de estrangeiros na Marinha norte-americana e chega à mesma conclusão de Melville. Em Moby Dick, a reflexão de Jaqueta Branca ressurge com uma pitada de ironia. Ali, Ismael (o narrador) demonstrará, no Pequod, a divisão do trabalho norte-americana entre o “cérebro” nacional e os “músculos” da mão de obra internacional.

441. Guinéu é personagem baseada em Robert Lucas, escravo que pertencia ao comissário de bordo do navio, Edward Fitzgerald, natural da Virginia. No que toca à viagem do USS United States, por ter sido transportado “voluntariamente” para um estado não escravagista, Massachusetts, ao fim da viagem, Lucas foi declarado homem livre por decisão assinada pelo juiz Lemuel Shaw, então futuro sogro de Melville. A construção da cena ecoa opiniões correntes à época de publicação do romance sobre equiparação entre trabalhadores brancos e escravos negros com prejuízo dos primeiros. Ver Apresentação.

442. A obra é real e um dos documentos de que Melville se vale para a composição do romance. John Nicol (1755-1825) foi um marinheiro escocês. Em 1789, trabalhou a bordo do Lady Juliana, um navio de condenados que transportava mulheres a Nova Gales do Sul, na Austrália. Publicada em 1822, sua autobiografia é um dos mais importantes testemunhos da vida de um marinheiro comum nesse período. Blackwood e Cadell estão entre os mais relevantes editores da virada do séc. para o . De origem escocesa, William Blackwood (1776-1834) é fundador da William Blackwood and Sons, que publicou romancistas como George Eliot, E. M. Forster, Thomas de Quincey e Anthony Trollope. Já Thomas Cadell (1742-1802) destacou-se como editor de nomes como Samuel Johnson, Thomas Smolett e Adam Smith.

443. “Discípulos de Burke” é eufemismo para assassinos: William Burke (1792-1829) foi um famoso assassino da época. Junto com seu cúmplice, William Hare, matou cerca de quinze pessoas com o intuito de vender seus corpos a cirurgiões de Edimburgo, que buscavam cadáveres para dissecação em escolas de medicina.

444. Além do sequestro doméstico, as fragatas britânicas, em portos neutros ou de países amigos, em algumas circunstâncias recrutavam ao serviço militar marinheiros estrangeiros de todas as nações em docas públicas. Em alguns casos, no que concerne aos americanos, quando as pessoas em questão se provavam sob salvo-conduto, este era destruído; e, para evitar que o cônsul americano reclamasse os marinheiros de seu país, o pelotão de aprisionamento para a maruja geralmente ia à costa na noite anterior à partida da fragata, de modo que os marinheiros sequestrados já estivessem grande distância mar adentro antes que seus amigos pudessem dar falta deles. Isto deve ser de conhecimento de todos; pois no caso de o governo inglês mais uma vez ir à guerra com suas fragatas e mais uma vez contar com o recrutamento indiscriminado para equipá-los, é bom que americanos e britânicos e o mundo todo estejam prontos para fazer cair uma iniquidade tão ofensiva e nefasta aos olhos do homem e de Deus. (Nota do Autor)

445. Melville cita obra de Robert Tomlinson, tenente da Marinha Real britânica e autor de um panfleto que propunha uma alternativa à prisão para a maruja. A situação referida por Tomlinson, partidário do voluntariado, deu-se em setembro de 1770, no início de uma temporada de aprisionamentos que chegaria a fevereiro de 1771.

446. Charles Dibdin (1745-1814) foi um músico, compositor e literato britânico, autor de mais de seiscentas canções e um dos artistas mais populares de seu tempo.

447. Versos de “Poor Jack”, canção de Dibdin.

448. Versos de “True English Sailor”, canção de Dibdin.

449. Joe Miller (1684-1738) foi um popular comediante inglês. Depois de sua morte, foram publicadas coletâneas de piada a ele atribuídas, como Joe Miller’s Jests: or the Wits Vade-Mecum (1739), a primeira de uma série de publicações que só lhe aumentaram a fama.

450. A canção, intitulada “Success to our frigate”, é musicada sobre o tema da peça de Dibdin. Está citada em Life in a man-of-war: or Scenes in “Old Ironsides” during her Cruise in the Pacific, by a Fore-top-man, de Henry James Mercier, importante obra de referência para Melville durante a escrita de Jaqueta Branca. O autor da letra é desconhecido.

451. Não há referência à “talk-stone” ou noojona mencionada pelo narrador. Como autor de narrativas ambientadas na Polinésia e pautadas por uma combinação de estudo etnográfico e registro autobiográfico (Typee e Omoo), Melville não menciona um objeto de culto que se alinhe à dita peça.

452. Os Trinta Tiranos de Atenas dão nome ao governo oligárquico que sucedeu a democracia ao fim da Guerra do Peloponeso, em 404 a.C. Durante os treze meses em que estiveram à frente do governo, foram responsáveis por mortes, exilamentos e expropriações. Sócrates e Platão foram testemunhas do período.

453. Durante muito tempo o receio de incêndio restringiu a liberdade de fumar a bordo. Portarias oficiais determinavam as horas (“Sua Majestade proíbe o fumar antes de nascer o sol ou depois do seu ocaso”, por exemplo) e lugares (como “junto do mastro de traquete, a sotavento, ao pé de uma tina cheia de água para evitar os incêndios”) onde era lícito fazê-lo.

454. Na mitologia grega, as Fúrias — Tisífone, Megera e Alecto — eram personificações da vingança. Já os mamelucos, aqui, são membros de uma antiga milícia de origem turco-egípcia, formada por escravos caucasianos convertidos ao islamismo, que conquistou grande poder político no Egito entre os sécs. e .

Quanto aos polinésios, ver nota 303. As marchas do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91, o mais importante autor musical do classicismo europeu), a deusa Vênus (na mitologia, nascida da espuma do mar) e o Partenon, o templo ateniense, entram como imagens do sublime e grandioso que o narrador associa ao momento em que era permitido fumar.

455. Sachem era o chefe dos grupos de famílias reunidas nas tribos da nação algoquina, habitante da América do Norte; Melville se refere a sua função de governante e juiz, atuando diplomaticamente na mediação de conflitos. Calumet é a designação dada ao “cachimbo da paz”; tornou-se termo técnico, utilizado pelos colonos canadenses de origem francesa para designar o cachimbo cerimonial dos nativos algoquianos da atual região do Quebec.

456. David Teniers, o Jovem (1610-90), foi pintor flamengo, conhecido por suas cenas de taverna. Sir David Wilkie (1785-1841) foi pintor escocês, dedicado sobretudo a cenas da vida doméstica. George Cruikshank (1792-1878), o “Hogarth moderno” (ver nota 436), foi desenhista e caricaturista inglês, artista de olhar urbano conhecido, em seu tempo, por satirizar figuras da realeza e responsável também pelos trabalhos de ilustração dos primeiros romances seriados de Charles Dickens (entre os quais, Oliver Twist).

457. George Washington (1732-99) é um dos chamados pais fundadores norte-americanos. Líder político e revolucionário de grande experiência militar, lutando contra os franceses na chamada Guerra Franco-indígena (1752-58), fundamental para a coesão do movimento que levaria à independência das treze colônias britânicas, foi o primeiro presidente dos Estados Unidos, de 1789 a 1797.

458. Bandeira azul com um quadrado branco no centro, hasteada para indicar que o navio está pronto para zarpar.

459. Natural da Pártia, região fronteiriça ao Império Romano na Ásia menor, Tirídates (28-100) foi coroado rei armênio por Nero (37-68), quinto imperador romano, que pretendia assim resolver conflitos na franja oriental do território controlado por Roma. Sua coroação deu-se em 66 na capital do Império, para onde Tirídates (também sacerdote zoroastriano) seguiu com uma comitiva que incluía outros magos. A anedota referida pela personagem remonta à História natural, do filósofo latino Plínio, o Velho.

460. Aníbal Barca (247 a.C.-183 a.C.), general e estadista cartaginês, que jurou a seu pai ser inimigo de Roma enquanto vivesse.

461. O navio de recrutamento era, em geral, uma antiga embarcação, já sem condições de enfrentar a brutalidade de alto-mar, preparada para receber marinheiros recém-ingressos no serviço da Marinha. Era particularmente utilizado em prisões para a maruja pelos britânicos para evitar a fuga de recrutas. Dada a falta de critérios desse tipo de alistamento, era muito comum se encontrarem marinheiros que não sabiam nadar, donde a eficiência desse método.

462. Belial é um demônio que faz parte da mitologia canaanita. É mencionado no Novo Testamento (2 Coríntios 6:15) em oposição a Cristo, à luz e ao bem. Posteriormente, nas tradições judaica e cristã, é assimilado à figura do diabo.

463. Construído entre 1563 e 1584, o Mosteiro e Sítio do Escorial é um grande complexo arquitetônico erguido inicialmente para abrigar o túmulo do imperador Carlos

(Carlos de Espanha, que, em testamento deixado a seu filho, Felipe , desejava um

novo espaço para seu jazigo). Ao cabo de vinte anos, o projeto ganhou proporções monumentais, incluindo basílica, monastério e um dos palácios reais.

464. Tipo de amarra bastante aplicada a cabos grossos.

465. Em tradução livre, “o céu, por fim”, em latim. Trata-se da divisa da própria família Melville, cuja história remontava a um clã escocês primeiro documentado em fins do séc. .

466. Segundo o Deuteronômio 3:27, local em que Moisés avistou a Terra Prometida, tendo morrido sem jamais pisá-la. No segundo livro dos Macabeus (2:4-5), Jeremias sobe o mesmo monte para, em uma caverna, guardar a Arca da Aliança, ali vista pela última vez.

467. No original a passagem citada de Mickle, no Canto , toma certas liberdades. Decidiu-se, ao recuperar o original camoniano, citar parcialmente duas estrofes (a 147 e a 144, na ordem) do próprio Canto do poema, com o foco de recuperar elementos incluídos pelo tradutor (e, assim, selecionados por Melville), sobretudo a relação entre a memória do trabalho e a alegria de retornar ao lar, expressa no último verso, na combinação sequenciada de ambas.