Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 50 de 50 · parte 3/5

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 54

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

assassino direto, o instigador, e Smierdiákov, um cúmplice passivo, e nem mesmo isso; deixou simplesmente fazer, por temor e contra a sua vontade; esta distinção não teria escapado à justiça; ora, que vemos? Por ocasião de sua detenção, o acusado lança toda a culpa sobre Smierdiákov e acusa-o, só a ele. Não o acusa de cumplicidade; só ele é que assassinou e roubou, é obra de suas mãos. Mas que cúmplices são esses que começam logo a acusar-se? Isto não existe. E notai que risco para Karamázov: é o principal assassino, o outro limitou-se a deixar fazer, deitado atrás do tabique, e ele o ataca. Mas esse comparsa poderia zangar-se e, por instinto de conservação, apressar-se em dizer toda a verdade; participamos todos dois, contudo, eu não matei, somente tolerei e deixei fazer, por temor.

Porque Smierdiákov podia compreender que a justiça discerniria logo seu grau de culpabilidade, e contar com um castigo bem menos rigoroso que o principal assassino, que queria atirar toda a culpa sobre ele. Mas então teria forçosamente confessado. Contudo, nada disso se dá. Smierdiákov não soprou palavra a respeito da cumplicidade, se bem que o assassino o haja acusado formalmente e apontado todo o tempo como o único autor do crime. Não é tudo; Smierdiákov revelou no inquérito que havia ele próprio falado ao acusado do envelope com o dinheiro e dos sinais, e que sem ele este nada teria sabido. Se tivesse sido verdadeiramente cúmplice e culpado, teria comunicado a coisa tão voluntariamente no inquérito? Pelo contrário, ter-se-ia desdito, teria certamente desnaturado e atenuado os fatos. Mas não agiu assim. Somente um inocente, que não teme ser acusado de cumplicidade, pode agir dessa maneira. Pois bem! num acesso de melancolia mórbida consecutivo à epilepsia e a todo esse drama, enforcou-se ontem, depois de ter escrito este bilhete: 'Ponho fim a meus dias voluntariamente. Não acusem ninguém de minha morte'. Que lhe custaria acrescentar: sou eu o assassino e não Karamázov? Mas não fez nada disso; sua consciência não chegou a esse ponto.

"Ainda há pouco, trouxeram dinheiro ao tribunal, 3 000 rublos, 'as cédulas que se encontravam no envelope que figurava entre as peças de convicção, recebi-as ontem de Smierdiákov'. Mas vós não vos esquecestes, senhores jurados, dessa triste cena. Não lhe tornarei a traçar os detalhes, contudo permitir-me-ei duas os três observações escolhidas de propósito entre as mais insignificantes, porque não surgirão no espírito de cada um e serão esquecidas. Em primeiro lugar, foi por remorso que ontem Smierdiákov restituiu o dinheiro e enforcou-se. (De outro modo não o 724

teria restituído.) E não foi senão ontem à noite evidentemente que confessou pela primeira vez seu crime a Ivã Karamázov, como este último o declarou, senão por que teria este guardado silêncio até agora?

Confessou, admitamos. Mas, por que, repito-o, não disse toda a verdade no seu bilhete fúnebre, sabendo que no dia seguinte iam julgar um inocente? O dinheiro apenas não constitui uma prova. Soube completamente por acaso, há uma semana, bem como duas pessoas aqui presentes, que Ivã Fiódorovitch Karamázov mandara trocar na sede da província dois títulos de dívida a 5 por cento, de 5 000 rublos cada um, ou seja, 10 000 ao todo. Isto para mostrar que sempre se pode arranjar dinheiro para uma data fixa e que os 3 000 rublos apresentados não são necessariamente os mesmos que se encontravam na gaveta ou no envelope. Enfim, tendo Ivã Karamázov colhido ontem as confissões do verdadeiro assassino, ficou em seu quarto. Por que não fez imediatamente SUE declaração? Por que ter esperado até o dia seguinte? Estimo que se possa adivinhar a razão disso; doente desde uma semana, tendo confessado ao médico e aos que o cercavam que tinha alucinações e encontrava pessoas mortas, ameaçado pela febre nervosa que se declarou hoje, ao saber de súbito da morte de Smierdiákov, fez este raciocínio: 'Esse homem está morto, pode-se acusá-lo, salvarei meu irmão. Tenho dinheiro, apresentarei um maço de cédulas, dizendo que Smierdiákov mas entregou antes de morrer'. É desonesto, direis, se bem que acuse um morto, mas não é desonesto mentir, mesmo para salvar seu irmão? Pois seja, mas se mentiu inconscientemente, se imaginou que tenha acontecido, com o espírito definitivamente transtornado pela notícia da morte súbita do lacaio? Assististes àquela cena ainda há pouco, vistes em que estado se encontrava aquele homem. Mantinha-se de pé e falava, mas onde estava sua razão? O depoimento do doente foi seguido de um documento, de uma carta do réu à Senhorita Vierkhóvtseva, escrita dois dias antes do crime de que contém o programa detalhado. De que serve procurar esse programa e seus autores? Tudo se passou exatamente de acordo com ele e ninguém ajudou o autor! Sim, senhores jurados, isso se passou como estava escrito!' E não fugimos com um temor respeitoso da janela paterna, sobretudo estando persuadidos de que nossa bem-amada se encontrava nos aposentos dele. Não, é absurdo e inverossímil. Ele entrou e foi até o fim. Deve ter matado num acesso de furor, vendo seu' rival detestado, talvez com um só golpe de pilão, mas em seguida, depois de ter-se 725

convencido por um exame detalhado de que ela não estava ali, não se esqueceu de meter a mão sob o travesseiro e de apoderar-se do envelope com o dinheiro, que figura agora, rasgado, entre as peças de convicção.

Falo disso para assinalar-vos uma circunstância característica. Um assassino experimentado, vindo exclusivamente para roubar, teria deixado no soalho o envelope, tal como foi encontrado junto do cadáver?

Smierdiákov, por exemplo, teria levado tudo, sem se dar o trabalho de abri-lo perto de sua vítima, sabendo bem que ele continha dinheiro, pois que o vira ser nele metido e lacrado; ora, desaparecido o envelope, não se podia saber se houvera roubo. Pergunto-vos, senhores jurados, teria Smierdiákov agido assim e deixado o envelope no chão? Não, assim devia proceder um assassino furioso, incapaz de refletir, nunca tendo roubado nada e que, mesmo agora, se apropria do dinheiro, não como um vulgar malfeitor, mas como alguém que retoma seus bens daquele que os roubou, porque tais eram precisamente, a respeito daqueles 3 000 rublos, as idéias de Dimítri Karamázov, que nele chegavam já à mania. De posse do envelope, que jamais vira antes, rasga-o para certificar-se de que contém dinheiro, depois atira-o fora e foge com as cédulas no seu bolso, sem suspeitar de que deixa assim atrás de si, sobre-o soalho, uma prova esmagadora. Tudo porque foi Karamázov e não Smierdiákov, e não refletiu, aliás não tinha tempo. Foge, ouve o grito do criado que o alcança, que o agarra, que o detém, vacila e caí derrubado por uma pancada de pilão. O réu salta do alto da paliçada por compaixão. Imaginai que" ele nos garante que desceu por piedade, por compaixão, para ver se podia socorrê-lo. Mas seria aquele o momento para enternecimentos? Não, tornou a descer precisamente para certificar-se de que estivesse ainda viva a única testemunha de seu crime. Qualquer outro sentimento, qualquer outro motivo teriam sido insólitos! Notai que ele se mostra solícito para com Gregório, enxuga-lhe a cabeça com o lenço, depois, crendo-o morto, como que desvairado, coberto de sangue, corre de novo à casa de sua bem-amada; como não pensou ele que naquele estado imediatamente o acusariam? Mas o próprio réu nos assegura que não prestou atenção a isso; pode-se admiti-lo, é muito possível, isto acontece sempre aos criminosos em semelhantes momentos. Dum lado, um cálculo infernal, do outro, o raciocínio falha. Mas naquele minuto perguntava ele somente a si mesmo onde ela estava. Na sua pressa de sabê-lo, corre à sua casa e sabe duma notícia imprevista, esmagadora para ele; ela partiu para Mókroie a fim de 726

juntar-se ao seu antigo amante, 'o indiscutível'. "

IX

PSICOLOGIA A VAPOR. A TRÓICA EM DISPARADA. PERORAÇÃO

Chegado a este momento de seu discurso, Ipolit Kiríloviích, que havia evidentemente escolhido o método de exposição rigorosamente histórico, muito do agrado de todos os oradores nervosos que procuram de propósito quadros estritamente delimitados, a fim de moderar seu ardor, estendeu-se a respeito do primeiro amante, 'o indiscutível', e formulou a esse respeito algumas idéias interessantes. "Karamázov, ferozmente ciumento de todos, apaga-se de súbito e desaparece diante do 'antigo' e do

'indiscutível'. E é tanto mais estranho que antes quase não prestara atenção ao novo perigo que o ameaçava na pessoa desse rival inesperado.

Mas representava-se isso como distante, e Karamázov só vive no momento presente. Provavelmente, considerava-o mesmo como uma ficção, mas tendo logo compreendido, com seu coração dolorido, que a dissimulação daquela mulher, sua mentira de ainda há pouco, provinham talvez do fato de que esse novo rival, longe de ser um capricho e uma ficção, representava tudo para ela, toda sua esperança na vida. Tendo compreendido isso, resignou-se. Pois bem, senhores jurados, não posso passar em silêncio esse traço inesperado no réu: de súbito apareceram a sede da verdade, a necessidade imperiosa de respeitar aquela mulher, de reconhecer os direitos de seu coração, e isto no momento em que, por ela, acabava de tingir suas mãos no sangue de seu pai! É verdade que o sangue vertido gritava já vingança, porque, tendo perdido sua alma, destruído sua vida terrestre, devia, malgrado seu, perguntar a si mesmo naquele momento: 'Que sou eu, que posso eu ser agora para ela, para essa criatura querida mais que tudo no mundo, em comparação com esse primeiro amante, 'o indiscutível', com aquele que, arrependido, volta para essa mulher seduzida outrora por ele, com um novo amor, com propostas leais e a promessa de uma vida regenerada e doravante feliz?' Mas ele, o desgraçado, que pode ele oferecer-lhe agora? Karamázov compreendeu tudo isso e que seu crime lhe barrava a estrada, que não passava de um criminoso votado ao castigo, indigno de viver! Esta idéia o esmagou, aniquilou-o. Imediatamente, decide-se por um plano insensato que, dado 727

o seu caráter, devia parecer-lhe a única saída para sua terrível situação: o suicídio. Corre a desempenhar suas pistolas em casa do funcionário Pierkhótin, e, de caminho, tira de seu bolso o dinheiro por causa do qual acaba de manchar suas mãos no sangue de seu pai. Oh! agora mais do que nunca tem ele necessidade de dinheiro; Karamázov vai morrer, Karamázov se mata; hão de lembrar-se disso! Não é por coisa nenhuma que somos poeta, não é por coisa nenhuma que queimamos nossa vida como uma vela, pelos dois-lados. Alcançá-la e, lá, uma festa de arromba, uma festa como jamais se viu, para que fique na lembrança e dela se fale por muito tempo. No meio dos gritos selvagens, das loucas canções e das danças dos ciganos, ergueremos nosso copo para felicitar a bem-amada pela sua nova felicidade, depois ali, diante dela, a seus pés, estouraremos os miolos, para redimir nossas faltas. Ela se recordará de Mitia Karamázov, verá quanto a amava, lamentará Mítia! Aí temos o pitoresco, a exaltação romanesca em quantidade, reencontramos o arrebatamento selvagem e a sensualidade dos Karamázòvi, mas há algo mais, senhores jurados, que grita na alma, impressiona o espírito sem cessar, envenena o coração até a morte; esse algo é a consciência, senhores jurados, é seu julgamento, é o remorso. Mas a pistola concilia tudo, é a única solução; quanto ao outro mundo, ignoro se Karamázov pensou então no que haveria do outro lado e se é capaz disso, como Hamlet. Não, senhores jurados, em outra parte, tem-se Hamlet, nós não temos senão Karamázov!'*

Aqui, Ipolit Kirílovitch traçou um quadro detalhado dos fatos e gestos de Mítia, da cena em casa de Pierkhótin, no botequim, com os cocheiros. Citou uma multidão de frases confirmadas por testemunhas, e o quadro se impunha à convicção dos ouvintes. Sobretudo impressionava o conjunto dos fatos. A culpabilidade daquele ser desorientado, descuidoso de sua segurança, saltava aos olhos. "De que servia a prudência?", prosseguiu Ipolit Kirílovitch. "Duas ou três vezes esteve ele a ponto de confessar e fez alusões (seguiam-se os depoimentos das testemunhas).

Gritou mesmo ao cocheiro na estrada: 'Sabes que conduzes um assassino?*

Mas não podia dizer tudo; era-lhe preciso em primeiro lugar chegar à aldeia de Mókroie e ali terminar o poema. Ora, que é que esperava o infeliz? O fato é que em Mókroie percebeu logo que seu rival indiscutível'

não é irresistível e que suas felicitações a propósito da nova felicidade não são recebidas com agrado. Mas conheceis já os fatos, senhores jurados, segundo o inquérito. O triunfo de Karamázov sobre seu rival foi completo; 728

então começa para ele uma crise terrível, a mais terrível de todas as que atravessou. Pode-se reconhecer, senhores jurados, que a natureza ultrajada e o coração criminoso exercem um castigo mais rigoroso que o da justiça humana! Além disso, os castigos que ela inflige trazem um abrandamento à expiação da natureza, são mesmo necessários à alma do criminoso naqueles momentos, para salvá-la do desespero, porque posso imaginar o horror e o sofrimento de Karamázov ao saber que ela o amava, que ela repelia por causa dele o antigo amante, que o convidava a ele, Mítia, a uma vida regenerada, prometia-lhe a felicidade, e isto quando tudo está para ele acabado, quando nada mais é possível! A propósito, eis aqui, de passagem, uma observação muito importante para explicar a verdadeira situação do acusado naquele momento: aquela mulher, objeto de seu amor, permaneceu para ele até o fim, até a detenção, uma criatura inacessível, se bem que apaixonadamente desejada. Mas por que não se suicidou ele então? Por que ter abandonado esse projeto e esquecido até mesmo sua pistola? Essa sede apaixonada de amor e a esperança de estancá-la imediatamente retiveram-no. Na embriaguez da festa, está como que acorrentado à sua bem-amada, que compartilha da orgia com ele, mais sedutora do que nunca. Ele não se afasta de seu lado e, cheio de admiração, apaga-se diante dela. Esse ardor apaixonado pôde abafar até mesmo por um instante o temor da prisão e o remorso. Oh! por um instante somente! Imagino o estado de alma do criminoso como escravizado a três elementos que o dominavam totalmente: em primeiro lugar, a embriaguez, os vapores do álcool, o barulho da dança e dos cantos, e ela, a tez avermelhada pelas libações, cantando e dançando, sorrindo-lhe, ébria também. Em seguida, o pensamento reconfortante de que o desenlace fatal está ainda afastado, de que virão prendê-lo somente no dia seguinte de manhã. Algumas horas de prazo é muito, pode-se imaginar muita coisa durante esse tempo. Suponho que terá experimentado sensação análoga à do criminoso a quem levam à forca; é preciso percorrer ainda uma longa rua, a passo, diante de milhares de espectadores, depois dobra-se para outra rua, ao fim da qual somente se encontra o lugar fatal.

No começo do trajeto, o condenado, em cima da carreta ignominiosa, deve imaginar que tem ainda muito tempo para viver. Mas as casas se sucedem, a carreta avança, não tem importância, está ainda longe a esquina da segunda rua. Olha ele corajosamente à direita e à esquerda aqueles milhares de curiosos indiferentes que o encaram e sempre lhe parece que é um 729

homem igual a eles. E eis que dobram para a segunda rua, mas não importa, resta um bom pedaço de caminho. Enquanto vai vendo desfilarem as casas, o condenado pensará: 'Ainda há muitas'. E assim até o local da execução. Eis, imagino, o que experimentou Karamázov. 'Ainda não descobriram o crime', pensa ele, 'pode-se procurar alguma coisa, terei tempo de combinar um plano de defesa, de me preparar para resistir, mas no momento, viva a alegria! Ela é tão sedutora!' Está perturbado e inquieto, contudo consegue retirar a metade de seu dinheiro e escondê-lo. Não posso explicar a mim mesmo de outro modo o desaparecimento da metade dos 3 000 rublos retirados de sob o travesseiro de seu pai. Tendo já ido a Mókroie para fazer farra, conhece aquela velha casa de madeira, com seus alpendres e varandas. Suponho que uma parte do dinheiro foi escondida então, pouco tempo antes da detenção, numa fenda ou rachadura, sob uma tábua do parquete, num canto, debaixo do telhado.

'Por quê?', perguntarão. Uma catástrofe está iminente, sem dúvida não pensamos ainda em enfrentá-la, falta tempo, as têmporas nos batem, 'ela'

nos atrai como um ímã, mas tem-se sempre necessidade de dinheiro. Em toda parte é-se alguém com dinheiro. Tal previdência, num momento semelhante, parecer-vos-á talvez estranha. Mas ele mesmo afirma ter, um mês antes, num momento também crítico, posto de lado e cosido num amuleto a metade de 3 000 rublos; e, se bem que seja isso certamente uma invenção, como vamos prová-lo, essa idéia é familiar a Karamázov, meditou-a. Além do mais, quando afirmava mais tarde ao juiz de instrução ter reservado 1 500 rublos num amuleto (o qual nunca existiu), imaginou isso ali na hora talvez, precisamente porque, duas horas antes, retirara e escondera a metade da soma, em alguma parte, em Mókroie, por prevenção, até pela manhã, para não a guardar consigo, de acordo com uma inspiração súbita. Lembrai-vos, senhores jurados, de que Karamázov pode contemplar ao mesmo tempo dois abismos. Nossas pesquisas naquela casa foram vãs, talvez o dinheiro lá ainda esteja, talvez tenha desaparecido no dia seguinte e se encontre agora de posse do acusado. Em todo caso, detiveram-no ao lado de sua amante, de joelhos diante dela, que estava deitada; estendia-lhe ele os braços, esquecendo tudo mais, a ponto de não ouvir a aproximação daqueles que iam detê-lo. Não teve tempo de preparar uma resposta e foi apanhado desprevenido.

"E agora ei-lo diante de seus juizes, diante daqueles que vão decidir de sua sorte. Senhores jurados, há, no exercício de nossa funções, 730

momentos em que nós mesmos temos quase medo da humanidade! É

quando se contempla o terror bestial do criminoso que se vê perdido, mas quer lutar ainda. É quando o instinto de conservação desperta nele de repente, quando ele fixa em nós um olhar penetrante, cheio de ansiedade e de sofrimento, quando ele escruta vosso rosto, vossos pensamentos, pergunta a si mesmo de que lado virá o ataque, imagina, num instante, no seu espírito perturbado, mil planos, mas teme falar, teme trair-se! Esses momentos humilhantes para a alma humana, esse calvário, essa avidez bestial de salvação são horríveis, fazem tremer por vezes o próprio juiz e excitam sua compaixão. E nós assistimos a esse espetáculo. A princípio aturdido, deixou ele escapar no seu terror algumas palavras das mais comprometedoras: 'O sangue! Mereci!' Mas logo se reteve. Não sabe ainda que dizer, que responder, e só pode opor uma vã negativa: 'Sou inocente da morte de meu pai!' Eis a primeira trincheira, por trás da qual tentará construir outros trabalhos de defesa. Sem aguardar nossas perguntas, trata de explicar suas primeiras exclamações comprometedoras dizendo que se acha culpado somente da morte do velho criado Gregório: 'Sou culpado desse sangue, mas quem matou meu pai, senhores, quem pôde matá-lo, senão eu?' Ouvis, ele no-lo pergunta, a nós que fomos fazer-lhe essa pergunta! Compreendeis esta frase antecipada: 'Senão eu?', essa trapaça, essa ingenuidade, essa impaciência de Karamázov? Não fui eu quem matou, não acrediteis em nada. 'Quis matar, senhores', apressa-se ele em confessar (tem pressa), 'mas estou inocente, não fui eu!' Convém que quis matar: vede como sou sincero, apressai-vos também em crer na minha inocência. Oh! nesses casos, o criminoso se mostra por vezes duma irreflexão, duma credulidade incríveis. Como por acaso, o juiz de instrução lhe faz a pergunta mais ingênua: 'Não seria Smierdiákov o assassino?' Aconteceu o que esperávamos; zangou-se por ter sido precedido, tomado de improviso, sem que lhe deixem tempo de escolher o momento mais favorável para empurrar para a frente Smierdiákov. Seu gênio arrebata-o logo ao extremo, afirma-nos energicamente que Smierdiákov é incapaz de assassinar. Mas não lhe deis crédito, não passa de uma astúcia, não renuncia absolutamente a acusar Smierdiákov, pelo contrário, pô-lo-á ainda em causa, já que não tem outra pessoa, porém mais tarde, porque para o momento o negócio está estragado. Não será talvez senão no dia seguinte, ou mesmo dentro de vários dias: 'Vós vedes, era o primeiro a negar que foi Smierdiákov, vós vos lembrais, mas agora, 731

estou convencido, não foi talvez senão ele!' No momento, opõe-nos negações veementes, a impaciência e a cólera lhe sugerem a explicação mais inverossímil; olhou seu pai pela janela e afastou-se respeitosamente.

Ignorava ainda o alcance do depoimento de Gregório. Procedemos ao exame detalhado de suas roupas. Essa operação exaspera-o, mas retoma coragem; só foram encontrados 1 500 rublos dos 3 000. É então, nesses minutos de irritação contida, que a idéia do amuleto lhe vem pela primeira vez ao espírito. Certamente, ele próprio sente toda a inverossimilhança desse conto e tem trabalho para torná-lo mais plausível, para inventar um romance conforme à verdade. Em semelhante caso, o inquérito não deve dar ao criminoso tempo de se reconhecer, proceder por ataque brusco, a fim de que ele revele seus pensamentos íntimos na sua ingenuidade e na sua contradição. Não se pode obrigar um criminoso a falar senão comunicando-lhe de improviso, como por acaso, um fato novo, uma circunstância duma extrema im-oortância, que permaneceu até então para ele não prevista e despercebida. Tínhamos bem pronto um fato semelhante, é o testemunho do criado Gregório, a respeito da porta aberta por onde saiu o acusado. Tinha-a ele totalmente esquecido e não supunha que Gregório tivesse podido notá-lo. O efeito foi colossal. Karamázov ergue-se, gritando: 'Foi Smierdiákov quem matou, foi ele!', revelando assim seu pensamento íntimo, sob a forma mais inverossímil, porque Smierdiákov não podia assassinar senão depois que Karamázov tivesse dominado Gregório e fugido. Ao saber que Gregório vira a porta aberta antes de cair, e ouvira, quando se levantou, Smierdiákov gemer por trás do tabique, ficou aterrorizado. Meu colaborador, o ilustre e sagaz Nikolai Par-fiénovitch, contou-me mais tarde que naquele momento sentira-se emocionado até às lágrimas. Então, para livrar-se de apuros, apressa-se o réu em contar-nos a história daquele famoso amuleto. Senhores jurados, já vos expliquei por que considero essa história do dinheiro cosido um mês antes num amuleto não somente como um absurdo, mas como a invenção mais estravagante que se possa imaginar no caso particular. Mesmo apostando para saber quem faria o conto mais inverossímil, nada de pior se teria encontrado. Aqui, pode-se confundir o narrador triunfante com os detalhes, esses detalhes cuja realidade é sempre tão rica e que esses infelizes narradores involuntários desdenham sempre como supostamente inúteis e insignificantes. Trata-se bem disto, o espírito deles medita um plano grandioso e ousam objetar-lhes ninharias! Ora, está nisso o defeito 732

da couraça. Pergunta-se ao acusado: 'Onde arranjou o senhor o pano para seu amuleto, quem o costurou?' 'Eu mesmo o costurei. ' 'Mas donde vem o pano?' O acusado ofende-se logo, considera isso como um detalhe quase ofensivo para ele e, acreditá-lo-íeis? está de boa fé! São todos semelhantes.

'Cortei-o de minha camisa. ' 'Perfeito. De modo que, amanhã encontraremos na sua roupa íntima essa camisa com um pedaço tirado. ' Pensai bem, senhores jurados, que se tivéssemos encontrado essa camisa (e como não encontrá-la na sua mala ou na sua cômoda, se ele disse a verdade?), constituiria isto já um fato tangível em favor da exatidão de suas declarações! Mas não se dá ele conta disso. 'Não me lembro, pode dar-se que o tenha costurado aproveitando uma touca de minha locadora. ' 'Que touca?' 'Tirei-a de seu quarto, andava por ali, uma velharia de algodão. '

'Está bem certo disso?' 'Não, bem certo não... ' E ele se zanga, no entanto.

Como não se lembrar? Nos momentos mais terríveis, quando levam a gente ao suplício, são precisamente de semelhantes detalhes que nos lembramos. O condenado esquecerá tudo, mas um teto verde avistado em caminho ou uma gral ha sobre uma cruz voltar-lhe-á à memória. Ao costurar seu amuleto, ocultava-se das pessoas da casa, deveria lembrar-se desse medo humilhante de ser surpreendido, de agulha na mão, e como, ao primeiro alerta, correu para trás do tabique (há um no seu quarto)...

Mas, senhores jurados, por que comunicar-vos todos estes detalhes?", exclamou Ipolit Kirílovitch. "É porque o réu mantém obstinadamente até hoje essa versão absurda! Durante esses dois meses, desde aquela noite fatídica, nada explicou nem acrescentou um fato probante às suas precedentes declarações fantásticas. 'São ninharias', diz ele, 'e vós deveis acreditar na minha palavra de honra!' Oh! seríamos felizes em acreditar, desejá-lo-íamos ardentemente, ainda que seja só pela honra! Somos chacais, sedentos de sangue humano? Indicai-nos um só fato em favor do réu, e nós nos regozijaremos, mas um fato tangível, real, e não as deduções de seu irmão, baseadas na expressão de seu rosto, ou a hipótese de que, batendo no peito, no escuro, devia necessariamente designar o amuleto. Nós nos regozijaremos com esse acontecimento novo, seremos os primeiros a abandonar a acusação. Agora, a justiça reclama, e nós acusamos, sem nada suprimir às nossas conclusões. "

Depois, Ipolit Kirílovitch chegou à peroração. Tinha febre; com uma voz vibrante evocou o sangue vertido, o pai morto por seu filho "pela vil intenção de roubá-lo". Insistiu na concordância trágica e flagrante dos 733

fatos. "E seja o que fôr que possa dizer-vos o defensor célebre do réu, malgrado a eloqüência patética que fará apelo à vossa sensibilidade, não esqueçais que estais no santuário da justiça. Lembrai-vos de que sois os defensores do direito, o baluarte de nossa santa Rússia, dos princípios, da família, de tudo quanto lhe é sagrado. Sim, vós representais a Rússia neste momento e não somente neste recinto repercutirá vosso veredicto; toda a Rússia vos escuta, a vós, seus sustentáculos e seus juizes, e ficará reconfortada ou consternada pela sentença que ides proferir. Não enganeis sua expectativa, nossa fatal tróica corre a toda a brida, talvez para c abismo. Desde muito tempo, muitos russos elevam os braços, quereriam deter essa corrida insensata. E, se os outros povos se afastam ainda da tróica em disparada, não é talvez por respeito, como imaginava o poeta; é talvez por horror, por desgosto, notai-o bem. E ainda é bom que se afastem, porque poderiam muito bem erguer um muro sólido diante desse fantasma e pôr eles próprios um freio ao desencadeamento de nossa licenciosidade, para se preservar a si mesmos e à civilização. Essas vozes de alarma começam a repercutir na Europa, já as ouvimos. Guardai-vos de tentá-las, de alimentar seu ódio crescente com um veredicto que absolveria o parricida!"

Em suma, Ipolit Kirílovitch, que se deixara arrebatar, acabou duma maneira patética e produziu grande efeito. Apressou-se em sair e quase desmaiou na peça contígua. O público não aplaudiu, mas as pessoas sérias estavam satisfeitas. As damas estavam-no menos, contudo a eloqüência dele também lhes agradou, tanto mais que não lhes temiam as conseqüências e contavam bastante com Fietiukóvitch: "Ele vai afinal tomar a palavra, e, decerto, triunfar!" Mítia atraía os olhares; durante a acusação, permanecera silencioso; de dentes cerrados, olhos baixos. Uma vez ou outra, erguia a cabeça e prestava atenção, sobretudo quando se tratou de Grúchenhka. Quando o procurador citou a opinião de Rakítin sobre ela, Mítia teve um sorriso desdenhoso e proferiu bastante distintamente: "Bernard!" Quando Ipolit Kirílovitch contou como o havia atormentado por ocasião do interrogatório em Mókroie, Mítia levantou a cabeça, escutou com intensa curiosidade. Num dado momento, pareceu querer levantar-se, gritar qualquer coisa, mas conteve-se e contentou-se com erguer desdenhosamente os ombros. As proezas do procurador em Mókroie desenfrearam mais tarde os falatórios e zombaram de Ipolit Kirílovitch: "Não pôde ele impedir-se de gabar suas capacidades". A 734

audiência foi suspensa por um quarto de hora, vinte minutos. Tomei nota de certas opiniões expostas em público:

— Um discurso sério! — observou, franzindo os supercílios, um senhor num grupo.

— Meteu-se na psicologia — disse outra voz.

— Tudo isso é rigorosamente verdadeiro.

— Sim, revelou-se um mestre.

— Fez o balanço completo.

— Nós também tivemos a nossa cota — acrescentou uma terceira voz. — No começo, lembram-se? quando disse ele que todos eram como Fiódor Pávlovitch.

— E no fim também. Mas isso não é verdade.

— Deixou-se arrebatar um pouco!

— É injusto, injusto.

— Mas não, foi hábil. Esperou muito tempo sua hora: falou afinal!

eh! eh!

— Que irá dizer o defensor? Num outro grupo:

— Não teve razão em atacar o petersburguês, "fazendo apelo à sensibilidade", lembram-se?

— Sim, cometeu uma rata.

— Foi demasiado longe.

— Um homem nervoso.

— Estamos aqui, a rir, mas como se sentirá o réu?

— Sim, como se sente Mítia?

— Que irá dizer o defensor? Num terceiro grupo:

— Quem é aquela senhora obesa, com uma luneta, sentada na extremidade?

— É a esposa divorciada dum general. Conheço-a.

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— Por isso usa uma luneta.

— Um velho quadro.

— Mas não, é picante.

— Dois lugares mais adiante está uma lourinha, aquela é melhor.

— Procederam com muita habilidade em Mókroie, não foi?

— Decerto. Voltou a falar disso. Como se não o tivesse feito bastante na sociedade!

— Não pôde conter-se. O amor-próprio.

— Um preterido, eh! eh! eh!

— E suscetível. Muita retórica, frases grandiloquentes.

— Sim, e notem que ele quer causar medo. Lembram-se da tróica?

"em outra parte tem-se Hamlet, e nós não temos senão Karamázov!". Isto não está mal.

— Isto é endereçado aos liberais. Tem medo.

— Tem medo também do advogado.

— Sim, que irá dizer o Senhor Fietiukóvitch?

— Pois bem! Diga o que disser, não convencerá os nossos mujiques.

— Acredita que não? Num quarto grupo:

— O que disse da tróica está bem, principalmente quando fala dos povos.

— E é verdade, lembras-te?, quando disse que os povos não espe-rariam.

— Como assim?

— Na semana passada, um membro do Parlamento inglês

interpelou o ministério a respeito dos niilistas e perguntou: "Não seria tempo de ocuparem essa nação bárbara para educá-la?" Foi a ele que Ipolit Kirílovitch fez alusão, eu o sei. Falou disso a semana passada.

— Não têm o braço tão longo assim.

— Por que não bastante longo?

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— Basta que fechemos Cronstadt 62 e não lhes forneçamos trigo.

Onde o arranjarão?

— Mas há agora na América.

— Não é verdade.

Mas a sinêta fez-se ouvir. Cada qual se precipitou para seu lugar.

Fietiukóvitch tomou a palavra.

X

A DEFESA. UMA ARMA DE DOIS GUMES

Ficou tudo em silêncio às primeiras palavras do célebre advogado.

A sala inteira tinha os olhos fixos nele. Começou com uma simplicidade persuasiva, mas sem a menor jactancia. Nenhuma pretensão à eloqüência e ao patético. Era um homem que conversava na intimidade de um círculo de amigos. Tinha uma bela voz, forte, agradável, em que ressoava algo de sincero, de simples. Mas cada qual sentiu logo que o orador podia elevar-se ao verdadeiro patético, "e tocar os corações com uma força desconhecida". Exprimia-se talvez menos corretamente que Ipolit Kirílovitch, mas sem longas frases e com mais precisão. Uma coisa desagradou às senhoras: curvava-se, sobretudo no começo, não para saudar, mas como para lançar-se na direção de seu auditório; dir-se-ia que seu longo dorso estava provido no meio de uma charneira e capaz de formar quase um ângulo reto. No início, falou como que desalinhavadamente, sem método, escolhendo os fatos ao acaso, para deles formar afinal um todo completo. Ter-se-ia podido dividir seu discurso em duas partes, a primeira constituindo uma crítica, uma refutação da acusação, por vezes mordaz e sarcástica. Mas na segunda, mudou de tom e de processos, elevou-se de súbito até o patético; a sala parecia esperar por isso e fremiu de entusiasmo. Abordou diretamente o caso, declarando que, muito embora sua atividade se desenrolasse em Petersburgo, ia muitas vezes à província defender acusados cuja inocência lhe parecia certa ou provável. "Aconteceu-me a mesma coisa desta vez", 62 Porto e forte militar numa ilha, no fundo do golfo da Finlândia, junto à foz do rio Nievá.

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explicou. "Bastou-me a leitura dos jornais no começo, para que eu notasse algo de impressionante em favor do acusado. Meu interesse foi despertado por um fato bastante frequente na prática judiciária, mas que não se observa nunca, creio, em tal. grau e com particularidades tão características como no presente processo. Deveria mencionar esse fato somente na minha peroração, mas formularei meu pensamento desde o começo, tendo a franqueza de abordar o assunto diretamente, sem mascarar os efeitos nem poupar as impressões. Será talvez imprudente de minha parte, mas é sincero. Esse pensamento se formula da seguinte maneira: uma concordância esmagadora de fatos contra o réu e, ao mesmo tempo, nem um fato que suporte a crítica, se examinado isoladamente. Os boatos e os jornais tinham-me confirmado sempre mais nessa idéia, quando recebi de repente dos parentes do acusado a proposta para defendê-lo. Aceitei com entusiasmo e acabei de convencer-me aqui. Foi afinal para destruir essa funesta concordância dos fatos, para demonstrar a inanidade de cada uma das acusações considerada isoladamente, que aceitei defender esta causa. "

Depois deste exórdio, o defensor prosseguiu:

"Senhores jurados, sou aqui um forasteiro, acessível a todas as impressões, sem partido preconcebido. O acusado, de caráter violento, de paixões desenfreadas, não me ofendeu anteriormente, como aconteceu a numerosas pessoas desta cidade, o que explica muitas das prevenções contra ele. Decerto, convenho que a opinião pública está indignada contra ele com razão: o réu é violento, incorrigível. Era, no entanto, recebido em toda parte; acolhiam-no mesmo festivamente na família de meu eminente contraditor. (Nota bene. Houve aqui entre o público algumas risadas, aliás logo reprimidas. Cada um sabia que o procurador recebia Mítia em sua casa contra a sua vontade, unicamente porque se interessava por ele sua mulher, senhora das mais respeitáveis, porém extravagante, e que gostava de teimar contra seu marido, sobretudo em detalhes. De resto, Mítia ia bastante raramente à casa deles. ) Não obstante, ouso admitir", prosseguiu o defensor, "que mesmo um espírito bastante independente e um caráter tão justo como meu contraditor tenha podido conceber contra meu constituinte certa prevenção errônea. Oh! é tão natural, o infeliz bem que o mereceu. O senso moral e sobretudo o senso estético são por vezes inexoráveis. Decerto, a eloquente acusação nos apresentou uma análise rigorosa do caráter e dos atos do acusado, um ponto de vista estritamente 738

crítico; testemunha profundeza psicológica, quanto à essência do caso, que não poderia ter sido atingida se o animasse apenas um preconceito contra a personalidade do réu. Mas há coisas piores e mais funestas, em semelhante caso, que um preconceito hostil. Acontece, por exemplo, quando somos obsessionados por Uma necessidade de criação artística, de invenção romanesca, sobretudo com os ricos dons psicológicos que são nosso apanágio. Ainda em Petersburgo, tinham-me prevenido, aliás eu mesmo o sabia, que teria aqui como adversário um psicólogo profundo e sutil, que se assinalou desde muito tempo por essa qualidade no mundo judiciário. Mas a psicologia, senhores, embora sendo uma ciência notável, assemelha-se a uma arma de dois gumes. Eis aqui um exemplo tomado ao acaso na acusação. O réu, de noite, no jardim, ao fugir, escala a paliçada, derruba com uma pancada de pilão o criado Gregório, que o agarrou pela perna. Logo depois, salta em terra, e durante cinco minutos fica ao lado de sua vítima para saber se a matou ou não. O acusador não quer por coisa alguma no mundo acreditar na sinceridade do acusado, que afirma ter agido por um sentimento de compaixão. Tal sensibilidade será possível em tal momento? Não é natural; o que ele quis precisamente foi assegurar-se de que a única testemunha de seu crime vivia ainda, provando assim que ele o havia cometido, porque não podia saltar dentro do jardim por outro motivo. ' Eis a psicologia, apliquemo-la por nossa vez ao caso, mas pela outra extremidade e será também perfeitamente verossímil. O

assassino salta em terra por prudência, para assegurar-se de que a testemunha vive ainda, e, no entanto, acaba de deixar no escritório de seu pai, segundo o testemunho do próprio acusador, uma prova esmagadora, o envelope rasgado cujo sobrescrito indicava que continha ele 3 000 rublos.

'Se ele tivesse levado o envelope, ninguém no mundo teria sabido da existência desse dinheiro e, por conseguinte, do roubo cometido pelo réu. '

São os próprios termos da acusação. Mas admitamos a coisa; eis bem aqui a sutileza da psicologia, que me atribui em tais circunstâncias a ferocidade e a vigilância da águia, e um instante depois a timidez e a cegueira da toupeira! Mas se levo a crueldade e o cálculo ao ponto de tornar a descer, unicamente para ver se a testemunha de meu crime vive ainda, por que ficar, solícito, cinco minutos junto daquela nova vítima, correndo o risco de atrair novas testemunhas? Por que estancar com meu lenço o sangue que corre do ferimento, para que esse lenço sirva em seguida de peça de convicção? Neste caso, não teria valido mais acabar a golpes de pilão com 739

aquela testemunha incômoda? Ao mesmo tempo, deixa no local outra testemunha, o pilão, de que se apoderou na casa das duas mulheres que poderão sempre reconhecê-lo, atestar que o retirou de casa delas. E não o deixou cair na alameda, esquecido por distração, no seu afobamento; não, atiramos fora nossa arma, encontrada a quinze passos do local onde Gregório tombou golpeado. Por que agir assim? — perguntarão. Foi o remorso de ter assassinado o velho criado, foi ele que nos fez atirar fora com uma maldição o instrumento fatal, não há outra explicação. Se podia sentir remorso desse assassinato, foi certamente porque estava inocente do de seu pai. Um parrícida, longe de se aproximar da vítima por compaixão, só teria pensado em salvar a pele. Pelo contrário, repito-o, em lugar de ir atendê-la, teria acabado de rebentar-lhe o crânio.. A piedade e os bons sentimentos supõem, previamente, uma consciência pura. Eis outra espécie de psicologia. É de propósito, senhores jurados, que recorro também eu à psicologia para demonstrar claramente que dela se pode tirar não importa o quê. Tudo depende daquele que opera. Quero falar dos excessos da psicologia, senhores jurados, do abuso que dela se faz. "

Aqui se ouviram de novo, entre o público, risos aprovadores. Não re-produzirei por inteiro a defesa, limitando-me a citar-lhe as passagens essenciais.

XI

NEM DINHEIRO, NEM ROUBO

Houve uma passagem da defesa que surpreendeu todo mundo: foi a negativa formal da existência daqueles 3 000 rublos fatais e, por conseqüência, da possibilidade de um roubo.

"Senhores jurados, o que impressiona neste processo, a qualquer espírito não prevenido, é uma particularidade das mais características: a acusação de roubo e, ao mesmo tempo, a impossibilidade completa de indicar materialmente o que foi roubado. Pretende-se que 3 000 rublos desapareceram, mas ninguém sabe se existiram realmente. Julgai: em primeiro lugar, como viemos a saber da existência desses 3 000 rublos e quem os viu? Somente o criado Smierdiákov, que declarou que se encontravam eles num envelope subscritado. Falou disso antes do drama ao acusado e a seu irmão, Ivã Fiódorovitch. A Senhora Svietlova foi 740

também informada. Mas essas três pessoas não viram o dinheiro e uma questão surge: se verdadeiramente ele existiu e Smierdiákov o viu, quando foi que o viu a derradeira vez? E se seu amo tivesse retirado esse dinheiro da cama para tornar a guardá-lo no cofre, sem lho dizer? Notai que, segundo Smierdiákov, estava ele oculto debaixo do colchão; o acusado deve tê-lo arrancado dali; ora, o leito estava intato, como está provado nos autos. Como pode ser isso, e sobretudo, por que os lençóis finos colocados expressamente naquela noite não ficaram manchados pelas mãos ensangüentadas do réu? Mas, dir-se-á, e o envelope rasgado sobre o soalho? Vale a pena falar disso. Ainda há pouco, fiquei um tanto surpreso por ouvir o próprio eminente acusador dizer a esse respeito, quando assinalava o absurdo da hipótese de ser Smierdiákov o assassino:

'Sem esse envelope, se ele não tivesse ficado no chão como uma prova e o ladrão o tivesse levado, ninguém no mundo teria sabido de sua existência e de seu conteúdo e, por conseguinte, do roubo cometido pelo acusado'.

Assim, pela própria confissão da acusação, é unicamente esse pedaço de papel rasgado, munido dum sobrescrito, que serve para culpar de roubo o réu, 'senão, ninguém teria sabido que houvera roubo e, talvez, que o dinheiro existisse'. Ora. o simples fato de achar-se no chão esse pedaço de papel basta para provar que continha dinheiro e que o roubaram? Mas, objeta-se, Smierdiákov viu-o no envelope. Quando o viu pela última vez?

Eis o que eu pergunto. Conversei com Smierdiákov, disse-me tê-lo visto dois dias antes do drama! Mas por que não supor, por exemplo, que o velho Fiódor Pávlovitch, trancado em seu quarto, na febril expectativa de sua bem-amada, teria, à toa, tirado e rasgado o envelope? 'Ela talvez não me acredite, mas quando eu lhe mostrar um maço de trinta cédulas, isto causará mais efeito, a água lhe virá à boca' — e rasga o envelope, retira dele o dinheiro e atira-o no chão, sem temer naturalmente comprometer-se. Senhores jurados, não vale esta hipótese o mesmo que a outra? Que há nela de impossível? Mas neste caso a acusação de roubo cai por si mesma; não havendo dinheiro, não há roubo. Pretende-se que o envelope encontrado no chão prova a existência do dinheiro; não posso eu sustentar o contrário e dizer que ele estava caído vazio no soalho precisamente porque aquele dinheiro tinha sido dele retirado previamente pelo seu próprio dono? 'Mas, neste caso, onde foi parar o dinheiro, não o encontraram por ocasião da busca?' Em primeiro lugar, encontraram uma parte no seu cofrezinho; depois pôde ele retirá-lo de manhã ou mesmo na 741

véspera, dispor dele, enviá-lo, mudar afinal completamente de idéia, sem julgar necessário dar disso parte a Smierdiákov. Ora, se esta hipótese é um tanto pouco verossímil, como se pode inculpar tão categoricamente o réu de assassinato seguido de roubo e afirmar que houve roubo? Entramos assim no domínio da novela. Para sustentar que uma coisa foi roubada, é preciso designar essa coisa ou pelo menos provar irrefutavelmente que ela existiu. Ora, ninguém nem mesmo a viu. Recentemente, em Petersburgo, um rapaz de dezoito anos, comerciante ambulante, entrou em pleno dia na casa de um cambista que ele matou a golpes de machado com uma audácia extraordinária, levando 1 500 rublos. Foi preso cinco horas depois; encontrou-se em seu poder a soma inteira, menos 15 rublos já gastos.

Além disso, o caixeiro da vítima, que se havia ausentado, indicou à polícia não só o montante do roubo, mas o valor e o número das cédulas e das moedas de ouro de que se compunha a soma. Foi tudo encontrado de posse do assassino, que fez aliás confissões completas. Eis, senhores jurados, o que chamo eu uma prova! O dinheiro está ali, pode-se tocá-lo, impossível negar-lhe a existência. Dá-se o mesmo no caso que nos ocupa?

No entanto, a sorte de um homem está em jogo, 'pois seja', dir-se-á, 'mas ele foi farrear naquela mesma noite e esbanjou dinheiro, e donde provêm os 1 500 rublos que foram encontrados em seu poder?' Mas precisamente o fato de só terem encontrado 1 500 rublos, a metade da soma, prova que esse dinheiro não provinha talvez de modo algum do envelope.

Calculando rigorosamente o tempo, estabeleceu o inquérito que o acusado, depois de ter visto as criadas, se dirigiu diretamente à casa do funcionário Pierkhótin, pois não ficou só um instante, não tendo podido, pois, ocultar na cidade a metade dos 3 000 rublos. A acusação se baseia nisso para supor que o dinheiro está oculto em alguma parte na aldeia de Mókroie.

Por que não nos subterrâneos do Castelo de Udolfo, senhores? Não é isto uma suposição fantástica e romanesca? E notai, basta afastar essa hipótese para que a acusação de roubo venha abaixo, porque que fim tiveram esses 1 500 rublos? Por meio de qual prodígio puderam desaparecer, se está demonstrado que o réu não foi a parte alguma? E é com semelhantes novelas que estamos prestes a destruir uma vida humana? 'No entanto', dir-se-á, 'não soube ele explicar a proveniência do dinheiro encontrado em seu poder, aliás, cada qual sabe que ele não o tinha antes. ' Mas quem o sabia? O acusado explicou claramente donde provinha o dinheiro, e se quiserdes, senhores jurados, essa explicação é das mais verossímeis e 742

concorda completamente com o caráter do réu. A acusação atém-se à sua própria novela: um homem de vontade fraca, tendo aceito 3 000 rublos de sua noiva em condições humilhantes, não pôde, dizem, retirar a metade e guardá-la num amuleto; pelo contrário, supondo-se que o houvesse feito, tê-lo-ia descosido cada dois dias para dele retirar, 100 rublos e nada teria restado ao fim de um mês. Deveis lembrar-vos de que tudo isso foi declarado num tom' que não sofria objeção. Mas se as coisas se tivessem passado de outro modo e tivésseis criado outra personagem? Foi bem o que aconteceu. Objetar-se-á talvez: 'Testemunhas atestam que ele gastou de uma vez, na aldeia de Mókroie, os 3 000 rublos emprestados pela Senhorita Vierkhóvtseva, por conseguinte, não pôde retirar-lhes a metade'.

Mas quais são essas testemunhas? Já se viu o crédito que merecem. Além do mais, um bolo na mão de outrem parece sempre maior. Nenhuma dessas testemunhas contou as cédulas, todas as avaliaram de relance de olho. A testemunha Maksímov chegou a declarar que o réu tinha 20 000

rublos. Vede, senhores jurados, como a psicologia serve a duplo fim.

Permiti-me aplicar aqui a contrapartida. Veremos o que resultará disso.

"Um mês antes do drama, 3 000 rublos foram confiados ao acusado pela Senhorita Vierkhóvtseva, para enviá-los, pelo correio, mas pode-se perguntar se foi em condições tão humilhantes como se proclamou ainda há pouco. O primeiro depoimento da Senhorita Vierkhóvtseva a este respeito era bem diferente, o segundo transpirava cólera, vingança, um ódio muito tempo dissimulado. Mas o simples fato de não ter a testemunha dito a verdade, por ocasião de sua primeira versão, dá-nos o direito de concluir que o mesmo aconteceu na segunda. A acusação respeitou essa novela, imitarei sua reserva. Todavia, permitir-me-ei observar que se uma pessoa tão pura e tão respeitável como a Senhorita Vierkhóvtseva se permite na audiência mudar de repente seu depoimento, no fim evidente de prejudicar o acusado, é também evidente que suas declarações estão maculadas de parcialidade. Negar-se-nos-ia o direito de concluir que uma mulher ávida de vingança pôde exagerar muitas coisas?

Notadamente as condições humilhantes em que o dinheiro foi oferecido.

Pelo contrário, esse oferecimento deve ter sido feito duma maneira aceitável, sobretudo para um homem tão leviano quanto nosso constituinte, que contava aliás receber em breve de seu pai os 3 000 rublos devidos pelo acerto de contas. Era aleatório, mas sua leviandade mesma o persuadia de que iria obter satisfação e poderia por conseguinte 743

desonerar-se de sua dívida para com a Senhorita Vierkhóvtseva. Mas a acusação repele absolutamente a versão do amuleto: 'Esses sentimentos são incompatíveis com seu caráter'. No entanto, falastes vós mesmo dos dois abismos que Karamázov pode contemplar ao mesmo tempo. Com efeito, sua natureza bifronte é capaz de deter-se no meio da devassidão mais desenfreada, se sofre uma outra influência. Essa outra influência é o amor, esse novo amor que se inflamou nele como a pólvora, e para o qual é preciso dinheiro, mais ainda que para fazer a farra com aquela mesma bem-amada. Se ela lhe disser: "Sou tua, não quero Fiódor Pávlovitch', ele a agarrará, leva-la-á para longe, com a condição de ter os meios para isso.

Continuar: parte 4 de 5