Vitória, a rainha
6. Tornando-se rainha: “Sou muito jovem”
6. Tornando-se rainha: “Sou muito
jovem”
Nunca fui feliz antes dos dezoito anos.
RAINHA VITÓRIA1
Todos os marinheiros ficarão comovidos por ter uma jovem rainha pela qual
lutar. Logo estarão tatuando o braço com o rosto dela.
GUILHERME IV2
Às duas da manhã de 20 de junho de 1837, após soltar um último grito, o rei Guilherme IV morreu. Logo a seguir, seu camareiro, Lord Conyngham, e o arcebispo da Cantuária subiram num coche que já estava à espera e seguiram às pressas para o Palácio de Kensington, a 34 quilômetros de distância. Passaram em disparada por ordenhadeiras equilibrando baldes e cavalariços varrendo o chão dos estábulos, lavando carruagens e escovando cavalos enquanto o céu clareava.
Os dois conversavam curiosos sobre Vitória, comentando quão pouco realmente sabiam — eles ou qualquer outra pessoa — a seu respeito, tão ciosamente fora protegida pela mãe. Chegaram ao palácio às cinco, encontrando os portões fechados. O porteiro roncava, alheio aos chamados. Vitória dormia enquanto os homens tocavam várias vezes a sineta, até que o porteiro acordou e os introduziu num dos aposentos térreos. Pouco tempo depois, começaram a se perguntar se tinham se esquecido deles. Tocaram duas vezes, e duas vezes foram instruídos a esperar. Por fim, às seis horas, a duquesa de Kent acordou Vitória.
Ao erguer os olhos e fitar o rosto da mãe, Vitória sentiu o estômago se revirar. Levantou-se, penteou o cabelo comprido, pôs as chinelas e vestiu um roupão de algodão por cima da camisola branca lisa. A mãe lhe agarrou a mão e pela última vez escoltou a filha pela escada escura e estreita. Atrás delas ia Lehzen, levando sais de cheiro. Ao entrar na sala onde aguardavam os dois homens, Vitória fechou a porta atrás de si — deixando a mãe e a governanta do lado de fora. Os dois se puseram de joelhos. Lord Conyngham informou que seu tio morrera, beijou-lhe a mão e lhe entregou o atestado de óbito do rei. O arcebispo lhe disse que Deus estaria com ela. Vitória os dispensou, saiu e fechou a porta. Então apoiou a cabeça no ombro da mãe e chorou — pelo rei que havia morrido, pelo tio que pouco conhecera e pela emoção de algo que mal reconheceu: um sentimento de libertação.
A primeira coisa que Vitória fez foi pedir para ficar sozinha por algum tempo. Mandou que sua cama fosse retirada do quarto materno, vestiu um traje preto sem adornos e prendeu o cabelo no alto, num coque. Então tomou o desjejum com Stockmar, o conselheiro e secretário particular de confiança de Leopoldo, que o cedera a Vitória como presente ao se tornar rainha. Sentou-se à escrivaninha e escreveu três cartas: para Leopoldo, para sua meia-irmã Feodora e para a enlutada rainha Adelaide, a quem continuou a tratar como Sua Majestade. No diário, Vitória anotou: “Visto que aprouve à providência me colocar nessa posição, farei o máximo para cumprir meu dever para com meu país; sou muito jovem e talvez inexperiente em muitas coisas, ainda que não em todas elas, mas tenho certeza de que raros têm mais boa vontade e mais verdadeiro desejo de fazer o que é correto e adequado do que eu”.
Às nove da manhã, Vitória recebeu o primeiro-ministro, “CLARO que totalmente SOZINHA, como sempre farei com todos os meus ministros”. O cortês Lord Melbourne a cativou de imediato. Durante a reunião, ele redigiu um rascunho do pronunciamento que Vitória faria ao Conselho Privado, convocado para se reunir logo mais, às onze da manhã. Por toda Londres, homens vestiram trajes oficiais e se dirigiram para o Palácio de Kensington. Naquela época, havia outras rainhas jovens na Europa: a rainha de Portugal (a quem Vitória se referia como a “rainha gorda”) tinha apenas um mês a mais do que Vitória, e a rainha da Espanha tinha apenas seis anos de idade (sua mãe era a regente). Mas Vitória era a rainha mais nova que a Grã-Bretanha já conhecera e, além disso, fazia 123 anos desde que o trono não era ocupado por uma mulher, a rainha Ana. Embora o Conselho Privado — formado por antigos ou atuais parlamentares que aconselhavam o monarca — costumasse ter reuniões mensais, poucos apareciam com regularidade. Naquele dia houve um recorde de comparecimento.
Quando Melbourne lhe perguntou se queria entrar acompanhada no salão, ela respondeu: “Não, obrigada. Entrarei sozinha”. Seus tios, o duque de Cumberland e o duque de Sussex, conduziram-na até o trono. Com a morte de Guilherme IV, Cumberland se tornara rei de Hanôver, livrando a Inglaterra de um duque amplamente impopular. Vitória recebeu o juramento dos tios, depois dos ministros do governo e da maioria dos membros do Conselho Privado. (Num gesto de gentileza, ela impediu que o duque de Sussex, que estava “fraco”, se ajoelhasse — e lhe beijou o rosto para que ele não precisasse se curvar para beijar sua mão.) Vitória então leu a declaração que Lord Melbourne havia preparado para ela:
A grave e aflitiva perda que a nação sofreu com a morte de Sua Majestade, meu amado tio,
entregou a mim o dever de administrar o governo deste Império. Essa tremenda responsabilidade
foi imposta a mim tão repentinamente e num período tão precoce de minha vida que tal fardo me
oprimiria profundamente se eu não fosse sustentada pela esperança de que a Divina Providência,
que me convocou para tal tarefa, me dará a força para desempenhá-la e que encontrarei na pureza
de minhas intenções e no zelo pelo bem-estar público aquele apoio e aqueles recursos que,
geralmente, pertencem a uma idade mais madura e a uma maior experiência… Educada na
Inglaterra, sob os cuidados ternos e esclarecidos de uma mãe muito afeiçoada, aprendi desde a
infância a respeitar e a amar a Constituição de meu país natal. Será meu esforço incessante manter
a religião reformada tal como foi estabelecida por lei, ao mesmo tempo assegurando a todos o
pleno gozo da liberdade religiosa; e protegerei constantemente os direitos e promoverei ao máximo
de meu poder a felicidade e o bem-estar de todas as classes de meus súditos.3
Foi uma apresentação pública triunfal. Os homens reunidos se embasbacaram com a nova rainha, muitos deles emocionados em ouvi-la com sua voz calma e cristalina. Vários choraram. Pareciam assombrados que um fiapinho de gente soubesse ler tão bem. Charles Greville, que ali estava como secretário do Conselho Privado, escreveu em seu diário:
Nunca houve nada semelhante à primeira impressão que ela causou nem ao coro de louvor e
admiração que se ergueu quanto a suas maneiras e comportamento, e certamente não sem justiça.
Foi extraordinário e muito além do que se esperava. Sua extrema juventude e inexperiência, aliadas
à ignorância do mundo a respeito dela, naturalmente despertavam profunda curiosidade.4
Os elogios pareciam unânimes. John Wilson Croker, tory, disse que era “a
jovem mais bonita e interessante que já vi”.5 O duque de Wellington, visivelmente emocionado, declarou: “Ela não ocupava apenas seu assento,
ocupava o salão”.6 “Nossa querida rainhazinha é, em todos os aspectos, uma perfeição”, derramou-se Thomas Creevey, político whig que ficou conhecido pela publicação póstuma de parte de sua correspondência e
diários.7 Para os homens ali reunidos, ela era uma criança ou mesmo uma “rainha infante”, segundo Lord John Russell. A mais simples apresentação despertava generosos elogios.
O país estava apaixonado. O Spectator apelidou a febre geral de “Reginamania”. Uma charge intitulada “Fígaro em Londres” mostrava John Bull, personagem representando o inglês comum, disposto a cortar as
orelhas se assim quisesse a rainhazinha.8 Escritores discorriam extasiados sobre seus atributos. Thomas Creevey narrou uma vez que Vitória, ao encontrar sua nova dama de companhia, Lady Charlemont, que ainda não conhecia, passando no corredor com uma vasta braçada de livros da biblioteca, caiu na risada. Disse ainda que ela estava usando seus próprios fundos para pagar pensão a algumas pessoas inesperadas como os FitzClarence, primos ilegítimos que sua mãe mantinha à distância, mas com os quais, mesmo assim, Vitória se importava. Sallie Stevenson, mulher do embaixador americano, escreveu a suas irmãs na Virgínia contando que todo mundo estava “doido de lealdade pela jovem rainha… Em todas as ocasiões sociais, não se fala senão de sua beleza, de sua sabedoria, de sua gentileza e autodomínio. Contam milhares de casos sobre sua bondade e a
atitude maravilhosa com que trata a tudo e a todos”.9 Fazia pouco mais de cinquenta anos que os americanos tinham se rebelado e vencido o rei Jorge III e apenas um quarto de século que haviam novamente combatido a Inglaterra na Guerra de 1812, mas agora até eles estavam curiosos com a nova rainha.
Os homens de mais idade se encantavam com a jovem no trono, muitas vezes para a surpresa deles mesmos. Lord Holland disse que voltou de uma visita “um pouco enamorado”. “Embora não seja uma beldade nem tenha uma silhueta muito boa”, admitiu ele, “ela realmente é em pessoa, no rosto
e sobretudo nos olhos e na pele, uma moça muito simpática e atraente.” 10 Podia engolir a comida de uma vez só, podia rir mostrando gengivas pouco atraentes, escreveu Creevey, mas ele estava disposto a desconsiderar esses defeitos porque ela “enrubesce e ri a todo instante de uma maneira tão
natural que desarma qualquer um.11 Sua voz é perfeita, e também a expressão de seu rosto, quando quer dizer ou fazer uma coisa agradável”. O artista George Hayter, que pintou o retrato de Vitória e viria a se tornar um favorito da corte, estava “totalmente apaixonado por ela” e “falava da maneira mais científica sobre a característica extraordinária de seus
olhos”.12 Nem todos os relatos, porém, são confiáveis. Creevey, afinal de contas, comentou que nunca vira uma “devoção mais bonita e natural” do que a de Vitória pela mãe.
Algumas mulheres, menos preocupadas com os encantos físicos da nova rainha, temiam por ela, imaginando o que a pompa, o alvoroço e o peso da obrigação provocariam numa garota de dezoito anos. Mesmo Harriet Martineau, reformista social rija e durona, escreveu: “Todos nós estamos um pouco românticos sobre nossa jovem rainha, pobrezinha! Que chance
terá de crescer com bondade e simplicidade?”.13 A seu ver, Vitória não tinha muita chance de “vir a ser grande coisa”.
Quando Melbourne saía da primeira reunião de Vitória com o Conselho Privado, enxugando os olhos úmidos de lágrimas, o barão Stockmar se aproximou e lhe entregou uma carta de John Conroy com uma lista atrevida
de exigências.14 “Minha recompensa pelo passado”, escrevia Conroy, “creio que deve ser um título de nobreza — a faixa vermelha — e uma
pensão do Tesouro Particular de 3 mil libras anuais.” 15 Ele estava pedindo mais do que um ministro do governo recebia. Melbourne largou o papel e
exclamou: “Onde já se viu um descaramento desses?”.16 No dia de prantear o rei e de celebrar a nova rainha, Conroy só pensava em si mesmo. Albert, mais tarde, comentou sobre a lista que Vitória preparara com as exigências do “monstro”: “O rei tinha morrido naquela mesma manhã”.
Num átimo, Vitória demitiu Conroy da casa; se tinha sido delicioso antever aquele momento, também foi delicioso quando ocorreu. Para desfazer a tensão, Lord Melbourne decidiu lhe conceder uma pensão e o título de baronete. Também prometeu que, quando pudesse nomear um novo par irlandês do reino, seria Conroy. Acrescentou que a rainha concordara com a ideia. Mais tarde, evidenciou-se que foi um erro de avaliação. Ao prometer a Conroy um pariato que levaria anos até se efetivar — precisaria esperar pela morte de um par irlandês em vida —, Lord Melbourne lhe deu espaço para continuar a tramar contra Vitória. Conroy pretendia ficar na casa da duquesa de Kent até que a rainha cumprisse todas as suas promessas (Lord Liverpool disse a Stockmar que Melbourne fora “ludibriado”). Conroy nunca se tornou par irlandês, e a indignação ressentida da família fica perceptível nos cadernos que mantinham, cheios de recortes de artigos de jornal criticando Vitória. Extasiavam-se com seus
passos em falso e multiplicavam os ataques a ela.17
A única menção de Vitória à mãe em seu diário, no dia em que se tornou rainha, vem no final do registro: “Desci e dei boa-noite a mamãe etc.”. A duquesa ficou magoada. Naquele mesmo dia, escrevera a Vitória perguntando se podia levar Conroy à proclamação — subestimando, como sempre, o ódio visceral de sua filha por ele. A duquesa argumentou que os outros notariam e “surgiriam comentários que você certamente deve evitar no primeiro dia”. A rainha respondeu que Lord Melbourne era da “opinião categórica” de que Conroy não devia comparecer. A duquesa redigiu uma réplica condescendente: “Você não conhece o mundo. S. J. [Sir John] tem seus defeitos, pode ter cometido erros, mas suas intenções sempre foram as melhores… Esse assunto é muito comentado e de modo muito infeliz. Tome cuidado, Vitória, você conhece sua prerrogativa! Tome cuidado, pois Melbourne não é rei”.
A partir desse dia, a duquesa foi obrigada a observar o protocolo, o que significava que, para poder vê-la, devia esperar que antes Vitória a
chamasse.18 Vitória se deleitava com sua solidão. Reuniu-se com o “muito bondoso” Melbourne mais duas vezes naquele dia. Então jantou sozinha em seu quarto. Nesse primeiro dia, escreveu cinco vezes a palavra “sozinha” em seu diário — “sozinha… e CLARO, totalmente SOZINHA… totalmente sozinha… e sozinha… sozinha”. Finalmente.
Um mês depois, Vitória compareceu ao Parlamento para encerrar o ano parlamentar. Era sua primeira vez ali, e ela se apresentou em trajes magnificentes, com um vestido de cetim branco bordado com fio de ouro, um manto de veludo escarlate, de cauda longa, todo ele com acabamento de arminho e renda de ouro, e uma tiara. Ao entrar na Câmara dos Lordes, andava com os olhos fixos em Lord Melbourne, que caminhava à frente com a Espada do Estado. Um jornal vespertino se manifestou de forma efusiva: “Sua emoção era claramente perceptível no rápido arfar de seu peito e no brilho de seu corpete de diamantes, que, de vez em quando,
cintilava no recesso escuro onde estava colocado o trono”. 19 Como se tornaria comum nas primeiras aparições da jovem rainha, os grandes homens de Estado não seguravam as lágrimas. Lord Grey “chorou de prazer à voz e ao discurso da rainha”; Charles Sumner declarou que “nunca ouvi melhor leitura em minha vida”; o duque de Sussex foi visto enxugando os olhos ao final do discurso. A americana Sallie Stevenson, que estava sentada na galeria dos diplomatas, comentou que a voz da rainha era “suave
como a de um rouxinol da Virgínia”.20 A mãe de Vitória foi dominada pela emoção ao ver a filha, depois de avançar lentamente sob os mantos pesados geralmente usados por homens, se sentar no trono. Lá fora, a polícia não conseguiu impedir que as pessoas subissem nas árvores, para tentar ver a rainha; ficaram nos galhos por horas a fio, debaixo de chuva.
Em seu novo papel, Vitória estabeleceu imediatamente uma rotina. Levantava-se às oito, lia a Bíblia e despachava até o desjejum, às dez horas, quando a mãe se reunia com ela. Recebia os ministros do governo entre as onze e a uma e meia da tarde. Os dois monarcas que haviam reinado antes dela não gostavam de muito trabalho, e assim seu empenho foi motivo de admiração. Vitória escreveu orgulhosamente ao primo Albert, com uma ponta de bravata: “Delicio-me com a atividade que tenho que fazer e que
não é pouca em importância nem em quantidade”.21 O tio Leopoldo, que agora era o rei Leopoldo da Bélgica, continuava a aconselhá-la de perto. Recomendou que fosse discreta, formasse opinião própria e mudasse prontamente o rumo da conversa caso alguém se atrevesse a levantar assuntos pessoais sem seu consentimento. Também aconselhou que pensasse antes de decidir, tal como recomendara Lehzen: “Sempre que uma questão tenha alguma importância, não deve ser decidida no dia em que lhe
for submetida”.22 Essa abordagem barrou os dez premiês seguintes da
Inglaterra.23
Apesar de tudo, Vitória se entusiasmava com sua nova carga de trabalho. Segundo ela, era “o maior prazer cumprir meu dever para com meu país e meu povo, e nenhum cansaço, por maior que seja, será muito grande para
mim se for pelo bem-estar da nação”. 24 Finalmente era útil e necessária para seu país, e isso a revigorava. Quando Leopoldo lhe disse que devia passar mais tempo no palácio dele em Claremont, Vitória respondeu: “Preciso ver meus ministros todos os dias”. Tinha pouco tempo livre. Diariamente, enquanto as criadas passavam o pente e repuxavam seus cabelos compridos e finos, ela examinava grandes montes de papéis e caixas de documentos
oficiais. Muitas vezes, trabalhava noite adentro.25
Fazia poucas semanas que estava no trono quando começaram os comentários sobre “leves sinais de um temperamento categórico” e sua
“vontade forte”.26 Era confiante em suas opiniões. Quando deu o título de cavaleiro a Moses Montefiore, o primeiro cavaleiro judeu na história britânica, ela descartou toda e qualquer objeção dizendo: “Fiquei muito contente por ter sido a primeira a fazer o que penso ser plenamente correto e
como deveria ser”. 27 Também enfrentava convenções que lhe pareciam exageradas. Não gostava da segregação tradicional entre os sexos que ocorria após o jantar, por exemplo, quando os homens se retiravam para beber em outra sala. Não permitia que seus convivas do sexo masculino dedicassem mais do que quinze minutos a isso, e não se sentava em sua sala de visitas enquanto eles não aparecessem. Suas acompanhantes também
eram obrigadas a ficar de pé.*
O político Arthur Ponsonby, filho de Henry Ponsonby, que depois viria a ser secretário particular da rainha, escreveu em 1833 que “desde o princípio ela mostrou disposição para seguir estritamente seus próprios critérios de conduta, em vez de se adaptar ao padrão”. Sua independência se tornou “um
traço permanente e dominante” ao longo de toda a vida.28 Mas o que ele deixou de apontar foi que, quando Vitória se casou, esse traço se evaporou quase por completo. A segurança de Vitória sempre foi maior quando solteira ou viúva.
***
A relação entre a rainha Vitória e seu primeiro-ministro Lord Melbourne é um dos grandes romances platônicos da história moderna. Ambos, a jovem rainha órfã de pai e o político curiosamente apolítico, tinham muito a ganhar nessa relação — orientação para ela e mais prestígio para ele. Ambos ficaram levemente apaixonados. A paixão de Vitória se desenvolvera depressa. “Gosto demasiado dele e suas conversas me fazem
muito bem”, escreveu em seu diário.29 Fazia apenas três dias que estava no trono quando contou a Leopoldo: “Minha pobre mãe vê Lord Melbourne com grandes ciúmes”. (Posteriormente, os editores de sua correspondência ficaram constrangidos com o tom íntimo e afetuoso com que Vitória escrevia sobre Melbourne, e eliminaram uma parte das cartas pelo receio de
que as pessoas achassem que os dois eram amantes.)30
Melbourne, que perdera esposa e filho, podia se devotar à sua nova incumbência. Orientava Vitória nos rumos da política, mas o que lhe dava de mais precioso era segurança e afeição genuínas. Nas palavras de
Greville, era um “afeto apaixonado” 31 que se poderia sentir por uma filha,
por parte de “um homem com capacidade de amar sem nada para amar”. 32 Em 30 de agosto de 1837, Greville anotou:
[Vitória] tem grande vigor natural e ingressa nas grandiosas novidades de sua posição com o prazer
e a curiosidade de uma criança. Não há homem mais talhado para agradar a ela do que Melbourne.
Trata-a com consideração e respeito ilimitados, consulta seus gostos e vontades, coloca-a à vontade
com suas maneiras francas e naturais enquanto a diverte com sua inteligência singular, excêntrica,
epigramática e seus conhecimentos variados sobre todos os temas.33
Os temas que abordavam eram diversificados: regime, Dickens, limpeza de chaminés, os tios pérfidos de Vitória, seu pai, sua mãe, dr. Johnson, dentes, história, filosofia, etiqueta. Sempre havia muito a conversar. O tumulto político se acalmara um pouco após a Lei da Reforma de 1832, mas o movimento operário dos cartistas, que passou décadas trovejando em sua luta pela democracia e contra a corrupção, estava apenas começando.
O mundo, agora que Vitória fazia parte dele, criou um novo fascínio por ela. No ano em que subiu ao trono, Charles Dickens lançava Oliver Twist em folhetim; Caroline Norton publicava seu artigo radical, sustentando que as mães deviam ter, em alguma medida, direto à guarda dos filhos pequenos após o divórcio; nos Estados Unidos se realizava uma convenção nacional contra a escravatura, com agradecimentos ao apoio das mulheres britânicas. Inventores patenteavam o telégrafo elétrico; foi revelado o primeiro daguerreótipo; foi concluída a Grand Junction Railway, a ferrovia que ligava Manchester e Birmingham. O impulso para uma profunda transformação começara a ganhar forças.
***
Vitória quis imediatamente ir morar no Palácio de Buckingham. Ele fora comprado por Jorge III em 1761 e depois reformado por Jorge IV, mas ainda não era uma residência real oficial, e os consertos e as reformas não haviam terminado. Vitória enviou instruções insistindo para que ele estivesse pronto em 13 de julho. Para atender a seus desejos, contratou-se uma legião adicional de trabalhadores. “Tudo isso”, escreveu Sallie Stevenson, a esposa
do embaixador americano, “para uma jovem rainha!” 34 Em 14 de julho, o palácio estava um caos, com criadas esfregando o assoalho e operários estendendo tapetes, mas Vitória mantinha a serenidade em meio a tudo. Convocou Sigismond Thalberg, tido como o maior pianista do mundo, para se apresentar no final de julho e encomendou a Strauss as composições para seus bailes.
Depois do ambiente melancólico do Palácio de Kensington, Vitória ficou encantada com o espaço e a luminosidade de seu novo lar; havia espelhos enormes refletindo os jardins e candelabros cintilando nos salões de baile. Seus aposentos ficaram bem longe dos da mãe. (Vitória nunca se interessou muito por decoração de interiores, ao contrário de Jorge III e Jorge IV; quando tentou mais tarde, revestindo tudo com tecidos em padrão xadrez, o resultado foi, de modo geral, considerado uma afronta aos sentidos.) Com o tempo, Vitória veio a detestar o Palácio de Buckingham, com as lareiras que soltavam fumaça, a ventilação insuficiente, o cheiro de comida podre, e iria se sentir oprimida pelo ar abafadiço e as multidões de Londres — bem como pela fuligem que caía em flocos negros em seus jardins. Mas agora o palácio estava recém-pintado, era suficientemente grandioso e tinha uma excelente localização. Ela escreveu a Feodora: “Todos dizem que sou outra
pessoa desde que cheguei ao trono.35 Estou muito bem e com ótima aparência, tenho uma vida muito agradável; exatamente o tipo de vida que me agrada”.
Foi um verão de maravilhosa felicidade. Vitória o passou fora de Londres, em Windsor, onde jantava, dançava e fazia principalmente o que lhe agradava. Em 19 de julho, deu uma recepção em que lhe beijaram a mão 3 mil vezes. Ela adorava a companhia, a atenção, os elogios. Depois de uma revista militar no Great Park de Windsor, onde saudou os homens como faziam os oficiais, ficou empolgada: “A coisa toda foi magnífica; e pela primeira vez me senti como um homem, como se eu mesma pudesse
combater à frente de meus soldados”.36 Em 15 de agosto, Vitória voltou a montar depois de dois anos; pois se recusara por muito tempo a sair a cavalo porque a mãe sempre insistia que Conroy a acompanhasse. Ela gostava de reunir grupos numerosos de cavaleiros e galopar durante horas, e sempre julgou que parecia mais atraente — e mais alta — sentada numa sela.
Quando Vitória se dirigiu de carruagem a um banquete oferecido pelo prefeito de Londres no Paço Municipal, em novembro, foi coberta de aplausos. Depois de anos sendo chamada de egoísta, estúpida e fútil, era um imenso prazer ser amada por tanta gente. Enfim Vitória começava a acreditar que talvez Feodora tivesse razão quando dizia: “Está em seu poder
tornar milhares de pessoas felizes”.37 Logo seriam milhões.
Havia, porém, duas pessoas claramente infelizes. A duquesa e o maquiavélico Conroy sentiam os ventos gélidos do desprezo da rainha. Vitória prontamente anunciou que não alteraria a posição social da mãe nem cogitou Conroy para secretário particular ou administrador financeiro da
casa. Os dois sabiam que teriam pouca ou nenhuma influência sobre ela. 38 Isso também era evidente para os círculos da corte. Agora Melbourne estava plenamente a par da rixa, muito embora a duquesa tivesse implorado a Vitória que não lhe contasse, mas ele não fez nada para aproximá-las. Vitória começou a ficar com pena da mãe deprimida.
Era uma missão perdida, mas a leal duquesa continuava tentando reabilitar Conroy. Em novembro, pediu a Vitória que o autorizasse a comparecer ao banquete no paço. Se Vitória não gostava dele, “ao menos perdoe e não exclua nem discrimine a ele e à sua família”. A duquesa prosseguiu: “A rainha deve esquecer o que desagradava à princesa. Lembre que tenho o maior apreço por Sir John, não posso esquecer o que ele fez por mim e por
você, embora tenha tido o infortúnio de desagradar a você”.39 A duquesa estava ofendida com o que julgava ser ingratidão da filha. Em seu aniversário de dezenove anos, a mãe lhe deu intencionalmente um exemplar de Rei Lear.
Com o rendimento adicional que recebia como rainha, Vitória começou a saldar as dívidas do pai, recebendo em outubro de 1839 agradecimentos formais pela iniciativa. A duquesa, porém, continuava a esbanjar demais e escrevia cartas irritadas à filha, pedindo mais dinheiro, apesar do aumento de sua própria mesada. Em janeiro de 1838, Vitória escreveu: “Recebi uma
tal carta de mamãe. Ah! Ah! Que carta”.40 Ao receber outra, ela falou a
Melbourne que a mãe a estava “infernizando”.41 (Toda a correspondência entre Vitória e a mãe em 1837 foi “eliminada” das edições oficiais de suas
cartas publicadas logo após sua morte.) 42
A áspera briga entre mãe e filha agora era assunto de conversas em Londres, embora, em geral, os observadores ignorassem a causa. Talvez, arriscou Greville, ela não só tivesse sido “maltratada” pelos dois no passado, mas também “suspeite secretamente da natureza da ligação
materna” com Conroy. 43 A duquesa confidenciou à princesa Lieven, esposa do embaixador russo e que encarnava os olhos e ouvidos da Europa, que estava magoada com a “sua própria insignificância”.
Conroy agora era um homem sem esperanças e amargurado. No começo
de 1841, estava “mortalmente inquieto por falta de ocupação”.44 Dando uma guinada surpreendente em sua carreira, foi para a zona rural e estudou agricultura com seu habitual empenho, tornando-se um destacado defensor de um novo método agrícola. Em 1852, ganhou da Sociedade Agrícola Real da Inglaterra a medalha de “Criador e Expositor da Melhor Vara de Porcos Gordos”. Vitória continuou a honrar suas obrigações para com a família dele. Quase trinta anos após a morte de Conroy, ela ainda estava pagando pensão à nora dele.
O sucesso de Vitória como rainha às vezes era quase fácil demais. Os louvores eram praticamente incondicionais. Os homens de Estado abafavam gritos e exclamações em seus lenços quando ela lia em voz alta uma declaração escrita por outra pessoa, ficando evidente que tinham expectativas baixíssimas, já que Vitória era jovem e era mulher.
Os membros do Conselho Privado ficavam não só surpresos, mas arrebatados à vista daquela adolescente que havia sido tão protegida mantendo a compostura em público. Como escreveu Lady Cowper (irmã de Lord Melbourne): “Nunca ouvi ninguém dizer uma única palavra em seu desfavor ou encontrar qualquer defeito nela — é, de fato, uma rara
ventura”.45
Infelizmente, seria uma ventura efêmera. O arguto lacaio londrino William Tayler se mostrou um pouco cético quanto à popularidade de Vitória em 1837: “A rainha é uma coisa nova e agrada muito ao povo no momento, mas creio que não vai durar muito pois o povo é volúvel demais
para ficar satisfeito com um indivíduo só, rei, rainha ou súdito”.46 Tinha razão.
* Até o povo percebeu que a menina que passara anos sob um controle muito cerrado agora se deliciava em exercer sua vontade. Certa vez, quando a mãe e Melbourne lhe disseram que seria apropriado ir de carruagem a uma revista das tropas em Hyde Park, ela decidiu ir a cavalo. Sua decisão inspirou uma balada:
Irei a cavalo, quanto a isso já estou decidida,
Se uma revista for.
Revista só a cavalo, Lord Melbourne, e assim será,
Apesar de você e de mamãe.
(Queen Victoria’s Journal [Diário da Rainha Vitória], 22 de agosto de 1837).