Os Irmãos Karamázov
Capítulo 54
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Ninguém esperava por isso, todos contavam pelo menos com a indulgência do júri. O silêncio continuava, como se o auditório estivesse petrificado, tanto os partidários da condenação como os da absolvição.
Mas foram apenas os primeiros minutos, aos quais sucedeu um terrível tumulto. Entre o público masculino, muitos estavam encantados. Outros chegavam mesmo a esfregar as mãos, sem dissimular sua alegria. Os descontentes tinham o ar acabrunhado, erguiam os ombros, cochichavam como se ainda não se dessem conta. Mas as nossas damas, meu Deus!, pensei que elas iam fazer um motim. A princípio, não quiseram acreditar em seus ouvidos. De repente, ruidosas exclamações ecoaram: "Que é isso?
Por que isso?" Deixavam seus lugares. Certamente, imaginavam que se podia, no mesmo instante, mudar tudo aquilo e recomeçar. Naquele momento, Mítia se levantou de repente e gritou com voz dilacerante, os braços estendidos para diante:
— Juro-o perante Deus e à espera do juízo final, não derramei o sangue de meu pai! Cátia, eu te perdôo! Irmãos, amigos, velai pela outra!
Não terminou e pôs-se a soluçar ruidosamente, com uma voz que não parecia a sua, como mudada, inesperada, vinda só Deus sabia donde.
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Nas tribunas, num canto recuado, repercutiu um grito agudo: era Grúchenhka. Suplicara que a deixassem entrar e voltara para a sala antes dos discursos. Levaram Mítia. A sentença do julgamento ficou adiada para o dia seguinte. Todos se levantaram em grande tumulto, mas eu já não escutava mais. Lembro-me somente de algumas exclamações no patamar da saída:
— Vai pegar não menos de vinte anos de trabalho nas minas.
— Nada menos!
— Sim, os nossos mujiques mantiveram-se firmes.
— E ajustaram suas contas com o nosso Mítia!
Í
EPÍLOGO
I
PROJETOS DE EVASÃO
No quinto dia após o julgamento de Mítia, cerca de 8 horas da manhã, Aliócha dirigiu-se à casa de Catarina Ivanovna para se entender definitivamente com ela a respeito dum assunto importante; estava além disso encarregado dum recado. Mantinha-se ela no mesmo salão onde recebera Grúchenhka; na peça vizinha, Ivã Fiódorovitch, presa da febre, jazia inconsciente. Logo depois da cena no tribunal, Catarina Ivanovna mandara transportar para sua casa Ivã Fiódorovitch, desmaiado, sem se incomodar com os comentários inevitáveis e a censura da sociedade. Uma das duas parentas que viviam com ela partira imediatamente para Moscou, a outra ficara. Mas, se as duas tivessem partido, isso não teria mudado a decisão de Catarina Ivanovna, resolvida a tratar ela mesma o doente e a velar por ele noite e dia. Era tratado pelos doutores Varvínski e Herzenstube; o médico de Moscou regressara, recusando-se a pronunciar-se sobre o desenlace da doença. Os doutores, malgrado suas afirmativas tranqüilizadoras, não podiam dar ainda uma esperança firme. Aliócha visitava seu irmão duas vezes por dia, mas desta vez tratava-se de um assunto particularmente embaraçoso, pressentia a dificuldade que teria em falar dele, e apressava-se, devendo ir a outra parte para um outro 765
assunto importante, naquela mesma manhã. Havia um quarto de hora que conversavam. Catarina Ivanovna estava pálida, extenuada, presa duma agitação doentia: pressentia o objetivo da visita de Aliócha.
— Não se inquiete com a sua decisão — dizia ela com firmeza a Aliócha. — Duma maneira ou doutra, chegará ele a esta solução: é preciso evadir-se. Esse infeliz, esse herói da consciência e da honra — não ele, não Dimítri Fiódorovitch, mas o que está doente aqui e se sacrificou pelo seu irmão (acrescentou Cátia, de olhos cintilantes) — já desde muito tempo me comunicou todo o plano de evasão. Tinha mesmo dado passos... já lhe falei disso... Veja você, será, provavelmente, na terceira etapa, quando se levar o comboio dos deportados para a Sibéria. Oh! é ainda longe. Ivã Fiódorovitch foi ver o chefe da terceira etapa. Mas não se sabe ainda quem comandará o comboio, aliás isto jamais é sabido com antecedência.
Amanhã, talvez, lhe mostrarei o plano detalhado que Ivã Fiódorovitch me deixou na véspera do julgamento, para o que desse e viesse... Você deve lembrar-se, discutíamos, quando você chegou; descia ele a escada, vendo você, obriguei-o a tornar a subir, recorda-se? Sabe a que respeito discutíamos?
— Não, não sei.
— Evidentemente, ele lhe ocultou: era precisamente a propósito desse plano de evasão. Já me havia explicado o essencial três dias antes; foi a origem de nossas discussões durante aqueles três dias. Eis por quê: quando me declarou que se ele fosse condenado, Dimítri Fiódorovitch fugiria para o estrangeiro com aquela criatura, zanguei-me de repente; não lhe direi por qual razão, ignoro-a eu mesma. Oh! sem dúvida foi por causa dela e porque acompanharia Dimítri na sua fuga! — exclamou Catarina Ivânovna, com os lábios trêmulos de cólera. — Minha irritação contra aquela criatura fez que Ivã Fiódorovitch acreditasse que eu estava com ciúme dela e, por conseguinte, ainda enamorada de Dimítri. Eis a causa de nossa primeira discussão. Não quis dar explicação e não podia pedir perdão, era-me penoso que tal homem pudesse suspeitar que eu amasse como outrora aquele... E isso quando desde muito tempo lhe havia eu declarado com toda a franqueza que não amava Dimítri e que só a ele amava! Foi por simples animosidade contra aquela criatura que me zanguei com ele! Três dias mais tarde, justamente na noite em que você veio, trouxe-me ele um envelope lacrado que eu deveria abrir no caso de 766
acontecer-lhe alguma coisa. Oh! pressentia ele sua doença! Explicou-me que aquele envelope, continha o plano detalhado da evasão, e que se ele morresse ou caísse perigosamente doente deveria eu sozinha salvar Mítia.
Deixou-me também dinheiro, quase 10 000 rublos, a soma à qual o procurador, tendo sabido que ele a mandara trocar, fez alusão no seu discurso. Fiquei estupefata ao ver que, malgrado seu ciúme, e persuadido de que eu amava Dimítri, Ivã Fiódorovitch não renunciara a salvar seu irmão e confiava em mim para isso! Oh! era um sacrifício sublime! Você não pode compreender a grandeza duma tal abnegação, Alieksiéí Fiódorovitch! Ia prostrar-me a seus pés, mas quando pensei de repente que ele atribuiria esse gesto unicamente à minha alegria de saber Mítia salvo (e ele o teria decerto acreditado!), a possibilidade duma tal injustiça de sua parte irritou-me tão fortemente que, em lugar de beijar-lhe os pés, fiz-lhe nova cena! Quanto sou infeliz! Que horrível gênio o meu! Você verá: agirei de tal maneira que ele me deixará por uma outra de mais fácil viver, como Dimítri, mas então... não, não o suportarei, matar-me-ei! No momento em que você chegou, naquela noite, e quando ordenei a Ivã que tornasse a subir, o olhar cheio de ódio e de desprezo que ele me lançou ao entrar pôs-me em tal cólera que — lembra-se? — gritei de repente que fora ele, somente ele, quem me assegurara que Dimítri era o assassino! Caluniava-o para feri-lo uma vez mais; ele nunca me assegurara tal coisa, pelo contrário, era eu quem lho afirmava! A causa de tudo é a minha violência.
Aquela abominável cena perante o tribunal, fui eu que a provoquei!
Queria ele provar-me a nobreza de seus sentimentos e que, malgrado meu amor por seu irmão, não o haveria de perder por vingança, por ciúme.
Então prestou o depoimento que você conhece... Sou a causa de tudo, sou eu a única culpada!
Jamais fizera Cátia tais confissões a Aliócha. Compreendeu ele que chegara ela aquele grau de sofrimento intolerável em que o coração mais orgulhoso abdica de toda altivez e se confessa vencido pela dor. Aliócha conhecia outra causa para o pesar da moça, se bem que ela lha dissimulasse desde a condenação de Mítia, mas isto lhe teria causado demasiada pena, se ela se humilhasse a ponto de falar-lhe disso ela mesma, agora. Sofría por causa de sua "traição" na audiência e pressentia que sua consciência a impelia a acusar-se precisamente diante dele, Aliócha, numa crise de lágrimas, batendo com a testa no chão. Temia ele aquele instante é queria poupar-lhe o sofrimento. Mas por isso seu recado se tornava mais 767
difícil de dar. Voltou a falar de Mítia.
— Não receie nada por ele — continuou obstinadamente Cátia —
sua decisão é passageira, fique certo de que ele consentirá em evadir-se: Aliás, não será imediatamente, terá ainda tempo para se decidir a isso. Ivã Fiódorovitch já estará curado na ocasião e ocupar-se-á de tudo, de sorte que não terei de meter-me nisso. Não se inquiete, Dimítri consentirá em evadir-se. Aliás, poderá ele renunciar aquela criatura? Ora, não a admitiriam no presídio, de modo que, como não fugir? Sobretudo, ele o teme, receia sua censura do ponto de vista moral, mas você deve permitir-lhe magnânimamente que fuja, já que sua sanção é tão necessária —
acrescentou Cátia com ironia.
Calou-se um instante, sorriu e continuou:
— Ele fala de hinos, de cruz a carregar, dum certo dever, lembro-me.
Ivã Fiódorovitch relatou-me tudo isso... Se soubesse você como ele falava a respeito! — exclamou de súbito Cátia, com um ímpeto irresistível. — Se você soubesse quanto ele amava aquele desgraçado, no momento em que me contava isso, e quanto, talvez, o odiava ao mesmo tempo! E eu o escutava, eu o via chorar com um sorriso altivo! Oh! criatura! vil criatura que eu sou! Fui eu que o fiz enlouquecer! Mas o outro, o condenado, está pronto a sofrer — concluiu Cátia com irritação. — Será capaz? Os seres como ele ignoram o sofrimento!
Uma espécie de ódio e de desgosto transparecia através de suas palavras. Entretanto, havia-o traído. "Pois bem! é talvez porque se sinta culpada para com ele que o odeia por momentos", pensou Aliócha. Teria querido que só fosse por momentos. Sentira um desafio nas derradeiras palavras de Cátia, mas não lhe deu importância.
— Pedi-lhe que viesse hoje para que você me prometa convencê-lo.
Mas talvez, segundo você também, seria desleal e vil evadir-se, ou como dizer... não cristão? — acrescentou Cátia com uma provocação ainda mais acentuada.
— Não, não é nada. Dir-lhe-ei tudo... — murmurou Aliócha. — Ele lhe pede que vá hoje — continuou ele, bruscamente, olhando-a bem no rosto.
Ela estremeceu e fez um leve movimento de recuo.
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— Eu... é possível? — disse ela, empalidecendo.
— É possível e é um dever! — declarou Aliócha num tom firme e com animação. — Você lhe é mais necessária do que nunca. Não a teria atormentado prematuramente a esse respeito sem necessidade. Ele está doente, está como louco, pede que vá vê-lo, constantemente. Não é para uma reconciliação que quer vê-la, mostre-se somente no limiar de seu quarto. Está bem mudado desde aquele dia e compreende toda a extensão de seus agravos a você. Não é o seu perdão que ele quer: "Não posso ser perdoado", diz ele. Quer somente vê-la no limiar...
— Você de repente me... — murmurou Cátia. — Pressentia nestes dias que você viria aqui com esse fito... — Sabia bem que ele me mandaria chamar!... Ê impossível!
— Impossível, seja, mas faça-o. Lembre-se de que, pela primeira vez, está ele consternado por havê-la assim ofendido, pela primeira vez, jamais antes compreendeu suas faltas tão profundamente! Diz ele: "Se ela recusar vir, serei sempre infeliz". Entende? Um condenado a vinte anos de trabalhos forçados sonha ainda com a felicidade. Não causa isto compaixão? Pense que vai você ver uma vítima inocente — disse Aliócha, com um ar de desafio. — Suas mãos estão limpas de sangue.
Em nome de todos os sofrimentos que o esperam, vá vê-lo agora! Vá, conduza-o nas trevas, mostre-se somente no limiar... Deve, deve fazê-lo —
concluiu Aliócha, insistindo com energia na palavra "deve".
— Devo... mas não posso... — gemeu Cátia. — Ele me olhará... não posso...
— Vossos olhares devem reencontrar-se. Como poderá você viver doravante, se recusa agora?
— Antes sofrer toda a minha vida.
— Deve ir, é preciso — insistiu de novo Aliócha inflexível.
— Mas por que hoje, por que imediatamente?... Não posso abandonar o doente...
— Por um momento poderá, não demorará muito. Se você não fôr, Dimítri terá delírio esta noite. Não lhe estou mentindo, tenha piedade!
— Tenha piedade de mim! — disse com amargor Cátia, e desatou a 769
chorar.
— Então você irá! — proferiu firmemente Aliócha, vendo-a chorar. — Vou dizer-lhe que você irá agora mesmo.
— Não, por coisa alguma do mundo, não lhe fale disso! — exclamou Cátia com terror. — Irei, mas não lhe diga de antemão, porque talvez eu não entre... Não sei ainda..
Sua voz partiu-se. Respirava com dificuldade. Aliócha levantou-se para sair.
— E se eu encontrasse alguém? — disse ela, de repente, empalidecendo de novo.
— Por isso é que é preciso ir imediatamente, não haverá ninguém, fique tranqüila. Nós a esperaremos — concluiu ele com firmeza, e saiu.
II
POR UM INSTANTE A MENTIRA TORNA-SE VERDADE
Apressou-se em seguir para o hospital onde se achava Mítia no momento. Dois dias depois do julgamento, tendo contraído febre nervosa, haviam-no transportado para o hospital, na divisão dos detidos. Mas o Doutor Varvínski, a pedido de Aliócha, da Senhora Khokhlakova, de Lisa e de outras pessoas, mandou colocar Mítia num quarto à parte, o ocupado outrora por Smierdiákov. Na verdade, no fundo do corredor estacionava uma sentinela e a janela era gradeada; Varvínski podia pois estar tranqüilo a respeito dos resultados dessa complacência um tanto ilegal. Bom e compassivo, compreendia quanto era duro para Mítia entrar sem transição na sociedade dos malfeitores e que lhe era preciso a princípio habituar-se a isso. As visitas eram autorizadas secretamente pelo doutor, pelo diretor e mesmo pelo isprávnik, mas somente Aliócha e Grúchenhka iam ver Mítia. Por duas vezes, Rakítin tentara introduzir-se, mas Mítia pediu insistentemente a Varvínski que não o deixasse entrar.
Aliócha encontrou seu irmão sentado num divã, com roupão de quarto; tinha um pouco de febre, a cabeça enrolada num guardanapo molhado com água e vinagre. Lançou a Aliócha um olhar vago em que 770
transparecia uma espécie de terror.
Em geral, desde sua condenação, tornara-se pensativo. Por vezes, ficava uma meia hora sem dizer nada, parecendo entregar-se a uma meditação dolorosa, esquecendo seu interlocutor. Se saía de seu devaneio, era sempre de improviso e para falar de outra coisa diferente do assunto em conversa. Por vezes, olhava seu irmão com compaixão, parecia menos à vontade com ele do que com Grúchenhka. Na verdade, nunca falava com esta, mas assim que ela entrava seu rosto se iluminava. Aliócha sentou-se em silêncio ao lado dele. Dimítri esperava-o com ansiedade, contudo não ousava interrogá-lo. Achava impossível que Cátia consentisse em vir, enquanto sentia que, se ela não viesse, seria intolerável.
Aliócha compreendia seus sentimentos.
— Parece que Trifon Borísovitch quase demoliu sua hospedaria —
disse febrilmente Mítia. — Levanta as pranchas do parquete, arranca tábuas; desmontou toda a sua galeria, pedaço por pedaço, na esperança de encontrar um tesouro, os 1 500 rublos que o procurador pretende ter eu escondido lá. Logo de volta, dizem que se pôs ele à obra. Bem feito para o velhaco. Soube-o ontem por um guarda que é de lá.
— Escuta — disse Aliócha —, ela virá, não sei quando, talvez hoje, ou dentro de algumas horas, ignoro-o. Mas virá, é certo. — Mítia estremeceu, teria querido falar, mas manteve silêncio. Aquela notícia perturbava-o. Via-se que estava ansioso por conhecer os detalhes da conversa, enquanto temia perguntá-los. Uma palavra cruel ou desdenhosa de Cátia teria sido para ele, naquele momento, igual a uma martelada na cabeça.
— Ela disse, entre outras coisas, que te tranqüilizasse a consciência a respeito da evasão. Se Ivã não estiver curado naquela ocasião, ela é quem se ocupará disso.
— Já me falaste disto — observou Mítia.
— E tu, tu o repetiste a Grucha.
— Sim — confessou Mítia. — Ela não virá esta manhã — olhou timidamente para seu irmão —, só virá à noite. Quando eu lhe disse que Cátia trataria do assunto, calou-se a princípio, com os lábios contraídos, depois murmurou: "Pois seja!" Compreendeu que era grave. Não ousei fazer-lhe perguntas. Agora parece ela compreender que não é a mim que 771
Cátia ama, mas a Ivã.
— Deveras?
— Talvez não. Em todo caso, Grucha não virá esta manhã. Encar-reguei-a dum recado... Escuta, nosso irmão Ivã é um espírito superior, ele é que deve viver e não nós. Curar-se-á.
— Imagina que Cátia, malgrado seus alarmas, quase não duvida de sua cura..
— Então é que ela está persuadida de que ele morrerá. Ê o pavor que lhe inspira essa convicção.
— Ivã é de constituição robusta. Eu também espero sua cura — disse Aliócha, apreensivo.
— Sim, ele se curará. Mas tem ela a convicção de que ele morrerá.
Deve sofrer muito...
Reinou silêncio. Mítia estava atormentado por uma grave preocupação.
— Aliócha, eu amo apaixonadamente Grucha — disse ele de repente, com voz trêmula, em que havia lágrimas.
— Não a deixarão contigo, lá.
— Queria dizer-te ainda — prosseguiu Mítia com uma voz vibrante —, se me baterem em caminho ou lá, não o suportarei, matarei e fuzilar-me-ão. E serão vinte anos! Aqui, os guardas já me tuteiam. Esta noite toda refleti. Pois bem, não estou pronto! É acima de minhas forcas!
Eu, que queria cantar um hino, não posso suportar o tuteio dos guardas.
Tudo haveria de suportar por amor de Grucha, tudo... exceto as pancadas... Mas não a deixarão entrar lá.
Aliócha sorriu mansamente.
— Escuta, meu irmão, uma vez por todas. Eis minha opinião a este respeito. Sabes que não minto. Não estás preparado para semelhante cruz, não é feita para ti. Mais ainda, não tens necessidade duma provação tão dolorosa. Se houvesses matado teu pai, lamentaria que repelisses a expiação. Mas és inocente e essa cruz é demasiado pesada para ti. Uma vez que querias regenerar-te pelo sofrimento, guarda sempre presente, em 772
qualquer parte em que viveres, esse ideal da regeneração. Isso bastará. O
fato de te teres furtado a essa terrível prova servirá somente para fazer-te sentir um dever maior ainda, e esse sentimento contínuo contribuirá talvez mais para tua regeneração do que se fosses para lá. Porque não suportarias os sofrimentos do presídio, revoltarte-ias, talvez acabasses dizendo: "Estou quite". O advogado disse a verdade nesse sentido. Todos não suportam fardos pesados; há criaturas que sucumbem... Eis minha opinião, se desejas tanto conhecê-la. Se tua evasão devesse custar caro a outros, oficiais e soldados, não te permitiria que te evadisses. — Aliócha sorriu. — Mas assegura-se (o próprio chefe de condução disse-o a Ivã) que não haverá sanções severas, sabendo-se arranjar as coisas, e que eles se safarão de complicações sem mais nada. Decerto é desonesto corromper consciências, mesmo neste caso, mas aqui abster-me-ei de julgar, porque se, por exemplo, Ivã e Cátia me tivessem confiado um papel nesse negócio, não teria hesitado em empregar a corrupção: devo dizer-te toda a verdade.
Assim, não cabe a mim julgar tua maneira de agir. Mas sabe que não te condenarei jamais. Aliás, é estranho, como poderei eu ser teu juiz neste caso? Está bem! creio ter examinado tudo.
— Em compensação, serei eu que me condenarei! — exclamou Mítia. — Evadir-me-ei Já estava decidido: será que Mítia Karamázov pode não fugir? Mas me condenarei e passarei minha vida a expiar essa falta. É
bem assim que falam os jesuítas? Como o estamos fazendo agora, hein?
— Com efeito — disse alegremente Aliócha.
— Eu te amo porque dizes sempre a verdade completa, sem nada ocultar! — disse Mítia, radiante. — Portanto, apanhei Aliócha em flagrante delito de jesuitismo! Merecerias que te beijassem por isso, deveras! Pois bem! escuta o resto, vou acabar de expandir-me. Eis o que imaginei e resolvi. Se conseguir evadir-me com dinheiro e um passaporte e se chegar à América, serei reconfortado por essa idéia de que não é para viver feliz que o faço, mas para sofrer um presídio que talvez seja igual a este! Asseguro-te, Alieksiéi, que um vale o outro! Que o diabo leve essa América! Já a odeio. Grucha me acompanhará, seja, mas olha-a: tem ela o ar duma americana? Ela é russa, russa até a medula dos ossos, sofrerá a saudade de sua terra, e sem cessar vê-la-ei sofrer por causa de mim, carregando uma cruz que não mereceu. E eu, suportarei os pulhas de lá, mesmo que todos valessem mais do que eu? Já a detesto, a essa América!
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Pois bem! muito embora sejam eles lá técnicos fora do comum ou outra coisa, leve-os o diabo, não são a minha gente! Amo a Rússia, Alieksiéi, amo o Deus russo, por mais vil que eu seja! Sim. rebentarei lá! —
exclamou ele, com os olhos de repente cintilantes. Sua voz tremia.
— Pois bem! eis o que decidi, Alieksiéi, escuta! — prosseguiu, logo que se acalmou. — Assim que lá chegar, com Grucha, pôr-nos-emos a trabalhar na lavoura, a trabalhar na solidão, entre os ursos, bem longe. Lá também há recantos perdidos. Dizem que ainda existem peles-vermelhas.
Pois bem! será para essa região que iremos, entre os derradeiros moicanos.
Estudaremos imediatamente a gramática, eu e Grucha. Ao fim de três anos, saberemos o inglês a fundo. Então, adeus América! Voltaremos à Rússia, como cidadãos americanos. Não tenhas receio, não voltaremos para esta cidadezinha, ocultar-nos-emos em alguma parte, ao norte ou ao sul. Estarei mudado, ela também; mandarei fazer para mim na América uma barba postiça, furarei um olho, senão usarei uma barba grisalha de 1
archin (a nostalgia da pátria envelhecer-me-á depressa), talvez não me reconheçam. Se for reconhecido, que me deportem, tanto pior, era meu destino! Na Rússia também, trabalharemos num canto perdido e far-me-ei sempre passar por americano. Em compensação, morreremos na terra natal. Eis meu plano. É irrevogável. Tu o aprovas?
— Sim — disse Aliócha para não o contradizer. Mítia calou-se um instante e declarou de repente:
— Viste como me trataram na audiência? Quanta má vontade!
— Mesmo sem isso, terias sido condenado — disse Aliócha suspirando.
— Sim, estão fartos de mim, aqui! Que Deus lhes perdoe, mas é duro! — gemeu Mítia. Novo silêncio.
— Aliócha, executa-me agora mesmo: virá ela ou não agora? Fala!
Que disse ela?
— Prometeu vir, mas não sei se será hoje. É-lhe penoso! Aliócha fitou timidamente seu irmão.
— Concordo! Concordo! Aliócha, eu ficarei louco! Grúchenhka não cessa de fitar-me. Ela compreende. Meu Deus! acalma-me, que peço eu?
Cátia! Será que compreende o que estou pedindo? Eis aqui a tal impe-774
tuosidade dos Karamázovi! Não, não sou capaz de sofrer! Não passo de um miserável!
— Ei-la! — exclamou Aliócha.
Nesse momento, Cátia apareceu no limiar. Parou um instante e olhou para Mítia com um ar desvairado. Mítia levantou-se vivamente, pálido de terror, mas logo um sorriso tímido, súplice, desenhou-se em seus lábios e, de repente, num movimento irresistível, estendeu seus braços para Cátia, que correu para ele. Ela agarrou-lhe as mãos, fê-lo sentar-se no leito, sentou-se também, sem largar-lhe as mãos, que apertava convulsivamente. Por várias vezes, ambos quiseram falar, mas se contiveram, olhando-se em silêncio, com um sorriso estranho, como que presos um ao outro; dois minutos assim se passaram.
— Perdoaste? — perguntou por fim Mítia e logo, voltando-se radiante para Aliócha, gritou-lhe:
— Ouves o que peço, ouves?
— Eu te amo, porque teu coração é generoso! — disse Cátia. — Não tens necessidade de meu perdão, nem eu tampouco do teu. Que me perdoes ou não, a lembrança de cada um de pós ficará como uma ferida na alma do outro, isto deve ser... — Deteve-se para tomar alento. — Por que vim? — prosseguiu ela, febrilmente. — Para beijar teus pés, apertar tuas mãos até doerem, lembras-te? como em Moscou, para dizer-te ainda que és meu deus, minha alegria, para dizer-te que te amo loucamente —
gemeu ela, num soluço. Pousou os lábios ávidos na mão de Mítia.
Corriam-lhes lágrimas pelas faces. Aliócha mantinha-se silencioso e desconcertado. Não esperava aquela cena.
— O amor desapareceu, Mítia — continuou ela —, mas o passado é-me dolorosamente querido. Fica-o sabendo para sempre. Agora, por um instante, suponhamos verdadeiro o que teria podido ser — murmurou ela, com um sorriso crispado, fixando-o de novo com alegria.
— Agora, amamos cada um para nosso lado, no entanto, amar-te-ei sempre, e tu também sabia-lo? Ouve, ama-me, ama-me toda a tua vida! —
suspirou ela, com uma voz trêmula em que havia leve tom de ameaça.
— Sim, eu te amarei e... sabes, Cátia — disse Mítia, parando a cada palavra —, sabes que há cinco dias, naquela noite, eu te amava... Quando 775
caíste desmaiada e te levaram... Toda a minha vida! Será assim, para todo o sempre.
Assim trocavam eles essas frases quase absurdas e exaltadas, menti-rosas talvez mas eram sinceros e tinham em si uma confiança absoluta.
— Cátia — exclamou, de repente, Mítia —, acreditas que eu matei?
Sei que agora não o crês, mas naquela ocasião... quando depunhas... tu o acreditavas verdadeiramente?
— Jamais o acreditei, mesmo então! Eu te detestava e persuadi-me, por um instante... Ao depor, estava convencida... mas, logo imediatamente depois, deixei de crê-lo. Fica-o sabendo. Esquecia-me de que vim aqui para penitenciar-me! — disse ela, com uma expressão toda nova, que não lembrava em nada as ternas frases de ainda há pouco.
— Como isto é horrível para ti, mulher! — disse, de repente, Mítia.
— Deixa-me — murmurou ela —, eu voltarei, agora não posso mais.
Levantara-se, mas de súbito lançou um grito e recuou.
No quarto havia entrado bruscamente, embora sem ruído, Gruchenhka. Ninguém a esperava. Cátia lançou-se para a porta, mas parou diante de Gruchenhka, tornou-se duma palidez de cera e murmurou, num suspiro:
— Perdoe-me!
A outra fitou-a e, ao fim dum instante, disse-lhe, em voz amarga, carregada de ódio:
— Somos más todas duas! Como haveremos de perdoar uma à outra?
Mas salva-o e, em compensação, eu rezarei por ti toda a minha vida.
— E tu recusas perdoar-lhe? — gritou Mítia, num tom de viva censura.
— Fica tranqüila, eu o salvarei — apressou-se em dizer Cátia, que saiu apressada.
— Pudeste recusar-lhe teu perdão, quando ela mesma to pedia? —
exclamou de novo Mítia com amargura.
— Não a censures, Mítia, não tens o direito! — interveio com vivacidade Alíócha.
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— Era o seu orgulho e não o seu coração que falava — disse com desgosto Gruchenhka. — Se ela te libertar, perdoar-lhe-ei tudo...
Calou-se, como se reprimisse alguma coisa e não pudesse ainda serenar-se. Chegara ali totalmente por acaso, não suspeitando de nada e sem esperar aquele encontro. -
— Aliócha, corre atrás dela! — disse Mítia, ansioso, a seu irmão. —
Dize-lhe... não sei o quê... não a deixes partir assim!
— Virei ver-te antes do anoitecer! — gritou Aliócha, que correu para alcançar Cátia. Alcançou-a, de fato, já fora do hospital. Ia depressa e lhe disse rapidamente:
— Não, é-me impossível humilhar-me diante daquela mulher. Quis beber o cálice até o fim, por isso lhe pedi perdão. Ela recusou... Amo-a por isso! — disse Cátia com voz alterada e seus olhos brilhavam cheios de ódio feroz.
— Meu irmão não esperava por isso — balbuciou Aliócha. — Estava persuadido de que ela não viria...
— Sem dúvida. Deixemos isso — interrompeu ela. — Escute: não posso acompanhá-lo ao enterro. Enviei-lhes flores para o caixão. Devem ter ainda dinheiro. Se for preciso, diga-lhes que para o futuro não os abandonarei jamais. E agora, deixe-me, deixe-me, rogo-lhe. Você já está atrasado, está tocando para a derradeira missa... Deixe-me, por favor!
III
ENTERRO DE ILIÚCHA. ALOCUÇÃO PERTO DA PEDRA
Estava atrasado, com efeito. Esperavam-no e tinham mesmo já decidido levar sem ele para a igreja o pequeno ataúde ornado de flores. Era o de Iliúcha, o pobre menino. Morrera dois dias depois da sentença do julgamento. Ainda no portão, foi Aliócha acolhido pelos gritos dos rapazes, camaradas de Iliúcha. Tinha vindo uma dúzia, com suas sacolas escolares nas costas. "Papai chorará, fiquem com ele", dissera-lhes Iliúcha, ao morrer, e os meninos lembravam-se disso. À frente deles achava-se Kólia Krasótkin.
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— Como estou contente. pela sua vinda, Karamázov! — exclamou ele, estendendo a mão a Aliócha. — Aqui, está horrível! Na verdade, causa dó ver. Snieguiriov não está bêbado, temos certeza de que não bebeu hoje, mas tem ar de embriagado... Mantenho-me firme, mas é horrível.
Karamázov, se não o demoro, far-lhe-ei apenas uma pergunta antes de entrar.
— Que há, Kólia? — Aliócha parou.
— Seu irmão é inocente ou culpado? Foi ele quem matou seu pai ou foi o lacaio? Acreditarei no que o senhor disser. Há quatro noites que não durmo pensando nessa idéia.
— Foi o lacaio o assassino, meu irmão está inocente — respondeu Aliócha.
— É também minha opinião!... — exclamou de repente o jovem Smúrov.
— De modo que sucumbe ele como uma vítima inocente pela verdade? — exclamou Kólia. — Sucumbindo, é feliz! Estou pronto a invejá-lo!
— Como pode você dizer isso e por quê? — disse Aliócha, surpreso.
— Oh! se eu pudesse um dia sacrificar-me pela verdade! — declarou Kólia com entusiasmo.
— Mas não num caso com esse, não com tal opróbio em circunstâncias tão horríveis! — disse Aliócha.
— Certamente... quereria morrer pela humanidade inteira e, quanto à vergonha, pouco importa: pereçam nossos nomes. Respeito seu irmão!
— Eu também! — exclamou de modo completamente inesperado o mesmo menino que pretendera outrora saber quem fundara Tróia. Como então, ficou vermelho como uma peônia.
Aliócha entrou. No ataúde azul, enfeitado com tiras brancas, estava Iliúcha deitado, as mãos juntas, os olhos fechados. Os traços de seu rosto emagrecido mal haviam mudado e, coisa estranha, o cadáver quase não exalava fétido. A expressão era séria e como que pensativa. As mãos sobretudo eram belas, como talhadas em mármore. Tinham posto flores nelas. O ataúde inteiro, por dentro e por fora, estava ornado de flores enviadas de manhã cedo por Lisa Khokhlakova. Mas tinham vindo outras 778
da parte de Catarina Ivânovna, e quando Aliócha abriu a porta, o capitão, com um buquê nas mãos trêmulas, desmanchava-o sobre seu querido filho. Mal olhou para o recém-chegado; aliás, não prestava atenção a ninguém, nem mesmo à sua mulher, a mamacha demente e chorosa, que se esforçava por se erguer sobre suas pernas doentes, para ver de mais perto seu filho morto. Quanto a Nínotchka, os meninos tinham-na levado, com sua cadeira, para bem perto do caixão. Apoiara a cabeça nele e devia estar chorando mansamente. Snieguiriov tinha o ar animado, mas como que perplexo e ao mesmo tempo selvagem. Havia loucura em seus gestos, nas palavras que lhe fugiam. "Meu pequeno, meu querido pequeno!", exclamava ele a cada instante, olhando Iliúcha.
— Pápotchka, dá-me também flores, toma da mão dele aquela flor branca e dá-ma! — pediu, soluçando, a mamacha louca. Fosse que a rosinha branca que estava nas mãos de Iliúcha lhe agradasse muito, ou quisesse ela guardá-la como lembrança dele, agitava-se, com os braços estendidos para a flor.
— Não darei nada a ninguém! — respondeu duramente
Snieguiriov. — São dele as flores e não tuas. Tudo é dele, nada de ti!
— Papai, dê uma flor a mamãe! — disse Nínotchka, mostrando seu rosto úmido de lágrimas.
— Não darei nada, sobretudo a ela! Ela não o amava. Tirou-lhe seu canhãozinho — disse o capitão com um soluço, lembrando-se de como Iliúcha tinha então cedido o canhão à sua mãe. A pobre louca pôs-se a chorar, ocultando o rosto nas mãos. Os meninos, vendo afinal que o pai não saía de junto do caixão, e que era tempo de levá-lo à igreja, cercaram-no compactamente e puseram-se a levantá-lo.
— Não quero enterrá-lo no cemitério! — clamou de súbito Snieguiriov. — Enterrá-lo-ei perto da pedra, de nossa pedra! Era a vontade de Iliúcha. Não deixarei que o levem!
Havia três dias que ele falava em enterrá-lo perto da pedra; mas Aliócha e Krasótkin intervieram, bem como a locadora, sua irmã e todos os meninos.
— Que idéia essa de enterrá-lo perto de uma pedra impura, como um renegado? — disse severamente a velha. — No cemitério, a terra é 779
abençoada. Será mencionado nas orações. Ouvem-se os cantos da igreja, o diácono tem uma voz tão sonora e tudo chegará até ele, como se fosse ali mesmo, junto de sua sepultura.
O capitão teve um gesto de lassidão, como para dizer: "Façam o que quiserem!" Os meninos ergueram o caixão, mas, ao passar perto da mãe, detiveram-se um instante para que ela pudesse dizer adeus a Iliúcha.
Vendo, de repente, de perto aquele rosto querido, que ela havia três dias não tinha contemplado senão a certa distância, pôs-se ela a balançar sua cabeça grisalha.
— Mamãe, abençoe-o, beije-o — gritou-lhe Nínotchka. Mas a velha, como um autômato, continuou a menear a cabeça e, sem nada dizer, com o rosto crispado pela dor, bateu no peito com o punho. Levaram o caixão para mais longe. Nínotchka pousou um derradeiro beijo nos lábios de seu irmão. Aliócha, ao sair, rogou à locadora que velasse pelas duas mulheres: ela não o deixou acabar.
— Conhecemos nosso dever, ficarei junto delas, nós também somos cristãs.
A velha chorava ao dizer isso. A igreja estava a pouca distância, uns trezentos passos quando muito. Fazia um tempo claro e ameno, com um pouco de geada. Os sinos ainda dobravam. Snieguiriov, apressado e desorientado, acompanhava o ataúde, metido no seu velho sobretudo, demasiado leve para a estação, segurando na mão seu chapéu de feltro de largas abas. Presa de inexplicável inquietação, ora queria sustentar a cabeceira do caixão, o que só fazia atrapalhar os que o carregavam, ora esforçava-se por andar ao lado. Tendo uma flor caído na neve, precipitou-se para apanhá-la, como se aquilo tivesse uma grande importância.
— O pão, esqueceram o pão! — exclamou ele, de repente, com terror.
Mas os meninos lhe lembraram logo que ele acabava de pegar um pedaço de pão e trazia-o no bolso. Tirou-o è acalmou-se ao vê-lo.
— É Iliúcha que o quer — explicou ele a Alíócha. — Uma noite, em que estava eu à sua cabeceira, disse-me de repente: "Pápotchka, quando me enterrarem, esmigalhe pão em cima de minha cova, para atrair os pardais.
Eu os ouvirei e me causará prazer o não me sentir só".
— Está muito bem-— disse Aliócha. — Será preciso trazer pão mui-780
tas vezes.
— Todos os dias, todos os dias! — murmurou o capitão como que reanimado.
Chegaram por fim à igreja e o ataúde foi colocado no meio dela. Os meninos cercaram-no e portaram-se exemplarmente durante a cerimônia.
A igreja era antiga e bastante pobre, muitos ícones não tinham molduras, mas em igrejas assim se sente a gente mais à vontade para rezar. Durante a missa, Sníeguiriov pareceu acalmar-se um pouco, se bem que a mesma preocupação inconsciente reaparecesse por momentos nele; ora se aproximava do caixão para
arranjar o pano fúnebre, ou o vientchk65 , ora, quando uma vela caía do candelabro, corria a recolocá-la, demorando-se nisso infindavelmente. Depois tranqüilizou-se e ficou à frente, com ar preocupado e como que perplexo. Depois da epístola, cochichou a Aliócha que não a haviam lido como era devido, sem explicar seu pensamento.
Pôs-se a cantar o hino querúbico, depois prosternou-se, com a cabeça contra as lajes, antes que ele terminasse, e assim ficou durante muito tempo. Por fim, foi dada a absolvição e distribuíram-se as velas. O pai, precipitado, ia de novo agitar-se, mas a unção e a majestade do canto fúnebre o transtornaram. Pareceu encolher-se e se pôs a soluçar a curtos intervalos, a princípio abafando sua voz, depois, para o fim, ruidosamente.
No momento dos adeuses, quando se ia fechar o caixão, abraçou-se com ele como se quisesse a isso opor-se e começou a cobrir de beijos os lábios de seu filho. Exortaram-no a afastar-se e já havia ele descido o degrau, quando de repente estendeu vivamente os braços e tirou algumas flores do caixão. * Contemplou-as e nova idéia pareceu absorvê-lo, de modo que esqueceu, por um instante, o essencial. Pouco a pouco, tombou no devaneio e não fez nenhuma resistência quando levaram o caixão.
O túmulo, situado bem perto da igreja, no cemitério, custara caro.
Pagara-o Catarina Tvânovna. Após o rito usual, os coveiros desceram o caixão. Sníeguiriov, com suas flores na mão, inclinava-se de tal maneira por cima da cova aberta que os meninos amedrontados agarraram-lhe o sobretudo e puxaram-no para trás. Mas ele parecia não compreender bem o que se passava. Quando encheram a cova, pôs-se a desenhar, com ar 65 Tira de cetim ou de papel, na qual se colocavam imagens de Cristo, da Virgem e de São João Crisóstomo.
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preocupado, na terra que se amontoava, e começou mesmo a falar, mas ninguém compreendeu nada: aliás, não tardou a calar-se. Lembraram-lhe então que era preciso reduzir o pão a migalhas: moveu-se, tirou o pão do bolso e espalhou-o em migalhas sobre o túmulo: "Venham, passarinhos, venham, gentis pardais!", murmurava ele, solícito. Um dos meninos fez-lhe ver que suas flores o atrapalhavam e que deveria confiá-las a alguém.
Mas ele recusou, pareceu mesmo aterrorizado, como se quisessem tomá-las dele, e depois de haver-se assegurado com um olhar de que tudo estava realizado e o pão reduzido a migalhas, voltou-se e seguiu tranqüilamente para sua casa. ' Mas pouco a pouco apressou o passo, corria quase. Os meninos e Aliócha seguiam-no de perto.
— Flores para mamacha, flores para mamacha! Ofenderam a mamacha! — exclamou ele, de repente. Alguém lhe gritou que pusesse o chapéu, que estava fazendo frio. Como que irritado com tais palavras, atirou-o na neve, dizendo: "Não quero chapéu, não quero!" O jovem Smúrov apanhou o chapéu e segurou-o. Todos os meninos choravam, sobretudo Kólia e o rapaz que havia descoberto Tróia. Malgrado suas lágrimas, achou Smúrov meio de apanhar um pedaço de tijolo que aparecia vermelho entre a neve, para visar no vôo um bando de pardais.
Não acertou neles, naturalmente, e continuou a correr, chorando. A meio caminho, Snieguiriov parou, de súbito, estacionou um instante como impressionado por alguma coisa, depois, voltando-se para o lado da igreja, encaminhou-se para o túmulo deixado só. Mas os meninos o agarraram em um piscar de olhos, aferrando-se a ele por todos os lados. Sem forças, dominado, rolou sobre a neve, debateu-se soluçando, e se pôs a gritar:
"Iiiúcha, meu querido filhinho!" Aliócha e Kólia levantaram-no.
suplicaram-lhe que se mostrasse razoável.
— Capitão, basta, um homem corajoso deve suportar tudo — balbuciou Kólia.
— O senhor está estragando as flores — disse Aliócha. — A mamacha as espera, está chorando porque o senhor lhe recusou as flores de Iliúcha.
O leito de Iliúcha ainda está lá.
— Sim, sim, vamos ver a mamacha — lembrou-se, de súbito, Snieguiriov. — Vão levar o leito! — acrescentou, como se temesse verdadeiramente que o levassem. Levantou-se e correu à casa, mas não se estava longe e todo mundo chegou ao mesmo tempo. Snieguiriov abriu 782
vivamente a porta, gritou para sua mulher, para com a qual se mostrara tão duro:
— Querida mamacha, eis flores que Iliúcha te envia. Tens dores nos pés?
Estendeu-lhe as flores, geladas e machucadas, quando havia rolado na neve. Naquele momento, percebeu a um canto, diante do leito, os sapatos de Iliúcha que a locadora acabara de arrumar, velhos sapatos que se haviam tornado vermelhos, encoscorados, remendados. Vendo-os, ergueu os braços, avançou, caiu de joelhos, agarrou um dos sapatos, que cobriu de beijos, gritando:
— Iliúcha, meu querido filhinho, onde estão teus pés?
— Para onde o levaste? Para onde o levaste? — exclamou a louca, com uma voz dilacerante. Nínotchka também se pôs a soluçar. Kólia saiu correndo, seguido pelos meninos. Aliócha fez o mesmo.
— Deixemo-lo chorar — disse ele a Kólia. — É impossível consolá-los. Voltaremos daqui a pouco.
— Sim, não há nada a fazer, é horrível — aprovou Kólia. — Sabe, Karamázov? — disse ele, baixando a voz para não ser ouvido. — Tenho muito pesar e para ressuscitá-lo daria tudo no mundo!
— Eu também — disse Aliócha.
— Que pensa o senhor, Karamázov, será preciso vir esta noite? Ele vai embriagar-se.
— É bem possível. Viremos somente nós dois, e basta, passar uma hora com ele, com a mamãe e Nínotchka. Se viéssemos todos, serviria para lembrar-lhes tudo — aconselhou Aliócha.
— A locadora vai preparar a mesa para a comemoração66, virá o pope. Será preciso voltar para lá agora, Karamázov?
— Absolutamente.
— É estranho tudo isso, Karamázov. Tal dor e pastéis; como tudo é 66 O costume de "comemorar" os mortos com um jantar era, tanto na Rússia como noutros países nôrdicos, sobrevivência dos ágapes funerários dos primeiros tempos do cristianismo.
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estranho na nossa religião!
— Haverá salmão — disse o rapaz que havia descoberto Tróia.
— Peço-lhe seriamente, Kartachov, que não intervenha com suas bobagens, sobretudo quando não se está falando com você e que se quer mesmo ignorar sua existência — disse Kólia, com irritação. O rapaz corou, mas não ousou responder. Entretanto, todos seguiam lentamente a vereda e Smúrov exclamou de repente:
— Eis a pedra de Iliúcha, sob a qual queriam enterrá-lo.
Todos pararam, silenciosos, ao lado da pedra. Aliócha olhava, e a cena que lhe havia contado outrora Snieguiriov, de como Iliúcha, chorando e abraçando seu pai, exclamava: "Pápotchka, pápotchka, como ele te humilhou!", aquela cena lhe voltou repentinamente à memória. A emoção dominou-o. Olhou com ar sério todos aqueles rostos gentis de escolares, camaradas de Iliúcha, e lhes disse:
— Meus amigos, quereria dizer algumas palavras, aqui mesmo. Os meninos cercaram-no e fitaram nele olhares de expectativa.
— Meus amigos, vamos separar-nos. Ficarei ainda algum tempo com meus irmãos, dos quais um vai ser deportado e o outro está moribundo. Mas deixarei em breve esta cidade, talvez por muito tempo.
Vamos, pois, separar-nos. Convenhamos aqui, diante da pedra de Iliúcha, que jamais o esqueceremos e nos lembraremos uns dos outros. E, aconteça o que acontecer mais tarde na vida, ainda mesmo que fiquemos vinte anos sem nos vermos, lembrar-nos-emos de como enterramos o pobre menino, contra o qual eram atiradas pedras perto do passadiço, deveis lembrar-vos, e que foi depois amado por todos. Era um menino amável, bom e corajoso, tendo o sentimento da honra e da amarga ofensa sofrida por seu pai, contra a qual se voltou. Assim nos lembraremos dele toda a nossa vida. E
mesmo se estivermos ocupados com negócios da mais alta importância e tenhamos alcançado honras ou caído no infortúnio, mesmo então não esqueçamos jamais como nos foi doce, aqui, comungar uma vez em um bom sentimento que nos tornou, enquanto amávamos o pobre menino, talvez melhores do que somos na realidade. Meus pombinhos, deixai que vos chame assim, porque vos assemelhais todos àqueles encantadores pássaros, enquanto fito os vossos rostos amáveis, meus queridos meninos, talvez não compreendais o que vou dizer-vos, porque nem sempre sou 784
claro, mas havereis de lembrar-vos e mais tarde me dareis razão. Sabei que não há nada de mais nobre, de mais forte, de mais são e de mais útil na vida que uma boa recordação, sobretudo provindo da juventude, da casa paterna. Falam-vos muito de vossa educação; ora, uma recordação santa, conservada desde a infância, é talvez a melhor educação. Sc fazemos provisão de tais recordações para a vida, salvamo-nos definitivamente. E mesmo se só guardarmos no coração uma boa recordação, isto poderá servir um dia para nos salvar. Talvez nos tornemos mesmo maus, mais tarde, incapazes de nos abstermos duma má ação, rirmos das lágrimas de nossos semelhantes, dos que dizem, como Kólia exclamou ainda há pouco: "quero sofrer por todos", talvez zombemos deles maldosamente. Mas, por piores que nos tornemos, do que Deus nos preserve, quando nos lembrarmos de como enterramos Iliúcha, de como o amamos nos seus derradeiros dias, e das conversas que mantivemos cordialmente em redor dessa pedra, o mais duro e o mais zombeteiro dentre nós, se assim nos tornarmos, não ousará zombar, no seu foro íntimo, dos bons sentimentos que experimenta neste momento!
Mais ainda, talvez que precisamente essa recordação apenas o impeça de agir mal; fará um exame de consciência e dirá: "Sim, eu era bom então, ousado, honesto". Que ria mesmo consigo mesmo, pouco importa, a gente zomba muitas vezes do que é bom e belo; é somente por leviandade, mas asseguro-vos que, logo depois de ter rido, dirá a si mesmo em seu coração:
"Fiz mal em rir-me, porque não devemos rir dessas coisas!"
— Será absolutamente assim, Karamázov, eu o compreendo! — exclamou Kólia, de olhos brilhantes. Os meninos agitaram-se e queriam também gritar alguma coisa, mas contiveram-se e fixaram no orador olhares emocionados.
— Disse isto para o caso em que nos tornarmos maus — prosseguiu Aliócha. — Mas por que nos tornarmos maus, não é, meus amigos?
Seremos antes de tudo bons, depois honestos, enfim, não nos esqueceremos jamais uns dos outros. Insisto nisto. Dou-vos minha palavra, meus amigos, de que não esquecerei nenhum de vós: cada rosto que me olha agora, dele me lembrarei, mesmo daqui a trinta anos. Ainda há pouco, Kólia disse a Kartachov que queríamos ignorar sua existência. Posso eu esquecer que Kartachov existe, que não cora mais como quando descobriu Tróia, mas me olha alegremente com seus belos olhos? Meus caros amigos, sejamos todos generosos e corajosos como Iliúcha, inteligentes, corajosos e 785
generosos como Kólia (que se tornará bem mais inteligente ao crescer), sejamos modestos, porém amáveis como Kartachov. Mas por que só falar desses dois? Todos vós me sois caros doravante, todos tendes um lugar em meu coração e reclamo um no vosso! Poi bem! quem nos reuniu neste bom sentimento, do qual queremos guardar para sempre a lembrança, senão Iliúcha. aquele bom, aquele gentil menino, que nos será sempre querido? Nós não o esqueceremos, boa e eterna recordação dele em nossos corações, agora e para todo o sempre!
— É isto, é isto, lembrança eterna! — gritaram todos os meninos com suas vozes sonoras e com ar comovido.
— Nós nos lembraremos de seu rosto, de sua roupa, de seus pobres sapatinhos, de seu, ataúde, de seu desgraçado pai, e de como tomou a defesa dele, sozinho contra toda a classe.
— Nós nos lembraremos dele! Era bravo, era bom!
— Ah! como eu o amava! — exclamou Kólia.
— Meus meninos, meus queridos amigos, não temais a vida! Ela é tão bela quando se pratica o bem e a verdade!
— Sim, sim! — repetiram os meninos entusiasmados.
— Karamázov, nós o amamos! — ecoou uma voz, provavelmente a de Kartachov.
— Nós o amamos, nós o amamos! — repetiram em coro. Muitos tinham lágrimas nos olhos.
— Viva Karamázov! — proclamou Kólia.
— E lembrança eterna para o pobre menino! — acrescentou de novo Aliócha, com emoção.
— Lembrança eterna!
— Karamázov! — exclamou Kólia. — É verdade o que diz a religião, que ressuscitaremos dentre os mortos, que nos tornaremos a ver uns e outros, e todos e Iliúcha?
— Decerto ressuscitaremos, tornaremos a ver-nos, contaremos uns aos outros alegremente tudo quanto se passou — respondeu Aliócha, meio risonho, meio entusiasta.
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— Oh! como será bom! — disse Kólia.
— E agora, já falamos muito. Vamos ao jantar fúnebre. Não vos perturbeis pelo fato de comermos pastéis. É uma velha tradição que tem seu lado bom — disse Aliócha, sorrindo. — Pois bem! vamos agora, de mãos dadas.
— E sempre assim, a vida inteira, de mãos dadas! Viva Karamázov! — repetiu Kólia com entusiasmo, e sua aclamação foi repetida por todos os meninos.
F I M
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PREFÁCIO
Você terminou Os Irmãos Karamázov
Fiódor Dostoiévski