Os Irmãos Karamázov
Capítulo 54
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Isto se passa antes do bródio. Karamázov não se pode dar conta disso? Eis o que o atormentava; que há de inverossímil no ter ele reservado esse dinheiro para o que desse e viesse? Mas o tempo passa, Fiódor Pávlovitch não dá ao acusado os 3 000 rublos, pelo contrário, corre o boato de que os destina precisamente para seduzir sua bem-amada. 'Se Fiódor Pávlovitch não me der nada', pensa ele, 'passarei por um ladrão aos olhos de Catarina Ivânovna. ' Assim nasce a idéia de ir depositar diante de Catarina Ivânovna aqueles 1 500 rublos que continua a trazer consigo, no amuleto, dizendo: 'Sou um miserável, mas não um ladrão". Eis, pois, uma dupla razão para conservar aquele dinheiro como a menina de seus olhos, em lugar de descoser o amuleto e dele retirar uma cédula após outra. Por que recusar ao acusado o sentimento da honra? Existe nele esse sentimento, mal compreendido talvez, muitas vezes errôneo, seja, mas real, levado até a paixão, provou-o ele. Mas a situação se complica, as torturas do ciúme atingem seu paroxismo, e essas duas questões, sempre as mesmas, obsedam cada vez mais o cérebro enfebrecido do acusado: 'Se eu reembolsar Catarina Ivânovna, com que dinheiro levarei Grúchenhka?' Se se embriagou, praticou loucuras e barulho nos botequins durante todo aquele mês, foi talvez precisamente porque estava cheio de amargura e sem força para suportar aquele estado de coisas. Essas duas questões tornaram-se finalmente tão irritantes que o reduziram ao desespero.
Mandara seu irmão mais moço pedir uma derradeira vez aqueles 3 000
rublos a seu pai, mas, sem esperar a resposta, irrompeu em casa do velho e bateu-lhe diante de testemunhas. Depois disto, nada mais tinha a esperar. Naquela mesma noite, bate no alto do peito, precisamente no lugar daquele amuleto, e jura a seu irmão que tem um meio de apagar sua vergonha, mas que o manterá, porque se sente incapaz de recorrer a esse 744
meio, sendo de caráter demasiado fraco. Por que recusa a acusação acreditar no depoimento de Alieksiéi Karamázov, tão sincero, tão espontâneo e plausível? Por que, ao contrário, impor a versão do dinheiro escondido numa fenda, nos subterrâneos do Castelo de Udolfo? Na mesma noite da conversa com seu irmão, escreveu o acusado aquela carta fatal, base principal da inculpação de roubo. 'Pedirei dinheiro a todo mundo, e, se mo recusarem, matarei meu pai e tirarei o dinheiro de sob o colchão, no envelope amarrado com uma fita côr-de-rosa, contanto que Ivã parta. ' Eis o programa completo do assassinato. Como não seria ele?
Tudo se passou como ele o havia escrito!', exclama a acusação. Mas, em primeiro lugar, é uma carta de bêbado, escrita sob o império duma extrema irritação; em seguida, não fala do envelope senão por informação de Smierdiákov, sem tê-lo ele próprio visto; em terceiro, se bem que a carta exista, como provar que os fatos a ela correspondem? Encontrou o réu o envelope sob o travesseiro? Continha ele dinheiro mesmo? Aliás, era atrás do dinheiro que corria o acusado, lembrai-vos? Não correu como um louco para roubar, mas somente para saber onde estava aquela mulher que o fizera perder a cabeça, por conseguinte não de acordo com um plano, para um roubo premeditado, mas de improviso, num acesso de ciúme furioso! 'Sim, mas depois do crime, apoderou-se do dinheiro. '
Finalmente, matou, sim ou não? Repilo com indignação a acusação de roubo; só será possível, se se indicar exatamente o objeto do roubo, é um axioma! Mas está demonstrado que ele matou, mesmo sem roubar. Não seria isso também uma novela?
XII
NÃO HOUVE ASSASSINATO
"Não vos esqueçais, senhores jurados, de que se trata da vida de um homem. A prudência se impõe. Até o presente, a acusação hesitava em admitir a premeditação. Foi preciso para convecê-la aquela fatal carta de bêbado, apresentada hoje ao tribunal. 'Isto se passou como ele o havia escrito. ' Mas, repito-o, o acusado não correu à casa de seu pai senão para procurar sua amiga, saber onde ela estava. É um fato irrecusável. Se a tivesse encontrado em sua casa, longe de executar suas ameaças, não teria ido a parte alguma. Foi por acaso, de improviso, talvez sem se recordar de 745
sua carta. 'Mas apoderou-se de um pilão', o qual, haveis de lembrar-vos, deu margem a considerações psicológicas. No entanto, vem-me ao espírito uma idéia bem simples: se esse pilão, em lugar de encontrar-se a seu alcance, estivesse no armário, o acusado, não o vendo, teria partido sem arma, de mãos vazias, e não teria talvez matado ninguém. Como se pode concluir desse incidente a premeditação? Sim, mas proferiu nos botequins ameaças de morte contra seu pai, e dois dias antes, na noite em que foi escrita essa carta de bêbado, estava calmo e brigou somente com um caixeiro, 'porque Karamázov não podia fazer de outro modo'. A isto, responderei que, se tivesse ele meditado em tal crime, segundo um plano traçado, teria certamente evitado essa briga e não teria talvez ido ao botequim, porque, em semelhante caso, a alma busca a calma e o isolamento, esforça-se por subtrair-se à atenção: 'Esquecei-me, se puderdes', e isto, não por cálculo somente, mas por instinto. Senhores jurados, a psicologia tem duplo fim e nós sabemos também compreendê-la.
Quanto a essas ameaças vociferadas durante um mês nos botequins, ouvem-se muitos meninos disputar-se ou bêbados brigar, ao sair do botequim: 'Eu te matarei', mas isso não vai mais longe. E essa carta fatal, não foi também o produto da embriaguez e da cólera, o grito do bêbado que ameaça praticar uma desgraça? Por que não? Por que essa carta é fatal, em lugar de ser ridícula? Porque foi encontrado assassinado o pai do réu, porque uma testemunha viu no jardim o acusado armado que fugia e foi ela mesma por ele abatida, por conseguinte tudo se passou como ele o havia escrito, eis por que essa carta não é ridícula, mas fatal. Deus seja louvado, eis-nos chegados ao ponto crítico. 'Uma vez que estava no jardim, matou, pois. ' Toda a acusação se atem a estas palavras: 'uma vez que' e
'pois'. E se este 'pois' não tivesse fundamento, malgrado as aparências? Oh!
convenho que a concordância dos fatos, as coincidências, são bastante eloquentes. No entanto, considerai todos esses fatos isoladamente, sem vos deixar impressionar por seu conjunto; por que, por exemplo, recusa a acusação absolutamente acreditar na veracidade do réu, quando declara ele ter-se afastado da janela de seu pai? Lembrai-vos dos sarcasmos a respeito da deferência e dos sentimentos piedosos que o assassino teria de súbito experimentado. E se tivesse havido verdadeiramente aqui algo de semelhante, um sentimento de piedade, senão de deferência? 'Sem dúvida, minha mãe rezava por mim então', declara o réu no inquérito, e fugiu assim que verificou que a Senhora Svietlova não estava em casa de seu pai.
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'Mas não podia verificá-lo pela janela', objeta-nos a acusação. Por que não?
A janela abriu-se aos sinais feitos pelo acusado. Fiódor Pávlovitch pôde pronunciar uma palavra, deixar escapar um grito, revelando a ausência da Senhora Svietlova. Por que ater-se absolutamente a uma hipótese surgida da nossa imaginação? Na realidade, há mil possibilidades escapando à observação do romancista mais sutil. 'Sim, mas Gregório viu a porta aberta, por conseguinte, o acusado entrou certamente na casa, matou, pois.
' Quanto a essa porta, senhores jurados... Vede, não temos aqui senão o único testemunho de um indivíduo que se achava, aliás, num tal estado que... Mas seja, a porta estava aberta, admitamos que as negativas do acusado sejam uma mentira, ditada por um sentimento de defesa bem natural, admitamos que ele haja penetrado na casa. Então, por que se quer que ele haja matado, se entrou? Pôde ter entrado, percorrido os quartos, pôde empurrar seu pai para um lado, bater-lhe mesmo, mas depois de ter verificado a ausência da Senhora Svietlova, fugiu, feliz por não tê-la encontrado e ter-se poupado um crime. Eis justamente por que, um momento depois, tornou a descer para ir em socorro de Gregório, vítima de seu furor; foi porque era suscetível de experimentar um sentimento de piedade e de compaixão, porque escapara à tentação, porque sentia a alegria de um coração puro. Com uma eloqüência impressionante, a acusação nos descreve o estado de espírito do acusado na aldeia de Mókroie, quando o amor lhe apareceu de novo, chamando-o a uma vida nova, quando não lhe era mais possível amar, tendo atrás de si o cadáver ensangüentado de seu pai e, em perspectiva, o castigo. No entanto, o ministério público admitiu, o amor, explicando-o à sua maneira: A ebriedade, a trégua de que se beneficiava o criminoso, etc'. Mas não criastes uma nova personagem, senhor procurador, pergunto-vos novamente? O acusado é grosseiro e sem coração ao ponto de ter podido, num momento semelhante, pensar no amor e nos subterfúgios de sua defesa, tendo na verdade sobre a consciência o sangue de seu pai? Não, mil vezes não! Logo depois de ter descoberto que ela o ama, chama-o, promete-lhe a felicidade, estou persuadido de que teria ele experimentado uma necessidade imperiosa de suicidar-se e ter-se-ia tirado a vida, se tivesse tido atrás de si o cadáver de seu pai. Oh! não, decerto, não teria esquecido onde se encontravam suas pistolas! Conheço o acusado; a brutal insensibilidade que lhe atribuem é incompatível com seu caráter. Ter-se-ia matado, é certo, e não o fez precisamente porque 'sua mãe rezava por ele', 747
e porque não havia vertido o sangue de seu pai. Durante aquela noite passada em Mókroie, atormentou-se somente por causa do velho que abatera, suplicando a Deus que o reanimasse para que pudesse escapar à morte e ele próprio ao castigo. Por que não admitir esta versão? Que prova decisiva temos nós de que o acusado mente? Mas irão de novo opor-nos o cadáver de seu pai! Ele fugiu sem matar, então quem é o assassino?
"Repito que é essa toda a lógica da acusação: quem matou, senão ele?
Não há ninguém para pôr em seu lugar. Senhores jurados, será bem isso?
É bem verdade que não se encontra ninguém mais? A acusação enumerou todos aqueles que estavam na casa ou a ela foram naquela noite.
Encontraram-se cinco pessoas. Três dentre elas, convenho, estão inteiramente fora de causa: a vítima, o velho Gregório e sua mulher.
Restam, pois, Karamázov e Smierdiákov. O senhor procurador exclama pateticamente que o acusado só designa Smierdiákov em desespero de causa, que se houvesse uma sexta pessoa, ou mesmo sua sombra, o acusado, tomado de vergonha, apressar-se-ia em denunciá-la. Mas, senhores jurados, por que não fazer o raciocínio inverso? Há dois indivíduos em presença: o acusado e Smierdiákov, não posso eu dizer que só se acusa o meu constituinte em desespero de causa? E isto unicamente porque, por prevenção, excluiu-se de antemão de toda suspeita Smierdiákov. Na verdade, Smierdiákov só é designado pelo réu, por seus dois irmãos e pela Senhora Svietlova. Mas há outros testemunhos: é a emoção confusa suscitada na sociedade por certa suspeita, percebe-se um vago rumor, sente-se uma espécie de expectativa. Enfim, prova disso é a conexão dos fatos, característica mesmo na sua impressão; em primeiro lugar, aquela crise de epilepsia sobrevinda precisamente no dia do drama, crise que a acusação teve de defender e de justificar o melhor que pôde. Depois esse repentino suicídio de Smierdiákov na véspera do julgamento. Em seguida, o depoimento não menos inopinado, em plenário, do irmão do acusado, que havia crido até então na sua culpabilidade e traz de repente o dinheiro declarando que Smierdiákov é o assassino. Oh! estou persuadido, tanto como o ministério público, de que Ivã Fiódorovitch está com febre nervosa, de que seu depoimento tenha podido ser uma tentativa desesperada, concebida no delírio, para salvar seu irmão, acusando o defunto. Não obstante, o nome de Smierdiákov foi pronunciado, tem-se de novo a impressão de um enigma. Dir-se-ia, senhores jurados, que há aqui algo de 748
inexprimido, de inacabado. Talvez a luz se faça. Mas não antecipemos. O
tribunal decidiu ainda há pouco prosseguir nos debates. Eu poderia, enquanto espero, apresentar algumas observações a respeito do caráter de Smierdiákov, traçado com um talento tão sutil pela acusação. Embora admirando-o, não posso subscrever seus traços essenciais. Estive com Smierdiákov, falei-lhe, causou-me uma impressão bem diversa. Era fraco de saúde, decerto, mas não de caráter, não era absolutamente a criatura fraca que a acusação imagina. Sobretudo não encontrei nele timidez, essa timidez que nos descreveram de maneira tão característica. Nenhuma ingenuidade, uma extrema desconfiança, dissimulada sob as aparências da simplicidade, um espírito capaz de muito meditar. Oh! foi por candura que a acusação o julgou fraco de espírito. Produziu em mim uma impressão precisa; parti persuadido de estar tratando com uma criatura visceralmente má, desmedidamente ambiciosa, vingativa e invejosa. Recolhi certas informações; detestava sua origem, tinha vergonha dela e relembrava, rangendo os dentes, que provinha de uma fedorenta. Mostrava-se desrespeitoso para com o criado Gregório e sua mulher, que haviam tomado conta dele na sua infância. Maldizendo a Rússia, dela zombava, sonhava partir para a França, tornar-se francês. Muitas vezes declarou, ainda antes, não poder fazê-lo por falta de recursos. Creio que não amava ninguém senão a si próprio e achava-se singularmente elevado... A cultura consistia para ele numa roupa decente, numa camisa limpa e em botas bem engraxadas. Crendo-se (há fatos em apoio) filho natural de Fiódor Pávlovitch, pôde criar ódio à sua situação em relação com os filhos legítimos de seu amo; têm eles tudo e ele nada, para eles todos os direitos, herança, enquanto ele não passa de um cozinheiro.
Contou-me que pusera o dinheiro no envelope com Fiódor Pávlovitch. O
destino daquela soma — graças à qual teria podido abrir seu caminho —
era-lhe evidentemente odioso. Além disso, viu 3 000 rublos em cédulas novas (perguntei-lhe de propósito). Oh! nunca mostreis a uma criatura invejosa e cheia de amor-próprio uma grossa soma de uma vez; ora, via ele pela primeira vez tal soma na mesma mão. Aquele maço de dinheiro pode ter deixado na sua imaginação uma impressão mórbida, sem outras conseqüências no começo. Meu eminente contraditor expôs, com uma sutileza notável, todas as hipóteses pró e contra a possibilidade de inculpar Smierdiákov de assassinato, insistindo nesta pergunta: que interesse tinha ele em simular uma crise? Sim, mas não simulou 749
necessariamente, a crise pôde sobrevir muito naturalmente e passar da mesma forma, voltando o doente a si. Sem se restabelecer, terá retomado conhecimento, como acontece entre os epilépticos. 'Em que momento Smierdiákov cometeu seu crime?', pergunta a acusação. É muito fácil indicá-lo. Pode ter voltado a si e ter-se levantado, depois de ter dormido profundamente (porque as crises são sempre seguidas dum profundo sono), justamente no momento em que o velho Gregório, tendo agarrado pela perna, sobre a paliçada, o acusado, que fugiu, vociferou: 'Parricida!'
Esse grito incomum, no silêncio e nas trevas, pode ter despertado Smierdiákov, cujo sono era já talvez mais leve. Levanta-se e vai quase inconscientemente ver de que se trata. Ainda estremunhado, sua imaginação dor-mita, mas ei-lo no jardim, aproxima-se das janelas iluminadas, toma conhecimento da terrível notícia da boca de seu amo, evidentemente satisfeito com a presença dele. O velho, aterrorizado, conta-lhe tudo pormenorizadamente. Sua imaginação inflama-se. E, no seu cérebro perturbado, uma idéia toma corpo, idéia terrível, mas sedutora e duma lógica irrefutável: assassinar, apoderar-se dos 3 000
rublos e tudo atribuir depois ao filho do patrão. De quem se suspeitará agora, quem pode ser acusado senão ele? As provas existem, estava no local. A cupidez pode ter-se apoderado dele, ao mesmo tempo que a consciência da impunidade. Oh! a tentação sobrevém por vezes em rajadas, sobretudo em criminosos que não suspeitavam, um minuto antes, de que queriam matar! Assim, Smierdiákov pôde entrar nos aposentos de seu amo e executar seu plano. Com que arma? Mas com a primeira pedra que terá apanhado no jardim. Por que, com qual fim? Mas 3 000 rublos são uma fortuna. Oh! não me contradigo; o dinheiro pode ter existido. Talvez mesmo somente Smierdiákov sabia onde encontrá-lo em casa de seu amo.
'Pois bem! E o envelope caído no chão, rasgado?' Ainda há pouco, ao ouvir a acusação insinuar sutilmente a este respeito que somente um ladrão novato, tal como precisamente Karamázov, podia agir assim, e em nenhum caso Smierdiákov, que não teria jamais deixado tal prova contra si, ainda há pouco, senhores jurados, reconheci de súbito um argumento dos mais familiares. Imaginei que essa hipótese relativa à maneira pela qual Karamázov devia ter procedido com o envelope, já a ouvira eu dois dias antes do próprio Smierdiákov, e isto para grande surpresa minha; parecia-me ele, com efeito, representar ingenuidade e impor-me de antemão essa idéia para que eu tirasse dela a mesma conclusão, como se 750
ele ma soprasse. Não agiu ele da mesma maneira no inquérito e impôs essa hipótese ao eminente representante da acusação? E a mulher de Gregório, dirão? Ouviu o doente gemer toda a noite. Seja, mas é este um argumento muito frágil. Conheci uma senhora que se queixava amargamente de ter estado acordada toda a noite por um fraldiqueiro que a impedia de dormir. No entanto, o pobre animal, como se soube, não latira senão duas ou três vezes. E é natural; uma pessoa que dorme ouve gemer, desperta resmungando, para tornar a adormecer logo. Duas horas depois, novo gemido, novo despertar seguido do sono, e ainda duas horas depois, três vezes ao todo. De manhã, a pessoa que dormia levanta-se queixando-se de ter estado acordada a noite inteira por causa de gemidos contínuos. Deve necessariamente ter essa impressão; os intervalos de duas horas, durante os quais dormiu, escapam-lhe, somente os minutos de vigília lhe voltam ao espírito, parece-lhe que a despertaram a noite inteira.
Mas por que, exclama a acusação, não confessou Smierdiákov no bilhete escrito antes de morrer? 'Sua consciência não chegou até aí. ' Permiti; a consciência é já o arrependimento, talvez que o suicida não experimentasse arrependimento, mas apenas desespero. São duas coisas totalmente diversas. O desespero pode ser mau e irreconciliável, e o suicida, no momento de liquidar-se, podia detestar mais do que nunca aqueles de quem tivera inveja toda a sua vida. Senhores jurados, tomai cuidado em não cometer um erro judiciário! Que há de inverossímil em tudo quanto vos expus? Encontrai um erro em minha tese, encontrai nela uma impossibilidade, um absurdo! Mas se minhas conjeturas são pelo menos um pouco verossímeis, sede prudentes. Juro-o pelo que há de mais sagrado, creio absolutamente na versão do crime que acabo de apresentar-vos. O que me perturba sobretudo e me põe fora de mim é o pensamento de que, entre a massa de fatos acumulados pela acusação contra o réu, não há nem um só que seja seu tanto quanto exato e irrecusável. Sim, decerto, o conjunto é terrível; aquele sangue que goteja das mãos, de que está impregnada sua roupa última, aquela noite escura em que repercutiu o grito de 'Parrícida!', aquele que o lançou ao cair, com a cabeça partida, depois aquela massa de palavras, de depoimentos, de gestos, de gritos, oh!
tudo isso pode falsear uma convicção, mas não a vossa, senhores jurados!
Lembrai-vos de que vos foi dado um poder ilimitado de ligar e desligar.
Mas quanto maior é esse poder, mais temível é o seu uso! Mantenho absolutamente tudo quanto acabo de dizer, mas seja, convenho por um 751
instante com a acusação que meu infeliz constituinte sujou suas mãos com o sangue de seu pai. Não é senão uma suposição, repito-o, não duvido nem um minuto de sua inocência, no entanto, escutai-me, mesmo nesta hipótese. Tenho ainda alguma coisa a dizer-vos, porque pressinto em vossos corações um violento combate... Perdoai-me esta alusão, senhores, jurados, quero verdadeiramente ser verídico e sincero até o fim. Sejamos todos sinceros!"
Nesse momento o defensor foi interrompido por aplausos bastante vivos. Com efeito, pronunciou as derradeiras palavras com uma voz tão emocionada que todo mundo sentiu que talvez houvesse verdadeiramente alguma coisa a dizer, e alguma coisa de capital importância. O presidente ameaçou "mandar evacuar" a sala, se "semelhante manifestação" se reproduzisse. Todos se calaram e Fietiukóvitch começou, com uma voz compenetrada, totalmente mudada.
XIII
UM SOFISTA
"Não é somente o conjunto dos fatos que acabrunha meu constituinte, senhores jurados, não, o que o acabrunha, na realidade, é o fato apenas de terem encontrado seu pai assassinado. Se se tratasse de um simples crime, dada a dúvida que plaina sobre o caso, sobre cada um dos fatos considerados isoladamente, teríeis afastado a acusação ou pelo menos hesitado em condenar um homem unicamente por causa de uma prevenção, contra ele, ai! demasiado justificada! Mas estamos em presença de um parricídio. Isto se impõe a ponto de fortificar a fragilidade mesma dos pontos principais de acusação, no espírito menos prevenido. Como absolver tal acusado? Se fosse culpado e escapasse ao castigo? Eis o sentimento instintivo de cada um. Sim, é uma terrível coisa derramar o sangue de seu pai, o sangue daquele que vos gerou, amou, o sangue daquele que prodigou sua vida por vós, que se afligiu com vossas doenças infantis, que sofreu para que fósseis felizes e não viveu senão pelas vossas alegrias e pelos vossos êxitos! Oh! o assassinato de tal pai, não se pode mesmo imaginá-lo! Senhores jurados, que é um pai verdadeiro, que majestade, que idéia grandiosa oculta esse nome? Acabamos de indicar em parte o que deve ser. Neste caso tão doloroso, o defunto, Fiódor 752
Pávlovitch Karamázov, nada tinha de um pai, tal como nosso coração acaba de defini-lo. É desagradável. Sim, com efeito, há pais que se assemelham a uma calamidade. Examinemos as coisas de mais perto, não devemos recuar diante de nada, senhores jurados, diante da gravidade da decisão a tomar. Devemos sobretudo não ter medo agora nem afastar certas idéias, tais como crianças ou mulheres medrosas, de acordo com a feliz expressão do eminente representante da acusação. No decorrer de seu ardente libelo acusatório, o meu honrado adversário exclamou por várias vezes: 'Não, não abandonarei a ninguém a defesa do acusado, nem mesmo ao defensor chegado de Petesburgo, sou ao mesmo tempo acusador e defensor'. No entanto, esqueceu-se de mencionar que se esse temível acusado guardou por 23 anos tal gratidão por 1 libra de avelãs, com que o presenteou o único homem que, sendo ele menino, teve para com ele tal gesto em casa de seu pai, inversamente tal homem deveria lembrar-se, durante esses 23 anos, de como andava descalço em casa de seu pai, no quintal, 'as calças presas por um só botão', segundo a expressão de um homem de coração, o Doutor Herzenstube. Oh! senhores jurados, de que serve olhar de perto essa calamidade, repetir o que toda gente conhece! Que é que meu constituinte encontrou ao chegar à casa de seu pai? E por que o representar como um ser sem coração, um egoísta, um monstro? É impetuoso, é selvagem, violento, eis por que o julgam agora. Mas quem é o responsável pelo seu destino, de quem a culpa se, com tendências virtuosas, um coração sensível e grato, recebeu uma educação tão absurda? Desenvolveram-lhe a razão, instruíram-no, alguém lhe testemunhou um pouco de afeto na sua infância? Meu constituinte cresceu ao deus-dará, isto é, como um animal selvagem. Talvez tivesse ardente desejo de rever seu pai após aquela longa separação, talvez lembrando-se de sua infância, como através de um sonho, tenha afastado muitas vezes o fantasma odioso do passado, desejando de toda a sua alma absolver e abraçar seu pai! E então? Acolhem-no com zombarias cínicas, desconfiança, chicanas a respeito de sua herança; só ouve frases e máximas que enojam o coração, finalmente vê seu pai tentar arrebatar-lhe, com seu próprio dinheiro, a sua amiga. Oh! senhores jurados, é repugnante, é atroz! E aquele velho queixa-se a todo mundo de irreverência e da violência de seu filho, difama-o na sociedade, causa-lhe danos, calunia-o, compra suas promissórias para metê-lo na cadeia!
Senhores jurados, as pessoas aparentemente duras, violentas, impetuosas, 753
tais como meu constituinte, são bem muitas vezes corações ternos, somente não o mostram. Não riais de minha idéia! O senhor procurador zombou impiedosamente de meu constituinte, apontando seu amor por Schiller e pelo sublime. Em seu lugar, não teria zombado. Sim, esses corações — oh! deixai-me defendê-los, tão raramente e tão mal compreendidos —, esses corações vivem muitas vezes sedentos de ternura, de beleza, de justiça, precisamente como por contraste consigo mesmos, com sua violência e sua dureza, e não suspeitam disso. Parecendo apaixonados e violentos, são capazes de amar até ao sofrimento, uma mulher, por exemplo, e certamente com um amor ideal e elevado. Repito-o, não riais, é o que acontece a maior parte das vezes com tais naturezas.
Somente, não podem dissimular sua impetuosidade por vezes grosseira, eis o que fere a atenção, eis o que se nota, enquanto o íntimo permanece ignorado. Pelo contrário, suas paixões acalmam-se rapidamente, mas junto duma pessoa de sentimentos elevados, esse ser que parece grosseiro, violento, busca a regeneração, a possibilidade de emendar-se, de tornar-se nobre, honesto, 'sublime', por mais desacreditada que esteja esta palavra.
Disse ainda há pouco que respeitaria o romance de meu constituinte com a Senhorita Vierfchóvtseva. Contudo, pode-se falar por palavras veladas; ouvimos, não um depoimento, mas apenas o grito de uma mulher exaltada que se vinga e não cabe a ela censurar a ele sua traição, porque foi ela quem traiu! Se tivesse tido o tempo de entrar em si mesma, não teria dado semelhante testemunho. Oh! não a acrediteis, não, meu constituinte não é um monstro, como o chamou ela. O Crucificado, que amava os homens, disse antes das angústias da Paixão: 'Eu sou o Bom Pastor, que dá sua vida pelas suas ovelhas, e nenhuma delas perecerá'. Não percamos, não, uma alma humana! Eu perguntava: que é um pai? É um nome nobre e precioso, exclamei. Mas é preciso usar lealmente o termo, senhores jurados, e me permito chamar as coisas pelo seu nome. Um pai tal como a vítima, o velho Karamázov, é indigno de se chamar assim. O amor filial não justificado é absurdo. Não se pode suscitar o amor com coisa nenhuma, somente Deus é quem tira alguma coisa do nada. Tais, não provoqueis a ira de vossos filhos', escreveu o apóstolo com um coração ardendo de amor. Não é para meu constituinte que cito estas santas palavras, recordo-as para todos os pais. Quem me confiou o poder de instruí-los? Ninguém.
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Mas como homem, como cidadão, dirijo-me a eles: vivos voco! 63 Não permanecemos muito tempo sobre a terra, nossas ações e nossas palavras são muitas vezes más. Por isso tratemos de aproveitar todos os momentos que passamos juntos para nos dirigir mutuamente uma boa palavra. É o que faço: aproveito da ocasião que me é oferecida. Não é por coisa nenhuma que esta tribuna nos foi concedida por uma vontade soberana, toda a Rússia nos ouve. Não falo somente para os pais que estão aqui, grito para todos: 'Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos!' Pratiquemos em primeiro lugar nós mesmos o preceito do Cristo, e então somente poderemos exigir alguma coisa de nossos filhos. Senão, não somos pais, mas inimigos para eles, não são nossos filhos, mas nossos inimigos, e isto por culpa nossa! 'E com a medida com que tiverdes
medido, vos medirão também a vós', 64 não sou eu que o digo, é o Evangelho que o prescreve; medi com a mesma medida que vos é aplicada. Como acusar nossos filhos se eles nos retribuem o que fazemos com eles? Recentemente, na Finlândia, suspeitou-se de que uma criada havia dado à luz clandestinamente.
Espionaram-na e encontrou-se no celeiro, dissimulada por trás de tijolos, sua mala, que continha o cadáver de um recém-nascido, morto por ela.
Descobriram-se igualmente os esqueletos de dois outros bebês, que ela confessou ter matado ao nascerem. Senhores jurados, é uma mãe uma mulher dessas? É certo que pôs filhos no mundo, mas qual de nós ousaria dar-lhe o santo nome de mãe? Sejamos ousados, senhores jurados, sejamos mesmo temerários, devemos sê-lo neste momento e não temer certas palavras, certas idéias, como as vendedoras de Moscou, que temem o
'metal' e o 'enxofre'. Provemos, pelo contrário, que o progresso dos derradeiros anos influiu também no nosso desenvolvimento, e digamos francamente: não basta procriar para ser pai, é preciso ainda merecer esse título. Sem dúvida, a palavra pai tem outra significação, segundo a qual um pai, fosse ele um monstro, um inimigo jurado de seus filhos, ficará sempre pai, pelo simples fato de tê-los gerado. Mas é uma significação mística, por assim dizer, que escapa à inteligência, que se pode admitir somente como artigo de fé, bem como muitas coisas incompreensíveis nas quais a religião nos obriga a crer. Mas, neste caso, deve permanecer isto fora do domínio da vida real. Neste domínio, que tem não somente seus 63 Convoco os vivos.
64 Mateus, C. VII, v. 2.
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direitos, mas impõe grandes deveres, se queremos ser humanos, cristãos enfim, somos obrigados a aplicar somente idéias justificadas pela razão e pela experiência passadas no crisol da análise, em uma palavra, agir sensatamente e não com extravagância, como em sonho ou no delírio, para não prejudicar nosso semelhante, fazê-lo sofrer, causar sua perda.
Faremos então obra de cristãos e não somente de místicos, uma obra sensata, verdadeiramente filantrópica... "
Nesse momento, vivos aplausos partiram de diferentes pontos da sala, mas Fietiukóvitch fez um gesto, como para suplicar que não o interrompessem. Todos se acalmaram imediatamente. O orador prosseguiu:
"Pensais, senhores jurados, que tais questões possam escapar a nossos filhos, quando começam eles a refletir? Não, decerto, e não exigiremos deles uma abstenção impossível! A vista dum pai indigno, sobretudo comparado aos de outros meninos, seus condiscípulos, inspira, malgrado seu, a um jovem questões dolorosas. Respondem-lhe banalmente: 'Foi ele quem te gerou, és seu sangue, de modo que deves amá-lo'. O rapaz pensa, malgrado seu: 'Será que ele me amava quando me gerou', pergunta ele, cada vez mais surpreso, 'foi por minha causa que ele me deu a vida? Ele não me conhecia, ignorava mesmo meu sexo, naquele minuto de paixão, talvez aquecido pelo vinho, e só me transmitiu uma inclinação pela bebida, eis todos os seus benefícios... Por que devo amá-lo, pelo simples fato de me ter gerado, a ele que nunca me amou?' Oh! estas perguntas parecem-vos talvez grosseiras, cruéis, mas não exijais dum espírito jovem uma abstenção impossível: 'Expulsai o natural pela porta e ele entrará pela janela', mas, sobretudo, não temamos o 'metal' e o
'enxofre' e resolvamos a questão como o prescrevem a razão e a humanidade, e não as idéias místicas. Como resolvê-la? Pois bem! que o filho venha perguntar seriamente a seu pai: 'Pai, dize-me por que devo amar-te, prova-me que é um dever', e se esse pai for capaz de responder-lhe e de provar-lhe, eis uma verdadeira família, normal, que não repousa unicamente sobre um preconceito místico, mas sobre bases racionais, rigorosamente humanas. Pelo contrário, se o pai não apresenta nenhuma prova, está liquidada essa família; o pai não é mais um pai para seu filho, este recebe a liberdade e o direito de considerá-lo como um estranho e até mesmo um inimigo.. Nossa tribuna, senhores jurados, deve ser a escola da verdade e das idéias sãs!"
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Vivos aplausos interromperam o orador. Certamente não eram unânimes, mas a metade da sala aplaudia, inclusive pais e mães. Gritos agudos partiam das tribunas ocupadas pelas senhoras. Gesticulava-se com os lenços. O presidente pôs-se a agitar a campainha com todas as suas forças. Estava visivelmente agastado com aquele tumulto, mas não ousou mandar evacuar a sala, como já havia ameaçado; até mesmo dignitários, velhos condecorados instalados por trás do tribunal, aplaudiam o orador, de sorte que, restabelecida a calma, contentou-se ele em reiterar sua ameaça, e Fietiukóvitch, triunfante e emocionado, prosseguiu seu discurso.
"Senhores jurados, vós vos lembrais daquela noite terrível, de que tanto se falou aqui, em que o filho introduziu-se por escalada em casa de seu pai e se encontrou face a face com o inimigo que lhe havia dado o dia.
Insisto vivamente nisto: não era o dinheiro que o atraía; a acusação de roubo é um absurdo, como já o expus! E não foi para matar que ele forçou a porta; se tivesse premeditado um crime, ter-se-ia munido previamente de uma arma, mas pegou o pilão instintivamente, sem saber por quê.
Admitamos que tenha enganado seu pai com os sinais e penetrado na casa, já disse que não creio um instante sequer nessa lenda, mas seja, suponhamo-la um minuto! Senhores jurados, juro pelo que há de mais sagrado, se Karamázov tivesse tido como rival um estranho, em lugar de seu pai, depois de ter verificado a ausência daquela mulher, ter-se-ia retirado precipitadamente, sem fazer-lhe mal, quando muito ter-lhe-ia batido, empurrado, sendo a única coisa que lhe importava encontrar sua amiga. Mas viu seu pai, seu perseguidor desde a infância, seu inimigo que se tornara um monstruoso rival; bastou isto para que um ódio irresistível se apoderasse dele, abolindo sua razão. Todos os seus agravos ressurgiram-lhe duma vez. Foi um acesso de demência, mas também um movimento da natureza, que vingava inconscientemente a transgressão de suas leis eternas. No entanto, mesmo então, o assassino não matou, afirmo-o, proclamo-o, não, brandiu somente o pilão num gesto de indignação e de desgosto, sem intenção de matar, sem saber que matava.
Se não tivesse tido esse fatal pilão nas mãos, teria somente batido em seu pai, talvez, mas não o teria assassinado. E, ao fugir, ignorava se o velho por ele abatido estava morto. Tal crime não é crime, não é um parricídio.
Não, a morte de tal pai não pode ser assemelhada a um parricídio senão por preconceito! Mas foi esse crime realmente cometido?, pergunto-vos ainda uma vez. Senhores jurados, vamos condená-lo e ele dirá a si mesmo: 757
'Essas pessoas nada fizeram por mim, para me elevar, me instruir, tornar-me melhor, fazer de mim um homem. Recusaram-me toda assistência e agora me mandam para o presídio. Eis-me quite, não lhes devo nada, nem a ninguém. São más, cruéis. Sê-lo-ei também'. Eis o que ele dirá, senhores jurados! Juro-o: declarando-o culpado, vós não fareis senão pô-lo à vontade, aliviar sua consciência, maldirá o sangue por ele vertido, em lugar de sentir remorsos. Ao mesmo tempo, tomareis sua recuperação impossível, porque permanecerá mau e cego até o fim de seus dias.
Quereis infligir-lhe o castigo mais terrível que se possa imaginar, ao mesmo tempo que regenerais sua alma para sempre? Se afirmativamente, esmagai-o com a vossa clemência! Vós o vereis estremecer. Sou digno dum tal favor, dum tal amor?, dirá a si mesmo. Há nobreza, senhores jurados, nessa natureza selvagem. Inclinar-se-á diante de vossa mansuetude, tem sede de um grande ato de amor, inflamar-se-á e ressuscitará definitivamente. Certas almas são bastante mesquinhas para acusar o mundo inteiro. Mas cumulai essa alma de misericórdia, testemunhai-lhe amor e ela maldirá suas obras, porque os germes do bem nela proliferam. Sua alma expandir-se-á vendo a mansuetude divina, a bondade e a justiça humanas. Será tomada de arrependimento, a imensidão da dívida contraída a esmagará. Não dirá então: 'Estou quite', mas 'Sou culpado diante de todos e o mais indigno de todos'. Com lágrimas de enternecimento, exclamará: 'Os homens valem mais do que eu, porque quiseram salvar-me, em lugar de perder-me'. Oh! é-vos tão fácil usar de clemência, porque, na ausência de provas decisivas, ser-vos-ia demasiado penoso dar um veredicto de culpabilidade. Vale mais absolver dez culpados que condenar um inocente. Ouvis a grande voz do século passado de nossa história nacional? Cabe a mim, mesquinho, lembrar-vos que a justiça russa não tem unicamente por fim castigar, mas também regenerar um ser perdido? Que os outros povos observem a letra da lei, e nós, o espírito e a essência, para a regeneração dos decaídos. E se é assim, então avante, Rússia! Não vos atemorizeis com as vossas tróicas em disparada, das quais os outros povos se afastam com repulsa! Não é uma tróica em disparada, é um carro majestoso, que roda solenemente, tranqüilamente para o seu alvo. A sorte de meu constituinte está em vossas mãos, bem como os destinos do direito russo. Vós o salvareis, vós o defendereis, mostrando-vos à altura de vossa missão".
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XIV
OS MUJIQUES MANTIVERAM-SE FIRMES
Assim concluiu Fietiukóvitch e o entusiasmo de seus ouvintes não conheceu mais limites. Não se devia pensar em reprimi-lo; as mulheres choravam, bem como muitos homens, houve mesmo dois dignítários que derramaram lágrimas. O presidente resignou-se e esperou antes de agitar a campainha. "Atentar contra semelhante entusiasmo teria sido uma profanação!", exclamaram mais tarde nossas damas. O próprio orador parecia sinceramente emocionado. Foi nesse momento que nosso Ipolit Kirílovitch se levantou para replicar. Lançaram-lhe olhares carregados de ódio: "Como ousa ele replicar?", murmuravam as senhoras. Mas os murmúrios de todas as senhoras do mundo, tendo à frente sua esposa, não teriam detido o procurador. Estava pálido e tremia de emoção; suas primeiras frases foram mesmo incompreensíveis, ofegava, articulava mal, embaraçava-se. Aliás, conseguiu dominar-se logo. Não citarei senão algumas frases desse segundo discurso.
"... Censuram-nos ter inventado novelas. Mas fez o defensor coisa diversa? Só faltavam versos. Fiódor Pávlovitch, à espera de sua bem-amada, rasga o envelope e atira-o no chão. Citam-se mesmo suas palavras na ocasião. Não é um poema? E onde está a prova de que ele tirou o dinheiro e quem ouviu o que ele dizia? O imbecil Smierdiákov, transformado numa espécie de herói romântico que se vinga da sociedade por causa de seu nascimento ilegítimo, não é um poema ao gosto byroniano? E o filho que, tendo entrado intempestivamente em casa de seu pai, o mata sem matá-lo, não é mesmo nem mais uma novela, nem um poema, é uma esfinge propondo enigmas que ele próprio, decerto, não pode resolver. Se matou, é porque matou, como admitir que tenha matado sem ser um assassino, quem compreenderá isso? Em seguida, declara-se que nossa tribuna é a da verdade e a das idéias sãs e profere-se nela este axioma: que não passa de um preconceito qualificar de parricídio o assassinato de um pai. Mas se o parricídio é um preconceito e se cada menino pode perguntar a seu pai: 'Pai, por que devo amar-te?', que se tornarão as bases da sociedade, que se tornará a família? O parricídio, vede, é o 'enxofre' da vendedora moscovita. As mais nobres tradições da 759
justiça russa são desnaturadas unicamente para obter ganho de causa, para obter a absolvição de quem não pode ser absolvido. Cumulai-o de clemência, exclama o defensor, o criminoso mais não pede, ver-se-á amanhã o resultado! Aliás, não será por uma modéstia exagerada que ele pede apenas a absolvição do acusado? Por que não pedir a fundação duma bolsa que imortalizaria a façanha do parricídio aos olhos da posteridade e da jovem geração? Corrigem-se o Evangelho e a religião: tudo isso é misticismo, somente nós possuímos o verdadeiro cristianismo, já verificado pela análise da razão e das idéias sãs. Evoca-se diante de nós uma falsa imagem do Cristo! 'E com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também a vós', exclama o defensor, concluindo logo que o Cristo ordenou medir com a mesma medida que nos é aplicada — eis o que se proclama da tribuna da verdade! Lemos o Evangelho somente na véspera de nossos discursos, para brilhar pelo conhecimento de uma obra bastante original por meio da qual pode-se produzir certo efeito na medida em que for necessário. Ora, o Cristo proibiu precisamente agir assim, porque é o que torna o mundo mau, e nós, longe de pagar o mal pelo mal, devemos oferecer a face e perdoar aqueles que nos ofenderam.
Eis o que nos ensinou o nosso Deus e não que seja um preconceito proibir que os filhos matem seus pais. E não seremos nós que corrigiremos nesta tribuna o Evangelho de nosso Deus, que o defensor digna-se apenas em chamar 'o Crucificado que amava os homens', em oposição a toda a Rússia ortodoxa que o invoca: 'Porque tu és nosso Deus!... '"
Aqui, o presidente interveio e rogou ao orador que não exagerasse, que ficasse nos limites justos, etc, como fazem de hábito os presidentes em semelhante caso. A sala estava inquieta. O público agitava-se, proferia exclamações indignadas. Fietiukóvitch nem mesmo replicou, veio somente, de mãos sobre o coração, pronunciar num tom ofendido algumas palavras cheias de dignidade. Aflorou de novo, com ironia, as novelas e a psicologia e achou meio de desfechar o seguinte dardo: "Júpiter, não tens razão, pois que te zangas", o que causou risos no auditório, porque Ipolit Kirílovitch não se assemelhava absolutamente a Júpiter. Quanto à pretensa acusação de permitir à mocidade o parricídio, declarou Fietiukóvitch, com grande dignidade, que a ela não responderia. A respeito da falsa imagem do Cristo e do fato de não se ter ele dignado chamá-lo Deus, mas apenas "o Crucificado que amava os homens", o que é
"contrário à ortodoxia e não podia ser dito na tribuna da verdade", falou 760
Fietiukóvitch de "insinuação" e deu a entender que, vindo aqui, acreditava pelo menos aquela tribuna ao abrigo de acusações "perigosas para sua pessoa como cidadão e fiel súdito... " Mas a estas palavras o presidente também o deteve e Fietiukóvitch, inclinando-se, terminou sua tréplica, acompanhado pelo murmúrio aprovativo de toda a sala. Ipolit Kirílovitch, segundo a opinião de nossas damas, estava "confundido para sempre".
Foi em seguida dada a palavra ao acusado. Mítia levantou-se, mas não disse grande coisa. Estava física e moralmente sem forças. O ar de independência e energia com que entrara pela manhã havia quase desaparecido. Parecia ter atravessado naquela manhã uma crise decisiva que lhe ensinara e fizera compreender algo de muito importante, que antes ele não apreendera. Sua voz se enfraquecera, não gritava mais. Sentia-se em suas palavras a resignação e o acabrunhamento da derrota.
"Que posso dizer, senhores jurados? Vão julgar-me, sinto a mão de Deus sobre mim. É o fim de um homem transviado! Mas como se me confessasse a Deus, a vós também digo: 'Não derramei o sangue de meu pai!' Repito-o uma derradeira vez. Não fui eu quem matou! Era desregrado, mas amava o bem. Constantemente, aspirava a emendar-me, e vivi como um animal selvagem. Obrigado ao procurador, disse a meu respeito muitas coisas que eu ignorava, mas é falso que tenha eu matado meu pai, o procurador se enganou! Obrigado igualmente a meu defensor: chorei ao ouvi-lo, mas é falso que eu tenha matado «meu pai, não se devia nem supô-lo! Não acrediteis nos médicos, estou em plena razão, somente sinto-me acabrunhado. Se me poupardes e me absolverdes, rezarei por vós. Tornar-me-ei melhor, dou minha palavra, dou-a diante de Deus. Se me condenardes, quebrarei eu próprio minha espada e beijar-lhe-ei os pedaços! Mas poupai-me, não me priveis de meu Deus, conheco-me: eu me revoltarei! Estou acabrunhado, senhores... poupai-me!"
Caiu quase no seu lugar, sua voz se partiu, a derradeira frase mal foi articulada. O tribunal redigiu em seguida os quesitos a propor e pediu suas conclusões às partes. Mas omito os detalhes. Enfim, os jurados retiraram-se para deliberar. O presidente estava extenuado, de modo que lhes dirigiu uma breve alocução: "Sede imparciais, não vos deixeis influenciar pela eloqüência da defesa, contudo pesai vossa decisão; lembrai-vos da alta missão de que estais revestidos", etc. Os jurados retiraram-se, foi suspensa a audiência. Pôde-se dar um giro, trocar 761
impressões, fazer lanche no bufê. Era bastante tarde, cerca de 1 hora da madrugada, mas ninguém foi embora. Os nervos tensos impediam de pensar no repouso. Todo mundo aguardava com ansiedade o veredicto, exceto as damas, que, na sua impaciência febril, estavam tranqüilizadas:
"A absolvição é inevitável". Todas se preparavam para o minuto emocionante do entusiasmo geral. Confesso que, entre os homens, muitos estavam certos da absolvição. Uns se regozijavam, outros franziam a testa, alguns baixavam simplesmente o nariz; não queriam absolvição!
Fietiukóvitch mesmo estava certo do triunfo. Cercavam-no, felicitavam-no complacentemente.
— Há — dizia ele num grupo, como se contou depois —, há fios invisíveis que ligam o defensor aos jurados. Formam-se e se pressentem já no curso da defesa. Senti-os, eles existem. Teremos ganho de causa, ficai tranqüilos.
— Que vão dizer agora os nossos mujiques? — proferiu um gordo senhor bexigoso, de ar carrancudo, proprietário nos arredores, aproximando-se de um grupo.
— Não há somente mujiques. Há quatro funcionários.
— Ah! sim! os funcionários — disse um membro do ziémstvo.
— Conhece Nazáriev, Prokhor Ivânovitch, aquele comerciante que tem uma medalha? Faz parte do júri.
— E com isso?
— É um dos luminares da corporação.
— Mantém-se sempre em silêncio.
— Mantém o silêncio, pois tanto melhor. Não cabe ao petersburguês dar-lhe lições. Ele mesmo seria capaz de dá-las a toda Petersburgo. Doze filhos, imaginem só!
— Será possível que não o absolvam? — gritava num outro grupo um de nossos jovens funcionários.
— Será certamente absolvido — disse uma voz decidida.
— Seria uma vergonha não o absolver — exclamou o funcionário. —
Admitamos que tenha matado, mas um pai como o dele! E, afinal, estava 762
em tal exaltação... Pôde deveras ter assestado apenas uma pancada de pilão e o velho caiu. Mas erraram metendo o lacaio nisso. Não passa de um episódio burlesco. No lugar do defensor, teria eu dito redondamente: ele matou, mas não é culpado, que o diabo vos leve!
— Foi o que ele fez, somente não disse: que o diabo vos leve!
— Não, Mikhail Siemiônitch, ele quase o disse — declarou uma terceira voz.
— Permiti, senhores, absolveram durante a Quaresma uma atriz que cortara a garganta da mulher de seu amante.
— Sim, ela, porém, não foi até o fim.
— Dá na mesma, tinha começado.
— E o que disse ele dos meninos! Foi admirável!
— Admirável.
— E sobre o misticismo, hein?
— Deixem o misticismo — exclamou outro —, considerem antes a sorte de Ipolit doravante! Amanhã, sua esposa o arranhará por causa de Mítia.
— Está aqui ela?
— Por que aqui? Se aqui estivesse, já o teria arranhado. Fica em casa, tem dor de dentes, eh! eh! eh!
— Eh! eh! eh!
Num terceiro grupo:
— Mítia poderia muito bem ser absolvido.
— Seria magnífico! Amanhã saqueará A Capital e passará dez dias na carraspana.
— Ah! sim, o diabo!
— Não se pôde passar sem o diabo, seu lugar estava bem indicado aqui.
— Senhores, a eloqüência é uma bela coisa. Mas não se pode rebentar a cabeça de um pai impunemente. Senão, aonde iríamos parar?
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— E aquilo do carro, do carro, lembram-se?
— Sim, fez ele duma carroça um carro.
— Amanhã o carro virará carroça de novo, "de acordo com as conveniências".
— As pessoas tornaram-se espertas. A verdade existe ainda na Rússia, senhores, sim ou não?
Mas a campainha retiniu. Os jurados tinham deliberado uma hora exata. Profundo silêncio reinou, quando o público retomou seus lugares.
Lembro-me da entrada do júri na sala. Afinal! Não citarei os quesitos por ordem, esqueci-os. Lembro-me somente da resposta ao primeiro quesito, o principal: "O acusado matou para roubar com premeditação?" (esqueci o texto). O presidente do júri, aquele funcionário que era o mais jovem de todos, respondeu com uma voz nítida, em meio dum silêncio de morte:
— Sim, culpado.
Depois foi a mesma resposta a respeito de todos os pontos: culpado, sem a menor circunstância atenuante!